sexta-feira, 6 de setembro de 2024

O BENEMÉRITO CÔNEGO PAULO HAROLDO RIBEIRO


Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti.

O cônego Paulo Haroldo Ribeiro nasceu na cidade de Ribeirão Preto, SP, aos 14 de março de 1921, sendo filho do senhor Lauro Ribeiro e de dona Maria de Moura Ribeiro. Em sua cidade natal, cursou o ensino primário e ginasial, realizando estudos de violino e teoria musical. Ingressou no Seminário Central do Ipiranga, formado em filosofia pura e teologia. Não obstante tamanha formação, ainda era poliglota, dominando muito bem latim, grego e espanhol. 

Por meio de Portaria da Diocese, datada de 30 de junho de 1950, foi designado para a Paróquia de São Sebastião, em Mococa, SP, assumindo-a no dia 15 de julho de 1951, em cerimonial iniciado às 9h30, presentes, dentre autoridades e civis, representantes das Associações Religiosas locais, inclusive a Ordem Terceira. O cônego Adauto Vitali foi incumbido pelo Bispado de Ribeirão Preto de dar-lhe posse, celebrando a missa às 10h, quando, pela primeira vez, falou com os seus paroquianos. 

Em Mococa, padre Paulo Haroldo foi colaborador do semanário A Mococa ao longo de quase toda a sua estadia na paróquia. Assinava uma coluna, onde tratava dos mais variados temas, assumindo, de certa forma, a função de jornalista. No artigo viabilizado na edição de 12.04.1953, intitulado “Mais uma luz no horizonte”, declamou sua reverência ao jornalismo: “Não devemos ter ilusões. Por este motivo é que concordo sempre com Giordani, quando afirmava: ‘O jornalismo é uma artilharia de maior alcance, mais extensamente atroadora e mais fortemente destruidora do que os canhões’”. Crítico, em outro artigo do mesmo ano, “Paradoxos”, escreve que “ouvimos aqui e ali o conclamar constante à uma liberdade sem peias, que deixou de ser democracia para tornar-se anarquia. É a revolução política que presenciamos boquiabertos”. Foi um verdadeiro leitor de seu tempo. 

Padre Paulo Haroldo obrou para que a pequena capela da Santa Cruz fosse inteiramente reconstruída, agora como a Igreja da Santa Cruz. Foi uma obra astuciosa, iniciada em abril de 1954. A inauguração ocorreu em 21 de abril de 1955, com a presença do Monsenhor Dr. João Laureano, porém, segundo consta no Livro de Tombo da Paróquia de São Sebastião, o pagamento das dívidas da construção seria concluído apenas em 1957 e a reforma encerrou apenas em 1959. Em retribuição a todo o seu trabalho, foi nomeado Cônego. Pouco depois, padre Paulo Haroldo despediu-se de Mococa em 27 de novembro de 1960, em um cerimonial que contou, inclusive, com os cânticos do Coral da Santa Cruz. Sua partida foi muito sentida para a população mocoquense, que o viam não apenas como o líder católico, mas como professor e conselheiro. 

Foi destinado à Paróquia de São João da Boa Vista, atuando como chanceler do bispado, capelão, vigário e consultor diocesano. Por onde quer que passasse, padre Paulo Haroldo deixava um legado religioso, social e cultural que era elogiosamente lembrado. Enviado à Curitiba, PR, assumiu diversas funções, como capelão do Departamento de Estabelecimentos Penais do Estado, do Colégio e Internato Paranaense e da Igreja de Santa Catarina de Laboreaux. Também, dirigiu o Departamento de Opinião Pública Sul 2, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e coordenou o Movimento dos Emaús para jovens. 

Desde o tempo que esteve em Mococa, já atuava como professor de diversas matérias, incluindo línguas, História, sociologia geral e psicologia. Em Curitiba, foi convidado para lecionar teologia moral, sociologia e cultura religiosa na PUC. Preocupado com o social, fundou diversas entidades filantrópicas e comunitárias pelas cidades onde passou, inclusive, o Centro Social Católico de Mococa, em 1º de julho de 1959. 

Como jornalista, foi redator-chefe do Diário de Notícias de Ribeirão Preto; editor e diretor do A Cidade de São João, em S. João da Boa Vista; colaborador do A Mococa; e colaborador do Gazeta do Povo, O Estado do Paraná e do Diário do Paraná, estes três últimos em Curitiba. Também dirigiu e co-produziu um programa na TV Paranaense. 

Padre Paulo Haroldo Ribeiro faleceu em sua residência às 02h30 do dia 31 de agosto de 1996, sendo sepultado no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, em Curitiba, PR. Por força da Lei nº 9.037, de 1997, cuja indicação foi apresentada e elaborada pelos vereadores da Câmara Municipal de Curitiba, Rosa Maria Chiamulera e João C. Derosso, um logradouro público recebeu seu nome. Deixou um rico legado e, em Mococa, sua memória ainda é celebrada com reverência. 


Fontes:

Indicação da Câmara Municipal de Curitiba, datada de 19 de dezembro de 1996;

Jornal A Mococa, arquivo da Casa de Cultura “Rogério Cardoso” (período consultado 1951 até 1956);

Livro de Tombo da Paróquia de São Sebastião de Mococa, aberto em 23.05.1947; 

PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. São Paulo: Alfa-Omega, 1995.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

MARIA ELIZABETH REZENDE, PRODUTORA DE CAFÉ ARCEBURGUENSE, EM EVIDÊNCIA NO CULTIVO ORGÂNICO

 

 


“Quando o café veio para o Brasil, se não me engano, foi em 1727, Francisco de Mello Palheta trouxe e plantou inicialmente na Amazônia. De lá para cá, depois da decadência da Mineração, ele foi plantado no norte do Brasil, depois veio para o Vale do Paraíba, até se espalhar para a região sudeste – e quanta coisa mudou!”, disse a professora e produtora, Maria Elizabeth Rezende. “Foi graças a produção cafeeira que o Brasil iniciou o processo de industrialização”, complementou.

Maria Elizabeth Rezende foi professora da rede pública de ensino de Arceburgo durante 32 anos, lecionando Geografia. Nascida na zona urbana, disse ter “alma rural”. Seu avô não possuía terra própria, porém, plantava para o sustento da família. Sua mãe plantava verduras no quintal de sua casa, uma produção orgânica, que era apreciada pelos arceburguenses. Anos depois, a “alma rural” despertou-lhe o interesse de adquirir uma propriedade rural, junto de seu sobrinho, Ivan. Nascia o sítio “Estância Córrego do Moinho”.

Desde a aquisição do sítio, há 12 anos, desejava realizar o cultivo de alguma planta. Decidiu pelo café, durante a pandemia. O extencionista da EMATER de Arceburgo, Antônio, aconselhou-a e colocou-a em contato com Geraldo, extencionista agropecuário da EMATER, que passou a acompanhar todo o processo. Em 21 de junho de 2021, começaram a preparar a terra. Contratou um serviço público para auxiliá-la, disponível para produtores rurais. Teve ajuda dos senhores Alceu, José Pedro, Elton e Nilson. As 5.000 mudas de café-arara chegaram em 09 de dezembro daquele ano, terminando o plantio no dia 27 no mesmo mês.

Firme na convicção de realizar uma produção orgânica, passou a plantar sorgo e feijão-guandú próximo às mudas, pois ambos ajudam a trabalhar a terra. “Tem gente que fala assim: ‘O veneno é muito prático’ e é mesmo, mas você não pode pensar no solo como terra – ele é vivo!”, pontuou. “O fato de eu ter trabalhado com Geografia, trabalhei a parte da natureza, a parte humana e a parte social. Eu trabalhei muito e li muito sobre a questão dos problemas ambientais. Então seria contraditório”, conclui. Desde o começo, trabalhou com a produção orgânica.

No ano passado, o resultado começou a aparecer. Uma senhora, Vita, informou que um técnico em cafeicultura, chamado Wellington, estava trabalhando em Mococa. Elizabeth teve um contato anterior com ele no período da pandemia. No dia 11, Corpus Christi, Wellington levou uma amostra para análise pelo laboratório da Fazenda Fortaleza, grande produtora de produtos orgânicos. Valeu a pena a espera: seu café obteve 85,5 pontos na análise sensorial. Em uma segunda análise, alcançou 86 pontos.

Auxiliada na comercialização, as proprietárias, Julia e Nádia, de uma cafeteria em São Paulo, denominada Por Elas, adquiriram o café de Elizabeth. “Hoje, elas trabalham só com café produzido por mulheres”, disse. As duas empresárias fizeram o lançamento do café no The São Paulo Coffee Festival, que ocorreu na capital paulista de 21 a 23 de junho.

