terça-feira, 16 de junho de 2026

APORTES SOBRE OS NOGUEIRA EM NOSSA REGIÃO

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi

 

Fotografias publicadas no livro, No ventre da terra-mãe, de Rodolpho Del Guerra.

O capitão-mor Thomé Rodrigues Nogueira do Ó, figura que muito se relaciona com a história do povoamento do sul de Minas Gerais, bem como, através de sua descendência, colaborou com o surgimento da região adjacente à Casa Branca, foi o fundador de Baependi, cujas terras destinadas à capela, foram doadas em 1754 por Luis Pereira Dias e sua esposa, dona Maria Nogueira do Prado, sendo ela filha do capitão-mor.

Segundo Waldemar de Almeida Barbosa, em seu importante Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais, teria a fundação de Baependi ocorrido na segunda década do século XVIII, provavelmente no ano de 1723, em consonância com documentos arquivados na Arquidiocese de Mariana. Tal informação também é referendada pelo cônego Raimundo Trindade, autor do trabalho Instituições de igrejas no bispado de Mariana. Foi confirmada capela colativa por meio de alvará régio de 2 de agosto de 1752. Escreve Barbosa que logo “após ter recebido a distinção de freguesia colativa, cogitou-se da construção de nova Matriz, em outro local, na margem esquerda do rio Baependi, onde está hoje a cidade” (Barbosa, 1971, p. 56).

O surgimento de Baependi, em meados de 1720, fruto das ações desbravadoras do capitão-mor Thomé Rodrigues Nogueira do Ó, bem como a criação do arraial de São Cipriano, em 1737, pelo ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, Cipriano José da Rocha, possibilitou o povoamento do Sul de Minas. Não tardou para que, na região mais setentrional da região, surgisse Ouro Fino, Sant’Anna e Jacuhy, cerca de uma década depois de estabelecido o arraial de São Cipriano.

Segundo o dr. José Guimarães, em seu ensaio O fundador de Baependi, à 19 de janeiro de 1736, o Thomé Rodrigues Nogueira do Ó foi nomeado Guarda-Mor de Baependi. Antes, em 13 de janeiro de 1711, detinha a patente de Capitão de infantaria da ordenança do distrito da Piedade, eleito pelos oficiais da Vila de Guaratinguetá. A capela da Piedade, nos conta o dr. Guimarães, seria a atual cidade de Lorena. Casado com Maria Leme do Prado, o casal teve nove filhos, sendo um homem e oito mulheres.

Joana Nogueira do Prado Leme, sua filha, foi casada duas vezes. A primeira, com José de Sá, teve quatro filhos e, em suas segundas núpcias com João Gomes de Lemos, teve mais sete filhos, segundo Guimarães. Caetana, a décima filha citada por José Guimarães, foi casada com Furriel Domingos Rodrigues Cobra, que vinha a ser seu parente. Dos três filhos listados no artigo supracitado, destaca-se o capitão Antonio Gomes Nogueira Cobra, casado com Maria Custódia de Meireles Freire. Seriam eles avós de um advogado e político muito importante para Mococa, o DR. AMADOR BRANDÃO CARNEIRO NOGUEIRA COBRA, filho de Luiz Joaquim Nogueira de Meireles e de Maria Carneiro Viriato Catão. Foi o dr. Amador Cobra, enquanto deputado, quem propôs a doação do antigo prédio da cadeia de Mococa à municipalidade, de modo que fosse possível a sua derrubada a construção do Paço Municipal, que perdurou de 1903 até a década de 1950. Casado com dona Jesuína Ribeiro da Silva, neta de Venerando Ribeiro da Silva, eram pais, dentre outros, de ERCILIA NOGUEIRA COBRA, escritora e uma figura muito curiosa por seu progressismo e intelectualidade, desaparecida no período do Estado Novo.

