quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

 

UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi

Capitão Benjamin Dinamarco, acervo do autor, colorida com IA.

Benjamin Reis Dinamarco nasceu em São Thomé das Letras, Estado de Minas Gerais, aos 25 dias do mês de abril de 1859. Era filho de do capitão Candido Reis Dinamarco e de dona Maria Paulina da Fonseca. Segundo o genealogista, Rogério Farah, era neto paterno de João Ferreira (ou José Antônio) Quintanilha e Brígida Antônia da Conceição, no Estado do Rio Grande do Sul, e, pela linha materna, neto de João Batista da Fonseca e Francisca Cândida de Paula Batista.

Seu pai era negociante de fazendas, cujo consórcio matrimonial ocorreu em 22 de julho de 1857, em São Thomé, cidade onde faleceriam, ele em 1899 e ela, em 1922, conforme Farah.

Benjamin casou-se na Igreja Matriz de Conceição do Rio Verde, MG, em 30 de julho de 1881, com dona Henriqueta Olímpia de Souza Ribeiro, filha de Elizário Ribeiro da Silva e de dona Maria Silvéria de Souza Ribeiro. O matrimônio foi celebrado pelo padre José Pedro de Souza Pinto e foram padrinhos, o Barão de Caldas e Joaquim José de Souza Pacheco.

Dona Henriqueta nasceu em Alfenas, MG, em 14 de outubro de 1866, batizada em Conceição do Rio Verde. Pela linha paterna, era descendente de João Ribeiro da Silva (1714-1787) e de Maria Branca Leme do Prado (1725-?). Seu trisavô, filho deste casal, era irmão de Félix Ribeiro da Silva, pai de Venerando Ribeiro da Silva, logo, seria prima em quarto grau deste venerável fundador de Mococa.

Não se sabe os motivos que levaram Benjamin e Henriqueta à Mococa. Sua filha mais velha, Jovita, nasceu nesta cidade, em 9 de junho de 1883. É certo que a prosperidade acompanhava a cidade. Em janeiro de 1895, é nomeado para a Guarda Nacional, vinculado ao 123º Batalhão de Infantaria de Mococa, assim constituído:

123º batalhão de infantaria

Estado-maior: tenente-quartel Pedro Angelo Camin.

1ª Companhia: capitão Benjamin Dinamarco, alferes Basilio Fernandes Garcia, alferes Antonio Ferreira Vieira e alferes Marciliano de Souza Dias.

2ª Companhia: capitão Pedro Lacreta e alferes José Moreira Coelho de Magalhães.

3ª Companhia: alferes Joaquim Pedro de Oliveira e alferes Antonio de Pinho Nogueira.

Na política, candidatou à juiz de paz nas eleições de 1898, sendo eleito como primeiro juiz de paz. Ademais, atingiu altos graus da Loja Maçônica, em Mococa, prova de seu engajamento imediato na cidade que acolheu a sua família. seus cunhados, Erasmo de Souza Ribeiro e Sinval de Souza Ribeiro também encontravam-se envolvidos na política mocoquense, este último intendente municipal, de 7 de janeiro de 1900 a 17 de setembro de 1900 (SILVA, 2024, p. 40).

Por muitos anos, capitão Benjamin foi representante da firma Junqueira % Companhia, da cidade de Santos, SP, voltada ao comércio de café.

No mesmo ano de sua eleição, nasceria sua segunda filha, Elvira, em Mococa, no dia 5 de julho, batizada em 22 de agosto do mesmo ano, pelo padre Bento Monteiro do Amaral, sendo padrinhos Candido Dinamarco, representado por Erasmo de Souza Ribeiro e dona Manoela Olímpia Ribeiro. Seria ela normalista e uma eximia pianista.

Em 1901, o ex-presidente da República, Prudente de Moraes, ao lado de diversos políticos, incluindo o proprietário do jornal, O Estado de S. Paulo, Julio de Mesquita, firmam a dissidência do Partido Republicano Paulista. Em Mococa, segundo narra Edgard Freitas, a Dissidência lançou os seguintes candidatos para as eleições de 15 de dezembro de 1901: Erasmo de Souza Ribeiro, Abelardo Augusto de Lima, João da Costa Lima, João Bento Vieira da Silva, Eugenio Xavier de Souza e Izidoro Cerrini, para vereadores, e capitão Benjamin Dinamarco, José Guilherme da Costa e José Fernandes Garcia, para juízes de paz (FREITAS, 1948, p. 114). A Dissidência não elegeu um representante, sequer.  

Capitão Benjamin seguiria seus propósitos, alheios à política, voltando-se à assistência social, ainda em formação. Participou da diretoria da Santa Casa de Mococa, por longos anos em alternados cargos, bem como foi diretor do Asilo de Mendicidade “Adolpho Barretto”. Sua residência situava-se à esquina das ruas Coronel Diogo e XV de Novembro.

Em 1915, adquire parte das terras da fazenda da Prata, então propriedades de Higino Ribeiro da Silva, constituindo a fazenda do Bananal. Seu cunhado, Erasmo, também compra uma gleba de terras, a fazenda Santa Rita ou Divisa, posteriormente denominada fazenda Santa Elisa. Em 1918, Elvira, sua filha caçula, casou-se com o professor José Barreto Coelho, taubateano, filho de Bernardino Antonio Coelho Junior e de Idalina Barreto Coelho, que chegou em Mococa para ser professor substituto do 1º Grupo Escolar “Barão de Monte Santo”, em 1913. A celebração, presidida pelo monsenhor doutor Félix Brandi, ocorreu em oratório particular, provisionado, na residência do capitão Benjamin.

No dia 5 de junho de 1928, um grande baque acomete sua família. Sua esposa, dona Henriqueta, em tratamento do Instituto Paulista, faleceu, às 17h. sepultada no Cemitério do Araçá no dia seguinte, seus restos mortais seriam transportados para Mococa, posteriormente, no jazigo da família Dinamarco. Não muitos anos depois, Jovita, sua filha, também veio a falecer, vitimada por uma pneumonia, em 6 de maio de 1935, em Mococa.

