(Publicado exclusivamente no jornal Cidade News)
Após
o julgamento das obras do XXXVI Salão de Artes Plásticas de Arceburgo "Engenheiro
Júlio Capobianco", organizado pelo Instituto Histórico e Cultural de
Arceburgo, pude entrevistar o artista e político Fausto Guilherme Longo,
desenhista, fundador do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, ex-Senador
e ex-deputado da República da Itália. Confira adiante e, ao leitor, aconselho
coragem, “ché, seggendo in piuma, in fama non sin vien, né sotto coltre” (Canto
XXIV do Inferno, de Dante).
Leonardo
Borgheti M. F. Belotti
Cidade News: Fausto, primeiramente,
obrigado por ter aceito o convite. Geralmente, gosto de começar com alguns
dados biográficos. Sua origem, sua formação.
Fausto
Longo: Bom, eu sou nascido em Amparo; criado em Piracicaba; desmamado em São
Paulo; aperfeiçoado em Roma. Eu sou arquiteto urbanista de profissão, mas o
desenho, como ferramenta de expressão, foi o instrumento que eu mais utilizei
na minha vida, e a linguagem que eu mais utilizei na minha vida, através do
desenho, foi a linguagem do cartoon. Participei da fundação do Salão de Humor
de Piracicaba, e eu acho que a linguagem do humor é uma linguagem que acaba
instigando, acaba fazendo com que a gente se desperte para aspectos da política
ou da vida, do cotidiano que, às vezes, nos faz rir da desgraça humana, mas às
vezes nos faz pensar profundamente sobre as consequências e atitudes de
governos, de pessoas que tinham uma personalidade um pouco excessiva quando
estão no comando. Então, eu sempre usei a linguagem do humor como ferramenta,
não para criar a crítica destrutiva, mas o despertar das pessoas.
CN: Quem é a sua maior influência e
por qual motivo, tanto para as artes, quanto para a política.
Fausto:
Para as artes, a grande pessoa que me influenciou foi o Zelio Alves Pinto. Além
de cartunista, é um artista plástico que tem multiplicidade de fórmulas de
expressão através da arte, inclusive o desenho de humor, mas também a arte
plástica, a pintura acrílica, aquarela. Ele tem um trabalho extremante expressivo,
da minha forma de ver a arte. E também é alguém muito preocupado com o aspecto político,
de políticas culturais voltadas para engrandecimento e fortalecimento da figura
humana. Então, eu admiro demais a figura do Zélio, e eu tive o Zélio como
padrinho na minha arte e como padrinho de casamento, padrinho na vida. É uma
pessoa que me serve como referência na minha vida. Na minha vida política
institucional, eu tenho duas pessoas que eu sempre coloco como balizadores pela
potência de atuação, pela liderança que tinha, que é o João Herrmann Neto, foi
duas vezes prefeito de Piracicaba, foi três ou quatro vezes deputado federal.
Foi uma figura expressiva na Constituinte Brasileira e é uma das pessoas que
ajudaram efetivamente a reconstruir o Estado de Direito no país. E a outra
pessoa, nessa mesma linha, e que eu admiro pela coerência, pela ética, pela
forma como, até hoje, aos 94 anos, continua lúcido e empenhado na defesa da democracia,
que é o Almino Afonso, que foi deputado, foi Ministro do Trabalho do governo
João Goulart, foi vice-governador de São Paulo. É uma figura que até hoje eu
tenho uma admiração muito grande e o tenho como exemplo.
CN: E como começou a sua carreira
política?