A irmã de Joana, Ana de Jesus Nogueira, que foi casada com Antonio de Souza Ferreira, também teria descendência ligada ao povoamento de Mococa, afinal, seria mãe do ALFERES JOÃO DE SOUZA NOGUEIRA, casado com Maria Theodora de Barros, sendo, pois, os primeiros proprietários da sesmaria da Zabelônia, Zabellona ou Isabellina, cuja posse se deu em 1820, pelas mãos de seu filho, o tenente Urias Emidio Nogueira de Barros. Sua descendência esteve amplamente ligada a fundação de cidades da antiga terra-mãe de Casa Branca, bem como ocupantes de cargos públicos de prestígio, como é o caso do próprio tenente urias, que foi juiz de paz de Casa Branca. Dentre outros descendentes, destaca-se o MAJOR AUBERTIN NOGUEIRA DE CARVALHO, político, fazendeiro e ex-prefeito de Mococa. 

Não é possível esquecer, ademais, que a descendência de dona Maria Nogueira do Prado, que foi casada com João Alvares Sobreira, também contribuiu para a formação de nossa região. Também filha do capitão-mor de Baependi, casara-se uma segunda vez com o tenente José Rodrigues de Afonseca, sendo pais do alferes Felisberto José Nogueira, casado com Ana Margarida de Barros. Destaca-se, dos filhos do casal, o capitão FRANCISCO DE ASSIS NOGUEIRA, considerado um dos fundadores de São José do Rio Pardo, proprietário da fazenda do Pião do Rio Pardo, além de outras tantas terras, principalmente na região de Botucatu. De seus filhos, destacamos o padre Prudenciano Antonio Nogueira, que foi vigário de Caconde; dona Mécia, ou Messias, Honória Nogueira, esposa do fundador de Mococa, Venerando Ribeiro da Silva; e Francisco de Assis Nogueira, fundador da cidade de Assis.

Existe um ramo, ademais, não muito bem definido, que origina-se na região com dona FLORIANA ESMÉRIA DAS NEVES, filha de Tristão Antonio Nogueira e de Floriana Esmeria das Neves. Não foi possível encontrar a ligação entre Tristão e os Nogueira, que ora estudamos. Ela foi casada com Cirino Pinto da Fonseca, proprietário das fazendas do Remanso e da Jacutinga, sendo o casal antigos moradores de Mococa, desde meados de 1837. A filha do casal, Generosa, foi casada com Balbino Soares do Nascimento, posteriormente tendo adotado o nome BALBINO SOARES NOGUEIRA, uma figura muito importante para o desenvolvimento de Arceburgo.

*

 EM TEMPO: Da descendência do capitão Felisberto José Nogueira, há de se destacar seu neto, o coronel ANTONIO MARÇAL NOGUEIRA DE BARROS, filho de José Theodoro Nogueira e de Angelica Cesarina de Jesus, portanto, sobrinho do capitão Francisco de Assis Nogueira. Foi ele um dos fundadores da capela de São José, doador do patrimônio ao mesmo santo, que daria origem à cidade de São José do Rio Pardo. 

Fontes:

          BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário Histórico-Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: Saterb, 1971;

BELOTTI, Leonardo Borgheti Marques Falarini. A igreja do morro. Mococa: KKRibeiro.com, 2025;

_______. Neide Falarini Bedin: a vereadora, a artista, a madrinha. Mococa: edição do autor, 2025.

DAUNT, Ricardo Gumbleton. Tenente Urias Emidio Nogueira de Barros. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. LIV. São Paulo: Canton, 1957, p. 1-145; 

DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra-mãe. São José do Rio Pardo: Graf-center, 2001;

GUIMARÃES, José. O fundador de Baependi. In: Revista da ASBRAP, nº 9. Indaiatuba: Rumograf, 2002, p. 9-30;  

Inventário de Cyrino Pinto da Fonseca, 1861, Arquivo Histórico-Documental de Casa Branca;

TRINDADE, Cônego Raimundo. Instituições de igrejas no Bispado de Mariana. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1945.

 

domingo, 14 de junho de 2026

FRUCTUOSO JOSÉ IGNÁCIO - MEU ANTEPASSADO MINEIRO

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo 

Instituto Bruno Giorgi 


FRUCTUOSO JOSÉ IGNÁCIO, também referido como Fructuoso Ignácio de Oliveira, foi um fazendeiro da região da freguesia de São José e Dores de Alfenas. Nasceu em meados de 1813, cuja filiação segue incógnita até o presente momento. Casou-se com dona Antonia Euzébia de Jesus, ou da Conceição, natural de Lavras do Funil, cuja filiação, na ocasião de seu falecimento, em 4 de agosto de 1900, foi ignorada.