Quando da eleição de Júlio Prestes, que ocasionou a Revolução de 1930, diversos mocoquense manifestaram o seu apoio ao presidente, por meio de manifesto jornalístico, publicado no Correio Paulistano, e, dentre os signatários, encontram-se os nomes do capitão Benjamin, de Elvira e do professor Barreto Coelho.

Viveu por 92 anos, falecido em 19 de março de 1952, em Mococa. Em eloquente editorial, o jornal A Mococa, reverenciou a memória deste prestante cidadão, “figura que durante muitos anos prestou relevantes serviços à cidade” e que sempre “deu seus melhores dos seus esforços” à Santa Casa e ao Asilo.  Sepultado na necrópole municipal no dia seguinte, às 17h, seu féretro foi acompanhado por um grande número de amigos, “o que veio a provar a simpatia de que gozava”, segundo o editorial.

Sua filha e seu genro foram figuras sublimes ao ensino de Mococa, compositores do dobrado do primeiro de centenário, oficializado Hino Oficial do Município, por lei de autoria do então vereador, dr. João Rotta.

Em Mococa, ainda existem descendentes da família de dona Henriqueta, pelo ramo de Erasmo de Souza Ribeiro e sua esposa, dona Elisa. Contudo, o ramo da família Dinamarco de capitão Benjamin encerrou-se com o falecimento de Elvira, em 6 de julho de 1981.


Fontes: 

FARAH, Rogério. Página da família Dinamarco (disponível em <https://www.geocities.ws/genedinamarco/dinamarco.html>, acesso em 4 de junho de 2026);

FREITAS, Edgard. Mococa, 100 anos de história, 1847-1947. Mococa: Gráfica Costa, 1948; 

Livros de batismo da Paróquia de São Sebastião, de Mococa, SP; 

Livro de casamento da Paróquia de Conceição do Rio Verde, MG;

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca: de sua fundação até 1900. São Paulo: Typ. do Diário Oficial, 1913; 

SILVA, Antonino da. Pelos caminhos das Mucócas. Próceres: uma biografia. Mococa: edição do autor, 2024. 

sábado, 23 de maio de 2026

A CAPELA DE SÃO BENEDITO

 

Da fazenda das Areias às doações dos alforriados


Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi



O povoamento de localidades, via de regra, acontece próximo aos rios ou veios d’água, de modo que exista abastecimento aos moradores. O sesmeiro José da Silva Santos, que adquiriu uma sesmaria aquém do rio Pardo, em 1815, era servido pelo córrego do Barreiro, posteriormente referido como córrego da Jacutinga e ribeirão da Ressaca. A capela de São Sebastião surgiria, também, às margens de ribeirões: quando da doação dos 16 alqueires de terras por dona Catharina Candida de Senna e seu marido, Antonio José Gomes, as terras eram atravessadas pelo córrego do Lino; com a permuta de terras e as sucessivas doações, que importaram em 33 alqueires, o ribeirão do Meio seria o curso de água que atravessava o patrimônio de São Sebastião.

Para fins didáticos, o povoamento de Mococa, além da região da capela, pode ser dividido da seguinte forma: o núcleo da Água Limpa e da Lage, iniciado em meados de 1822, familiar, na porção leste e nordeste do Município; o núcleo da Alegria, iniciado em 1820, mas intensificado a partir de 1833, também familiar, na porção ocidental do Município; o núcleo da Ressaca, iniciado em 1815, com pluralidade de povoadores, na porção sudeste e sul da povoação; o núcleo de Canoas, norte, iniciado anteriormente à década de 1830, pluralidade de moradores; e o núcleo das Areias, bem na porção noroeste, que será esmiuçado adiante.

Os mais antigos proprietários da fazenda das Areias foram Antonio de Castro Nunes e sua esposa, Maria Zeferina da Cunha, que venderam parte de suas terras a Manoel Vieira d’Oliveira em 1833. Os filhos de Antonio e Maria Zeferina, Francisco Gonçalves de Castro e Luiza Zeferina d’Aguiar, quando do falecimento dos seus pais, receberam à título de herança as terras da fazenda das Areias, avaliadas em mais de seis contos de réis, e confrontava com José Borges e outros, pelo Nascente; João Cardozo e outros, pelo Sul; João Gonçalves (ou João Gonçalo) e outros, pelo Poente e capitão Francisco de Moraes Preto e outros, pelo Norte.

A porção de terras que coube ao Manoel Vieira d’Oliveira fazia as seguintes confrontações: pelo Nascente, com Vicente d’Almeida e seus sócios; pelo Poente, com o vendedor; e pelo Norte e pelo Sul, com Gabriel Garcia de Figueiredo. Também foram proprietários da fazenda das Areias, Joaquim José Rosa, que a adquiriu de Joaquim Sigara; e Manoel Pereira Duarte, que comprou-a de Vicente Ferreira de Paula. A fazenda das Areias, assim como outras tantas propriedades rurais daquele tempo, eram grandes condomínios, pro-indiviso.

Em 1860, o capitão Francisco de Moraes Preto e sua esposa, dona Luiza Ferreira da Paixão, moradores da freguesia de São Francisco das Chagas do Monte Santo, peticionaram ao Juízo Municipal de Casa Branca, de modo a pleitear a divisão da fazenda das Areias. É no auto de divisão que confirma-se que a fazenda situava-se tanto em São Paulo, quanto em Minas Gerais, dos dois lados do ribeirão das Areias. Tanto é verdade que, em 30 de novembro de 1860, o juiz municipal de Casa Branca, José Alves dos Santos Junior, remeteu carta precatória ao juiz municipal da Vila de São Carlos do Jacuhy, requerendo “permissão para proceder a divisão na parte em que as terras são do município de Jacuhy”, o que foi concedido, por despacho de 5 de fevereiro de 1861, assinado apenas por “Silva”, juiz de Jacuhy.

