quinta-feira, 15 de junho de 2023

UNS CACAREJOS XENOFÓBICOS



Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

A cena do crime
 

Ora, que desventura preparou o acaso!  Que fado, que despropósito! Nos recantos de uma cidade, após transpostos os portões brancos de ferro daquela casa assoalhada deserta, passadas a garagem e a claraboia coberta de tela verde, após a cozinha de azulejos portugueses, a porta dupla de madeira branca e a escadaria, sob o olhar distante de todo o Centro da cidade, chega-se ao local do despautério: o galinheiro, cena de um crime que segue relatado. Advirto: o ato criminoso aqui não é entre os humanos, mas entre os sujeitos do galinheiro. Não é crime aos olhos positivados dos homens, mas há, aí, uma ideia. “Ah, mas aves não pensam!” – não sobre letras e números, mas compreendem o que o empirismo e a sobrevivência ensinam. Para elas, é o que basta.

Dizem por aí que, em casa que há um gato, outros chegam, mas não falaremos de gatos. Pergunto-me apenas se o princípio é o mesmo quanto aos galináceos, pois é o que aconteceu.

O vento soprou diferente. Cruzava a copa das árvores violentamente, conduzindo as folhas ao esmo de sua vontade; derrubava as frutas maduras de seus galhos altos, para a infelicidade do granjeiro, que as veria espatifadas no solo de terra escura e coberto de folhas secas de outras épocas; e empurrou, vinda do além-muro, uma galinha de outros campos. Como surgiu, uma incógnita! Veio do ar e pelo ar, ou de causas alheias ao conhecimento do granjeiro. Fato é que aquela galinha de penas pretas chegou ao quintal de chofre.

Entre o seu conhecimento empírico e o seu extinto de sobrevivência, deve ter vislumbrado a terra das oportunidades, afinal, um largo quintal, repleto de insetos, frutas e o que mais quisesse se deleitar. Tinha companhia, aliás: cerca de quinze outros galináceos. Felizmente, para ela, o granjeiro, que ia até a casa duas vezes ao dia, perceberia a sua chegada. Estava podando as árvores, depois de lançar às aves quirela e milho. Encerrada a fome, veio a sede, mas de sangue; as galinhas viram a intrusa, uma forasteira que invadira suas dependências. Um amontoado delas partiu para a ignorância, atacando a pobre galinha com seus bicos e golpes de espora.

O granjeiro ouvira a manifestação toda. Os piados, as folhas secas farfalhando e foi checar, desconfiado. Viu uma nuvem de penas e de poeira e correu, acreditando que fosse um gato ou algum lagarto. Estava enganado, afinal: era uma galinha, que ele não reconheceu como sendo sua. Era de fora. Sabe-se lá como, ele afugentou os galináceos e salvou aquela que fora vilipendiada. Levou-a para o quartinho do fogão de lenha, aonde guardava o milho e suas ferramentas.

Não foi fácil a recuperação, mas o coração do granjeiro apiedou-se pela ave moribunda. Fez um ninho, aplicou medicação e a alimentava naquele quarto escuro. As demais habitantes sondavam aquela que consideravam uma intrusa; vigiavam pela janelinha lateral, sempre fechada, apenas esperando o momento certo...

O que intriga é o fato de, mesmo não estando em meio direto das outras, aquela galinha tenha sido objeto de tamanha hostilidade. Não a viam, não a ouviam, pois, machucada, não cacarejava, mas as demais estavam cada vez mais alvoroçadas, em especial por ser inacessível o cômodo da convalescente.

Os dias passaram, e a estrangeira recuperava-se cada vez mais. Os sinais eram bons: sobreviveria, afinal! O granjeiro, satisfeito, resolveu tentar introduzir uma primeira vez, sob sua vigília, a galinha recuperada. Prostrado na soleira do cômodo, abriu lentamente a porta, e atirou milho no chão para chamar a atenção da galinha. Pois ela, mesmo evidenciando estar reticente, saiu. O pátio estava deserto, até então.

Poucos passos foram suficientes para que a ira fosse despertada e para chamar ao galinheiro Marte, deus da guerra. As outras galinhas surgiram repentinamente! Sagazes, voaram de todos os lados, cercando a pobre e indefesa intrusa. Os golpes foram severos, mas, por sorte, o granjeiro, esquivando-se daquela furiosa investida, resgatou novamente a estrangeira e levou-a para o cômodo, tornando a medicá-la.

O que fazer, afinal? Pensaria em um plano. Cuidaria novamente da enferma, afinal, animais também sentem dor, e não era de sua índole permitir que aquela galinha perecesse à mingua. Colocou-a no ninho improvisado e a alimentou, antes de trancar a porta e ir embora. A tarde chegava ao fim.

A noite se aproximava cada vez mais. O vento estava diferente. A lua observava, distante e discretamente o galinheiro, e não suspeitava o que presenciaria. Os cães ganiam, ao longe, e as luzes da cidade, qual as estrelas no céu, começavam a despertar. Os poleiros, contudo, estavam desertos. Os ninhos, vazios. O pátio, contudo, estava cheio. De frente para a porta do cômodo do fogão de lenha, era tramada uma escaramuça. Lá dentro, dormia serena a galinha machucada, e mal ela imaginava que, afinal, dormiria para sempre...

Quando a manhã raiou, o granjeiro tomou seu café, vestiu-se, leu o jornal e subiu para a casa aonde situava o galinheiro. O dia estava normal. Nada de novo sobre o mundo. Girou a chave no portão, cruzou a garagem e a cozinha, destrancou a porta dos fundos e desceu a escada. Concentrado em não pisar em falso, ele sequer percebeu as penas nos degraus.