O extencionista da EMATER, Geraldo José Rodrigues, que trabalha com a certificação de propriedades cafeeiras, informou que trabalhar com a Elizabeth foi uma oportunidade de crescimento profissional muito grande. “Um café que, em sua primeira safra, foi campeão de qualidade, já teve seu mercado encaixado por conta dessa qualidade, para nós, da EMATER, é muito gratificante, pois esse é o nosso objetivo”, disse. Geraldo ainda conta que a propriedade da Elizabeth foi uma escola, pois, com a experiência, agora “tem condição de atender outros produtores que possuem o mesmo princípio, de produção orgânica”. Agradeceu muito à Elizabeth, e ressaltou que, em um mundo praticamente masculino do café, ela está conseguindo vencer, pois é empenhada e dedicada no seu trabalho.

Elizabeth agradeceu a todos os envolvidos, e ressalta que o fruto de seu trabalho é um presente de Deus, a quem, sobre tudo, dedica os seus mais sinceros agradecimentos.  

O café pode ser adquirido no ARCEARTE, à Praça Dr. Herculano de Paula Borges. Para os que desejarem, podem seguir a “Estância Córrego do Moinho” no Instagram e acompanhar a produção e as conquistas de Elizabeth.



OS DONS NASCEM CONOSCO OU SÃO DESENVOLVIDOS?

 

 

Em 2017, data de minha primeira participação como membro da Comissão Organizadora do Salão de Artes Plástica de Arceburgo, pude aprender muito sobre artes com o julgamento das obras pelo júri, todos membros de grande conceito junto às artes plásticas, nacional e internacionalmente. Na ocasião, após a avaliação e premiação, tivemos uma pequena confraternização com os jurados e, em meio a uma conversa agradável, um deles, arquiteto e artista, Fabio Eluf, ao descobrir que eu era um incipiente artista plástico, questionou-me se os dons artísticos são inatos ao indivíduo ou se são adquiridos com o tempo e a prática.

Não pensei muito e respondi que ambas as situações estavam corretas, pois existe algo dentro de cada pessoa que o impulsiona para determinada área, parecendo até mesmo uma facilidade, mas também não é impeditivo que alguém adquira e aprenda a técnica com muito estudo, prática e determinação – uma tríade necessária. Pareceu-me satisfeito com a resposta e os outros membros, Magno Ribeiro e Linaldo Cardoso, também grandes nomes das artes, assentiram com a colocação.

Ultimamente, peguei-me divagando sobre tal assunto, porém, com um pouco mais de maturidade do que na época, afinal, passaram-se sete anos e muita coisa mudou. Sócrates e Platão eram defensores do inatismo, um conceito da filosofia que defende a origem dos dons e predisposições dos indivíduos como sendo algo que nasce consigo. O conhecimento seria despertar aquilo que já está dentro de nós mesmos. Descartes também era um defensor de tal pensamento, concluindo em sua obra que as ideias inatas são a assinatura do Criador, segundo a filósofa Marilena Chauí. Se deixarmos brevemente a filosofia pela biologia, tais predisposições podem estar inscritas até mesmo no DNA de cada um, justificando, no desenvolvimento, certas inclinações. Não trata-se de determinismos, deixo bem claro.

Em contrapartida, diversos pensadores não convenceram-se pelo surgimento inato das ideias e conceberam o empirismo, tendo como principais defensores Bacon, Hume e tantos outros. Para os empiristas, o conhecimento é adquirido por meio das experiências que, ao atingirem os nossos sentidos, nos fazem aprender. O ser humano possui, via de regra, cinco sentidos que o ajudam a reconhecer a realidade, fazendo com que as coisas apareçam para si e seu aparelho cognitivo interprete-as. Tomás de Aquino e Hannah Arendt defendem que existe o sexto sentido, que une os outros cinco, representado pelo que entendemos por “senso comum”, sendo aquilo que faz com que os objetos apareçam iguais para todos. É o atributo que faz os seres humanos se sentirem membros da mesma espécie. Assim, as experiências despertam o conhecimento.

Tais ideias, o inatismo e o empirismo, apresentaram-se naquela pergunta acima, que deu origem ao pequeno artigo aqui desenvolvido. Kant foi mais longe e criticou ambas, pois considerava que ambos os tipos de filósofos buscavam o conhecimento a partir da realidade, interna e externa, enquanto deveriam compreender a verdadeira raiz, que é a própria faculdade de conhecer. É a origem do pensamento, das artes, das leis, de tudo o que hoje existe no mundo. Sim, conhecimento é poder, basta saber aonde e como procurá-lo.

Concluo posicionando ainda o que defendi há sete anos: existe conhecimento que é natural ao indivíduo, mas também o conhecimento que é absorvido pelas experiências vividas. Mas sem a cognição, sem a faculdade de pensar e interpretar o que pensamos e absorvemos, de nada adiantará ter o conhecimento em si ou absorvê-lo pelos sentidos. Será informação subsumida ao inconsciente, que em nada agregará, pois não houve um real aprendizado. Tudo passa pela mente e, nas palavras do dr. José Geraldo, da UnB, “a gente só vê o que tem cognição para ver”, e a realidade é o recorte que fazemos com base no que temos inscrito em nossa própria cognição, que, muitas vezes, é incorporada sob a visão do outro, os falsos ídolos tão bem descritos por Bacon.

ONDE RESIDE O PODER?

 


Há um diálogo bem interessante na saga As Cônicas de Gelo e Fogo, livro A Fúria dos Reis.  Duas personagens dialogam e lorde Varys desfere o seguinte enigma ao lorde Tyrion: “Numa sala estão sentados três grandes homens: um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele que mate os outros dois. ‘Faça isso’, diz o rei, ‘pois eu sou seu governante por direito’. ‘Faça isso’, diz o sacerdote, ‘pois estou ordenando em nome dos deuses’. ‘Faça isso’, diz o rico, ‘e todo este ouro será seu’. Agora, diga-me: Quem sobrevive e quem morre?” (Ed. Suma, p.48).

Paralela a tal indagação, surge outra, tão intrigante quanto: onde reside o poder? No presente enigma, o poder parece representar-se em três formas: pela governança, pela divindade ou pela riqueza, e os três grandes homens usam de tais objetos para sujeitar o mercenário à sua vontade. Se interpretarmos pelo “argumento da autoridade”, recairemos em uma falácia tremenda, pois os três homens, em teoria, representam figuras de autoridade: o rei é a figura mais alta em um reino, e é esperado que goze da vassalagem de seus súditos; o sacerdote é o intérprete da vontade dos deuses, mas seu nicho limita-se aos seus fiéis; e o homem rico, representando o poder econômico, possui conceito ante a sociedade. O poder pode residir simultaneamente em todos eles, em formas diferentes.

Embora seja um enigma em um livro de fantasia, parece-nos muito pertinente para o presente momento, pois vivemos uma época voltada de forma frenética à disputa pelo poder político: período de eleições municipais. No que tange a vida como um todo, escolhas devem ser feitas e escolher um lado necessariamente implica em excluir todos aqueles que não comungam das ideias comuns do grupo. É como diz Norberto Bobbio, no livro Direita e Esquerda: direita e esquerda são termos excludentes, pois não pode um movimento ser simultaneamente os dois. Escolha e arque com seus resultados.

Na escolha, que cabe ao povo, carece usar o convencimento de que o candidato fará o melhor pela comunidade. Em termos práticos, as promessas somente serão comprovadas se o candidato for eleito, pois em tempos de campanha não há efetivamente qualquer prática, apenas gera-se a expectativa de que faça algo se eleito. Na verdade, quem escolhe não possui qualquer atributo que lhe compete o poder de eleger alguém, pois o voto possui o mesmo valor para cada eleitor, da mesma forma que o mercenário do enigma acima não possui qualquer aptidão especial.

Portanto, resta procurar a resposta certa. O poder reside onde acreditamos que ele reside, é uma sombra na parede que pode matar: esta é a resposta de lorde Varys. O mercenário acolheria o pedido de quem ele acreditasse que possui efetivamente poder. O governo, os deuses ou o ouro. Mas é sua espada que possui o condão, da mesma forma que o voto do povo possui o peso de escolher um dirigente, como o polegar dos césares romanos decidia pela vida e pela morte. É um “click” e está feito!

O povo acredita que o poder e a autoridade estão nos que ocupam momentaneamente os cargos do Poder Executivo, encerrados em seus gabinetes; ou naqueles que possuem poder econômico e que retribuirá a “gentileza” da contratação; ou em quem propaga a palavra de Deus, que aconselha e guia em nome Dele.