Outros foram os interessados, podendo mencionar Antonio Joaquim Teixeira, Francisco Gonçalves de Castro, Maria Flausina do Carmo, Francisco Marçal da Cruz e sua esposa, Delmira Maria de Almeida, e outros tantos signatários e confrontantes. Foram nomeados louvados o major Gabriel Garcia de Figueiredo, Ildefonso Garcia Leal e Florentino Ferreira da Cunha, conforme termo acossado nos autos, datado de 28 de maio de 1862.  Os louvados, em termo de 3 de junho de 1862, descreveram os limites da fazenda, da seguinte forma, às fls. 27 e verso:

“[...] Principiando no espigão do bacamarte aonde feixa no córrego das pedras, seguindo pelo espigão acima devidindo com João Cardozo de Toledo e seos sócios, e ‘ahy devedindo sempre pelo espigão que contraverte para Macahúbas, devisando com Vicente de Almeida e seos sócios, pelo mesmo espigão adiante devisando com terras de José Borges e seos sócios, e pelo mesmo espigão adiante até sahir na estrada que vem de Campinas e por ella adiante devidindo com herdeiros do  finado Comendador Coelho até a divisa da fazenda do socio Preto pelo espigão tudo quanto verte as Arêas pelo espigão até o cume da segunda serra e correndo sempre por este segundo cume, caminhando para o poente à rumo direito até um sapecado ou Lage de pedra, desta procurando o mesmo rumo até onde estão dous páos de Jequitibá, e destes até a Serra do Taquary devisando com Mauricio José de Souza, José Antonio Borges e seos sócios e João nantes até encontrar com o rumo da fazenda de João Cardozo de Toledo e seos sócios no descalcvado da serra deste á rumo na caxoeira das pedrass redondas, desta a rumo onde feixa estas divisas [...]”

A fazenda das Areias possuía 1.647 alqueires de terras, sendo 1.300 alqueires de plantas de milho e terras de cultura de primeira sorte, e 347 alqueires de serrados e capins, avaliada em 44:205$000 (quarenta e quatro contos e duzentos e cinco mil réis).

Segundo narra Sander Rogerio Ribeiro Pereira, nas imediações, existiu a fazenda do Barro Preto, de propriedade de João Campanha dos Santos. A sua filha, Laura Maria dos Santos, casada com Antonio Ignacio Lopes, herdeira da fazenda, teria vendido ao Barão de Monte Santo, tenente-coronel Gabriel Garcia de Figueredo, anexadas à vasta fazenda da Borda da Mata, antigo núcleo da Alegria. Presumimos, portanto, que a fazenda do Barro Preto poderia ser parte da fazenda das Areias ou alguma porção de terras que não foi contemplada nos registros paroquiais de terras. O Barão de Monte Santo, quando do 13 de maio de 1888, teria doado aos seus ex-escravizados, Madalena Figueredo, Maria Joana, Esmeralda, Vitória Figueredo, Eufrasia e Daniel, cerca de cinquenta alqueires de terras, dos quais nove alqueires foram doados pelos novos proprietários para constituir um patrimônio à capela de São Benedito, o que sucedeu à povoação e ao surgimento do que, nos dias atuais, nos referimos como o distrito de São Benedito das Areias.

 

FONTES:

Documentais:

Autos de divisão da fazenda das Arêas, acervo do Fundo do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no Arquivo Histórico-Documental de Casa Branca, 1860;

Livro de registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, 1856.

Livros e revistas:

PEREIRA, Sander Rogerio Ribeiro. Fragmentos para a história do distrito de São Benedito das Areias. In: Mococa, 170 anos da Freguesia de São Sebastião da Boa Vista. Mococa: edição dos autores, 2026;

sexta-feira, 15 de maio de 2026

ESCRAVIDÃO NA CAPELA DE SÃO SEBASTIÃO

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Recibo da coletoria de rendas gerais de Casa Branca, acerca da compra de uma escrava.
 

Alguns antecedentes

A documentação referente à escravidão em nossa região é, por demasiada, escassa e nada aprofundada. Com exceção dos registros públicos, os quais não são facilmente acessíveis, poucas informações realmente constatam o contexto da época. Existem, é claro, poucas exceções. Inventários de fazendeiros, escrituras de compra e venda de escravizados, registros de batismo e casamento. A literatura, ademais, também é rarefeita.

Sabe-se que, a partir dos anos de 1720, após o desbravamento dos sertões pelo Anhanguera, o governo da Capitania de São Paulo realizou a doação de diversas cartas de sesmarias, de modo a intensificar o povoamento na região limítrofe com a capitania de Minas Gerais, após o desmembramento de 3 de dezembro de 1720, bem como povoar o caminho para as minas de Goiás.

No sul de Minas Gerais, contudo, a participação governamental não foi sentida até meados de 1737, quando Cipriano José da Rocha, ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, estabeleceu o arraial de São Cipriano, hoje cidade de Campanha, tomando posse da região conflituosa para o governo mineiro, de modo a minar os faisqueiros paulistas, que sequer prestavam contas das lavras exploradas a qualquer governo. Contudo, a porção mais setentrional do sul-mineiro seguia inexplorada. Aliás, inexplorada nos mapas oficiais.

O historiador, Dr. Tarcísio José Martins, autor de inúmeros trabalhos sobre os quilombos de Minas Gerais, aduziu a existência de vários grupos de escravizados, que fugiram do cárcere e estabeleceram-se nos ermos do sul de Minas. Nos atuais municípios de Jacuí, Monte Santo de Minas, Guaranésia, Guaxupé, Cabo Verde, por exemplo, haviam quilombos. Da região, o maior de todos era situado nos arredores de Divinolândia.

