A filósofa alemã, Hannah Arendt
(1906-1975), define, dentro das condições humanas, três tipos de atividades. O labor,
a primeira delas, se relaciona às atuações fisiológicas, naturais do organismo;
o trabalho, a segunda, resulta dos processos de mano-fatura, de
produção; e a ação, a terceira, tem seu campo na vida em sociedade,
tendo espaço no campo político.
O labor assegura a vida; o trabalho,
a praticidade da existência; e a ação, o ideal político. As relações humanas
estão presentes nesta última. Ainda, as três se relacionam à concepção de
Arendt de natalidade, fundada no pensamento de Santo Agostinho (354-430),
outrora o bispo de Hipona: “o homem foi criado para que houvesse um novo
começo”, e, como complemente a filósofa, “cada novo nascimento garante esse
começo; ele é, na verdade, cada um de nós”, conforme a frase final de Origens
do Totalitarismo, publicado em 1951.
Cada ser humano é um universo de
possibilidades e de pensamentos, e espera-se que ajam conforme os ideais
humanos em suas empreitadas, buscando, em especial, o melhor à coletividade. A
esfera política destina-se à imortalidade, pois desejam os homens e as mulheres
serem lembrados por conta de seus atos em sua existência. Porém, surge a indagação
se o simples ingresso na vida pública confere essa futura lembrança, ou se os
motivos para esse ingresso são altruísticos ou meramente egoístas.
Os incas, povo que habitou a
Cordilheira dos Andes até a conquista espanhola, tinham o costume de apagar da
história aqueles governantes que não eram dignos. A maior punição, para eles,
talvez fosse o esquecimento, e esse talvez fosse o fator que garantia, em
teoria, que os governantes fossem bons e justos.
Cícero (106 a.C.-43 a.C.), advogado,
senador e filósofo romano, considerava o bom orador aquele que, ao discursar,
fazia com que a plateia, quando do término de sua palestra, pensa nela mesma, refletindo
sobre os dizeres e aplicando os proveitos a si próprio. Não obstante, o mau
orador era aquele que, com seus discursos, fazia com que a plateia pensasse
nele, orador.
Pois leve-se esse ideal de Cícero ao
âmbito político, onde as pessoas, em atos coletivos, devem trabalhar para o
bem-comum. Se um governante é bem e atua em prol do povo, ele fará com que os indivíduos
não se preocupem por demasiado com as questões do Estado, que segue bem
administrado; contudo, o mau governante faz com que o povo, além de tomar altas
doses de ojeriza contra sua pessoa, se preocupe com os vários setores da
administração, e não apenas com a sua vida particular (Faço uma breve
consideração: com “preocupação”, me refiro à afligir, e não ignorar, pois cada
cidadão deve acompanhar o curso do barco que conduz o Estado).
Por questões óbvias, não deve-se ser
idealista e apenas considerar o dever-ser. O real é o observável, aquilo
que é, e a presença dos maus oradores é evidente. Como solução, o povo
deve tomar parte não apenas do processo eleitoral, mas também da fiscalização
da atuação do Estado nos anos do mandato, empregando, inclusive, ideias novas e
o seu pensamento crítico. Discordo da máxima vox populi, vox Dei. Esse
pensamento de manada, massificado, pouco colabora para o meio político. As
massas são receptoras de ideias e não produtoras. A alienação é o mal que barra
a ação...
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