segunda-feira, 2 de setembro de 2024

QUANDO RESOLVEMOS NOS SABOTAR

 

 

No diálogo de Platão, Górgias, um dos interlocutores, Sócrates, profere a seguinte máxima: “É melhor estar em desacordo com o mundo todo do que, sendo um, estar em desacordo comigo mesmo” (tradução de Hannah Arendt no livro A dignidade da política). Ora, percebe-se, com base em tal pensamento, uma grande verdade, cada vez mais crescente: o ser humano, cada dia mais, prefere ser dono da razão, justificar seus atos com base nas suas convicções pessoais em detrimento do coletivo.

É paradoxal, pois o ser humano é uma construção social, porém, possui duas capacidades que permitem alguns privilégios: pensar e querer, ou seja, a atuação do ego cognitivo e do ego volitivo. À luz da realidade, dos costumes e da moral, interpreta-os sob sua vontade, acha brechas na razão, rasura o bom-senso.

A vontade de ser é inata, mas entra em atrito com os fatos, com a realidade, pois a personalidade da sociedade é coercitiva, orgânica, estruturada e, sob o indivíduo, exerce forte pressão, que o mesmo luta para compreender e acatar. A cultura de massas e a celeridade das mídias digitais colaboram para tanto, pois tornam idealizadas, palatáveis e sensacionalistas certas questões. Hoje, existe, inclusive, a figura do cancelamento – o extremo da internet.

Contudo, os seres humanos, detentores da liberdade e, ainda assim, condenados a serem livres, para citar Sartre, não sabem como agir com tamanho direito, pois tornam-se figuras quais os cachorros que perseguem carros, sem saber o que fazer se os alcançar. Tornam-se impulsivos e almejam estar além das regras sociais – ledo engano. Talvez, o grande problema de cada pessoa seja o fato de que não consegue aceitar verdadeiramente o próximo e entra em luta constante. “O homem é lobo do homem”, disse Hobbes. A inveja é o pilar; a vontade de ser é a argamassa.

Cada indivíduo deseja dar sentido à vida que lhe foi dada, pautando-se sob seus próprios princípios, mas não pode ter êxito pleno, pois, sendo o legislador de si próprio, irá ser de seu interesse superar as amarras sociais. Nas suas frustrações, parte para outros mecanismos, essencialmente a autossabotagem de sua própria vida. Sendo dono das velhas máximas – “o meu é melhor”, ou “comigo não acontecerá igual”, etc. –, cai nos velhos abismos, lutando no escuro enquanto vozes elogiam os seus erros. O resultado são as frustrações iminentes nos relacionamentos pessoais, no trabalho, na vida de um modo geral. Sendo figura egóica, não acredita em vilipêndios direcionados a si próprio – vide os clichês acima.

Tal prática é comum no interior, aliás, pois a vida corriqueira, sem certos atrativos que centros maiores possuem, faz com que tentem os indivíduos reverter a situação, tornando interessante e menos banal a sua existência. Assim, querem deixar a vida um pouco mais interessante, com evidentes picuinhas e intriguinhas de pequena monta, cuja resolução seria de fácil caminho – mas não querem deixar o motor da vontade de ser. Muitas vezes, situações que duram anos, que despendem tempo e paciência, e acarretam desgaste emocional e físico.

A frustração da existência se dá pela incapacidade das pessoas em entenderem o seu lugar no mundo (em larga escala), e na sociedade (imediata). Entender que o ser humano é mais do que carne e ossos: é um ser dono de consciência, da capacidade de pensar – portanto, deve usar tais atributos e poupar a humanidade de querelas cansativas.

 

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