Minha tia-avó, a ex-vereadora de Mococa, Neide
Falarini Bedin (1947-2015), certa ocasião me disse que, no que tange às
ideologias e sistemas de governo, “o mais
importante é sermos livres”, e tal afirmação se imortalizou no meu ser. Foi
uma situação engraçada, pois eu e meu tio-avô, Renato Bedin, conversávamos
sobre governos mundo a fora, vendo o noticiário na TV, quando ela entrou na
sala e, categórica, proferiu a tal frase. Muito pensei sobre ela.
Foi Sartre quem disse que a raça humana é condenada à
liberdade. Talvez, não saibamos bem o que é ser livre, embora constitua uma
grande necessidade. A liberdade tremulava no lema da Revolução Francesa e, após
anos servis, os indivíduos perceberam que também eram senhores de direitos,
incluindo o de serem livres. Em um artigo do livro A Dignidade da Política, Hannah Arendt diz que, em um mundo livre,
liberdade é “o direito assegurado a todos
de tratar dos assuntos que um dia foram de César”, ou seja, tem-se o
direito de discutir os assuntos que eram monopolizados na mão do governante.
A mesma autora, no lamentavelmente inacabado A Vida do Espírito, afirma que “a vontade livre é uma ilusão inerente à
natureza humana”. Pode intrigar, porém, a mente humana, embora racional,
também é dada aos achismos e é facilmente influenciada. Quem, de fato, é livre
se somos condicionados e alienados pela mídia, pelas ideologias, pela vontade
alheia, pelas tradições, pela moral instituída, pela lei? O grande problema é
que as pessoas esquecem que a doxa não
se confunde com a verdade e pelo processo epistemológico.
Quando os primeiros hominídeos se organizaram em
grupos, parte de sua liberdade plena pareceu-lhes ter sido tolhida, e talvez
por esta razão que Simone Weil, n’O
Enraizamento, escreveu que onde “há
vida comum, é inevitável que regras, impostas pela utilidade comum, limitem a
escolha”. A liberdade é absoluta, embora o senso do dever para com as leis
e da responsabilidade vise orientar a forma de externar a nossa liberdade.
Para Immanuel Kant, “a liberdade (a independência de ser constrangido pela escolha alheia)
na medida em que pode coexistir com a liberdade de todos os outros de acordo
com uma lei natural” é o único direito original. A escolha, para Kant, é
determinada de acordo com as leis da liberdade. É um princípio bem básico,
aliás, que pode ser traduzido de forma diferente: o direito sobre a sua
liberdade limita-se onde começa o meu direito pela liberdade. A necessidade de
leis comuns surge para que não haja sobreposição de um indivíduo sobre o outro,
como ocorreu – e ainda ocorre – ao longo da História. Somos livres, porém, para
que a convivência seja harmoniosa, leis foram criadas, e não há que se falar
leis sem uma entidade que personifique o poder de executá-las: o Estado.
Uma ressalva: diferente do que se pensa, o poder não é
um fim, mas um meio para executar o projeto do “bem comum”, embora vemos que
existe uma necessidade grande de deter o poder por parte de uma maioria. Ele é
mais um fardo que precisa ser carregado do que um bastão dourado.
“O mundo se abre
de modo diferente para cada homem, de acordo com a posição que ocupa nele”,
disse Hannah Arendt, inspirada em Sócrates. Tratar da liberdade, que deve ser
defendida pelos governos, é uma forma de garantir que, além de tudo, todos
possam agir e escolher com os mesmos direitos e, aliada à igualdade, de possuir
os mesmos direitos, sem distinções de qualquer natureza. Agradeço pela minha
liberdade que, em governos tirânicos, me seria tirada. Somos tão livres que não
sabemos como agir com tanta liberdade. Só não podemos deixar de lado, quando
agimos de forma livre, com a responsabilidade esperada nas sociedades
democráticas e pela própria razão.
Obrigado, tia, pela possibilidade de reflexão!
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