quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Mazelas do legado imaterial

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


A busca pela imortalidade sempre esteve na mente daqueles que a tem como uma necessidade. Ponce de León, explorador espanhol, conforme dita a lenda, procurou a fonte da juventude. Nicolau Flamel, alquimista francês, trabalhou para produzir a pedra filosofal, a qual, segundo conta-se, é dotada de magníficos poderes, dentre os quais, a imortalidade, conferida ao seu detentor.

Evidentemente, a imortalidade física, biológica, não foi alcançada – até onde se sabe – e o ser humano buscou outras formas de perpetuar a sua história, empenhando-se para deixar um legado para as futuras gerações, quando de sua morte.

A filósofa e teórica política, Hannah Arendt, em seus livros A Condição Humana e Entre o Passado e o Futuro, coloca a busca pela vida imortal ligada ao ingresso à vida política e, assim, se sobrepondo à ação por ser uma questão individualista, sendo aquela uma condição coletiva – política –, conforme a autora.

O legado dos seres humanos pode ser observado sob duas formas: a primeira, o legado físico, material, advém da imortalização visual, tangível, como na construção de obras monumentais e imponentes, as quais levarão para o futuro o nome daqueles que deram a anuência para a sua realização em uma placa de cobre ou bronze. No geral, estas construções dão caráter visível ao legado.

A segunda forma, embora ocorra com tamanha frequência, é, de certa forma, ignorada. Trata-se do legado imaterial, intangível. Uma forma de percebê-lo é o resultado de ações passadas que até os dias de hoje permanecem no seio político-social, sejam consideradas boas ou ruins.

Imagine, pois, uma sociedade que foi construída empregando a escravidão. A mesma, quando de sua criminalização, permanece na mentalidade social por meio da ideia de primazia de um povo em detrimento de outro. Com os anos, os hábitos vão sendo transformados, mas a ideia inicial da escravidão – o racismo e/ou a xenofobia – permanece em um percentual da sociedade. O resultado são os ataques ao povo que anos antes fora escravizado. Este é um exemplo de legado imaterial negativo, que ainda está vivo pelo globo terrestre, deixado pelos antigos impérios.

O agir (nos já referidos termos de Arendt), quando guiado pelo individualismo, resulta no patrimonialismo: a satisfação dos desejos particulares pela Administração Pública, confundindo, assim, as duas esferas (público e privado). A prática patrimonialista está mais do que difundida na sociedade brasileira. O meio público aparenta ser um meio legítimo a ser utilizado em benefício daqueles que detém o poder. Evitando generalizações, algumas pessoas aventuram-se na política com esta finalidade, tornando a ação um meio e os ideias do patrimonialismo, um fim.

O que a sociedade vê hoje − os absurdos da corrupção − é o resultado de anos e anos do emprego da ideia do uso da política como meio, tornando-se arraigada e, de certa forma, perdoada, pois são vários os que desejam usufruir dela.

A corrupção do sistema gera crises profundas, que podem ser levadas adiante pelas gerações, ainda mais se a corrupção for mascarada por véus, como a ideologia e a alienação. Cria-se a ideia de que aquele determinado comportamento é o correto para uma determinada finalidade, sendo que o fim do patrimonialismo é o “eu” e não o “nós”. E, assim, tem-se o aval da sociedade para que ocorra determinado evento.

Legar monumentos para o futuro não é algo ruim, mas deve ser feito com parcimônia. As várias obras inacabadas e as novas iniciadas todos os dias, que demorarão anos para serem concluídas, evidenciam a prática da imortalidade na política: é mais fácil iniciar uma outra obra do que concluir uma antiga, visando o reconhecimento futuro quando do lançamento da pedra fundamental.

Da mesma forma, legar ideias e ideais não é algo ruim, quando, novamente, feito com parcimônia. A política é meio e fim em si: gerir o bem-comum, visando o melhor para todos. Quando há corrupção no sistema, a sociedade é infectada por um parasita de difícil destruição, pois ele se fixa nas falhas do pensamento e da moral individual.

A compra de votos é um exemplo que colabora para a destruição sistêmica da sociedade, pois aqueles que se valem destes subterfúgios para assumir a cadeira executiva, no geral, tendem a ser governantes amorais, pífios, incongruentes. E a prática faz as pessoas apoiarem o candidato não pelas suas ideias, mas sim pela cesta básica ou pelas contas pagas. E isso é encorajado, pois os governos tendem a deixar as pessoas nos quadros da miserabilidade – será parte do esquema deixar este legado negativo?

Legados imateriais são vários, perceptíveis, mas quando se emprega o senso crítico para analisar o meio político e social. J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, considerava a mortalidade dos homens algo positivo, pois eles não veriam a passagem do tempo destruir o mundo. Não obstante, a destruição causada pelo tempo, sem levar em conta os desgastes inerentes a ação natural, é colaborada pelo ser humano e seu hábito ignóbil de tentar destruir a alma humana.

 


CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...