Comentários ao livro
“Os Catolicismos Brasileiros”, de Arnaldo Lemos Filho
Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
Foi Gramsci quem proferiu a seguinte
afirmação: “Cada religião [...] é na realidade uma multiplicidade de religiões
distintas e muitas vezes contraditórias [...]”. Tal afirmação é devidamente
explicada no livro do professor Arnaldo Lemos Filho. Os Catolicismos Brasileiros foi a sua dissertação de mestrado,
apresentado para o programa de pós-graduação da PUC-SP, e convertido em livro
para o deleite dos estudiosos, já na terceira edição, lançado pela Editora
Alínea, Campinas
O livro, no seu início, procura mostrar
as respostas dadas á seguinte pergunta: por que o Catolicismo não se fragmentou
como o Protestantismo? Se a Igreja
Católica mantem sua unidade do ponto de vista da fé, o mesmo não acontece do
ponto vista sociológico. Há vários catolicismos. No final, ele mostra a que
esta unidade é aparente. De um lado, o
predomínio da tradição, nas suas duas vertentes, a legitimação da ordem social
e o espiritualismo, de outro lado, a renovação com as vertentes da modernização
e da contestação.
Se fizermos um apanhado geral sobre a
história do país, iremos ver que o poder religioso era exclusivamente conferido
ao papa, que concedia ao Rei de Portugal atribuições da casa do espírito,
acumulando em conjunto com o poder secular. Quando do descobrimento das minas,
por exemplo, El Rei era Grão-mestre da Ordem de Cristo, e possuía o condão da
nomeação dos párocos, de receber dízimos etc., conforme nos conta a
historiadora Claudia Damasceno Fonseca, no livro Arraiais e vilas D’El Rei. Contudo, desde o início do século XVIII,
a Coroa não permitiu a instalação de ordens religiosas na região das minas –
uma medida de controle total da localidade.
A religião, portanto, passaria a ser
exercida inicialmente pela população leiga, que representava os conceitos
religiosos da melhor forma que dispunham. O professor Arnaldo é assertivo ao
relatar que, nos incipientes povoados, a atividade religiosa começou com o
povo. É interessante, no estudo da história das cidades, o fato de que não
imaginamos o poder religioso exercido antes de sua institucionalização: o vemos
já comandado por um pároco e o que acontecia antes é suprimido do imaginário. O
povo professava a sua fé à sua maneira. De fato, poucos eram os que tinham
condição de ir até um centro urbano maior, assistir uma missa ministrada por um
pároco, ainda mais se levarmos em conta a distância e a dificuldade de
locomoção. Nesta situação, o povo passou a exercer a religiosidade, que lhes
era necessária, da forma que dispunham, extraoficialmente.
A religião do povo sempre foi vista
como superstição, conforme o professor Arnaldo nos relata. Era tida como
banalidade, uma forma rudimentar e pouco – ou nada – séria. Tal distanciamento
– entre o povo e a igreja institucionalizada – teve diversas formas de
resultados. No livro, professor Arnaldo nos conta a história da Igreja da
“Mãozinha”, originada na cidade de Itapira-SP. O povo passou a cultuar um
cogumelo no formato de mão, repleto de misticismo. A reação da Igreja foi,
obviamente, contrária à ideia de manter tal culto. Com o passar dos anos, houve
um cisma religioso dos adeptos da “Mãozinha”, que resultou na Igreja Católica
Brasileira, fundada no Rio de Janeiro em 1945, pelo bispo excomungado, dom
Carlos Duarte Costa, mas com raízes bem solidificadas nos eventos que
aconteceram em Itapira, fomentados pelo padre Manoel Carlos de Amorim Correia,
em 1912.
O que são as simpatias e outras
crendices senão a forma de externar a religião do povo? O distanciamento da
religião institucionalizada, somado à vontade do povo em ter a acesso à
religião resultam, por exemplo, nas personalidades messiânicas, cujo papel
divino recebe do “grupo de crentes que lho atribui”, conforme nos conta a socióloga,
Maria Isaura Pereira de Queiroz, no livro O
messianismo no Brasil e no mundo, obra vencedora do prêmio Jabuti de 1967.
A religião assume diversas formas, de
fato. Cada grupo social passa a interpretar os textos sagrados conforme a sua
necessidade e condições de vivência. Outrora, o aparelho de coerção e de
distanciamento social era corroborado pela Igreja predominante, um sustentáculo
da ideologia de seu tempo. “A Igreja Católica, como instituição, reflete em seu
interior as contradições das classes existentes na sociedade. A religião varia,
pois, conforme a representação que cada classe faz de sua posição dentro da
estrutura social [...]” ().
Dentro de todas as relações sociais, talvez
seja atributo inerente de sua origem a presença do poder, como forma de
amálgama – mesmo de forma velada, sutil. A dominância faz parte da estrutura
idiossincrática do brasileiro, resultado das antigas hierarquias, relações de
mando e o vislumbre do próximo como algo útil a ser meramente utilizado até que
não lhe seja mais interessante. O poder é a fonte de água da qual todos querem
beber, mas cujo acesso é cerceado por várias cercas: véus ideológicos,
econômicos, sociais, religiosos,...