O ocaso dos quilombos ocorreu em 1759. A Câmara da Vila de São João del Rei, alinhada aos interesses da Comarca do Rio das Mortes e do próprio governador, designou Bartolomeu Bueno do Prado para que, com sua comitiva, dizimasse os quilombos. A história sagrou que, em troca de 3.900 pares de orelhas salgadas (ou 3.900 orelhas) recebeu a guardamoria das minas do Jacuhy.

Em Mococa

Escravos eram mencionados de forma discreta nos livros de história. Afinal, a escravidão, quando abolida, tornou-se motivo de vergonha e indignação. Vergonha para alguns que, sendo senhores ou senhoras de escravos, eram compelidos a repudiar as suas próprias práticas; indignação, para outros tantos, pois perdeu-se a mão de obra barata. A transição acontecera paulatinamente, aliás. Quando homologada a Lei de Terras de 1850, eram os dirigentes e latifundiários cônscios de que, dia mais ou dia menos, a escravidão chegaria ao fim. Demorou mais trinta e oito anos. Fato é que, com a Lei de Terras e os encarecidos entraves burocráticos, pequenos proprietários não dispunham de recursos o bastante para arcar com o registro, de modo que muitos deles tornaram-se colonos dos grandes fazendeiros.

Onde existiam fazendas, existiam escravos. Nos sertões do rio Pardo, não mais um ermo, mas local de povoação crescente desde as conceções das sesmarias, haviam diversos escravos. Impossíveis de contagem censitária precisa.   

Menciona Adriano Campanhole que o nome Caconde “foi dado pelo branco conquistador ao encontrar ali os negros cacundas”. A conclusão do nobre historiador é que a origem do nome Caconde deriva, portanto, a grande presença dos quilombos na região, principalmente, por negros cacondas, uma das expressões utilizadas para designar aquele povo. Próxima, por exemplo, há Muzambinho, cujo nome é considerado corruptela de Moçambique. A presença dos antecedentes quilombos se faz sentir pela língua e pelas designações.  

Mococa, nascida capela de São Sebastião, acrescida posteriormente de Boa Vista, surgiu em decorrência de seus escravos. É Humberto de Queiroz quem chama a atenção para a derrubada da mata e o preparo da capoeira para que a capela de São Sebastião fosse construída, ao longo de 1846. Menciona que escravos foram utilizados para o encargo, enquanto as disputas para quem iria cortar mais rápido uma árvore entre os fazendeiros ocorria.

Encontramos recenseamentos a partir de 1872, reorganizados pela UNICAMP, onde constam dados sobre os escravos de Mococa:

1872:

Mococa .............................................................. 1.097

Casa Branca ...................................................... 2.414

Caconde ................................................................ 690

Cajuru ................................................................... 903

1886:

Mococa ................................................................. 819

Casa Branca ...................................................... 3.004

Caconde ................................................................ 745

Cajuru ................................................................... 597

São José do Rio Pardo ............... Sem informação

No recenseamento de 1890, para uma população de 7.731 habitantes, existiam: 4.932 brancos, 1.203 pardos, 434 caboclos e 1.162 negros. Ademais, consta que 40 pessoas eram naturais da África, logo, escravos que foram trazidos pelo Oceano.

Nos inventários antigos, não eram poucos os escravos. Exemplificando:  Vigilato José de Souza possuía 87 escravos (1853); Barbara Benedita da Silva, 45 escravos (1842); Vicente Antonio Constantino, uma parte em 2 escravos (1855); Manoel Antonio de Siqueira, 1 escravo (1841); Domingos José Dias, 7 escravos (1852); Anna Ignacia da Silva, 8 escravos (1844); Antonio Jacintho Nogueira, 7 escravos (1856); Maria Clara de Jesus, 7 escravos (1859); Victoria Maria de Jesus, 14 escravos (1857); João José de Souza Moreira, 26 escravos (1857). Em alguns casos, os escravos eram incluídos nas listagens dos bens sob a designação “semoventes”, ao lado do gado, galinhas, cavalos e suínos.

No testamento de dona Catharina Candida de Senna, primeira doadora do terreno para São Sebastião, legou à sua “Neta Maria Silveria, cazada com Francisco de Paula Gomes uma crioulinha de nome Joaquina de edade de seis para sete annos e se no tempo de meu falecimento este já não mais existir, então deixo a referida minha Neta a quantia de quinhentos mil réis”. Vicente Ribeiro do Valle, fazendeiro na atual região de Igaraí, quando faleceu em 21/07/1851, possuía 8 escravos e, em posterior avaliação por parte do testamenteiro, Joaquim Norberto Ribeiro, Antonio José de Souza, por cabeça de sua mulher, declarou que “veio com bens à collação a folhas no verso dezecete, e havendo entre esses hua crioula de nome Cibila, tendo esta produzido hua criança que se acha em idade de dois meses mais ou menos, a cuja criança crioulinha se deo o nome de Vicencia [...]. avalliada pelos mesmos avalliadores [...] pella quantia de sincoenta mil reis”.    

Os escravizados eram vistos como bens, propriedade de seus compradores. Foram os principais protagonistas das lavouras, das construções, enfim, do trabalho braçal. Pelo advento da Lei do Ventre Livre, de 1871, por força do Art. 8º, § 5º, “os parochos serão obrigados a ter livros especiaes para o registro dos nascimentos e obitos dos filhos de escravas, nascidos desde a data desta lei. Cada omissão sujeitará os parochos á multa de 100$000”. O livro de batismos de filhos de escravos da Paróquia de São Sebastião, de Mococa, foi aberto em 30 de junho de 1873. O primeiro batismo foi o seguinte:

“Aos oito dias do mês de Dezembro de mil oitocentos e setenta e um, nesta Matriz de Sam Sebastião da Boa Vista baptizei e pus santos óleos a Anna, parda crioula livre em virtude da Lei de 28 de 7bro. De 1871, nascida a 28 de Novembro do corrente anno nesta Freguezia de Sam Sebastião da Boa Vista filha de Maria preta crioula solteira escrava de Roza Maria de Souza, sendo padrinhos José Firmino de Souza e Vitalina Maria das Dores; e para constar faço este assento. (a.) O Vigário Joaquim Feliciano do Amorim Sigar”.

