segunda-feira, 2 de setembro de 2024

DEVANEIO FILOSÓFICO SOBRE CONSELHO FAMILIAR

 

 

Minha tia-avó, a ex-vereadora de Mococa, Neide Falarini Bedin (1947-2015), certa ocasião me disse que, no que tange às ideologias e sistemas de governo, “o mais importante é sermos livres”, e tal afirmação se imortalizou no meu ser. Foi uma situação engraçada, pois eu e meu tio-avô, Renato Bedin, conversávamos sobre governos mundo a fora, vendo o noticiário na TV, quando ela entrou na sala e, categórica, proferiu a tal frase. Muito pensei sobre ela.

Foi Sartre quem disse que a raça humana é condenada à liberdade. Talvez, não saibamos bem o que é ser livre, embora constitua uma grande necessidade. A liberdade tremulava no lema da Revolução Francesa e, após anos servis, os indivíduos perceberam que também eram senhores de direitos, incluindo o de serem livres. Em um artigo do livro A Dignidade da Política, Hannah Arendt diz que, em um mundo livre, liberdade é “o direito assegurado a todos de tratar dos assuntos que um dia foram de César”, ou seja, tem-se o direito de discutir os assuntos que eram monopolizados na mão do governante.

A mesma autora, no lamentavelmente inacabado A Vida do Espírito, afirma que “a vontade livre é uma ilusão inerente à natureza humana”. Pode intrigar, porém, a mente humana, embora racional, também é dada aos achismos e é facilmente influenciada. Quem, de fato, é livre se somos condicionados e alienados pela mídia, pelas ideologias, pela vontade alheia, pelas tradições, pela moral instituída, pela lei? O grande problema é que as pessoas esquecem que a doxa não se confunde com a verdade e pelo processo epistemológico.

Quando os primeiros hominídeos se organizaram em grupos, parte de sua liberdade plena pareceu-lhes ter sido tolhida, e talvez por esta razão que Simone Weil, n’O Enraizamento, escreveu que onde “há vida comum, é inevitável que regras, impostas pela utilidade comum, limitem a escolha”. A liberdade é absoluta, embora o senso do dever para com as leis e da responsabilidade vise orientar a forma de externar a nossa liberdade.

Para Immanuel Kant, “a liberdade (a independência de ser constrangido pela escolha alheia) na medida em que pode coexistir com a liberdade de todos os outros de acordo com uma lei natural” é o único direito original. A escolha, para Kant, é determinada de acordo com as leis da liberdade. É um princípio bem básico, aliás, que pode ser traduzido de forma diferente: o direito sobre a sua liberdade limita-se onde começa o meu direito pela liberdade. A necessidade de leis comuns surge para que não haja sobreposição de um indivíduo sobre o outro, como ocorreu – e ainda ocorre – ao longo da História. Somos livres, porém, para que a convivência seja harmoniosa, leis foram criadas, e não há que se falar leis sem uma entidade que personifique o poder de executá-las: o Estado.

Uma ressalva: diferente do que se pensa, o poder não é um fim, mas um meio para executar o projeto do “bem comum”, embora vemos que existe uma necessidade grande de deter o poder por parte de uma maioria. Ele é mais um fardo que precisa ser carregado do que um bastão dourado.

O mundo se abre de modo diferente para cada homem, de acordo com a posição que ocupa nele”, disse Hannah Arendt, inspirada em Sócrates. Tratar da liberdade, que deve ser defendida pelos governos, é uma forma de garantir que, além de tudo, todos possam agir e escolher com os mesmos direitos e, aliada à igualdade, de possuir os mesmos direitos, sem distinções de qualquer natureza. Agradeço pela minha liberdade que, em governos tirânicos, me seria tirada. Somos tão livres que não sabemos como agir com tanta liberdade. Só não podemos deixar de lado, quando agimos de forma livre, com a responsabilidade esperada nas sociedades democráticas e pela própria razão.

Obrigado, tia, pela possibilidade de reflexão!

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