A autoridade, onde existe qualquer subterfúgio, deixa de existir. Não é a argumentação, as poses, a força, a coerção, o cargo, a promessa ou o suborno que irão conferir a autoridade a alguém. Ela é maior que um conselho e menor que uma ordem, diz Hannah Arendt. Embora andem juntos no caminhar da sociedade, autoridade e poder não carecem de qualquer atributo. Porém, o povo acredita que estão nas figuras eletivas; acredita tanto que esquece quem efetivamente possui o poder: o próprio povo!

 

O POVO É O SOBERANO!

 

 

Vivemos em uma democracia. Eis o fato. Conceitualmente, é um regime de governo onde o poder é conferido ao Terceiro Estado, ou seja, ao povo, que delibera, direta ou indiretamente, sobre o curso do país. A democracia brasileira é indireta, vez que os cidadãos elegem seus representantes que irão efetivamente legislar e administrar a Res Publicae, porém, resguardada a soberania popular, a Constituição Federal permite a consulta pública por meio de plebiscitos e referendos, bem como a elaboração de projetos de leis, assinados por um percentual dos eleitores.

Pois bem. Viver em uma democracia, hoje, ainda nos permite perceber os resquícios de governos autoritários que existiram desde a proclamação da República, a qual, aliás, foi sucedida por diversos decretos de estado de sítio ao longo dos primeiros mandatos presidenciais, ainda no século XIX.

Nos municípios, vigorava o coronelismo, que foi reforçado pelo governo do presidente Campos Sales, com o chamado pacto dos governadores. No livro Barões da Federação, de autoria do cientista político, Fernando Abrucio, é possível perceber que, mesmo no período da monarquia, o poder era fragmentado e não uno na figura do governante. Quando instaurada a República, o mesmo continuou e a presidência Campos Sales celebrou tal pacto, de modo que os governadores dos Estados se situassem no centro do poder político, vez que garantiam o voto para os presidentes e colaboravam com os coronéis nas eleições dos municípios. Os eleitores, que já eram poucos, participavam de um esquema fraudulento para eleger os candidatos que já estavam eleitos antes mesmo da eleição começar.

Caminhando pelos decretos de estado de sítio e pelos golpes que instituíram ditaduras, chegamos em 1988 e foi promulgada a Constituição Cidadã, que instituiu o Estado Democrático de Direito. Diz o Art. 1º, § único, da Constituição Federal que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.

O povo é soberano, embora há quem acredite no contrário. Jean-Jacques Rousseau, na obra Do Contrato Social, afirma que “somente a vontade geral pode dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade da sua instituição, que é o bem comum”. A sociedade deve ser regida com base neste interesse comum que diz o filósofo. De fato, a soberania, que para ele é o exercício da vontade geral, nunca pode ser alienada. O soberano é um ser coletivo, diz ele. É o povo, os cidadãos.

Rousseau ainda diz que a vontade particular tende, por natureza, às preferências particulares, e o grande receio, hoje, é que pessoas voltadas ao próprio interesse ocupem os cargos eletivos, pois, bem sabe-se, irão governar mais para si do que para o bem da coletividade. Existem formas de ver isso, antes mesmo da campanha eleitoral. Assumir a Administração Pública é, antes, um sacrifício do que uma virtude. É uma entrega para o povo, que confiou no eleito. O governante deve ter respeito por esta escolha. O uso extremado de propaganda somente tem um objetivo: turvar a visão dos eleitores e utilizar da manipulação dos dados e da informação para que seja o candidato conduzido ao cargo pelo voto.

Quando o povo se coloca em posição de subserviência, apenas contemplando e obedecendo, ou observando apenas os próprios interesses, temos a morte da democracia. Diz Rousseau que, a partir do instante que existe um amo, ou seja, um senhor acima dos outros, não há mais poder soberano: é uma relação tirânica, autoritária. Um autoritário só efetivamente se torna isso quando assume o poder; antes, é um idealizador de um projeto perigoso.

Rousseau ainda diz que “nunca se corrompe o povo, mas muitas vezes ele é enganado, e é somente então que ele parece querer o que é ruim”. O povo sabe o que quer; porém, divide-se em classes sociais que possuem interesses diversos. As pessoas mais humildes esperam que o Wellfare State seja efetivo, ou seja, o bem-estar social: abastecimento de água adequado; saneamento básico; acesso pleno à saúde; moradias adequadas; alimentação acessível; educação de qualidade. Porém, há forças que pretendem manter a desigualdade e utilizam de um projeto de alienação para sobrepujar a soberania popular, gerando as massas, que servem, sem compreender, à interesses alheios à sua classe social. Educação e leitura podem ajudar a dirimir a influência nefasta. Cogito ergo sum, disse Descartes.

 

QUANDO RESOLVEMOS NOS SABOTAR

 

 

No diálogo de Platão, Górgias, um dos interlocutores, Sócrates, profere a seguinte máxima: “É melhor estar em desacordo com o mundo todo do que, sendo um, estar em desacordo comigo mesmo” (tradução de Hannah Arendt no livro A dignidade da política). Ora, percebe-se, com base em tal pensamento, uma grande verdade, cada vez mais crescente: o ser humano, cada dia mais, prefere ser dono da razão, justificar seus atos com base nas suas convicções pessoais em detrimento do coletivo.

É paradoxal, pois o ser humano é uma construção social, porém, possui duas capacidades que permitem alguns privilégios: pensar e querer, ou seja, a atuação do ego cognitivo e do ego volitivo. À luz da realidade, dos costumes e da moral, interpreta-os sob sua vontade, acha brechas na razão, rasura o bom-senso.

A vontade de ser é inata, mas entra em atrito com os fatos, com a realidade, pois a personalidade da sociedade é coercitiva, orgânica, estruturada e, sob o indivíduo, exerce forte pressão, que o mesmo luta para compreender e acatar. A cultura de massas e a celeridade das mídias digitais colaboram para tanto, pois tornam idealizadas, palatáveis e sensacionalistas certas questões. Hoje, existe, inclusive, a figura do cancelamento – o extremo da internet.

Contudo, os seres humanos, detentores da liberdade e, ainda assim, condenados a serem livres, para citar Sartre, não sabem como agir com tamanho direito, pois tornam-se figuras quais os cachorros que perseguem carros, sem saber o que fazer se os alcançar. Tornam-se impulsivos e almejam estar além das regras sociais – ledo engano. Talvez, o grande problema de cada pessoa seja o fato de que não consegue aceitar verdadeiramente o próximo e entra em luta constante. “O homem é lobo do homem”, disse Hobbes. A inveja é o pilar; a vontade de ser é a argamassa.

Cada indivíduo deseja dar sentido à vida que lhe foi dada, pautando-se sob seus próprios princípios, mas não pode ter êxito pleno, pois, sendo o legislador de si próprio, irá ser de seu interesse superar as amarras sociais. Nas suas frustrações, parte para outros mecanismos, essencialmente a autossabotagem de sua própria vida. Sendo dono das velhas máximas – “o meu é melhor”, ou “comigo não acontecerá igual”, etc. –, cai nos velhos abismos, lutando no escuro enquanto vozes elogiam os seus erros. O resultado são as frustrações iminentes nos relacionamentos pessoais, no trabalho, na vida de um modo geral. Sendo figura egóica, não acredita em vilipêndios direcionados a si próprio – vide os clichês acima.

Tal prática é comum no interior, aliás, pois a vida corriqueira, sem certos atrativos que centros maiores possuem, faz com que tentem os indivíduos reverter a situação, tornando interessante e menos banal a sua existência. Assim, querem deixar a vida um pouco mais interessante, com evidentes picuinhas e intriguinhas de pequena monta, cuja resolução seria de fácil caminho – mas não querem deixar o motor da vontade de ser. Muitas vezes, situações que duram anos, que despendem tempo e paciência, e acarretam desgaste emocional e físico.

A frustração da existência se dá pela incapacidade das pessoas em entenderem o seu lugar no mundo (em larga escala), e na sociedade (imediata). Entender que o ser humano é mais do que carne e ossos: é um ser dono de consciência, da capacidade de pensar – portanto, deve usar tais atributos e poupar a humanidade de querelas cansativas.

 

DEVANEIO FILOSÓFICO SOBRE CONSELHO FAMILIAR

 

 

Minha tia-avó, a ex-vereadora de Mococa, Neide Falarini Bedin (1947-2015), certa ocasião me disse que, no que tange às ideologias e sistemas de governo, “o mais importante é sermos livres”, e tal afirmação se imortalizou no meu ser. Foi uma situação engraçada, pois eu e meu tio-avô, Renato Bedin, conversávamos sobre governos mundo a fora, vendo o noticiário na TV, quando ela entrou na sala e, categórica, proferiu a tal frase. Muito pensei sobre ela.