Na relação dos fazendeiros da freguesia de São Sebastião do Areado, Município de Alfenas, publicada no Almanak Administrativo, Civil e Industrial, feito no Rio de Janeiro em 1874, consta seu nome como proprietário de engenho de cana de açúcar movido por animais.

Possuiu uma gleba de terras na freguesia de Areado, desmembrada da fazenda do Ribeirão de Santo Antonio, adquirida por compra, avaliada em 535$290 (quinhentos e trinta e cinco mil e duzentos e noventa réis), confrontando com terras de João Corrêa do Nascimento, com os filhos de João Alves Madeira, Justinianno de Castro Borges e Belisário Vieira de Faria. O processo de divisão foi instaurado em 9 de dezembro de 1868, por força da petição de João Corrêa do Nascimento, protocolada perante o Juízo Municipal e de Órfãos do termo da Vila Formosa de Alfenas, sendo juiz municipal em exercício, o meritíssimo doutor José de Hollanda Cavalcante e Albuquerque.

Seu assento de óbito foi lavrado na Igreja Matriz de São Sebastião, em Areado, nos seguintes termos:

“Aos trinta dias do mez de Agosto de mil oitocentos e setenta e oito, encommendei solenemente a alma de Fructuoso Ignacio de Oliveira, branco, idade presumível sessenta e cinco annos, sendo nantural desta freguesia, cazado com Antonia Euzebia de Jesus, recebeu todos os Sacramentos, falleceu de Hydropesia, acompanhei seu corpo morto em habito azul té o Cemitério desta freguesia, onde foi sepultado. (a.) O Vigário Antonio Mariano Pereira Pimentel”.

Até onde se sabe, de seu casamento, deixou os seguintes filhos: Jeronimo, Joaquim, Jezuino, Manoel, Antonio, José, Anna Antonia, Mariana, Inocencio e Maria Rita. Sua descendência espalhou-se pelo Sul de Minas Gerais.  

*

Nota do autor: eu descendo de Anna Antonia de Jesus, nascida em São Joaquim da Serra Negra, hoje, Alterosa, em 1852, casada no dia 7 de fevereiro de 1874, em Areado, com Valentim Lourenço da Silva, filho de Lourenço Antonio da Silva e Maria José de Lima.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A PRIMEIRA VISITA DE UM BISPO À SÃO SEBASTIÃO DA BOA VISTA

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi


O primeiro bispo brasileiro, Dom Antonio. 
Fonte: https://imaculadaipiranga.org/dom-antonio-joaquim-de-mello-o-primeiro-bispo-brasileiro-de-sao-paulo/

A primeira visita de um representante da Diocese de São Paulo à freguesia de São Sebastião da Boa Vista aconteceu em 1858. O bispo diocesano, Dom Antonio Joaquim de Mello, em visita oficial, esteve na recém-criada paróquia, nos tempos do paroquiato do missionário capuchinho, frei Angelo de Caramanico. Era 9 de agosto de 1858. Dom Antonio atestou que não existia pia batismal, embora o templo fosse curado desde 1846 e a freguesia, instituída há dois anos. Não existia forro de seda sobre o tabernáculo, a coberta da âmbula estava indecente, a sacristia não era forrada e nem assoalhada, não existia baldaquino, umbela, relicário e nem luz a se queimar diante do Santíssimo.

O cemitério, provisionado em 7 de dezembro de 1846, em favor de Venerando Ribeiro da Silva, era aberto. “Esperamos no zelo dos senhores abastados no lugar”, registrou Dom Antonio, “que de boa vontade concorrão um dinheiro e serviços para completar o mais preciso. A Gloria de hum povo he sua Matriz”. Atestou que não existia fabriqueiro e nem sacristão, e que seria a autoridade do Bispo a nomear tais figuras.

A bem da verdade, dois anos antes, quando os moradores de São Sebastião requereram à Câmara da Vila de Casa Branca a elevação da povoação à categoria de freguesia, informaram que a igreja ainda não estava pronta. Dois anos mais tarde, quando da visita do bispo, ainda existiam obras por fazer.