Certamente temeroso pela multa aduzida pela Lei do Ventre Livre, padre Sigar correu a realizar os batismos antes mesmo da abertura oficial do livro, dois anos depois, provavelmente transcrevendo todos os assentos no livro novo. Humberto de Queiroz narra sobre o dia 13 de maio de 1888:

“Logo que aqui chegamos, tivemos o prazer de observar geralmente, mesmo entre os lavradores, manifesto e franco apoio às ideias abolicionistas, que tendiam a fazer eliminar a página mais negra que tem turvado o livro claro e luminoso de nossa história pátria – a escravidão.

Entre os mais entusiastas por essa humanitária reforma, notamos os nomes de Benjamin de Magalhães, João Bento e João Sabino, que, conosco, foi alvejado numa noite de novembro de 87, por um tiro, de cuja bala ouvimos o “sio insidioso’, depois de um dia em que partiram de Mococa para as brenhas do Cubatão, uns 80 escravos!...

Dentre os lavradores, alguns, bem se vê... não eram abolicionistas, senão dos abolicionistas... Era natural!

Por toda a vasta extensão do território brasileiro soprava o vento benéfico da liberdade, esse movimento justo e grande que devia redimir uma raça ingrata e má, mas com direitos incontestáveis e naturais.

De bom grado, tomando parte ativa entre os propugnadores da redenção dos cativos, colaborando com Benjamin de Magalhães em ardente propaganda feita em numerosas e contínuas correspondências feitas para a Imprensa de Campinas e da Capital.

Pouco depois, com ruidosos festejos e entusiásticas manifestações do regozijo popular, era, em Mococa, recebida a luminosa Lei de 13 de maio de 1888.

O estado próspero em que se achava a lavoura, nesse ano, era condição bastante para que a transformação do trabalho não produzisse o menor abalo, apesar de existirem no município mais de mil escravos”.

Muito tem a se discutir sobre a escravidão em nossa região, carecendo dos curiosos pesquisadores que entrem em ação. O presente artigo busca apenas esclarecer alguns pontos de uma história quase desconhecida. É o passado ganhando vida. 


quinta-feira, 30 de abril de 2026

DR. DEMOSTHENES DA SILVEIRA LOBO

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

 

Demosthenes da Silveira Lobo era filho de Manoel Lobo de Miranda Henriques (1799-1856) e de Ana Norberta da Silveira (1806-?). Nasceu em meados de 1839 no Engenho das Tabocas, em São Lourenço da Mata, Pernambuco. Foi casado com dona Francisca Teixeira Peixoto (1839-1924), filha de Manoel Teixeira Peixoto e de Anna Teixeira Peixoto, sendo da família do 2º presidente da República, marechal Floriano Peixoto. Era ele, aliás, irmão do propagandista da República e ministro do Interior do governo provisório, Aristides da Silveira Lobo (1838-1896).

Bacharel em Direito, foi nomeado para a direção da Diretoria-geral dos Correios em fevereiro de 1892. Foi juiz substituto em São Sebastião do Paraíso, nomeado em meados de 1902. Em 19 de março de 1904, Dr. Demosthenes foi nomeado juiz municipal da Vila de Guaranésia, cargo que ocupou até meados de 1911, quando permuta o cargo com o Dr. Theodolindo Pereira Lima, indo para Monte Santo. No plano social, foi ele um dos protagonistas na construção da Santa Casa de Misericórdia de Guaranésia, ao lado do cônego Samuel Fragoso, em cerca de 1909.  

Em Jaú, às 6h do dia 2 de julho de 1913, faleceu na residência de seu filho, Aristides Lobo Sobrinho, ex-prefeito de Monte Santo.

Segundo o jornal, O Paiz, edição de 3 de julho de 1913, “De uma família republicana, os seus serviços ao regimen foram os de um convicto jurista, os seus trabalhos que a Revista Jurídica tornou conhecidos, deram-lhe renome, e o governo de Floriano o havia nomeado para o Supremo Tribunal Federal, onde não entrou por ter o governo de Prudente de Moraes acreditado que a sua intransigência politica era, no momento, uma difficuldade insuperável”.

A indicação ao Supremo deu-se em outubro de 1894, ao lado do general Francisco Raymundo, Ewerton Quadros, Américo Braziliense de Almeida Mello, Fernando Luiz Osório e Américo Lobo Leite Pereira. Desta lista, ingressaram na Corte, após a sabatina do Senado Federal, Américo Braziliense e Américo Lobo. Seguiu carreira como juiz até o seu falecimento.

De seu casamento, deixou os seguintes filhos: Aristides Sobrinho, Francisca, Demosthenes Júnior, Thereza de Jesus, Maria Thereza, Manoel, Gabriella e Adelaide.

Abaixo, tem-se o termo de posse do Dr. Demosthenes como juiz municipal da vila de Guaranésia, Comarca de Monte Santo.



quinta-feira, 2 de abril de 2026

SANICO: DOMICIANO CUSTÓDIO DIAS FILHO

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Retrato de Sanico, restaurado com IA.

Filho de Domiciano Custódio Dias (1841-1872) e de Maria Custódia Ramalho (1846-1912), era neto paterno de Joaquim Custódio Dias (1800-1879) e de Luzia Delphina da Silva (1806-?), e neto materno de Custódio José de Souza Moreira (1789-?) e de Ana Alves de Araújo (1823-?).