Foi Sartre quem disse que a raça humana é condenada à liberdade. Talvez, não saibamos bem o que é ser livre, embora constitua uma grande necessidade. A liberdade tremulava no lema da Revolução Francesa e, após anos servis, os indivíduos perceberam que também eram senhores de direitos, incluindo o de serem livres. Em um artigo do livro A Dignidade da Política, Hannah Arendt diz que, em um mundo livre, liberdade é “o direito assegurado a todos de tratar dos assuntos que um dia foram de César”, ou seja, tem-se o direito de discutir os assuntos que eram monopolizados na mão do governante.

A mesma autora, no lamentavelmente inacabado A Vida do Espírito, afirma que “a vontade livre é uma ilusão inerente à natureza humana”. Pode intrigar, porém, a mente humana, embora racional, também é dada aos achismos e é facilmente influenciada. Quem, de fato, é livre se somos condicionados e alienados pela mídia, pelas ideologias, pela vontade alheia, pelas tradições, pela moral instituída, pela lei? O grande problema é que as pessoas esquecem que a doxa não se confunde com a verdade e pelo processo epistemológico.

Quando os primeiros hominídeos se organizaram em grupos, parte de sua liberdade plena pareceu-lhes ter sido tolhida, e talvez por esta razão que Simone Weil, n’O Enraizamento, escreveu que onde “há vida comum, é inevitável que regras, impostas pela utilidade comum, limitem a escolha”. A liberdade é absoluta, embora o senso do dever para com as leis e da responsabilidade vise orientar a forma de externar a nossa liberdade.

Para Immanuel Kant, “a liberdade (a independência de ser constrangido pela escolha alheia) na medida em que pode coexistir com a liberdade de todos os outros de acordo com uma lei natural” é o único direito original. A escolha, para Kant, é determinada de acordo com as leis da liberdade. É um princípio bem básico, aliás, que pode ser traduzido de forma diferente: o direito sobre a sua liberdade limita-se onde começa o meu direito pela liberdade. A necessidade de leis comuns surge para que não haja sobreposição de um indivíduo sobre o outro, como ocorreu – e ainda ocorre – ao longo da História. Somos livres, porém, para que a convivência seja harmoniosa, leis foram criadas, e não há que se falar leis sem uma entidade que personifique o poder de executá-las: o Estado.

Uma ressalva: diferente do que se pensa, o poder não é um fim, mas um meio para executar o projeto do “bem comum”, embora vemos que existe uma necessidade grande de deter o poder por parte de uma maioria. Ele é mais um fardo que precisa ser carregado do que um bastão dourado.

O mundo se abre de modo diferente para cada homem, de acordo com a posição que ocupa nele”, disse Hannah Arendt, inspirada em Sócrates. Tratar da liberdade, que deve ser defendida pelos governos, é uma forma de garantir que, além de tudo, todos possam agir e escolher com os mesmos direitos e, aliada à igualdade, de possuir os mesmos direitos, sem distinções de qualquer natureza. Agradeço pela minha liberdade que, em governos tirânicos, me seria tirada. Somos tão livres que não sabemos como agir com tanta liberdade. Só não podemos deixar de lado, quando agimos de forma livre, com a responsabilidade esperada nas sociedades democráticas e pela própria razão.

Obrigado, tia, pela possibilidade de reflexão!

ENTREVISTA COM FAUSTO LONGO

 

(Publicado exclusivamente no jornal Cidade News)

Após o julgamento das obras do XXXVI Salão de Artes Plásticas de Arceburgo "Engenheiro Júlio Capobianco", organizado pelo Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo, pude entrevistar o artista e político Fausto Guilherme Longo, desenhista, fundador do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, ex-Senador e ex-deputado da República da Itália. Confira adiante e, ao leitor, aconselho coragem, “ché, seggendo in piuma, in fama non sin vien, né sotto coltre” (Canto XXIV do Inferno, de Dante).

Leonardo Borgheti M. F. Belotti

 

Cidade News: Fausto, primeiramente, obrigado por ter aceito o convite. Geralmente, gosto de começar com alguns dados biográficos. Sua origem, sua formação.

Fausto Longo: Bom, eu sou nascido em Amparo; criado em Piracicaba; desmamado em São Paulo; aperfeiçoado em Roma. Eu sou arquiteto urbanista de profissão, mas o desenho, como ferramenta de expressão, foi o instrumento que eu mais utilizei na minha vida, e a linguagem que eu mais utilizei na minha vida, através do desenho, foi a linguagem do cartoon. Participei da fundação do Salão de Humor de Piracicaba, e eu acho que a linguagem do humor é uma linguagem que acaba instigando, acaba fazendo com que a gente se desperte para aspectos da política ou da vida, do cotidiano que, às vezes, nos faz rir da desgraça humana, mas às vezes nos faz pensar profundamente sobre as consequências e atitudes de governos, de pessoas que tinham uma personalidade um pouco excessiva quando estão no comando. Então, eu sempre usei a linguagem do humor como ferramenta, não para criar a crítica destrutiva, mas o despertar das pessoas.

CN: Quem é a sua maior influência e por qual motivo, tanto para as artes, quanto para a política.  

Fausto: Para as artes, a grande pessoa que me influenciou foi o Zelio Alves Pinto. Além de cartunista, é um artista plástico que tem multiplicidade de fórmulas de expressão através da arte, inclusive o desenho de humor, mas também a arte plástica, a pintura acrílica, aquarela. Ele tem um trabalho extremante expressivo, da minha forma de ver a arte. E também é alguém muito preocupado com o aspecto político, de políticas culturais voltadas para engrandecimento e fortalecimento da figura humana. Então, eu admiro demais a figura do Zélio, e eu tive o Zélio como padrinho na minha arte e como padrinho de casamento, padrinho na vida. É uma pessoa que me serve como referência na minha vida. Na minha vida política institucional, eu tenho duas pessoas que eu sempre coloco como balizadores pela potência de atuação, pela liderança que tinha, que é o João Herrmann Neto, foi duas vezes prefeito de Piracicaba, foi três ou quatro vezes deputado federal. Foi uma figura expressiva na Constituinte Brasileira e é uma das pessoas que ajudaram efetivamente a reconstruir o Estado de Direito no país. E a outra pessoa, nessa mesma linha, e que eu admiro pela coerência, pela ética, pela forma como, até hoje, aos 94 anos, continua lúcido e empenhado na defesa da democracia, que é o Almino Afonso, que foi deputado, foi Ministro do Trabalho do governo João Goulart, foi vice-governador de São Paulo. É uma figura que até hoje eu tenho uma admiração muito grande e o tenho como exemplo.

CN: E como começou a sua carreira política?

Fausto: Por coincidência, começou já no banco escolar, no ginásio, quando um professor, que eu admiro também, vivo até hoje, professor Frederico Alberto Blaum, me convidou para fazer o discurso dos estudantes no dia 7 de setembro na praça pública da cidade. Eu sempre fui um bom aluno nas áreas de história, geografia e português, nas outras áreas, matemática, eu era péssimo aluno. E esse professor de português, o Blaum, tinha sido eleito vereador por Piracicaba e ele gostou de um posicionamento que eu tive durante o discurso. Em plena praça pública, eu gravei de memória o discurso que eu devia fazer e, num certo momento, eu tinha, na minha concepção, que apontar para o mastro da bandeira e falar “e essa bandeira que ora tremula”. Quando olhei, a bandeira não tinha sido hasteada, porque os pronunciamentos eram antes do hasteamento. E eu fiquei com a mão olhando para o mastro e acabei achando uma saída, falei assim: “...que tremula no coração de cada um de nós”. E ele ouviu isso e falou: “Você tem que vir para a política, você tem agilidade mental para perceber uma situação e se colocar de uma forma diferenciada, por que não vem participar da vida política?”. E me levou o livro do Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, e eu fui o filiado nº 144 de Piracicaba.  E a partir daí, eu me encantei com a política, pela possibilidade de participar. Eu era muito ativo. A única coisa que eu não gostava era da rotina escolar, de fazer tarefa de casa, mas eu gostava da movimentação do grêmio estudantil, de organizar festas, excursões, o campeonato de xadrez. Essa atitude demonstrava que tinha uma certa vocação para a área política.

CN: E você foi eleito, no Brasil, para algum cargo eletivo?