Fausto:
Por coincidência, começou já no banco escolar, no ginásio, quando um professor,
que eu admiro também, vivo até hoje, professor Frederico Alberto Blaum, me
convidou para fazer o discurso dos estudantes no dia 7 de setembro na praça
pública da cidade. Eu sempre fui um bom aluno nas áreas de história, geografia
e português, nas outras áreas, matemática, eu era péssimo aluno. E esse
professor de português, o Blaum, tinha sido eleito vereador por Piracicaba e
ele gostou de um posicionamento que eu tive durante o discurso. Em plena praça pública,
eu gravei de memória o discurso que eu devia fazer e, num certo momento, eu
tinha, na minha concepção, que apontar para o mastro da bandeira e falar “e
essa bandeira que ora tremula”. Quando olhei, a bandeira não tinha sido hasteada,
porque os pronunciamentos eram antes do hasteamento. E eu fiquei com a mão
olhando para o mastro e acabei achando uma saída, falei assim: “...que tremula
no coração de cada um de nós”. E ele ouviu isso e falou: “Você tem que vir para
a política, você tem agilidade mental para perceber uma situação e se colocar
de uma forma diferenciada, por que não vem participar da vida política?”. E me
levou o livro do Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, e eu fui o filiado nº
144 de Piracicaba. E a partir daí, eu me
encantei com a política, pela possibilidade de participar. Eu era muito ativo.
A única coisa que eu não gostava era da rotina escolar, de fazer tarefa de
casa, mas eu gostava da movimentação do grêmio estudantil, de organizar festas,
excursões, o campeonato de xadrez. Essa atitude demonstrava que tinha uma certa
vocação para a área política.
CN: E você foi eleito, no Brasil,
para algum cargo eletivo?
Fausto:
Com o passar do tempo, fui convidado para trabalhar em uma das secretarias que,
na época, aí é quando começou a organização do Salão de Humor de Piracicaba,
para a Secretaria de Turismo de Piracicaba, eu fui convidado para trabalhar. E
quando acabou o mandato do prefeito Adilson Benedito Maluf, nada a ver com o
Paulo Maluf, nem da mesma família, o João Hermann ganhou a eleição para
prefeito e me convidou para ser secretário do município. Quando terminou o
mandato do João e eu deixei de ser secretário, saí candidato a vereador. Fiquei
como suplente e fui diplomado só no final do mandato. Fui vereador em
Piracicaba, eleito, mas não tive o exercício do mandato da forma como deveria,
porque foi só no final do mandato que acabei sendo diplomado. Aí, vim para São
Paulo e fui indicado para algumas funções públicas do governo estadual e depois
do governo federal. Trabalhei na Secretaria das Ciências e Tecnologia do Estado,
no Ministério de Ciências e Tecnologia, voltei para o Estado e fui para o IPT,
Instituto de Pesquisa Tecnológica, onde fui fazer meu mestrado na área de
planejamento e tecnologia de habitação. Depois, já continuando, continuei em
diversas funções de caráter público. Até o dia que fui convidado para a FIESP,
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, para reconstituir o
departamento de meio ambiente e desenvolvimento sustentável da FIESP, que tinha
uma tradição muito antiga no sentido da indústria se protegendo dos
ambientalistas, e eu fui chamado pelo Horácio Lafer Piva, presidente, para dar
uma conotação diferenciada para o departamento de meio ambiente, no sentido de
entrar na luta e não ficar na defensiva, e fiz uma carreira dentro da FIESP no
meio ambiente e depois na área de ação regional. Fiquei 15 anos na FIESP.
CN: Como se deu a eleição ao senado
italiano?