Nasceu aos 20 de março de 1870, em Santo Antonio do Machado. Seu assento de batismo foi lavrado exatamente três meses depois, pelo padre José Antonio Martins, sendo padrinhos Hermógenes Ribeiro da Silva e Mariana Custódia da Silva.

Seu avô paterno foi proprietário da vasta fazenda da Lage, em São Sebastião da Boa Vista, hoje Mococa. Sanico, como era conhecido, casou-se em primeiras núpcias com Theolinda Costa Pereira, filha de Antonio Costa Pereira (1834-1904), proprietário da fazenda Pessegueiro, e de Francisca Rosa de Jesus (1840-1903). O casal teve dois filhos, Maria Costa Dias e Antonio Costa Dias. Ela faleceu em 20 de janeiro de 1903.

Sanico casou-se em segundas núpcias no dia 12 de maio de 1908, em Cajuru, com Maria Marques, nascida em São José do Rio do Peixe, em 27 de maio de 1885, filha de José Marques Limedi e Maria Ritta. O casamento foi celebrado pelo padre Nicolau Paraggio e foram testemunhas o major Aubertin Nogueira e Francisco Marques Limedi. O casal teve os filhos: Clóvis, Odette, Anadir, Alcina, Walter, Ofélia, João, José Marques Dias e Maria de Lourdes, que está com 107 anos de idade. 

Da grande fazenda da Lage, Sanico herdou e constituiu a fazenda Santa Theolinda, cujo nome era uma homenagem à sua primeira esposa. A imponente sede foi construída em 1912. Sanico foi um grande produtor rural da região, diversificando entre a cultura cafeeira e pecuária. Foi vereador da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo entre 1926 e 1928, presidente do Partido Republicano local e vice-presidente da Câmara. 

Faleceu no Hospital Vera Cruz, em Campinas, no dia 23 de abril de 1956, aos 86 anos. Sua esposa, dona Maria, faleceu alguns anos mais tarde, em 2 de julho de 1991, em Mococa. Seus herdeiros venderam a fazenda Santa Theolinda ao Dr. José de Campos Salles Neto, fazendeiro, genealogista e escritor, que preserva a bela estrutura que é a sede da fazenda.

Na cidade de Mococa, o casal foi proprietário de um belo casarão, em estilo colonial espanhol, sito à esquina das Ruas Coronel Diogo e Alferes Pedrosa. Atualmente, o local pertence à família Naufel e funciona na localidade a imobiliária Paulo Belotti Imóveis e Gestão Patrimonial.  


Sede da fazenda Santa Theolinda, publicada no opúsculo "Fazendas Históricas de Mococa"

Casarão, estilo colonial espanhol, sito à esquina das ruas Cel. Diogo e Alf. Pedrosa. Fotografia de Paulo Mega, 7/1/2021.


domingo, 15 de março de 2026

TRÊS DOCUMENTOS INTERESSANTES PARA A ORIGEM DE SÃO JOSÉ DO RIO PARDO

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Introdução

Lafayette de Toledo, em seu Diccionario Topographico da Comarca de Casa Branca, transcreveu na íntegra um artigo do sr. Moreira Pinto, para o Jornal do Commercio, edição de 23 de janeiro de 1899, que traz curiosas menções sobre a origem de São José do Rio Pardo. Dentre as preciosas informações, constam os nomes dos doadores do patrimônio de São José, sendo: tenente Antonio Marçal Nogueira de Barros, que doou três alqueires de terras; Candido de Miranda Noronha, um alqueire; Candido de Farias Moraes, três alqueires; José Theodoro de Nogueira Noronha, quatro alqueires; e João José de Souza, um alqueire. Em 25 de fevereiro de 1873, ocorreu a posse judicial dos terrenos doados para constituir a fábrica da capela.

Registro paroquial de terras

Segundo o professor Rodolpho José Del Guerra, seria o local de origem de São José do Rio Pardo a fazenda do Pião do Rio Pardo, uma antiga sesmaria, concedida em 6 de junho de 1821, ao capitão Alexandre Luis de Mello. Em data incerta, o capitão e seu filho, o padre Carlos Luis de Mello, venderam a propriedade ao capitão Francisco de Assis Nogueira. Em 17 de janeiro de 1856, uma vez criados os registros paroquiais de terras, por força do Art. 13º da Lei de Terras de 1850, declarou o capitão Francisco de Assis Nogueira o seguinte:

“Francisco de Assis Nogueira possue huma Fazenda de Cultura denominada o Pião do Rio pardo desta Freguezia de Caconde, que houve por compra feita ao Capitão Alexandre Luis de Mello e seu filho o Padre Carlos Luis de Mello, cujas divisas principião por baixo no Rio pardo, devisando com terras da Fazenda de José Machado de Lima, Francisco Rodrigues de Carvalho, Venerando Ribeiro da Silva e confrontando com moradores das Mocócas, e dividindo Agoas vertentes ao Ribeirão das Canoas e depois dividindo com terras do Capitão Joaquim Custodio Dias, Donna Anna Custodia da Silva e seus herdeiros athé entrar no Ribeirão de Guaxuphé e por este abaixo athé a barra no Rio pardo, devisando com a mesma E pello Rio pardo abaixo athé ponthear a barra de hum correguinho que se acha abaixo a da barra do Corrego denominado Limoeiro e pello veio de Agoa do dito correguinho asima thé o alto, devizando com meu Genro Annanias Joaquim Machado, e pello Espigão mestre adiante devizando com terras da Fazenda Monte Alegre e Manoel Alves de Carvalho, athé embicar no Rio pardo onde teve principio esta confrontação; (ilegível) ter de cumprimento duas légoas e huma de largura. Freguezia de Caconde, 17 de janeiro de 1856. (a.) Francisco de Assis Nogueira. O Vigário, (a.) Prudenciano Antonio Nogueira”.