Fausto: Com o passar do tempo, fui convidado para trabalhar em uma das secretarias que, na época, aí é quando começou a organização do Salão de Humor de Piracicaba, para a Secretaria de Turismo de Piracicaba, eu fui convidado para trabalhar. E quando acabou o mandato do prefeito Adilson Benedito Maluf, nada a ver com o Paulo Maluf, nem da mesma família, o João Hermann ganhou a eleição para prefeito e me convidou para ser secretário do município. Quando terminou o mandato do João e eu deixei de ser secretário, saí candidato a vereador. Fiquei como suplente e fui diplomado só no final do mandato. Fui vereador em Piracicaba, eleito, mas não tive o exercício do mandato da forma como deveria, porque foi só no final do mandato que acabei sendo diplomado. Aí, vim para São Paulo e fui indicado para algumas funções públicas do governo estadual e depois do governo federal. Trabalhei na Secretaria das Ciências e Tecnologia do Estado, no Ministério de Ciências e Tecnologia, voltei para o Estado e fui para o IPT, Instituto de Pesquisa Tecnológica, onde fui fazer meu mestrado na área de planejamento e tecnologia de habitação. Depois, já continuando, continuei em diversas funções de caráter público. Até o dia que fui convidado para a FIESP, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, para reconstituir o departamento de meio ambiente e desenvolvimento sustentável da FIESP, que tinha uma tradição muito antiga no sentido da indústria se protegendo dos ambientalistas, e eu fui chamado pelo Horácio Lafer Piva, presidente, para dar uma conotação diferenciada para o departamento de meio ambiente, no sentido de entrar na luta e não ficar na defensiva, e fiz uma carreira dentro da FIESP no meio ambiente e depois na área de ação regional. Fiquei 15 anos na FIESP.

CN: Como se deu a eleição ao senado italiano?

Fausto: A minha primeira participação foi em 2008. O Giambattista Serra Di Nervi, que era representante do Partido Socialista no Brasil, precisava montar a lista de candidatos. E ele montou uma lista e levou no consulado para registrar. Nesse dia, o nome dele não passou na lista, porque ele não tinha feito a transferência do endereço dele de uma cidade da Ligúria para São Paulo. A família dele e ele moravam numa cidade perto de Genova, e ele não conseguiu transferir o endereço eleitoral dele para o Brasil, então não podia concorrer nas eleições e o nome dele foi vetado. Mas se o nome dele fosse vetado, não poderia registrar a chapa de oito nomes, e ele começou a colocar nomes desesperadamente e os nomes não passavam, porque eram pessoas que não tinham feito o tal do AIRE, o registro de italiano residente no exterior, como se fosse um registro de que o italiano mora fora da Itália. Então, gera o direito eleitoral dele no lugar aonde reside. Aí, ele colocou meu nome, lembrou que eu tinha cidadania italiana e colocou meu nome e passou. Pronto! Ele me ligou na FIESP, e falou: “Olha, Fausto, me desculpa mas não tinha outro nome para colocar e coloquei seu nome como candidato”. Eu falei: “Serra, eu não posso ser candidato. Aqui na FIESP, trabalhando”. Ele falou: “Não, mas nesse momento, é mais para você ajudar o Partido Socialista Italiano, você sempre teve simpatia por nosso movimento”. Falei: “Não, eu tenho simpatia, mas é que não tenho um trabalho realizado na comunidade italiana”. Enfim, saiu o meu nome na lista e a chapa teve uma quantidade de votos que inviabilizou a eleição do senador brasileiro, Eduardo Polastri. E eu fiquei muito magoado com aquilo, que fiz parte de algo que acabou tirando do Brasil um representante. E fui até o partido do Polastri, na época era dirigido pelo Fabio Porte, hoje deputado, e falei: “Não vamos deixar acontecer essa divisão, acabamos perdendo porque estávamos divididos. A partir de hoje, vou me esforçar para a gente trabalhar junto e tentar, na próxima eleição, eleger um senador nosso, pelo Brasil”. Bom, acontece que essa união do Partido Socialista Italiano e o do Fabio Porte, o PD, mais ou menos um ano após nosso compromisso, na Itália foi feito um compromisso similar: o Partido Socialista fez um acordo com o PDem, o partido democrata. Quando o Fabio foi montar a chapa, para a nova eleição de 2013, os dois partidos concluíram que eu tinha feito essa união aqui no Brasil e que, portanto, eu deveria ser um dos candidatos, e me convidaram a ser candidato a senador, já consciente, mas sabendo que eu não tinha a menor chance de ganhar, porque eu não tinha essa tradição de trabalho com a comunidade italiana, com as associações italianas, com o movimento italiano. A gente tinha tradição do trabalho com mármore, escultores, porque minha família é de mármore e escultura. Bisavô, avô, meu pai, escultores de santos. Na matriz de Mogi Mirim, na torre da matriz, tem um São José esculpido pelo meu avô e meu pai. Acabei saindo candidato e para a surpresa de todos nós, acabei sendo eleito senador da República Italiana.

CN: Quantos votos?

Fausto: Foram 29.750 votos. Os eleitores que participam de eleição italiana são muito poucos, embora esses 29 mil seja algo difícil de conseguir por ser um voto espalhado por dez países. Eu tive 29.750 e o Fabio teve 30 mil. Então, ganhamos os dois. Foi um mandato de cinco anos. Nesse mandato, eu rodei a América do Sul. 419 localidades para entender como funcionava a comunidade italiana, quais os problemas. Eu acabei saindo candidato novamente, daí combinamos que o Fabio sairia senador e eu deputado, e fizemos essa inversão. Eu fui eleito e, infelizmente, o Fábio não foi eleito. Então, completei dez anos de mandato na Itália com duas experiências extremamente positivas para mim, que foi o Senado da República e a Câmara dos Deputados. O melhor ganho dessa experiência foi viver no regime parlamentarista, que é diferente do presidencialismo no Brasil. As decisões são mais democráticas, porque elas nascem no parlamento, e são dois parlamentos. Um tem que referendar o voto do outro. O projeto de lei tem que passar duas vezes na Câmara e duas no Senado, antes de ir para o governo. Foi uma experiência muito rica. Além do que, com ao Itália faz parte da União Europeia, eu era obrigado a acompanhar o parlamento europeu, coisa que eu, aqui em São Paulo, não ia me preocupar com o que estava acontecendo com a política da União Europeia, que estava no meio de um conflito permanente entre os países asiáticos e os Estados Unidos. Tive que compreender como funciona a geopolítica no hemisfério norte para pode fazer projeto de lei, porque não poderia fazer nenhum projeto de lei que não fosse compatível. E tive que olhar como funcionava a política da América do Sul, país por país, porque são 61 milhões de ítalos-descendentes que vivem na América do Sul, eu tinha que acompanhar, porque, se eu fosse perguntado sobre alguma coisa, eu tinha que dar opinião. Mudou a minha visão do mundo. A grande oportunidade que me deu foi entender geopolítica de uma forma totalmente diferente que eu tinha, sentado na Avenida Paulista, na FIESP.

CN: Mudando um pouco da política para as artes, queria que você contasse um pouco sobre a origem do Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

Fausto: O Salão de Humor de Piracicaba tem muito a ver com política, você sabe evidentemente. Na verdade, existia em Piracicaba, vamos dizer, um jornal que tinha um posicionamento bastante liberal, que era O Diário, dirigido pelo jornalista, escritor e historiador Cecílio Elias |Neto. E ele matinha uma equipe no jornal que era bastante diversificada. E, naquela época, nós tínhamos como referência O Pasquim, e a gente tinha uma página recado, nesse jornal O Diário, que imitava um pouco as brincadeiras, cutucando o poder local, com brincadeiras do tipo do Pasquim. Um grupo formado por alguns jornalistas, escritores, cinco ou seis pessoas levaram a ideia tanto para o jornal como para a Secretaria de Turismo, ao prefeito Adilson Maluf, a ideia de fazer, junto com o Salão de Belas Artes, uma exposição de desenhos de humor. E o pessoal o Salão de Belas Artes, com aquela visão tradicionalista, “como permitir desenhos no Salão de Belas Artes?”, “desenho de humor não é arte”. Deu uma confusão tremenda na cidade com grandes nomes da arte local, Arquimedes Dutra, Renato Wagner, Olavo Ferreira da Silva, Alberto Tomasi, enfim, uma quantidade enorme de nomes de pessoas que ganhavam concursos em São Paulo, de arte, gente com muita qualificação, mas naquela arte no sentido das belas artes. Então, esse grupo resolveu falar: “Não pode ter uma exposição de desenho junto com o Salão de Belas Artes, então vamos criar um salão próprio”, e começamos a articular a criação do Salão, que nasce com o sentido de achar uma alternativa para os que tinham o mesmo pensamento que o Pasquim, tanto na escrita quanto no desenho. O desenho, o cartunista, acabava se caracterizando como o verdadeiro crítico. A gente percebia que no eixo Rio-São Paulo, não era possível os cartunistas exercerem a sua crítica, porque a censura cortava. Então, nós criamos uma alternativa, não imaginávamos que fosse virar o que virou, o salão mais antigo e mais importante do mundo, foi fundado em 1974, no meio da ditadura militar.