Segundo uma matéria publicada no Jornal do Commercio, de 9/5/1859, resgatada por Dom Hiansen Vieira Franco para o seu livro, “Pelos vales e montanhas” (Paço editorial, 2023, p. 279), Dom Antonio Joaquim de Mello declarou ter recebido, à título de esmola, a quantia de 1:200$000 (um conto e duzentos mil réis) dos moradores de São Sebastião da Boa Vista.

Válido ressaltar que, na ocasião, embora nos falte respaldo documental, a freguesia de São Sebastião da Boa Vista estava submetida à Igreja Matriz de Casa Branca, pois, tanto o frei Angelo quanto seu sucessor, padre Lourenço Evangelista Della Moglie, seriam titulares em Casa Branca e atuavam na Mocóca. Em 1863, a paróquia se viu desvalida do serviço sacerdotal, com a afastamento do padre Lourenço. Somente em 1864, quando da chegada do padre Joaquim Feliciano do Amorim Sigar, seriam abertos os livros de batismo, casamento e óbito. O livro de tombo, em seu paroquiato, somente receberia as transcrições das cartas pastorais da Diocese aos paroquianos.

Pequenas biografias

Frei Angelo de Caramanico, de 1857 até 1859

 Começa a atuar no povoado em 1857 e permanece por dois anos. Em igual período, também era pároco de Casa Branca. Uma vez que era comum partir para as Missões, era auxiliado pelo padre Angelo Alves da Assumpção, que assume a paróquia de Caconde em 1860, podendo, talvez, este ser considerado o primeiro coadjutor de Mococa. Depois que deixa São Sebastião, parte para o Mato Grosso. O jornal A Imprensa de Cuyaba, edição de 24 de fevereiro de 1861, nº 92, informa que ele ocupou o cargo de Diretor da aldeia dos kinikinaus, na freguesia de Albuquerque, e que há mais de um ano, os povos indígenas da referida aldeia sofriam sob a tirania de seu diretor. A última notícia que se tem de frei Angelo é que foi assassinado a mando de Solano Lopez, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), provavelmente em 1865, na frente de um companheiro capuchinho, frei Marianno de Bagnaia.

 Padre Lourenço Evangelista Della Moglie, de 1860 até 1864.

 Foi o primeiro imigrante italiano de São Sebastião da Boa Vista, que chegou na localidade por intermédio de Gabriel Garcia de Figueiredo. Foi sob sua supervisão que a capela foi convertida em Igreja Matriz de São Sebastião. Também, foi padre Lourenço o responsável por edificar a primeira residência para os párocos mocoquenses. Em 1861, também paroquiou em Casa Branca, retomando a paróquia em 1863, onde permaneceu até 1872 . Não se tem notícia sobre seu falecimento.

Padre Joaquim Feliciano do Amorim Sigar, de 1864 até 1880.

 Padre Sigar, segundo Humberto de Queiroz, possuía quase 90 anos de idade quando foi nomeado para a freguesia de São Sebastião, vindo do Espírito Santo do Rio do Peixe. Queiroz ainda afirma que foi eleito juiz de fato do júri do Termo de Mogi Mirim, em 1831. Teria atuado em Casa Branca em 1828, em São João da Boa Vista, de 1832 até 1854 ou 1855, enviado para a capela do Espírito Santo do Rio do Peixe, onde permaneceu de 1855 até 1864. No jornal Correio Paulistano, edição de 21.12.1864, nº 2574, consta a seguintes informação:

A freguezia de S. Sebastião da Boa Vista, d’este termo, que se achava há um anno desprovida de parocho, há um mez e tanto que está entregue ao rvdm. Joaquim Feliciano de Amorim Sigar, que para ali se transportou, mudando-se da capella do Espírito Santo do Rio do Peixe”.

 Segundo informações transmitidas pelo historiador casa-branquense, Sérgio Scacabarrozzi, era o pároco de Casa Branca padre Lourenço Evangelista Della Moglie, que também atuava na freguesia de S. Sebastião, tendo ele se ausentado da paróquia por questões de saúde em meados de 1863. Conforme a notícia acima transcrita, leva-se a crer que, com o afastamento do padre Della Moglie, São Sebastião da Boa Vista permaneceu sem pároco por mais de um ano, o que mudou com a nomeação do padre Sigar.