Fausto:
A minha primeira participação foi em 2008. O Giambattista Serra Di Nervi, que
era representante do Partido Socialista no Brasil, precisava montar a lista de
candidatos. E ele montou uma lista e levou no consulado para registrar. Nesse
dia, o nome dele não passou na lista, porque ele não tinha feito a
transferência do endereço dele de uma cidade da Ligúria para São Paulo. A
família dele e ele moravam numa cidade perto de Genova, e ele não conseguiu transferir
o endereço eleitoral dele para o Brasil, então não podia concorrer nas eleições
e o nome dele foi vetado. Mas se o nome dele fosse vetado, não poderia
registrar a chapa de oito nomes, e ele começou a colocar nomes desesperadamente
e os nomes não passavam, porque eram pessoas que não tinham feito o tal do
AIRE, o registro de italiano residente no exterior, como se fosse um registro
de que o italiano mora fora da Itália. Então, gera o direito eleitoral dele no
lugar aonde reside. Aí, ele colocou meu nome, lembrou que eu tinha cidadania
italiana e colocou meu nome e passou. Pronto! Ele me ligou na FIESP, e falou: “Olha,
Fausto, me desculpa mas não tinha outro nome para colocar e coloquei seu nome
como candidato”. Eu falei: “Serra, eu não posso ser candidato. Aqui na FIESP,
trabalhando”. Ele falou: “Não, mas nesse momento, é mais para você ajudar o
Partido Socialista Italiano, você sempre teve simpatia por nosso movimento”.
Falei: “Não, eu tenho simpatia, mas é que não tenho um trabalho realizado na
comunidade italiana”. Enfim, saiu o meu nome na lista e a chapa teve uma
quantidade de votos que inviabilizou a eleição do senador brasileiro, Eduardo
Polastri. E eu fiquei muito magoado com aquilo, que fiz parte de algo que
acabou tirando do Brasil um representante. E fui até o partido do Polastri, na
época era dirigido pelo Fabio Porte, hoje deputado, e falei: “Não vamos deixar
acontecer essa divisão, acabamos perdendo porque estávamos divididos. A partir
de hoje, vou me esforçar para a gente trabalhar junto e tentar, na próxima
eleição, eleger um senador nosso, pelo Brasil”. Bom, acontece que essa união do
Partido Socialista Italiano e o do Fabio Porte, o PD, mais ou menos um ano após
nosso compromisso, na Itália foi feito um compromisso similar: o Partido
Socialista fez um acordo com o PDem, o partido democrata. Quando o Fabio foi
montar a chapa, para a nova eleição de 2013, os dois partidos concluíram que eu
tinha feito essa união aqui no Brasil e que, portanto, eu deveria ser um dos
candidatos, e me convidaram a ser candidato a senador, já consciente, mas
sabendo que eu não tinha a menor chance de ganhar, porque eu não tinha essa
tradição de trabalho com a comunidade italiana, com as associações italianas, com
o movimento italiano. A gente tinha tradição do trabalho com mármore, escultores,
porque minha família é de mármore e escultura. Bisavô, avô, meu pai, escultores
de santos. Na matriz de Mogi Mirim, na torre da matriz, tem um São José
esculpido pelo meu avô e meu pai. Acabei saindo candidato e para a surpresa de
todos nós, acabei sendo eleito senador da República Italiana.
CN: Quantos votos?
Fausto:
Foram 29.750 votos. Os eleitores que participam de eleição italiana são muito
poucos, embora esses 29 mil seja algo difícil de conseguir por ser um voto
espalhado por dez países. Eu tive 29.750 e o Fabio teve 30 mil. Então, ganhamos
os dois. Foi um mandato de cinco anos. Nesse mandato, eu rodei a América do
Sul. 419 localidades para entender como funcionava a comunidade italiana, quais
os problemas. Eu acabei saindo candidato novamente, daí combinamos que o Fabio sairia
senador e eu deputado, e fizemos essa inversão. Eu fui eleito e, infelizmente,
o Fábio não foi eleito. Então, completei dez anos de mandato na Itália com duas
experiências extremamente positivas para mim, que foi o Senado da República e a
Câmara dos Deputados. O melhor ganho dessa experiência foi viver no regime
parlamentarista, que é diferente do presidencialismo no Brasil. As decisões são
mais democráticas, porque elas nascem no parlamento, e são dois parlamentos. Um
tem que referendar o voto do outro. O projeto de lei tem que passar duas vezes
na Câmara e duas no Senado, antes de ir para o governo. Foi uma experiência
muito rica. Além do que, com ao Itália faz parte da União Europeia, eu era
obrigado a acompanhar o parlamento europeu, coisa que eu, aqui em São Paulo, não
ia me preocupar com o que estava acontecendo com a política da União Europeia,
que estava no meio de um conflito permanente entre os países asiáticos e os Estados
Unidos. Tive que compreender como funciona a geopolítica no hemisfério norte
para pode fazer projeto de lei, porque não poderia fazer nenhum projeto de lei
que não fosse compatível. E tive que olhar como funcionava a política da América
do Sul, país por país, porque são 61 milhões de ítalos-descendentes que vivem
na América do Sul, eu tinha que acompanhar, porque, se eu fosse perguntado
sobre alguma coisa, eu tinha que dar opinião. Mudou a minha visão do mundo. A
grande oportunidade que me deu foi entender geopolítica de uma forma totalmente
diferente que eu tinha, sentado na Avenida Paulista, na FIESP.