CN: Teve uma atuação no sentido da resistência, digamos assim?

Fausto: Logicamente que tinha, por exemplo, os conservadores de Piracicaba se colocando contra, tinham desenhos que eram realmente demonstrando a indignação da população, em relação a ditadura, todos clamavam pelo Estado de Direito, o retorno da democracia. Todos queriam votar. Os desenhos representavam, de uma forma irônica, mordaz, cutucavam as pessoas para que elas percebessem que não estávamos vivendo numa democracia, que a decisão era centralizada numa pessoa, num general que não havia sido eleito. Logicamente, os olhares do DOPS, da censura, principalmente aqueles que eram instigados por essa população conservadora. Porque, imagina, Piracicaba, em 1974, quem iria olhar para Piracicaba? “Aquilo lá que eles estão fazendo lá, não vai interferir nunca no nosso projeto de poder”. E foi assim que nasceu a ideia do salão, e vingou já no primeiro. Fomos pedir ajuda para O Pasquim. Saiu uma equipe, que foi para o Pasquim e um grupo que foi falar com Zelio, em São Paulo, irmão do Ziraldo, podia ajudar a gente na relação. Mas quando chegou com a ideia, o Paulo Francis, o Redi, o Ziraldo, Millôr, Jaguar, ficaram entusiasmados com a ideia, e eles todos vieram para Piracicaba, para o primeiro salão. Imagina, você chegar em Piracicaba e fazer um primeiro salão com a presença de Millôr, Ziraldo, Redi, os grandes nomes do cartunismo. E como as pessoas não tinham aonde publicar, a não ser nos jornais nanicos que eram contra, normalmente sindicais, que atacavam a Ditadura, é naquele espaço muito pequeno o que as pessoas tinham, que os cartunistas tinham para expressar suas ideias. Quando abriu Piracicaba, ainda premiando, prêmio alto, pagava 3.000 dólares para o primeiro colocado. Essas pessoas correram para Piracicaba, e começaram a ganhar prêmios, e a surgir e ser convidado para poder publicar em revistas e jornais. Ali nasceu Paulo e Chico Caruso, Laerte, Luigi, Daucio Machado, Carlos Fernandes, Batistão, os grandes nomes do cartunismo de hoje eram tudo uma molecada de 15 anos, que iam frequentar Piracicaba, tinha gente que ia com o pai. E no fim, se tornaram grandes nomes. Paulo e Chico, o Laerte. Foi nesse ambiente que houve a transformação do salão numa espécie de Óscar do humor no mundo. Qualquer cartunista do mundo, o sonho dele é ganhar o premio no Salão de Humor de Piracicaba, é uma referência e se tornou uma referência. Também, já é um idoso de 51 anos de idade. É essa a história do salão.

CN: O desenho é, por algumas pessoas, visto como uma arte inferior, mas não é menos grandioso, mesmo porque as caricaturas, as ilustrações, charges estão ali para fazer uma crítica, fazer a pessoa pensar. Então, é uma visão errática.

Fausto: A Arte pela arte é contemplativa. A gente, aqui, julgando os trabalhos, um ou outro júri fala: “mas o que ele quer dizer com isso?”. Esse tipo de arte, tanto a contemporânea quanto a clássica, ela não tem objetivo de mandar um recado, ela tem o caráter contemplativo, você olha uma tela e gosta ou não gosta. Aquilo mexe com você de alguma forma, mexe com seus sentimentos. Ela ativa lembranças que você tem de paisagens, de momentos, de cores, formas. E aquela obra remete você a essa forma de aceitar ou não com prazer o contemplar a obra. O desenho de humor nem sempre é cômodo. Ao contrário, da maior parte, o objetivo é incomodar. Ele incomoda porque toca na ferida, é uma forma aguçada de cutucar o ser humano para a própria desgraça. Às vezes, os desenhos fazem rir, mas também fazem chorar.

CN: Você é um artista plástico, desenhista, mas também está aqui como Jurado de Salão de Artes, no 36º do Salão de Artes Plásticas de Arceburgo. Como é a sua visão das artes de um modo geral como artista e como jurado?

Fausto: Eu divido bem as funções, porque como artista eu quero expressar um sentimento, é a forma como eu vejo o mundo. Eu posso pintar um ovo de vermelho e preto, não existe ovo vermelho e preto, mas na minha concepção, as vezes você quer fazer as pessoas reagirem a uma forma de expressão, que faça com que elas se comuniquem com o artista, através da obra, é não verbal. Quando eu faço meu papel de artista, faço um desenho, eu logicamente me preocupo com técnica. Se, ao escrever, você escrever com a letra que não seja legível, além de não transmitir a ideia, talvez a pessoa não consiga nem ler. Quando quer transmitir um pensamento, o desenho da letra tem que ser perfeito, de forma que você consiga ler e se preocupe com o que está querendo dizer e não com a forma da letra. Quando você tem um monte de garranchos, você tem que interpretar, perde o sentido, o sensorial, a parte conceitual se dilui no tempo que você perde para tentar interpretar um texto. O desenho, da mesma forma que eu quero transmitir para você uma ideia, se quero transmitir sensualidade, força, o formato do traço sobre o papel é limpo, papel com fundo branco, com cores berrantes, faz com que você desperte no outro uma tentativa de ler o que o artista quer dizer. Me preocupo com a técnica e com o conteúdo. Agora, quando vou julgar, quando faço parte como jurado, a primeira coisa que gosto de analisar é, que nem sempre é possível, o contexto do artista. Se é um artista que produz, que aquele modelo, aquela forma de arte é a sua forma de expressar os seus sentimentos pelo mundo ou como ele vê o mundo, ou se é uma profissão. Existe uma grande divisão do artista do profissional da arte. O profissional da arte as vezes mira um salão de arte, uma galeria, um objetivo único e exclusivo comercial, e o artista mais puro, mais conceitual, ele faz arte independente se vende ou se não vende, se ganha prêmio ou se não ganha prêmio. Ele não faz arte para os jurados. Ele expressa o que vai no sentimento dele. Lógico que ele se preocupa com a forma, que é o trabalho, porque ele quer passar aquela mensagem. Esse mais profissional, além de passar a mensagem, ele elabora a arte de forma que ela tenha impacto do ponto de vista de comunicação. Como júri, vejo um pouco desses dois aspectos: é um artista por natureza conceitual ou é um artista mais galerista, comercial. Depois, olho também a profissão, se eu puder ter visto obras antes, para você perceber se existe uma evolução, se aquilo é uma linguagem própria dele ou se ele muda de técnica, de parâmetros, conforme a onda. Também gosto de ver essa parte da escolha de material, da técnica. Tem, às vezes, excelentes desenhistas e que escolhem a técnica errada e, na técnica que ele escolheu, não consegue ser aquilo que ele seria se deixasse o traço livre. Antes de tudo, o desenho. Mesmo o desenho colorido, a imagem, a gente fala: “ah, mas a pessoa nem desenha, ela vai pintando”, sim, mas o cérebro esta desenhando, quando ela começa a pintar é porque o desenho já está na cabeça. Eu tento olhar um quadro não da forma que ele vai impactar o público do salão, eu olho primeiro esse artista, qual o comportamento dele. Depois, tem uma segunda visão, como júri, que eu falo: “quem se desloca da casa dele para vir ao salão de artes, precisa receber uma carga de informação que ele não receberia se ficasse sentado na sala da casa dele”. O salão tem por obrigação transmitir novas verdades, novos estímulos, para que a pessoa pense que existe uma outra forma de pensar. Às vezes, a gente escolhe a opção de quadros, por exemplo, você dá notas como jurados, para quadros que às vezes vai impactar, você viu o exemplo hoje: o quadro da senhora nua, uma idosa nua. Se fosse uma jovenzinha, estava bem, mas como é uma idosa, ela agride a nossa estética, não agride a moral, agride a estética. Pois nossos valores são os valores que nos impõe a internet, a mídia televisiva, formam nossos conceitos e criam nossos preconceitos. Quando aparece uma obra dessa, que pode representar um despertar: “olha, você vai ser velho, você vai ser idoso daqui a pouco”. Isso é ser idoso. Aí, eu me esforço para tentar fazer aquela obra chegar no pódio, porque ela pode representar uma mudança conceitual do próprio salão. Ali não é um lugar para recriar. “Nossa, eu vou levar meu filho de 6 anos para ver um quadro de uma idosa nua?”, mas dá o telefone celular na mão dele e ele entra em filme pornográfico, é utilizado de uma forma totalmente descontrolada, com uma mídia extremamente antiética. Não é que é antiética, por decidir ser antiética, é porque ela não tem filtros. E se você quer uma mídia com liberdade para que as pessoas possam escolher aquilo que querem, tem que ser assim mesmo, nós temos que criar um filtro pela educação e não pela moral. Então, levar uma criança para ver uma obra fale: “Isso aqui é a vovó pelada”, não pode ser visto de uma forma negativa e nem pejorativa e como a valorização do ser humano por aquilo que ele é. É um pouco do Salão de Humor de Piracicaba: rir da desgraça alheia. Quer dizer, uma mulher idosa nua, é feio? Depende do olhar.

