quinta-feira, 1 de junho de 2023

A condição humana de Arendt

 

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Fonte: Google Imagens

A filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), define, dentro das condições humanas, três tipos de atividades. O labor, a primeira delas, se relaciona às atuações fisiológicas, naturais do organismo; o trabalho, a segunda, resulta dos processos de mano-fatura, de produção; e a ação, a terceira, tem seu campo na vida em sociedade, tendo espaço no campo político.

O labor assegura a vida; o trabalho, a praticidade da existência; e a ação, o ideal político. As relações humanas estão presentes nesta última. Ainda, as três se relacionam à concepção de Arendt de natalidade, fundada no pensamento de Santo Agostinho (354-430), outrora o bispo de Hipona: “o homem foi criado para que houvesse um novo começo”, e, como complemente a filósofa, “cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós”, conforme a frase final de Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.

Cada ser humano é um universo de possibilidades e de pensamentos, e espera-se que ajam conforme os ideais humanos em suas empreitadas, buscando, em especial, o melhor à coletividade. A esfera política destina-se à imortalidade, pois desejam os homens e as mulheres serem lembrados por conta de seus atos em sua existência. Porém, surge a indagação se o simples ingresso na vida pública confere essa futura lembrança, ou se os motivos para esse ingresso são altruísticos ou meramente egoístas.

Os incas, povo que habitou a Cordilheira dos Andes até a conquista espanhola, tinham o costume de apagar da história aqueles governantes que não eram dignos. A maior punição, para eles, talvez fosse o esquecimento, e esse talvez fosse o fator que garantia, em teoria, que os governantes fossem bons e justos.

Cícero (106 a.C.-43 a.C.), advogado, senador e filósofo romano, considerava o bom orador aquele que, ao discursar, fazia com que a plateia, quando do término de sua palestra, pensa nela mesma, refletindo sobre os dizeres e aplicando os proveitos a si próprio. Não obstante, o mau orador era aquele que, com seus discursos, fazia com que a plateia pensasse nele, orador.

Pois leve-se esse ideal de Cícero ao âmbito político, onde as pessoas, em atos coletivos, devem trabalhar para o bem-comum. Se um governante é bem e atua em prol do povo, ele fará com que os indivíduos não se preocupem por demasiado com as questões do Estado, que segue bem administrado; contudo, o mau governante faz com que o povo, além de tomar altas doses de ojeriza contra sua pessoa, se preocupe com os vários setores da administração, e não apenas com a sua vida particular (Faço uma breve consideração: com “preocupação”, me refiro à afligir, e não ignorar, pois cada cidadão deve acompanhar o curso do barco que conduz o Estado).

Por questões óbvias, não deve-se ser idealista e apenas considerar o dever-ser. O real é o observável, aquilo que é, e a presença dos maus oradores é evidente. Como solução, o povo deve tomar parte não apenas do processo eleitoral, mas também da fiscalização da atuação do Estado nos anos do mandato, empregando, inclusive, ideias novas e o seu pensamento crítico. Discordo da máxima vox populi, vox Dei. Esse pensamento de manada, massificado, pouco colabora para o meio político. As massas são receptoras de ideias e não produtoras. A alienação é o mal que barra a ação...

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