 Era conhecido como o padre velho. Foi em seu paroquiato que edificou-se as obras de talha da capela-mor e dos altares laterais da Igreja Matriz. Era um severo cumpridor dos deveres eclesiásticos e conseguiu, do bispo dom Sebastião, uma honraria: podia usar solidéu, anel com pedra e banda roxa, com borlas da mesma cor. Em 1880, já em idade avançada, optou por deixar de ser o pároco titular, sendo nomeado coadjutor da paróquia, até o seu falecimento, seis anos mais tarde. Segundo consta, faleceu no ano de 1886, aos 120 anos de idade, presumindo que tenha nascido em, aproximadamente, 1766.

sábado, 6 de junho de 2026

UMA (RE)INTERPRETAÇÃO DO ESPAÇO

 

A cidade de Mococa é anacrônica. O clássico e o moderno estão juntos; o movimento de Niemeyer e o colonial se alinham; a conjunção de colunas gregas, arcos góticos, fachadas barrocas se misturam com o aspecto industrial, o minimalismo e o concreto armado. Paralelepípedos e asfalto unem a paisagem.

  

Na fotografia abaixo, vemos um aspecto diferente da antiga residência do Barão de Monte Santo, o tenente-coronel Gabriel Garcia de Figueiredo (1816-1895). Situado ao lado da antiga Igreja Matriz de São Sebastião, o sobrado do Barão simbolizava a alocação de um tipo de Poder no antigo coração da cidade: força política e econômica. 


Ocorre que, no paroquiato do padre italiano, Francisco Salimena, em meados de 1883, os irmãos Antônio José Dias Lima e José de Souza Dias, empreenderam na construção de uma nova igreja matriz, poucas ruas acima do antigo templo. Não conseguiram erguer a igreja, apenas os seus alicerces. Quase dez anos depois, na década de 1890, a nova Igreja Matriz seria construída e inaugurada, no alto de uma colina. Quanto mais descia-se a colina, menos opulentas eram as casas e menos poder político e econômico detinham os seus moradores. 


O simbolismo era maior. Era o "Novo Centro", em detrimento do antigo, do "velho". No entorno da Igreja, os casarões eram edificados, símbolo da elite econômica do auge do café e, mais que isso, uma emulação das tendências europeias, cuja aristocracia deixava a zona rural para tornar-se "civilizada" nas cidades. Creio que os primeiros casarões, situados na parte superior da Praça (hoje, Adhemar de Barros), foram construídos na época da edificação da igreja. Pode-se perceber semelhanças arquitetônicas, por exemplo, na residência do coronel Candido de Souza Dias, de 1893, e na residência do capitão João Ferraz de Siqueira, de 1896, o "Panelão", podendo ser lembrado, inclusive, da residência de Antônio José Dias Lima, o "Catetinho", demolido. Os palacetes, praça abaixo, são do século XX, de outro contexto. 


Ao redor daquele trecho, que envolvia as atuais praças Marechal Deodoro e Adhemar de Barros, situava-se a comodidade do poder. Afinal, a Câmara Municipal encontrava-se ali, próxima das residências dos "mandões" da época, símbolo do poder político; ao seu lado, o fórum e cadeia, que podem ser simbolizados como a força do Estado e da Justiça; ao lado deste, o Theatro São Sebastião, onde a cultura ficava acessível e próxima dos coronéis. Não podemos esquecer, ademais, a proximidade com a escola, posteriormente o 1° Grupo Escolar "Barão de Monte Santo", logo, a instrução, bem como a Igreja Matriz e a casa paroquial, cuja força religiosa estava a poucos passos das soleiras das forças políticas. 


A localização da Santa Casa de Mococa também era estratégica. A cidade "terminava" ali e, no contexto do higienismo do final do século XIX e início do XX, onde a preocupação sanitária passava a integrar o seio político. A Santa Casa foi edificada afastada da população. Pouco mais adiante, bem mais afastado, o cemitério foi providenciado. O higienismo também influenciou o comércio e a indústria. Fábricas e curtumes deveriam estar situados longe das casas, evitando poluição sonora e mau cheiro, por exemplo. Talvez, seja o motivo da escolha da construção da Estação, também afastada do centro da cidade e da antiga zona habitada. 


A urbanização conta uma história: a nossa e os motivos de seus caminhos e resultados! 