CN: Mudando um pouco da política
para as artes, queria que você contasse um pouco sobre a origem do Salão
Internacional de Humor de Piracicaba.
Fausto:
O Salão de Humor de Piracicaba tem muito a ver com política, você sabe
evidentemente. Na verdade, existia em Piracicaba, vamos dizer, um jornal que
tinha um posicionamento bastante liberal, que era O Diário, dirigido pelo
jornalista, escritor e historiador Cecílio Elias |Neto. E ele matinha uma
equipe no jornal que era bastante diversificada. E, naquela época, nós tínhamos
como referência O Pasquim, e a gente tinha uma página recado, nesse jornal O Diário,
que imitava um pouco as brincadeiras, cutucando o poder local, com brincadeiras
do tipo do Pasquim. Um grupo formado por alguns jornalistas, escritores, cinco
ou seis pessoas levaram a ideia tanto para o jornal como para a Secretaria de Turismo,
ao prefeito Adilson Maluf, a ideia de fazer, junto com o Salão de Belas Artes,
uma exposição de desenhos de humor. E o pessoal o Salão de Belas Artes, com
aquela visão tradicionalista, “como permitir desenhos no Salão de Belas Artes?”,
“desenho de humor não é arte”. Deu uma confusão tremenda na cidade com grandes nomes
da arte local, Arquimedes Dutra, Renato Wagner, Olavo Ferreira da Silva,
Alberto Tomasi, enfim, uma quantidade enorme de nomes de pessoas que ganhavam concursos
em São Paulo, de arte, gente com muita qualificação, mas naquela arte no
sentido das belas artes. Então, esse grupo resolveu falar: “Não pode ter uma
exposição de desenho junto com o Salão de Belas Artes, então vamos criar um
salão próprio”, e começamos a articular a criação do Salão, que nasce com o
sentido de achar uma alternativa para os que tinham o mesmo pensamento que o
Pasquim, tanto na escrita quanto no desenho. O desenho, o cartunista, acabava
se caracterizando como o verdadeiro crítico. A gente percebia que no eixo Rio-São
Paulo, não era possível os cartunistas exercerem a sua crítica, porque a
censura cortava. Então, nós criamos uma alternativa, não imaginávamos que fosse
virar o que virou, o salão mais antigo e mais importante do mundo, foi fundado
em 1974, no meio da ditadura militar.
CN: Teve uma atuação no sentido da
resistência, digamos assim?
Fausto:
Logicamente que tinha, por exemplo, os conservadores de Piracicaba se colocando
contra, tinham desenhos que eram realmente demonstrando a indignação da
população, em relação a ditadura, todos clamavam pelo Estado de Direito, o
retorno da democracia. Todos queriam votar. Os desenhos representavam, de uma
forma irônica, mordaz, cutucavam as pessoas para que elas percebessem que não
estávamos vivendo numa democracia, que a decisão era centralizada numa pessoa,
num general que não havia sido eleito. Logicamente, os olhares do DOPS, da
censura, principalmente aqueles que eram instigados por essa população conservadora.