Distraído, o homem foi ao cômodo, aonde prepararia o milho e a quirela. Girou a chave. Abriu a porta. Seu olhar adentrava o recinto devagar. No meio da sala, o susto: sangue e penas. Assustado, correu mais à frente o olhar e se deparou com a galinha, afinal. Estava morta, toda bicada, toda ensanguentada. A janela lateral estava aberta. Mas ele sequer a abria! Atordoado, saiu dali rumo ao pátio. Viu algumas galinhas se aproximarem. Em seus bicos, o líquido vermelho.  Afinal, as assassinas, que provavelmente abriram a janelinha para que pudessem ceifar aquela vida. Deviam ter alvoroçado tanto por ali, que afinal abriram a janela.

Triste pelo que aconteceu, o granjeiro recolheu a morta e limpou o chão. Pegou o milho e, deprimido, atirou sem muito entusiasmo pelo pátio. Foi-se embora em seguida, desapontado por não ter podido salvar aquele pobre animal.

*

Bem, a história parece uma fábula, porém, é bem real, e aconteceu com meu padrinho e tio-avô, Renato, na casa dos meus finados bisavós, Pedro Falarini e Maria da Conceição Coelho Falarini, aonde ele mantém um pomar e galinhas. Não pude deixar de pensar, quando ele me narrou essa história, no tema da xenofobia. Afinal, todas elas eram galinhas. Tinham penas, bico, cacarejavam e ciscavam, mas aquela pobre intrusa foi tratada com hostilidade. Por qual motivo, afinal, se são todas da mesma raça? São galinhas, mas as de dentro não permitiram que a estranha permanecesse. Bem, vejo o princípio aplicado à humanidade. Somos todos seres humanos, mas insistimos em tratar com certa repulsa outros humanos: negamos asilo aos refugiados, negamos salvamento às crianças estrangeiras, escravizamos, bombardeamos, tudo para quê? Terras, dinheiro, ideologia? Somos todos irmãos, partes integrantes de um mesmo planeta. E insistimos no erro, insistimos no ódio, na separação e na segregação. E cada vez mais, rumamos para a destruição. Segundo o escritor Isaac Azimov, em seu livro Escolha a Catástrofe, as formas iminentes e imediatas de destruição do planeta são fruto não dos fenômenos naturais, mas sim dos próprios humanos...

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A condição humana de Arendt

 

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Fonte: Google Imagens

A filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), define, dentro das condições humanas, três tipos de atividades. O labor, a primeira delas, se relaciona às atuações fisiológicas, naturais do organismo; o trabalho, a segunda, resulta dos processos de mano-fatura, de produção; e a ação, a terceira, tem seu campo na vida em sociedade, tendo espaço no campo político.

O labor assegura a vida; o trabalho, a praticidade da existência; e a ação, o ideal político. As relações humanas estão presentes nesta última. Ainda, as três se relacionam à concepção de Arendt de natalidade, fundada no pensamento de Santo Agostinho (354-430), outrora o bispo de Hipona: “o homem foi criado para que houvesse um novo começo”, e, como complemente a filósofa, “cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós”, conforme a frase final de Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.

Cada ser humano é um universo de possibilidades e de pensamentos, e espera-se que ajam conforme os ideais humanos em suas empreitadas, buscando, em especial, o melhor à coletividade. A esfera política destina-se à imortalidade, pois desejam os homens e as mulheres serem lembrados por conta de seus atos em sua existência. Porém, surge a indagação se o simples ingresso na vida pública confere essa futura lembrança, ou se os motivos para esse ingresso são altruísticos ou meramente egoístas.

Os incas, povo que habitou a Cordilheira dos Andes até a conquista espanhola, tinham o costume de apagar da história aqueles governantes que não eram dignos. A maior punição, para eles, talvez fosse o esquecimento, e esse talvez fosse o fator que garantia, em teoria, que os governantes fossem bons e justos.

Cícero (106 a.C.-43 a.C.), advogado, senador e filósofo romano, considerava o bom orador aquele que, ao discursar, fazia com que a plateia, quando do término de sua palestra, pensa nela mesma, refletindo sobre os dizeres e aplicando os proveitos a si próprio. Não obstante, o mau orador era aquele que, com seus discursos, fazia com que a plateia pensasse nele, orador.

Pois leve-se esse ideal de Cícero ao âmbito político, onde as pessoas, em atos coletivos, devem trabalhar para o bem-comum. Se um governante é bem e atua em prol do povo, ele fará com que os indivíduos não se preocupem por demasiado com as questões do Estado, que segue bem administrado; contudo, o mau governante faz com que o povo, além de tomar altas doses de ojeriza contra sua pessoa, se preocupe com os vários setores da administração, e não apenas com a sua vida particular (Faço uma breve consideração: com “preocupação”, me refiro à afligir, e não ignorar, pois cada cidadão deve acompanhar o curso do barco que conduz o Estado).

Por questões óbvias, não deve-se ser idealista e apenas considerar o dever-ser. O real é o observável, aquilo que é, e a presença dos maus oradores é evidente. Como solução, o povo deve tomar parte não apenas do processo eleitoral, mas também da fiscalização da atuação do Estado nos anos do mandato, empregando, inclusive, ideias novas e o seu pensamento crítico. Discordo da máxima vox populi, vox Dei. Esse pensamento de manada, massificado, pouco colabora para o meio político. As massas são receptoras de ideias e não produtoras. A alienação é o mal que barra a ação...

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...