Esta vasta propriedade foi vendida e desmembrada. Confrontava com a fazenda da Lage, de Joaquim Custódio Dias, e com a Soledade e Bica de Pedra, propriedade de dona Anna Custódia da Silva e dos descendentes de Vigilato José de Souza, bem como de seu irmão, Domiciano José de Souza, cujo nome foi suprimido do registro. O rio Pardo acompanha grande parte das confrontações, diga-se de passagem.

Em 4 de abril de 1865, o coronel Antonio Marçal e os demais entusiastas da criação da capela, assinam um livro de atas, o qual foi localizado em 1965 na fazenda da Tubaca pelo dr. Eduardo Dias Roxo Nobre, transcrito e interpretado pela professora Amélia Frazolin Trevizan, em 1986, trabalho publicado sob o nome Capela de São José do Rio Pardo – Livro de atas das reuniões dos fundadores – 1865/1874.

Petição da freguesia

O desenvolvimento profícuo da capela de São José do Rio Pardo foi tamanho que não tardou para que seus moradores, novamente organizados, peticionassem à Assembleia Provincial de São Paulo, requerendo a elevação da capela à categoria de freguesia. No Arquivo da ALESP, localizamos a petição, abaixo transcrita:

Ilmos. e Exmo. Snrs. Presidente e Membros da Assembleia Provincial,

“Os abaixo assignados moradores da Capella de S. José do Rio Pardo, do Termo de Caconde e comarca do mesmo nome, tendo em attenção o estado florescente d’esta Capella, devido á uberidade de seu solo e a sua lavoura de café, tendo em attenção a sua população, que talvez se eleve a trez mil almas e a sua Igreja Matriz, decentemente decorada e ornamentada, vem pedir a V. Excias. para que se dignem de elevar a referida Capella à cathegoria de Freguezia – desmembrando-a civilmente da Freguezia de Espirito-Santo do Rio do Peixe, da qual ella é filial.

Não há necessidade de tornar saliente a vantagem que resultai aos povos desta Capella da medida pedida a V. Excias., ella por si se demonstra.

V. Excias. procedendo na conformidade do pedido dos abaixo assignados, farão um relevante serviço á esta Capella e um acto de verdadeira justiça”.

Seguem-se várias assinaturas, algumas ilegíveis. O documento não possui data, mas é apontado pelos funcionários da ALESP como sendo de 1876. O êxito veio quatro anos mais tarde quando, por força da Lei nº 80, de 14 de abril de 1880, que elevou a capela à categoria de freguesia, desanexada do município de Caconde para o de Casa Branca, com as seguintes divisas:

“Começando no Rio Verde, no ponto em que faz barra com o Rio Pardo, e por aquelle acima até a barra do Rio Doce, subindo por este ate suas cabeceiras, destas em rumo ao Ribeirão da Fartura, em frente á um espigão que existe acima da morada de José Antonio Ferreira, e abaixo do Ribeirão da Gramma: seguindo por este espigão, aguas vertentes, até enfrentar com a cachoeira-grande, no rio do Peixe, acima da murada de d. Antonia Gomes da Fonseca atravessando essa cachoeira, seguindo pelou aparados da Serra, até o espigão que desta sobe, e vae ter á Cachoeira Grande do Rio Pardo, abaixo da ponte de Custodio Dias, descendo até enfrentar com a barra do Guaxupé, subindo este até as divisas da fazenda de Miguel Nogueira de Noronha com a fazenda da Bica de Pedra, subindo por casas divisas ao alto da fazenda do Pião, cabeceira do corrego da Bocaina, seguindo a direita e abrangendo as vertentes da mesma Bocaina, do Rio Claro, do corrego de Santo Antonio e do Cafundó, fechando no Rio Pardo, no espigão abaixo de sua barra, e descendo o Rio Pardo á barra do Rio Verde, onde tiveram principio”.

A elevação à vila e post scriptum

No arquivo da ALESP, encontramos também a petição que solicita a elevação da freguesia de São José do Rio Pardo à categoria de vila, datada de dezembro de 1884. O estado do documento, contudo, não permite sua razoável transcrição, especialmente a primeira página. Seguirá, abaixo, à guisa de curiosidade. Não foram poucas as assinaturas, diga-se de passagem. Foi um trâmite bem mais rápido que o anterior, para a elevação da freguesia, pois, em 20 de março de 1885, era sancionada a Lei nº 49, que elevou à categoria de vila a freguesia de São José do Rio Pardo.  

O que veio depois é o que podemos observar nos tempos vindouros: a antecipação da proclamação da República, Euclides da Cunha e a ponte sob o rio, a sagração da Meca do Euclidianismo, uma historiografia forte, a Casa Euclidiana e o Conselho homônimo, desenvolvimento econômico e cultural. Eis São José do Rio Pardo.




quinta-feira, 12 de março de 2026

CORRIGENDAS SOBRE AS ANTIGAS FAZENDAS DE MOCOCA

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


A inteligência artificial cogitou nos deslumbrar com uma interpretação de como seria a antiga sede, hoje não mais existente, com base no desenho do Visconde de Taunay.

Segundo nossas pesquisas, um dos antigos moradores da região de Mococa seria José da Silva Santos, que recebeu carta de sesmaria em seu favor, contendo “uma légua de terras de testada e três de fundo, no termo da Villa de Mogy Mirim, no sertão encostado à beira do Rio Pardo, principiando a medição da légua de testada na barra que faz no dito rio Pardo o córrego do Barreiro, chamado de Jacutinga”, emitida em 16 de fevereiro de 1815, embora criasse gado na região há algum tempo. Depois, vieram a família do alferes João de Souza Nogueira, em 1820 na sesmaria da Zabelonia, e José Christóvão de Lima, na fazenda da Água Limpa.

