No diálogo de
Platão, Górgias, um dos
interlocutores, Sócrates, profere a seguinte máxima: “É melhor estar em
desacordo com o mundo todo do que, sendo um, estar em desacordo comigo mesmo”
(tradução de Hannah Arendt no livro A
dignidade da política). Ora, percebe-se, com base em tal pensamento, uma
grande verdade, cada vez mais crescente: o ser humano, cada dia mais, prefere
ser dono da razão, justificar seus atos com base nas suas convicções pessoais
em detrimento do coletivo.
É paradoxal,
pois o ser humano é uma construção social, porém, possui duas capacidades que
permitem alguns privilégios: pensar e querer, ou seja, a atuação do ego
cognitivo e do ego volitivo. À luz da realidade, dos costumes e da moral,
interpreta-os sob sua vontade, acha brechas na razão, rasura o bom-senso.
A vontade de
ser é inata, mas entra em atrito com os fatos, com a realidade, pois a
personalidade da sociedade é coercitiva, orgânica, estruturada e, sob o
indivíduo, exerce forte pressão, que o mesmo luta para compreender e acatar. A
cultura de massas e a celeridade das mídias digitais colaboram para tanto, pois
tornam idealizadas, palatáveis e sensacionalistas certas questões. Hoje,
existe, inclusive, a figura do cancelamento – o extremo da internet.
Contudo, os
seres humanos, detentores da liberdade e, ainda assim, condenados a serem
livres, para citar Sartre, não sabem como agir com tamanho direito, pois
tornam-se figuras quais os cachorros que perseguem carros, sem saber o que
fazer se os alcançar. Tornam-se impulsivos e almejam estar além das regras sociais
– ledo engano. Talvez, o grande problema de cada pessoa seja o fato de que não
consegue aceitar verdadeiramente o próximo e entra em luta constante. “O homem
é lobo do homem”, disse Hobbes. A inveja é o pilar; a vontade de ser é a
argamassa.
Cada indivíduo
deseja dar sentido à vida que lhe foi dada, pautando-se sob seus próprios
princípios, mas não pode ter êxito pleno, pois, sendo o legislador de si
próprio, irá ser de seu interesse superar as amarras sociais. Nas suas
frustrações, parte para outros mecanismos, essencialmente a autossabotagem de
sua própria vida. Sendo dono das velhas máximas – “o meu é melhor”, ou “comigo
não acontecerá igual”, etc. –, cai nos velhos abismos, lutando no escuro
enquanto vozes elogiam os seus erros. O resultado são as frustrações iminentes
nos relacionamentos pessoais, no trabalho, na vida de um modo geral. Sendo
figura egóica, não acredita em vilipêndios direcionados a si próprio – vide os
clichês acima.
Tal prática é
comum no interior, aliás, pois a vida corriqueira, sem certos atrativos que
centros maiores possuem, faz com que tentem os indivíduos reverter a situação,
tornando interessante e menos banal a sua existência. Assim, querem deixar a
vida um pouco mais interessante, com evidentes picuinhas e intriguinhas de
pequena monta, cuja resolução seria de fácil caminho – mas não querem deixar o
motor da vontade de ser. Muitas vezes, situações que duram anos, que despendem
tempo e paciência, e acarretam desgaste emocional e físico.
A frustração da
existência se dá pela incapacidade das pessoas em entenderem o seu lugar no
mundo (em larga escala), e na sociedade (imediata). Entender que o ser humano é
mais do que carne e ossos: é um ser dono de consciência, da capacidade de
pensar – portanto, deve usar tais atributos e poupar a humanidade de querelas
cansativas.
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