Texto: Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 

Fotografia: "O capitão Diogo Garcia da Cruz", por Dr. Ricardo Gumbleton Daunt, Revista do Instituto Heráldico-Genealógico, n°9, 1942, p. 198.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

 

UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi

Capitão Benjamin Dinamarco, acervo do autor, colorida com IA.

Benjamin Reis Dinamarco nasceu em São Thomé das Letras, Estado de Minas Gerais, aos 25 dias do mês de abril de 1859. Era filho de do capitão Candido Reis Dinamarco e de dona Maria Paulina da Fonseca. Segundo o genealogista, Rogério Farah, era neto paterno de João Ferreira (ou José Antônio) Quintanilha e Brígida Antônia da Conceição, no Estado do Rio Grande do Sul, e, pela linha materna, neto de João Batista da Fonseca e Francisca Cândida de Paula Batista.

Seu pai era negociante de fazendas, cujo consórcio matrimonial ocorreu em 22 de julho de 1857, em São Thomé, cidade onde faleceriam, ele em 1899 e ela, em 1922, conforme Farah.

Benjamin casou-se na Igreja Matriz de Conceição do Rio Verde, MG, em 30 de julho de 1881, com dona Henriqueta Olímpia de Souza Ribeiro, filha de Elizário Ribeiro da Silva e de dona Maria Silvéria de Souza Ribeiro. O matrimônio foi celebrado pelo padre José Pedro de Souza Pinto e foram padrinhos, o Barão de Caldas e Joaquim José de Souza Pacheco.

Dona Henriqueta nasceu em Alfenas, MG, em 14 de outubro de 1866, batizada em Conceição do Rio Verde. Pela linha paterna, era descendente de João Ribeiro da Silva (1714-1787) e de Maria Branca Leme do Prado (1725-?). Seu trisavô, filho deste casal, era irmão de Félix Ribeiro da Silva, pai de Venerando Ribeiro da Silva, logo, seria prima em quarto grau deste venerável fundador de Mococa.

Não se sabe os motivos que levaram Benjamin e Henriqueta à Mococa. Sua filha mais velha, Jovita, nasceu em Conceição do Rio Verde, em 9 de junho de 1883; Elvira, a caçula, nasceu em 7 de julho de 1898, em Mococa. É certo que a prosperidade acompanhava a cidade. Em janeiro de 1895, é nomeado para a Guarda Nacional, vinculado ao 123º Batalhão de Infantaria de Mococa, assim constituído:

123º batalhão de infantaria

Estado-maior: tenente-quartel Pedro Angelo Camin.

1ª Companhia: capitão Benjamin Dinamarco, alferes Basilio Fernandes Garcia, alferes Antonio Ferreira Vieira e alferes Marciliano de Souza Dias.

2ª Companhia: capitão Pedro Lacreta e alferes José Moreira Coelho de Magalhães.

3ª Companhia: alferes Joaquim Pedro de Oliveira e alferes Antonio de Pinho Nogueira.

Na política, candidatou à juiz de paz nas eleições de 1898, sendo eleito como primeiro juiz de paz. Ademais, atingiu altos graus da Loja Maçônica, em Mococa, prova de seu engajamento imediato na cidade que acolheu a sua família. Seus cunhados, Erasmo de Souza Ribeiro e Sinval de Souza Ribeiro também encontravam-se envolvidos na política mocoquense, este último intendente municipal, de 7 de janeiro de 1900 a 17 de setembro de 1900 (SILVA, 2024, p. 40).

Por muitos anos, capitão Benjamin foi representante da firma Junqueira & Companhia, da cidade de Santos, SP, voltada ao comércio de café.

No mesmo ano de sua eleição, nasceria sua segunda filha, Elvira, em Mococa, no dia 5 de julho, batizada em 22 de agosto do mesmo ano, pelo padre Bento Monteiro do Amaral, sendo padrinhos Candido Dinamarco, representado por Erasmo de Souza Ribeiro e dona Manoela Olímpia Ribeiro. Seria ela normalista e uma eximia pianista.