Na década de 1830, é possível observar um povoamento mais dinâmico e constante, embora houvessem diversos sitiantes e posseiros espalhados pelo território. A história oficial de Mococa carece de certas corrigendas, que as pesquisas sérias e fulcradas em fontes primárias hão de desbravar. Humberto de Queiroz destaca os seguintes fazendeiros: Diogo Garcia da Cruz, na Alegria; José Christovam de Lima, na Água Limpa; Antônio José Gomes, no Ribeirão do Meio; José Gomes da Lima, na Bôa-Vista; Francisco José Barbosa, na Pedra Branca; José Caetano de Figueiredo, na Cachoeira; Joaquim Custodio Dias, na Lage; José Pereira dos Santos (Pae), em Sta. Thereza, todos já falecidos e Manoel Vicente da Rocha, que vive ainda, com perto de 100 anos, na Ressaca.

A região da Ressaca é a mesma da antiga Jacutinga. Tratava-se de um grande condomínio rural, por assim dizer, pois vários eram os proprietários de pequenas ou grandes porções de terras. No auto de confrontação e avaliação da fazenda da Ressaca, de 1851, consta a informação de que teria 3.195 alqueires de terras, e um bom número de condôminos. O mesmo aconteceria na fazenda São João, que ocuparia grandes porções das terras orientais de Mococa, e diversos eram os proprietários, do rio Pardo até chegar nas terras da Lage, aproximadamente.

Uma figura esquecida foi Cirino Pinto da Fonseca, o proprietário da fazenda da Jacutinga e do Remanço, ambas na região da Ressaca, entre a fazenda da Prata e o rio Pardo. Ele já possuía suas terras em 1837, sendo um dos primeiros povoadores. José Crescêncio de Souza, outro proprietário da região, faleceu em 1851 e possuía terras na Ressaca. Ao lado desta, havia a fazenda do Tamanduá, propriedade pro indiviso onde estavam estabelecidos Antonio Malaquias da Silva, Custódio José de Magalhães, Vicente Lourenço da Silva e tantos outros. A fazenda do Saltador, também na mesma região, era propriedade de Ignácio Fernandes Garcia, Miguel Joaquim Pereira, Domingos José Guedes, Manoel Antonio da Rocha e vários outros.

A fazenda da Boa Vista, do capitão José Gomes de Lima, objeto de certa controvérsia geográfica, situava-se não na região de Igaraí, mas sim nas terras da antiga fazenda da Alegria. Eram tão vastas que iam verticalmente do rio Pardo até o ribeirão das Areias, alcançando a divisa com Cajuru pela serra da Borda da Mata. Ele, em declaração de 1856, refere sua propriedade como Zabellona. Não possuía terras além destas. Existiam sítios e chácaras que levavam o nome “Boa Vista”, especialmente para os lados de Igaraí e Caconde, mas que não devem ser confundidas com as terras de José Gomes de Lima.

Bem ao norte, junto ao referido ribeirão das Areias, existia a fazenda das Areias, também um núcleo de povoamento – provavelmente, que daria origem à São Benedito das Areias. Em 1856, situavam-se nesta local Manoel Vicente de Oliveira, Francisco Gonçalves de Castro, Francisco de Moraes Preto e outros. Em local próximo, mas ainda por definir sua exata localização, existiu a fazenda do Rio das Pedras, onde vários proprietários possuíam terras condominiais.

No livro de registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, lavrado em 1856 pelo pároco, frei Clemente de Gênova, consta que Venerando Ribeiro da Silva adquiriu a fazenda do Ribeirão da Prata em 1839, em compra feita à João Lourenço Cardozo. José Pereira dos Santos, por sua vez, em 24/01/1838, adquiriu as fazendas da Cachoeira do Ribeirão do Meio, então propriedade de Francisco Vicente da Costa, e da Barra do Jatobá, de Venerando Ribeiro, posteriormente unidas e denominadas fazenda Santa Thereza. Os vendedores, aliás, são nomes de antigos moradores da região.

Na fazenda das Canoas, na divisa com Minas Gerais, existiu a figura de Lourenço Cabelludo, apontado como um dos primeiros moradores da região. Seus herdeiros venderam suas terras ao padre João Rodrigues Martins, em meados de 1830. Há menção, aliás, que, em 1825, José Custódio Dias possuía a fazenda do Ribeirão das Canoas, mas provavelmente incorporava-se ao grande núcleo rural da Água Limpa e Lage, e não à Canoas, onde surgiria a estação e o povoado no final do século XIX. Estas duas fazendas, aliás, pertenciam à freguesia de Caconde, enquanto as demais à paróquia de Casa Branca. A fazenda das Canoas confrontava com as terras da fazenda da Pedra Branca, de propriedade da família Barbosa, também antigos proprietários da região.

Válido ressaltar, aliás, a influência das fazendas Soledade e Bica de Pedra, propriedades de Domiciano José de Souza e Vigilato José de Souza, irmãos e sócios até 1852, quando Vigilato falece e, no ano seguinte, é dividida por auto de confrontação e avaliação. Seria o núcleo que deu origem à fazenda Itaiquara e à cidade de Tapiratiba. Tanto o núcleo da Água Limpa e Lage, quanto o da Alegria foram desmembrados e deram origem à várias fazendas.

Não pode-se esquecer de figuras como Catharina Candida de Senna e Antonio José Gomes, proprietários da fazenda do Ribeirão do Meio, que foram os primeiros doadores de terras para o patrimônio de São Sebastião. Thereza Maria de Jesus, sua filha, ficou com parte das terras que confrontavam com tal patrimônio. José Gomes d’Avellino, outro filho, herdou boa parte das terras da fazenda, bem como parte nas fazendas Velha e São João.

O povoamento de Mococa não foi algo uníssimo, regrado e limitado a poucas pessoas. Incontáveis eram os proprietários de terras, fossem elas grandes latifúndios ou pequenas glebas. De forma suscinta, este trabalho visa esclarecer alguns equívocos e dar outra perspectiva sobre a vida rural no povoamento de Mococa. aos poucos, desbravamos o passado de nossa terra, para dar clareza ao ofuscamento da história.

 

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...