CN: Nas artes, a gente vê muito, e vimos muito isso hoje durante o julgamento, o belo e o grotesco. O que é isso: o belo e o grotesco nas artes, indo até um pouco para a filosofia?

Fausto: O grotesco incomoda e o belo, claro que não. Incomoda o grotesco, mas desperta. Eu não estou falando para você partir para o extremo do mau gosto, mas é quando você consegue unir um causar certo incômodo para te despertar e aquela pincelada generosa com açúcar, para ficar doce. Você pode colocar um pouco de doce na realidade, mas é preciso discutir a realidade, é preciso expor a realidade, e aqui é possível ver obras que, às vezes, as pessoas ficam um pouco temerosas de que você avance, que você incomode um pouquinho o status quo moral que existe em algumas localidades. A gente fala “Ah, estamos em Arceburgo, em Mococa, no interior”. Sim, mas hoje existe interior depois da internet, depois do telefone celular, da TV? Hoje a gente está aqui sofrendo junto com o povo gaúcho uma enchente; estamos vivendo aqui os horrores de uma guerra injusta, que é a questão dos palestinos; assistimos daqui uma inexplicável invasão russa à Ucrânia, sem qualquer sentido lógico no século XXI. Estamos na terceira década do século XXI, e um país invadindo o outro! Eu volto na Idade Média, volto a coisas que não tem mais cabimento, não é razoável no mundo atual aonde você tem a possibilidade de um diálogo, ultrapassando qualquer limite.

CN: Nós voltamos a barbárie.

Fausto: Exato! E é barbárie ver crianças mortas, morrendo de fome. Então, isso agride. Agora, tudo bem que você pode esconder isso atrás de cenários, mas a gente está sentindo isso no dia a dia. Você abre a internet, o celular, você recebe quatrocentas mensagens sem filtro algum. Você vê uma criança morrendo numa explosão de bomba, como você vê um cara levando um tiro na rua em São Paulo em troca de um celular, relógio, tira a vida da pessoa. Esse choque de realidade faz com que a gente viva um momento de severa transformação da sociedade. Eu estou esperando o Renascimento, porque mergulhamos na Idade Média com essa coisa dos palestinos, da Rússia. São 69 conflitos acontecendo simultaneamente no mundo, fora as questões climáticas, os grandes desastres: terremoto, maremoto, tsunami, enchente, chuva em exagero, seca em exagero. Fora todo esse contexto, temos 69 conflitos de nações, tribos, na África, na Ásia, acontecendo exatamente nesse momento. No Brasil, a cada hora, 04 mulheres são estupradas e 02 assassinadas. Que mundo estamos vivendo? A gente fugir dessa realidade acho que é impossível, estamos no meio dela, mas estou, sinceramente, me sentindo um pouco na Era das Trevas, esperando o Renascimento. Dizem que a Inteligência Artificial vai contribuir com isso, não sei. Tenho muito temor. O temor é em saber como o ser humano usa essas ferramentas extremamente avençadas. Não tenho medo da ferramenta e nem do avanço tecnológico, tenho medo é da mente humana.

CN: Entrando um pouco na junção da arte e política, nesse comparativo, vemos muito o uso da arte para causar revolta, indignação e para chamar a atenção para certos movimentos. Por exemplo, estes dias, duas senhoras invadiram um museu de Londres para tentar destruir a Carta Magna; já vimos diversos atentados à Monalisa, tudo para chamar a atenção. Por que acontece isso na sua concepção e como você julga esses movimentos?

Fausto: Demonstra claramente que a arte é tão atraente que ela pode servir de instrumento para causar algum tipo de indignação. Então, quando ninguém olha para mim e eu ataco a Monalisa, certamente vão olhar para mim. Se eu ataco as Torres Gêmeas, o símbolo do capitalismo americano, é para fazer com que as pessoas acordem para aquela realidade. Isso só demonstra o valor da arte, a arte, quer queria ou quer não queira, vista como elitista, infelizmente. Você tem os grandes museus, grandes galerias que transformaram grandes obras de arte, que não nasceram para ser isso, em produtos de alto valor de mercado. Você está agredindo não a arte do ponto de vista da expressão artística de um pintor, e sim o que ela se transformou, um símbolo de poder, de valor. Quando fala “a obra de 50 milhões de obras foi leiloada”, “a obra de 20 milhões foi roubada”, tira o valor e coloca a arte como arte, por que essa arte é importante? O fato das pessoas agredirem a arte não estão agredindo a expressão do artista. Raramente. Logicamente que tem movimentos moralistas que atacam pintores, por exemplo, como houve sempre. Egon Schiele, que era atacado pelos nus que fazia, todo mundo pintava nus, a vida inteira. Renascimento eram só nus, a Capela Sistina era tudo nu, mas Egon Schiele tinha uma forma de expressar com realismo e com certo traço decadente, e era agredido em função disso, era criticado. Quando a arte passa a incomodar pela própria arte, ela só é agredida por movimentos contrários de caráter moralista, mas quando é atacada em um museu, numa galeria, um grande centro, é o que ela significa como símbolo de poder, como símbolo de valor, capitalista. O que arrebentou a Pietá, ele era meio louco, mas a intenção não era destruir e estátua porque era do Michelangelo, mas destruir a estátua porque era o símbolo da perfeição, e ele miserável da porta de fora ninguém olhava. Os contrastes dessas coisas. Os movimentos políticos sempre utilizaram a arte como fermenta positiva, não como negativa. Os grandes cartazes, antes da internet, do telefone, o grande instrumento de comunicação eram os cartazes, eram feitos exatamente por quem fazia arte.

CN: Já encerrando, geralmente peço para meus entrevistados uma mensagem aos nossos leitores.

Fausto: Primeira coisa, persistir nesse caminho que vocês estão seguindo. Segundo, ser resiliente. A gente pode até se curvar, como o coqueiro se curva, como a palmeira se curva, mas voltar a posição que a gente acredite ser ideal. Tenho que ser claro, o que é o ideal? É a gente lutar para que o ser humano, qualquer ser humano, de qualquer classe, categoria, etnia, religião, tenha uma coisa chamada dignidade. Dignidade reside em você ter oportunidade de construir a própria felicidade. Então, se a arte, o trabalho cultural, trabalho de organizar eventos, qualquer tipo de trabalho que possa ter como endereço construir a felicidade do outro, acho que é uma grande lição e que a gente deve abraçar. É um desafio que devemos abraçar.    

DESTRA E SINISTRA

 


Creio que a melhor definição que já ouvi sobre a natureza da esquerda e da direita foi proferida em um discurso, no bicentenário da Independência, pela oradora, professora Rosa Maria Magalhães Bassani de Moraes. Disse, com razão, que não foram mais do que “acidentes de localização” nos tempos da Revolução Francesa. De fato, na Assembleia Nacional Francesa, os partidários da monarquia sentavam-se à direita; os adeptos da Revolução, à esquerda – e assim surgiu a dicotomia. Podemos entender os dois termos como dois grandes grupos que abarcam ideias similares entre si, porém, antagônicas com o outro grupo.

No livro Esquerda e Direita, Norberto Bobbio, o célebre cientista político italiano, diz que esquerda e direita “são termos antitéticos que há mais de dois séculos têm sido habitualmente empregados para designar o contraste entre as ideologias e entre os movimentos em que se divide o universo, eminentemente conflitual, do pensamento e das ações políticas”. Bobbio diz que são excludentes e exaustivos, vez que nenhuma doutrina ou movimento pode ser simultaneamente os dois e somente podem ser ou de esquerda ou de direita.