Porque, imagina, Piracicaba, em 1974, quem iria olhar para Piracicaba? “Aquilo lá
que eles estão fazendo lá, não vai interferir nunca no nosso projeto de poder”.
E foi assim que nasceu a ideia do salão, e vingou já no primeiro. Fomos pedir
ajuda para O Pasquim. Saiu uma equipe, que foi para o Pasquim e um grupo que
foi falar com Zelio, em São Paulo, irmão do Ziraldo, podia ajudar a gente na
relação. Mas quando chegou com a ideia, o Paulo Francis, o Redi, o Ziraldo,
Millôr, Jaguar, ficaram entusiasmados com a ideia, e eles todos vieram para Piracicaba,
para o primeiro salão. Imagina, você chegar em Piracicaba e fazer um primeiro
salão com a presença de Millôr, Ziraldo, Redi, os grandes nomes do cartunismo.
E como as pessoas não tinham aonde publicar, a não ser nos jornais nanicos que
eram contra, normalmente sindicais, que atacavam a Ditadura, é naquele espaço
muito pequeno o que as pessoas tinham, que os cartunistas tinham para expressar
suas ideias. Quando abriu Piracicaba, ainda premiando, prêmio alto, pagava
3.000 dólares para o primeiro colocado. Essas pessoas correram para Piracicaba,
e começaram a ganhar prêmios, e a surgir e ser convidado para poder publicar em
revistas e jornais. Ali nasceu Paulo e Chico Caruso, Laerte, Luigi, Daucio
Machado, Carlos Fernandes, Batistão, os grandes nomes do cartunismo de hoje
eram tudo uma molecada de 15 anos, que iam frequentar Piracicaba, tinha gente
que ia com o pai. E no fim, se tornaram grandes nomes. Paulo e Chico, o Laerte.
Foi nesse ambiente que houve a transformação do salão numa espécie de Óscar do
humor no mundo. Qualquer cartunista do mundo, o sonho dele é ganhar o premio no
Salão de Humor de Piracicaba, é uma referência e se tornou uma referência.
Também, já é um idoso de 51 anos de idade. É essa a história do salão.
CN: O desenho é, por algumas
pessoas, visto como uma arte inferior, mas não é menos grandioso, mesmo porque
as caricaturas, as ilustrações, charges estão ali para fazer uma crítica, fazer
a pessoa pensar. Então, é uma visão errática.
Fausto:
A Arte pela arte é contemplativa. A gente, aqui, julgando os trabalhos, um ou
outro júri fala: “mas o que ele quer dizer com isso?”. Esse tipo de arte, tanto
a contemporânea quanto a clássica, ela não tem objetivo de mandar um recado,
ela tem o caráter contemplativo, você olha uma tela e gosta ou não gosta.
Aquilo mexe com você de alguma forma, mexe com seus sentimentos. Ela ativa
lembranças que você tem de paisagens, de momentos, de cores, formas. E aquela
obra remete você a essa forma de aceitar ou não com prazer o contemplar a obra.
O desenho de humor nem sempre é cômodo. Ao contrário, da maior parte, o
objetivo é incomodar. Ele incomoda porque toca na ferida, é uma forma aguçada
de cutucar o ser humano para a própria desgraça. Às vezes, os desenhos fazem
rir, mas também fazem chorar.
CN: Você é um artista plástico, desenhista,
mas também está aqui como Jurado de Salão de Artes, no 36º do Salão de Artes Plásticas
de Arceburgo. Como é a sua visão das artes de um modo geral como artista e como
jurado?