Em 1901, o ex-presidente da República, Prudente de Moraes, ao lado de diversos políticos, incluindo o proprietário do jornal, O Estado de S. Paulo, Julio de Mesquita, firmam a dissidência do Partido Republicano Paulista. Em Mococa, segundo narra Edgard Freitas, a Dissidência lançou os seguintes candidatos para as eleições de 15 de dezembro de 1901: Erasmo de Souza Ribeiro, Abelardo Augusto de Lima, João da Costa Lima, João Bento Vieira da Silva, Eugenio Xavier de Souza e Izidoro Cerrini, para vereadores, e capitão Benjamin Dinamarco, José Guilherme da Costa e José Fernandes Garcia, para juízes de paz (FREITAS, 1948, p. 114). A Dissidência não elegeu um representante, sequer.  

Capitão Benjamin seguiria seus propósitos, alheios à política, voltando-se à assistência social, ainda em formação. Participou da diretoria da Santa Casa de Mococa, por longos anos em alternados cargos, bem como foi diretor do Asilo de Mendicidade “Adolpho Barretto”. Sua residência situava-se à esquina das ruas Coronel Diogo e XV de Novembro.

Em 1915, adquire parte das terras da fazenda da Prata, então propriedades de Higino Ribeiro da Silva, constituindo a fazenda do Bananal. Seu cunhado, Erasmo, também compra uma gleba de terras, a fazenda Santa Rita ou Divisa, posteriormente denominada fazenda Santa Elisa. Em 1918, Elvira, sua filha caçula, casou-se com o professor José Barreto Coelho, taubateano, filho de Bernardino Antonio Coelho Junior e de Idalina Barreto Coelho, que chegou em Mococa para ser professor substituto do 1º Grupo Escolar “Barão de Monte Santo”, em 1913. A celebração, presidida pelo monsenhor doutor Félix Brandi, ocorreu em oratório particular, provisionado, na residência do capitão Benjamin.

No dia 5 de junho de 1928, um grande baque acomete sua família. Sua esposa, dona Henriqueta, em tratamento do Instituto Paulista, faleceu, às 17h. sepultada no Cemitério do Araçá no dia seguinte, seus restos mortais seriam transportados para Mococa, posteriormente, no jazigo da família Dinamarco. Não muitos anos depois, Jovita, sua filha, também veio a falecer, vitimada por uma pneumonia, em 6 de maio de 1935, em Mococa.

Quando da eleição de Júlio Prestes, que ocasionou a Revolução de 1930, diversos mocoquense manifestaram o seu apoio ao presidente, por meio de manifesto jornalístico, publicado no Correio Paulistano, e, dentre os signatários, encontram-se os nomes do capitão Benjamin, de Elvira e do professor Barreto Coelho.

Viveu por 92 anos, falecido em 19 de março de 1952, em Mococa. Em eloquente editorial, o jornal A Mococa, reverenciou a memória deste prestante cidadão, “figura que durante muitos anos prestou relevantes serviços à cidade” e que sempre “deu seus melhores dos seus esforços” à Santa Casa e ao Asilo.  Sepultado na necrópole municipal no dia seguinte, às 17h, seu féretro foi acompanhado por um grande número de amigos, “o que veio a provar a simpatia de que gozava”, segundo o editorial.

Sua filha e seu genro foram figuras sublimes ao ensino de Mococa, compositores do dobrado do primeiro de centenário, oficializado Hino Oficial do Município, por lei de autoria do então vereador, dr. João Rotta.

Em Mococa, ainda existem descendentes da família de dona Henriqueta, pelo ramo de Erasmo de Souza Ribeiro e sua esposa, dona Elisa. Contudo, o ramo da família Dinamarco de capitão Benjamin encerrou-se com o falecimento de Elvira, em 6 de julho de 1981.


Fontes: 

FARAH, Rogério. Página da família Dinamarco (disponível em <https://www.geocities.ws/genedinamarco/dinamarco.html>, acesso em 4 de junho de 2026);

FREITAS, Edgard. Mococa, 100 anos de história, 1847-1947. Mococa: Gráfica Costa, 1948; 

Livros de batismo da Paróquia de São Sebastião, de Mococa, SP; 

Livro de casamento da Paróquia de Conceição do Rio Verde, MG;

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca: de sua fundação até 1900. São Paulo: Typ. do Diário Oficial, 1913; 

SILVA, Antonino da. Pelos caminhos das Mucócas. Próceres: uma biografia. Mococa: edição do autor, 2024. 

JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

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