quinta-feira, 23 de maio de 2024

BREVES NOTAS SOBRE A J. NICOLA & IRMÃOS

 

Por Leonardo Borgheti M. F. Belotti

Os primórdios da indústria mocoquense remontam o ano de 1888, quando a família Nicola, advinda da Áustria, inicia um empreendimento de construção de rodas d’água, ampliando posteriormente para o maquinário agrícola. O crescente desenvolvimento de Mococa, à época, e a vasta quantidade de fazendas cafeeiras no município e na região imediata, elevaram a “J. Nicola & Irmão” de uma indústria familiar para o renome no setor industrial.

Não tardaria para que os três irmãos, Matheus (13.08.1872-10.07.1938), João (19.06.1870-20.05.1945) e Pedro (24.06.1874-03.05.1954) fossem tidos pelo maior apresso junto à comunidade mocoquense. Homens visionários, pioneiros do desenvolvimento fabril, abriram as portas da oportunidade, levando o nome de Mococa paralelo ao de seus produtos. Eram preocupados com o bem-comum, e, em 1922, João Nicola foi eleito vereador para a Câmara de 1923-1926, ocupando o cargo de vice-prefeito, segundo o professor Carlos Alberto Paladini no livro Assim nasceu Mococa.


Os irmãos Nicola

A prosperidade os acompanhava. Atuavam nos setores da mecânica, a fundição, serraria, carpintaria, construção de turbinas hidráulicas e instalações hidroelétricas de luz e força. Também eram representantes da General Motors Brasil. Construíram uma grande oficina no bairro da Aparecida, e empregaram vários operários.


O complexo industrial da Irmãos Nicola

Em 1945, com o falecimento de João Nicola, o contrato social da empresa seria modificado. Ele era o único dos três irmãos que teve filhos, os quais herdariam a sua quota-parte na sociedade, no valor de Cr$ 200.000,00. Eram eles: Geraldo, Nair, Celida, Gerte Maria e Cleonice. No mesmo ato da sucessão foi feita a alteração de sociedade comercial em nome coletivo para sociedade anônima. A escritura pública foi lavrada pelo 1º Tabelião interino da Comarca de Mococa, Arnaldo Brisighello, em 24 de dezembro de 1945. A primeira diretoria eleita foi a seguinte: Pedro Nicola, presidente; Geraldo Nicola, gerente; Luiz Souza Lima, tesoureiro; Carmo Pricoli, Jacinto Pisani e João Anibal Pourrat, Conselho Fiscal. Estava formada a “Irmãos Nicola S.A. – Mecânica para Indústria e Lavoura”.

Paralelo ao desenvolvimento da Irmãos Nicola, a “Pasqual Pisani S.A.” ganhava espaço no cenário empresarial, atuando desde 1937 com o benefício de algodão, exercendo tipicamente uma atividade familiar. Conta a tradição oral da família que a sociedade comprara as ações dos herdeiros de João Nicola. Já em 1947, Pasqual Pisani, representando a sociedade, assumia o cargo de superintendente da Irmãos Nicola. Pedro Nicola permaneceria presidente até sua morte, em 1954. O genro e o filho de Pasqual, Mario Destro e Alberto Pisani, foram eleitos tesoureiro e secretário, respectivamente.

O desenvolvimento era crescente. Não parecia haver freios para o crescimento da Irmãos Nicola. Em 1951, seu capital social era elevado de Cr$ 4.000.000,00 para Cr$ 5.000.000,00. Em 1954, com a morte de Pedro Nicola, suas ações foram adquiridas pela Pasqual Pisani S.A. Em 1956, a diretoria era a seguinte: Jacinto Pisani, presidente; Pasqual Pisani, superintendente; Alberto Pisani, tesoureiro; e Emilio Pisani, secretário. Conta-se que Pasqual Pisani, à frente das duas sociedades, passou a construir residências nas imediações das instalações industriais para seus funcionários e familiares. Ele viria a falecer em 03 de outubro de 1964, em Mococa.

Já em julho de 1974, a Rome Industries Inc., de Cedartown, Georgia, EUA, firma uma parceria com a Irmãos Nicola S.A., que passa a designar-se “Nicola Rome – Máquinas e equipamentos S.A.”, que continuou crescendo. A diretoria seria formada da seguinte maneira: Jacinto Pisani, presidente; Félix Latuszynski, diretor comercial; Odair Bueno, diretor financeiro; Luiz Alberto Pisani, diretor administrativo; e João Carlos Pisani, diretor industrial. Seu capital social foi elevado de Cr$ 9.790 milhões para Cr$ 17.221 milhões. No final da década de 1970, fizeram lançamento de diversas inovações para auxiliar na agricultura. O sonho, contudo, teve seu fim em 1999, quando foi decretada a sua falência, por motivos que ora nos fogem.

No ano seguinte, 2000, os antigos operários da Nicola Rome uniram-se e formaram a Cooperativa de Produtos Metalúrgicos de Mococa, a COPROMEM, permanecendo no imóvel até 2014, quando foi designado leilão do estabelecimento pela Justiça do Trabalho. À COPROMEM, foi doado pela Prefeitura de Mococa um terreno na Rodovia SP 340, Km 269.

O complexo da Nicola Rome foi vendido, afinal, para o grupo Maziero, em 2017, que estabeleceram o “Centro Empresarial Nicola Rome”, local que abriga inúmeras empresas, dos mais variados setores. Nos barracões, operam várias atividades industriais; no antigo prédio da administração, situam-se salas comerciais para profissionais liberais; logo abaixo, em outro prédio, onde funcionava a oficina, encontra-se instalado o Instituto Nacional da Seguridade Social, o INSS; no grande terreno, acima, foram erguidas duas torres residenciais, denominado Condimínio Azaleias, totalizando cerca de 208 apartamentos. A área total de terreno é de cerca de 22.000m2.