Fausto:
Eu divido bem as funções, porque como artista eu quero expressar um sentimento,
é a forma como eu vejo o mundo. Eu posso pintar um ovo de vermelho e preto, não
existe ovo vermelho e preto, mas na minha concepção, as vezes você quer fazer
as pessoas reagirem a uma forma de expressão, que faça com que elas se
comuniquem com o artista, através da obra, é não verbal. Quando eu faço meu
papel de artista, faço um desenho, eu logicamente me preocupo com técnica. Se,
ao escrever, você escrever com a letra que não seja legível, além de não transmitir
a ideia, talvez a pessoa não consiga nem ler. Quando quer transmitir um pensamento,
o desenho da letra tem que ser perfeito, de forma que você consiga ler e se
preocupe com o que está querendo dizer e não com a forma da letra. Quando você
tem um monte de garranchos, você tem que interpretar, perde o sentido, o
sensorial, a parte conceitual se dilui no tempo que você perde para tentar
interpretar um texto. O desenho, da mesma forma que eu quero transmitir para
você uma ideia, se quero transmitir sensualidade, força, o formato do traço sobre
o papel é limpo, papel com fundo branco, com cores berrantes, faz com que você
desperte no outro uma tentativa de ler o que o artista quer dizer. Me preocupo
com a técnica e com o conteúdo. Agora, quando vou julgar, quando faço parte
como jurado, a primeira coisa que gosto de analisar é, que nem sempre é possível,
o contexto do artista. Se é um artista que produz, que aquele modelo, aquela
forma de arte é a sua forma de expressar os seus sentimentos pelo mundo ou como
ele vê o mundo, ou se é uma profissão. Existe uma grande divisão do artista do
profissional da arte. O profissional da arte as vezes mira um salão de arte,
uma galeria, um objetivo único e exclusivo comercial, e o artista mais puro, mais
conceitual, ele faz arte independente se vende ou se não vende, se ganha prêmio
ou se não ganha prêmio. Ele não faz arte para os jurados. Ele expressa o que
vai no sentimento dele. Lógico que ele se preocupa com a forma, que é o
trabalho, porque ele quer passar aquela mensagem. Esse mais profissional, além
de passar a mensagem, ele elabora a arte de forma que ela tenha impacto do
ponto de vista de comunicação. Como júri, vejo um pouco desses dois aspectos: é
um artista por natureza conceitual ou é um artista mais galerista, comercial.
Depois, olho também a profissão, se eu puder ter visto obras antes, para você
perceber se existe uma evolução, se aquilo é uma linguagem própria dele ou se
ele muda de técnica, de parâmetros, conforme a onda. Também gosto de ver essa
parte da escolha de material, da técnica. Tem, às vezes, excelentes desenhistas
e que escolhem a técnica errada e, na técnica que ele escolheu, não consegue
ser aquilo que ele seria se deixasse o traço livre. Antes de tudo, o desenho.
Mesmo o desenho colorido, a imagem, a gente fala: “ah, mas a pessoa nem
desenha, ela vai pintando”, sim, mas o cérebro esta desenhando, quando ela
começa a pintar é porque o desenho já está na cabeça. Eu tento olhar um quadro
não da forma que ele vai impactar o público do salão, eu olho primeiro esse
artista, qual o comportamento dele. Depois, tem uma segunda visão, como júri,
que eu falo: “quem se desloca da casa dele para vir ao salão de artes, precisa receber
uma carga de informação que ele não receberia se ficasse sentado na sala da
casa dele”. O salão tem por obrigação transmitir novas verdades, novos
estímulos, para que a pessoa pense que existe uma outra forma de pensar. Às
vezes, a gente escolhe a opção de quadros, por exemplo, você dá notas como
jurados, para quadros que às vezes vai impactar, você viu o exemplo hoje: o quadro
da senhora nua, uma idosa nua. Se fosse uma jovenzinha, estava bem, mas como é
uma idosa, ela agride a nossa estética, não agride a moral, agride a estética.