Bobbio ainda diz que a distinção entre os dois termos “não tem mais nenhuma razão para ser utilizada”, vez que, conforme Sartre, são duas caixas vazias. Tal esgotamento terminológico não faria mais sentido, portanto. Talvez, a culminância dos dois conceitos tenha ocorrido no período da Guerra Fria, quando todo o mundo foi polarizado pela luta sem armas entre Estados Unidos e União Soviética.

Bobbio deixa claro que os dois termos, embora excludentes, quando tratados com extremismo, se tocam, o que pode sugerir que o espectro político não é plano, e sim esférico, permitindo que o lado extremo de qualquer ideologia possua traços antidemocráticos. Logo, os extremistas, sejam eles de esquerda ou de direita, são contrários ao que se entende por democracia. Os maiores exemplos de governos ideologicamente alinhados à direita extremista são a Itália Fascista e a Alemanha Nazista; da esquerda extremista, a União Soviética. Um extremista, seja de que lado for, é inimigo da razão.

Escolher um lado é necessariamente excluir o oposto e, na vida cotidiana, atentamos apenas para nossas próprias convicções e necessidades em detrimento dos demais, do coletivo. Já tratamos em outro artigo neste conceituado veículo de imprensa que a individualização está se extremando cada dia mais. Olha-se mais para a própria casa do que para a rua. O resultado é uma população objetivamente vinculada, reservada ao “direito à desconfiança”, que G. Simmel explicou com primor.

Reside na linha dos paradoxos, pois a mente humana não é integralmente livre, como pensamos, pois nossas convicções são formadas por um processo histórico. Em suma, somos frutos do nosso próprio tempo, e é a sociedade quem condiciona nosso ser. Com base em nosso arcabouço familiar, especialmente constituído pela classe social a qual pertencemos – ou a que acreditamos pertencer, sem de fato constituir parte nela –, percebemos o mundo e exigimos a atuação do Poder Público. Quem realmente busca entender as necessidades dos outros, na tomada das decisões, tentando conciliar uma tese e uma antítese, de modo a criar uma síntese? Olhamos com veemência o que queremos e, com um trator, atropelamos o próximo.

Na verdade, esquerda e direita são termos que abarcam pessoas para um projeto de poder, de modo a colocar uma tarja de “inimigos” naqueles que não seguem tal projeto e, em nosso radicalismo para preservar as nossas próprias ideias, não observamos que o diálogo racional é a saída para todo e qualquer problema. Esquecemos dos princípios básicos da democracia, e ela não abarca qualquer ato de extremismo. O poder não corrompe aquele que já não era corrompido – apenas é um mecanismo para externar uma condição previamente existente. Não se trata, portanto, de brigas ideológicas que irão mudar o curso da História; a grande briga global é entre a necessidade de muitos contra a ambição de poucos poderosos. Auri sacra fames!

A CULTURA DE JUSTIÇA

 

Um lapso arceburguense

A cultura, todos sabem, é todo um arcabouço de princípios, valores, costumes, etc, que nos permite reconhecer os vários agrupamentos que existem. Ninguém pode alegar que não tem cultura, ou que a cultura do outro é inferior, pois é antes algo relacionado à identidade de um conjunto de pessoas do que um fator de supremacia. Quando surgem movimentos de sobreposição de uma cultura sobre outra, ocorre o que a humanidade presenciou inúmeras vezes: genocídio, massacres, guerras infundadas, atos de violência extremos.

A cultura é o que garante o sentimento de pertencimento dos indivíduos à determinado meio e, embora a grande maioria das pessoas entenda que os grupos sociais estejam correlacionados ao conceito de “povo”, nada está mais distante, pois dentro de um mesmo local de convívio, existem diversas manifestações da cultura. Exempli gratia, existe grande divergência entre a cultura da elite e a cultura do povo mais humilde, que mora nas periferias, embora, é claro, aquela tenha a mania de querer superpor-se como se fosse o projeto ideal – mas não entraremos neste mérito.

Como existe, dentro de uma sociedade, um sistema de valores que é esperado ser acatado e adimplido por todos os indivíduos, quando há a violação de tais princípios, o povo espera que seja feita Justiça. Não trataremos, aqui, da sua multifacetada conceituação, porém, basta saber que as pessoas, ao longo dos anos, interpretam o conceito de Justiça como algo correlacionado à ordem; é o equilíbrio do cosmos. A função dos magistrados, por óbvio, é efetivar a Justiça no caso concreto, uma vez que, hoje em dia, a Justiça foi institucionalizada naquilo que Montesquieu chamou de “poder de Julgar”, ou seja, o Poder Judiciário.

Quando da ofensa ao próximo, rompendo as regras sociais e a Lei, desperta na população o sentimento de Justiça, porém, confunde-se tal ideário com o desejo de Vingança, esta reservada à esfera Privada. São antagônicos, pois o justo não age com impulsos ou com o ego volitivo extremado – o que ocorre na Vingança. De fato, querer Justiça pressupõe que a mentalidade social de determinado povo entenda o que significa a “virtude por excelência” de Aristóteles. Um povo que possui cultura de Justiça segue as leis, adota os padrões de comportamento socialmente aceitos, sabe diferenciar o certo e o errado mesmo quando sua realidade difere do que está acontecendo. Os preceitos básicos de convívio estão inscritos na sua mentalidade. A palavra vale muito quando da cultura da Justiça, pois é um contrato tão verdadeiro quanto um contrato escrito.

Ocorre, porém, que existem lapsos, especialmente em um país de cultura coronelista como o Brasil. O autoritarismo era uma regra ao longo do período colonial, do Império e da primeira metade do século XX. Com o avanço das leis no sentido de proteção aos direitos humanos e da democracia, o coronelismo precisou adaptar-se, e encontrou nas lacunas do sistema uma casa, e de sua ravina age contra o Poder do Povo.

Arceburgo nasce nos anos de 1890, já finda a escravidão, sob o patronato dos coronéis. Um povoado no território do município de Muzambinho, cuja sede era demasiada distante. Em 1900, passa o local para Monte Santo de Minas, que já contava com uma incipiente comarca, a partir de 1892, com a instalação. E, depois disso, Arceburgo, mesmo adquirindo sua autonomia administrativa e política, ainda permanece como distrito judiciário de Monte Santo de Minas. Não pense o leitor que estou tecendo críticas ou incitando atos de revolta ou de mobilização. O que está sendo proposto é o entendimento da mentalidade do arceburguense sobre a Justiça.

Feito tal parêntese, ao longo do começo do século XX, o acesso à Justiça institucional encontrava-se apenas em Monte Santo, cujo caminho era distante e em condições não muito adequadas. O povo mais simples e economicamente sem poder não via meios de acessar o Judiciário, ainda mais pela interferência dos coronéis no Poder Judiciário, o que pode ser exemplificado com os 44 promotores que atuaram na comarca de sua instalação até o ano de 1920 – o cargo era de livre nomeação do Governo, e qualquer insatisfação dos poderosos do lugar era motivo para destituição. A população de Arceburgo, constituída mormente de imigrantes, sabia que não podia competir contra os coronéis no Judiciário, o que os levou a tentar dar resolução às suas questões de uma forma pacífica, alheia à esfera judicial. Quando sofria algum calote ou golpe, resignava-se, pois a ida à Monte Santo não valia a pena. E, é claro, dependendo de quem fosse – talvez algum afilhado dos poderosos –, não podiam recorrer às autoridades do lugar, que, possuindo sede pelo poder, agiam sob a proteção do autoritarismo. Parte da população pensava assim; a outra parte usufruía dos receios da outra parcela para agir de forma desigual com relação à moral.

Mesmo hoje a população pensa duas vezes sobre ingressar ou não com uma ação judicial, pois a distância da sede da Comarca desanima-a – reminiscência do início do século XX. O processo judicial eletrônico foi uma inovação que veio, ao meu ver, tentar suplementar tal situação, não apenas em Arceburgo, mas em todos os locais que não são sede de comarca, pois garante a um povo isolado o acesso ao Judiciário. Mais recentemente, o Governo Estadual realizou o leilão das rodovias e, entre Arceburgo e Monte Santo, está em instalação um pedágio – novo reforço ao que já acontecia, pois a ida se tornou mais onerosa. Mas tal situação surge como produto do que ocorria nos tempos do surgimento do povoado e, sendo fato recente na História, ainda não deixou de surtir efeitos na psique coletiva. O povo ainda crê na existência dos coronéis...

                                                                                        

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...