quinta-feira, 23 de maio de 2024

O QUE BRADOU, FICOU

 

Por L. B. M. Falarini Belotti

O capitão-mor Custódio José Dias nasceu, segundo consta, no território da Vila de São João del Rei em 1763, filho do português Custódio José Dias (1731-1779) e de Ana Lopes da Silva (1749-1773). Casou-se com Mariana de Almeida e Silva (c.1770-1826). Estabeleceu-se no sul de Minas, nas imediações da Vila de Campanha da Princesa, sendo avido criador de gado. Ao capitão-mor é atribuída a nomenclatura de um incipiente povoado às margens do Ribeirão do Meio, situado ao norte do território da Vila de São José do Mogi Mirim, que hoje conhecemos por Mococa.

Segundo o historiador Humberto de Queiroz, em sua conceituada monografia histórica, “veio do Machado, caçar em São Sebastião da Boa Vista, em companhia de seus genros Vigilato, Domiciano e Joaquim, o Capitão Mór Custódio José Dias. Ao passar pela nascente povoação a aristocrática cavalgata, exclamou o Capitão-Mór: “Olhem para ahi essas mocóquinhas”. Dos que acompanhavam ao Capitão-Mór, entre outros, José Pereira e Diogo Garcia, alguém perguntou a significação do vocabulário ‘mocóquinha’. Explicou-lhes o graduado caçador que, em Ibituruna, onde havia ele residido, existia um bairro de nome Mocócas ou Mocóquinhas, palavras que significavam certo número de casas pequenas. Encontraram originalidade na denominação e foram, desde logo, aplicando-a ao novo arraial, ao qual chamavam – o arraial das Mocócas”.

O local de onde supostamente proferiu tal afirmação é onde situa-se, atualmente, a Igreja Matriz da Santa Cruz, onde havia, à época, um cruzeiro. Teria vaticinado a denominação do lugar em 1844, segundo Humberto de Queiroz e os historiadores que se seguiram. Ocorre, porém, que em tal data o capitão-mor já se encontrava morto. Faleceu em 07 de setembro de 1843, em Alfenas, Minas Gerais, e é pouco provável que bradou algo do túmulo.

Embora, portanto, possa parecer uma história mítica, Humberto de Queiroz é preciso em suas informações complementares. As pessoas que o historiador atesta acompanharem, de fato, são seus genros: Vigilato José de Souza, casado Ana Custódia; Domiciano José de Souza, casado com Mariana de Almeida e Silva; e Joaquim Custódio Dias, casado com Luzia Delfina. Ainda, os outros dois companheiros, Diogo Garcia e José Pereira, já habitavam o lugar. Aquele adquiriu, em 1833, a fazenda Alegria; este, era proprietário da fazenda Laranjal, tendo vendido uma parte a José Gomes de Lima, em 1835.

Não obstante o apresentado, o povoado já possuía um pequeno núcleo populacional às margens do Ribeirão do Meio. De certo, casebres simples, feitos com os materiais que dispunham os primeiros moradores, sem requinte. A burguesia e os fazendeiros vêm morar no povoado quando este começa a ganhar proeminência, trazendo os ornamentos, espelhados nos edifícios europeus. Ainda, a cidade mencionada por Queiroz, Ibituruna, como sendo lugar que o capitão-mor habitou, é uma pequena cidade que, à época, situava-se no vasto território da Vila de São João del Rei. Segundo consta, foi a primeira povoação mineira, fundada por Fernão Dias Paes Leme, em 1674.

Diversas informações corroboram que a história narrada por Humberto de Queiroz é fidedigna, com exceção da data. Provavelmente, tal acontecimento se deu antes de 1843. O capitão-mor contava, na data de sua morte, com oitenta anos e, longe de questionar seu vigor físico, os caminhos entre as várias localidades eram, quando existentes, de terra, deveras precários, e as viagens eram feitas a cavalo, tornando desgastante o percurso. É certo que Custódio José Dias se aventurara na região. Foi quem fez o censo da Vila de São Carlos do Jacuhy de 1820, o que, pode-se presumir, levou-o a conhecer a região.

Não há mitologia, embora pareça – meramente trata-se de um equívoco de datas, que em nada prejudica a grandeza do vaticínio do capitão-mor. O seu brado ainda é ouvido cada vez que um indivíduo profere o nome da cidade – “Mococa” – ou de um de seus bairros – “Mocoquinha” –, que cresceu ao redor da Santa Cruz.    

Fontes:

DIAS, Lia Ribeiro. Das margens do Sapucaí às barrancas do Canoas. São Paulo: Momento Editorial, 2012;

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca – de sua fundação até 1900. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XV. São Paulo: Typographia do Diário Oficial, 1912

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