quarta-feira, 10 de junho de 2026

A PRIMEIRA VISITA DE UM BISPO À SÃO SEBASTIÃO DA BOA VISTA

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi


O primeiro bispo brasileiro, Dom Antonio. 
Fonte: https://imaculadaipiranga.org/dom-antonio-joaquim-de-mello-o-primeiro-bispo-brasileiro-de-sao-paulo/

A primeira visita de um representante da Diocese de São Paulo à freguesia de São Sebastião da Boa Vista aconteceu em 1858. O bispo diocesano, Dom Antonio Joaquim de Mello, em visita oficial, esteve na recém-criada paróquia, nos tempos do paroquiato do missionário capuchinho, frei Angelo de Caramanico. Era 9 de agosto de 1858. Dom Antonio atestou que não existia pia batismal, embora o templo fosse curado desde 1846 e a freguesia, instituída há dois anos. Não existia forro de seda sobre o tabernáculo, a coberta da âmbula estava indecente, a sacristia não era forrada e nem assoalhada, não existia baldaquino, umbela, relicário e nem luz a se queimar diante do Santíssimo.

O cemitério, provisionado em 7 de dezembro de 1846, em favor de Venerando Ribeiro da Silva, era aberto. “Esperamos no zelo dos senhores abastados no lugar”, registrou Dom Antonio, “que de boa vontade concorrão um dinheiro e serviços para completar o mais preciso. A Gloria de hum povo he sua Matriz”. Atestou que não existia fabriqueiro e nem sacristão, e que seria a autoridade do Bispo a nomear tais figuras.

A bem da verdade, dois anos antes, quando os moradores de São Sebastião requereram à Câmara da Vila de Casa Branca a elevação da povoação à categoria de freguesia, informaram que a igreja ainda não estava pronta. Dois anos mais tarde, quando da visita do bispo, ainda existiam obras por fazer.

Segundo uma matéria publicada no Jornal do Commercio, de 9/5/1859, resgatada por Dom Hiansen Vieira Franco para o seu livro, “Pelos vales e montanhas” (Paço editorial, 2023, p. 279), Dom Antonio Joaquim de Mello declarou ter recebido, à título de esmola, a quantia de 1:200$000 (um conto e duzentos mil réis) dos moradores de São Sebastião da Boa Vista.

Válido ressaltar que, na ocasião, embora nos falte respaldo documental, a freguesia de São Sebastião da Boa Vista estava submetida à Igreja Matriz de Casa Branca, pois, tanto o frei Angelo quanto seu sucessor, padre Lourenço Evangelista Della Moglie, seriam titulares em Casa Branca e atuavam na Mocóca. Em 1863, a paróquia se viu desvalida do serviço sacerdotal, com a afastamento do padre Lourenço. Somente em 1864, quando da chegada do padre Joaquim Feliciano do Amorim Sigar, seriam abertos os livros de batismo, casamento e óbito. O livro de tombo, em seu paroquiato, somente receberia as transcrições das cartas pastorais da Diocese aos paroquianos.

Pequenas biografias

Frei Angelo de Caramanico, de 1857 até 1859

 Começa a atuar no povoado em 1857 e permanece por dois anos. Em igual período, também era pároco de Casa Branca. Uma vez que era comum partir para as Missões, era auxiliado pelo padre Angelo Alves da Assumpção, que assume a paróquia de Caconde em 1860, podendo, talvez, este ser considerado o primeiro coadjutor de Mococa. Depois que deixa São Sebastião, parte para o Mato Grosso. O jornal A Imprensa de Cuyaba, edição de 24 de fevereiro de 1861, nº 92, informa que ele ocupou o cargo de Diretor da aldeia dos kinikinaus, na freguesia de Albuquerque, e que há mais de um ano, os povos indígenas da referida aldeia sofriam sob a tirania de seu diretor. A última notícia que se tem de frei Angelo é que foi assassinado a mando de Solano Lopez, durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), provavelmente em 1865, na frente de um companheiro capuchinho, frei Marianno de Bagnaia.

 Padre Lourenço Evangelista Della Moglie, de 1860 até 1864.

 Foi o primeiro imigrante italiano de São Sebastião da Boa Vista, que chegou na localidade por intermédio de Gabriel Garcia de Figueiredo. Foi sob sua supervisão que a capela foi convertida em Igreja Matriz de São Sebastião. Também, foi padre Lourenço o responsável por edificar a primeira residência para os párocos mocoquenses. Em 1861, também paroquiou em Casa Branca, retomando a paróquia em 1863, onde permaneceu até 1872 . Não se tem notícia sobre seu falecimento.

Padre Joaquim Feliciano do Amorim Sigar, de 1864 até 1880.

 Padre Sigar, segundo Humberto de Queiroz, possuía quase 90 anos de idade quando foi nomeado para a freguesia de São Sebastião, vindo do Espírito Santo do Rio do Peixe. Queiroz ainda afirma que foi eleito juiz de fato do júri do Termo de Mogi Mirim, em 1831. Teria atuado em Casa Branca em 1828, em São João da Boa Vista, de 1832 até 1854 ou 1855, enviado para a capela do Espírito Santo do Rio do Peixe, onde permaneceu de 1855 até 1864. No jornal Correio Paulistano, edição de 21.12.1864, nº 2574, consta a seguintes informação:

A freguezia de S. Sebastião da Boa Vista, d’este termo, que se achava há um anno desprovida de parocho, há um mez e tanto que está entregue ao rvdm. Joaquim Feliciano de Amorim Sigar, que para ali se transportou, mudando-se da capella do Espírito Santo do Rio do Peixe”.

 Segundo informações transmitidas pelo historiador casa-branquense, Sérgio Scacabarrozzi, era o pároco de Casa Branca padre Lourenço Evangelista Della Moglie, que também atuava na freguesia de S. Sebastião, tendo ele se ausentado da paróquia por questões de saúde em meados de 1863. Conforme a notícia acima transcrita, leva-se a crer que, com o afastamento do padre Della Moglie, São Sebastião da Boa Vista permaneceu sem pároco por mais de um ano, o que mudou com a nomeação do padre Sigar.

 Era conhecido como o padre velho. Foi em seu paroquiato que edificou-se as obras de talha da capela-mor e dos altares laterais da Igreja Matriz. Era um severo cumpridor dos deveres eclesiásticos e conseguiu, do bispo dom Sebastião, uma honraria: podia usar solidéu, anel com pedra e banda roxa, com borlas da mesma cor. Em 1880, já em idade avançada, optou por deixar de ser o pároco titular, sendo nomeado coadjutor da paróquia, até o seu falecimento, seis anos mais tarde. Segundo consta, faleceu no ano de 1886, aos 120 anos de idade, presumindo que tenha nascido em, aproximadamente, 1766.

Um comentário:

  1. Belo relato histórico, como é bom ler acontecimentos realmente pesquisados e muito bem escrito. Parabéns Leonardo

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