Fotos em exposição na Casa de Cultura Rogério Cardoso, em 2014

É pacificado pelos pensadores que os atos do presente devem-se aos empreendimentos do passado; é graças às forças unidas dos visionários irmãos Nicola e à sabedoria empresarial da família Pisani, que a indústria mocoquense floresceu e brilhou para a História.

Fontes:

Jornal O Correio Paulistano, de 1930-1960.

Jornal do Comércio (RJ), década de 1970.

PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. São Paulo: Alfa-Omega, 1995.

______________. Os italianos em Mococa. Mococa: editoração do autor, 2008.

Foto: Planta do complexo, acervo de Antonino Silva, disponível no grupo do Facebook “Mococa das Palmeiras Imperiais”

 

O QUE BRADOU, FICOU

 

Por L. B. M. Falarini Belotti

O capitão-mor Custódio José Dias nasceu, segundo consta, no território da Vila de São João del Rei em 1763, filho do português Custódio José Dias (1731-1779) e de Ana Lopes da Silva (1749-1773). Casou-se com Mariana de Almeida e Silva (c.1770-1826). Estabeleceu-se no sul de Minas, nas imediações da Vila de Campanha da Princesa, sendo avido criador de gado. Ao capitão-mor é atribuída a nomenclatura de um incipiente povoado às margens do Ribeirão do Meio, situado ao norte do território da Vila de São José do Mogi Mirim, que hoje conhecemos por Mococa.

Segundo o historiador Humberto de Queiroz, em sua conceituada monografia histórica, “veio do Machado, caçar em São Sebastião da Boa Vista, em companhia de seus genros Vigilato, Domiciano e Joaquim, o Capitão Mór Custódio José Dias. Ao passar pela nascente povoação a aristocrática cavalgata, exclamou o Capitão-Mór: “Olhem para ahi essas mocóquinhas”. Dos que acompanhavam ao Capitão-Mór, entre outros, José Pereira e Diogo Garcia, alguém perguntou a significação do vocabulário ‘mocóquinha’. Explicou-lhes o graduado caçador que, em Ibituruna, onde havia ele residido, existia um bairro de nome Mocócas ou Mocóquinhas, palavras que significavam certo número de casas pequenas. Encontraram originalidade na denominação e foram, desde logo, aplicando-a ao novo arraial, ao qual chamavam – o arraial das Mocócas”.

O local de onde supostamente proferiu tal afirmação é onde situa-se, atualmente, a Igreja Matriz da Santa Cruz, onde havia, à época, um cruzeiro. Teria vaticinado a denominação do lugar em 1844, segundo Humberto de Queiroz e os historiadores que se seguiram. Ocorre, porém, que em tal data o capitão-mor já se encontrava morto. Faleceu em 07 de setembro de 1843, em Alfenas, Minas Gerais, e é pouco provável que bradou algo do túmulo.

Embora, portanto, possa parecer uma história mítica, Humberto de Queiroz é preciso em suas informações complementares. As pessoas que o historiador atesta acompanharem, de fato, são seus genros: Vigilato José de Souza, casado Ana Custódia; Domiciano José de Souza, casado com Mariana de Almeida e Silva; e Joaquim Custódio Dias, casado com Luzia Delfina. Ainda, os outros dois companheiros, Diogo Garcia e José Pereira, já habitavam o lugar. Aquele adquiriu, em 1833, a fazenda Alegria; este, era proprietário da fazenda Laranjal, tendo vendido uma parte a José Gomes de Lima, em 1835.

Não obstante o apresentado, o povoado já possuía um pequeno núcleo populacional às margens do Ribeirão do Meio. De certo, casebres simples, feitos com os materiais que dispunham os primeiros moradores, sem requinte. A burguesia e os fazendeiros vêm morar no povoado quando este começa a ganhar proeminência, trazendo os ornamentos, espelhados nos edifícios europeus. Ainda, a cidade mencionada por Queiroz, Ibituruna, como sendo lugar que o capitão-mor habitou, é uma pequena cidade que, à época, situava-se no vasto território da Vila de São João del Rei. Segundo consta, foi a primeira povoação mineira, fundada por Fernão Dias Paes Leme, em 1674.

Diversas informações corroboram que a história narrada por Humberto de Queiroz é fidedigna, com exceção da data. Provavelmente, tal acontecimento se deu antes de 1843. O capitão-mor contava, na data de sua morte, com oitenta anos e, longe de questionar seu vigor físico, os caminhos entre as várias localidades eram, quando existentes, de terra, deveras precários, e as viagens eram feitas a cavalo, tornando desgastante o percurso. É certo que Custódio José Dias se aventurara na região. Foi quem fez o censo da Vila de São Carlos do Jacuhy de 1820, o que, pode-se presumir, levou-o a conhecer a região.

Não há mitologia, embora pareça – meramente trata-se de um equívoco de datas, que em nada prejudica a grandeza do vaticínio do capitão-mor. O seu brado ainda é ouvido cada vez que um indivíduo profere o nome da cidade – “Mococa” – ou de um de seus bairros – “Mocoquinha” –, que cresceu ao redor da Santa Cruz.    

Fontes:

DIAS, Lia Ribeiro. Das margens do Sapucaí às barrancas do Canoas. São Paulo: Momento Editorial, 2012;

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca – de sua fundação até 1900. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XV. São Paulo: Typographia do Diário Oficial, 1912

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...