Pois nossos valores são os valores que nos impõe a internet, a mídia
televisiva, formam nossos conceitos e criam nossos preconceitos. Quando aparece
uma obra dessa, que pode representar um despertar: “olha, você vai ser velho,
você vai ser idoso daqui a pouco”. Isso é ser idoso. Aí, eu me esforço para
tentar fazer aquela obra chegar no pódio, porque ela pode representar uma
mudança conceitual do próprio salão. Ali não é um lugar para recriar. “Nossa,
eu vou levar meu filho de 6 anos para ver um quadro de uma idosa nua?”, mas dá
o telefone celular na mão dele e ele entra em filme pornográfico, é utilizado
de uma forma totalmente descontrolada, com uma mídia extremamente antiética.
Não é que é antiética, por decidir ser antiética, é porque ela não tem filtros.
E se você quer uma mídia com liberdade para que as pessoas possam escolher
aquilo que querem, tem que ser assim mesmo, nós temos que criar um filtro pela
educação e não pela moral. Então, levar uma criança para ver uma obra fale: “Isso
aqui é a vovó pelada”, não pode ser visto de uma forma negativa e nem
pejorativa e como a valorização do ser humano por aquilo que ele é. É um pouco
do Salão de Humor de Piracicaba: rir da desgraça alheia. Quer dizer, uma mulher
idosa nua, é feio? Depende do olhar.
CN: Nas artes, a gente vê muito, e
vimos muito isso hoje durante o julgamento, o belo e o grotesco. O que é isso:
o belo e o grotesco nas artes, indo até um pouco para a filosofia?
Fausto:
O grotesco incomoda e o belo, claro que não. Incomoda o grotesco, mas desperta.
Eu não estou falando para você partir para o extremo do mau gosto, mas é quando
você consegue unir um causar certo incômodo para te despertar e aquela
pincelada generosa com açúcar, para ficar doce. Você pode colocar um pouco de
doce na realidade, mas é preciso discutir a realidade, é preciso expor a
realidade, e aqui é possível ver obras que, às vezes, as pessoas ficam um pouco
temerosas de que você avance, que você incomode um pouquinho o status quo moral
que existe em algumas localidades. A gente fala “Ah, estamos em Arceburgo, em
Mococa, no interior”. Sim, mas hoje existe interior depois da internet, depois
do telefone celular, da TV? Hoje a gente está aqui sofrendo junto com o povo
gaúcho uma enchente; estamos vivendo aqui os horrores de uma guerra injusta,
que é a questão dos palestinos; assistimos daqui uma inexplicável invasão russa
à Ucrânia, sem qualquer sentido lógico no século XXI. Estamos na terceira
década do século XXI, e um país invadindo o outro! Eu volto na Idade Média,
volto a coisas que não tem mais cabimento, não é razoável no mundo atual aonde
você tem a possibilidade de um diálogo, ultrapassando qualquer limite.
CN: Nós voltamos a barbárie.
Fausto:
Exato! E é barbárie ver crianças mortas, morrendo de fome. Então, isso agride.
Agora, tudo bem que você pode esconder isso atrás de cenários, mas a gente está
sentindo isso no dia a dia. Você abre a internet, o celular, você recebe
quatrocentas mensagens sem filtro algum. Você vê uma criança morrendo numa
explosão de bomba, como você vê um cara levando um tiro na rua em São Paulo em
troca de um celular, relógio, tira a vida da pessoa. Esse choque de realidade
faz com que a gente viva um momento de severa transformação da sociedade. Eu
estou esperando o Renascimento, porque mergulhamos na Idade Média com essa
coisa dos palestinos, da Rússia. São 69 conflitos acontecendo simultaneamente
no mundo, fora as questões climáticas, os grandes desastres: terremoto,
maremoto, tsunami, enchente, chuva em exagero, seca em exagero. Fora todo esse
contexto, temos 69 conflitos de nações, tribos, na África, na Ásia, acontecendo
exatamente nesse momento. No Brasil, a cada hora, 04 mulheres são estupradas e 02
assassinadas. Que mundo estamos vivendo? A gente fugir dessa realidade acho que
é impossível, estamos no meio dela, mas estou, sinceramente, me sentindo um
pouco na Era das Trevas, esperando o Renascimento. Dizem que a Inteligência Artificial
vai contribuir com isso, não sei. Tenho muito temor. O temor é em saber como o
ser humano usa essas ferramentas extremamente avençadas. Não tenho medo da
ferramenta e nem do avanço tecnológico, tenho medo é da mente humana.
CN: Entrando um pouco na junção da
arte e política, nesse comparativo, vemos muito o uso da arte para causar
revolta, indignação e para chamar a atenção para certos movimentos. Por
exemplo, estes dias, duas senhoras invadiram um museu de Londres para tentar
destruir a Carta Magna; já vimos diversos atentados à Monalisa, tudo para
chamar a atenção. Por que acontece isso na sua concepção e como você julga
esses movimentos?
Fausto:
Demonstra claramente que a arte é tão atraente que ela pode servir de
instrumento para causar algum tipo de indignação. Então, quando ninguém olha
para mim e eu ataco a Monalisa, certamente vão olhar para mim. Se eu ataco as
Torres Gêmeas, o símbolo do capitalismo americano, é para fazer com que as
pessoas acordem para aquela realidade. Isso só demonstra o valor da arte, a
arte, quer queria ou quer não queira, vista como elitista, infelizmente. Você
tem os grandes museus, grandes galerias que transformaram grandes obras de arte,
que não nasceram para ser isso, em produtos de alto valor de mercado. Você está
agredindo não a arte do ponto de vista da expressão artística de um pintor, e
sim o que ela se transformou, um símbolo de poder, de valor. Quando fala “a
obra de 50 milhões de obras foi leiloada”, “a obra de 20 milhões foi roubada”,
tira o valor e coloca a arte como arte, por que essa arte é importante? O fato
das pessoas agredirem a arte não estão agredindo a expressão do artista. Raramente.
Logicamente que tem movimentos moralistas que atacam pintores, por exemplo,
como houve sempre. Egon Schiele, que era atacado pelos nus que fazia, todo
mundo pintava nus, a vida inteira. Renascimento eram só nus, a Capela Sistina
era tudo nu, mas Egon Schiele tinha uma forma de expressar com realismo e com
certo traço decadente, e era agredido em função disso, era criticado. Quando a
arte passa a incomodar pela própria arte, ela só é agredida por movimentos
contrários de caráter moralista, mas quando é atacada em um museu, numa
galeria, um grande centro, é o que ela significa como símbolo de poder, como
símbolo de valor, capitalista. O que arrebentou a Pietá, ele era meio louco,
mas a intenção não era destruir e estátua porque era do Michelangelo, mas destruir
a estátua porque era o símbolo da perfeição, e ele miserável da porta de fora
ninguém olhava. Os contrastes dessas coisas. Os movimentos políticos sempre
utilizaram a arte como fermenta positiva, não como negativa. Os grandes
cartazes, antes da internet, do telefone, o grande instrumento de comunicação
eram os cartazes, eram feitos exatamente por quem fazia arte.
CN: Já encerrando, geralmente peço
para meus entrevistados uma mensagem aos nossos leitores.
Fausto:
Primeira coisa, persistir nesse caminho que vocês estão seguindo. Segundo, ser
resiliente. A gente pode até se curvar, como o coqueiro se curva, como a
palmeira se curva, mas voltar a posição que a gente acredite ser ideal. Tenho
que ser claro, o que é o ideal? É a gente lutar para que o ser humano, qualquer
ser humano, de qualquer classe, categoria, etnia, religião, tenha uma coisa
chamada dignidade. Dignidade reside em você ter oportunidade de construir a
própria felicidade. Então, se a arte, o trabalho cultural, trabalho de
organizar eventos, qualquer tipo de trabalho que possa ter como endereço
construir a felicidade do outro, acho que é uma grande lição e que a gente deve
abraçar. É um desafio que devemos abraçar.