terça-feira, 23 de maio de 2023

O desgaste do lobisomem moderno

 



 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


As histórias misteriosas são várias, e rodeiam de pessoas à lugares e objetos, envolvendo todos estes sujeitos em vários mistérios que, durante anos, são corroborados por certos atributos. Criaturas sombrias, objetos amaldiçoados e locais assombrados existem aos montes na imaginação e na cultura popular. Uivos distantes remetem-se aos lobisomens, que, como um atributo de sua fisiologia mítica, têm a função de amedrontar.

O medo pode ser utilizado para fortalecer a manutenção do poder. Diz-se que líderes governam com fulcro no respeito e na admiração do seu povo, mas é equivocado confundir, contudo, a autoridade genuína com a coerção causada pelo medo. A autoridade desaparece sem nem ter surgido quando uma espada é o meio que se utiliza para ordenar; e, neste caso, o braço que a empunha apenas é objeto coadjuvante.

Atualmente, o gênero “terror”, enquanto literário e cinematográfico, parece ter perdido seu fôlego, e seu resultado – o medo – deixou o cenário para o ceticismo. O ser humano se reafirma no topo de toda a escala da realidade e da mitologia, se sobressaindo ante Matinta, Cérbero e demais entidade, além de disputar o cume da pirâmide com os seus iguais. Para tanto, lutas individuais carecem de reforços, mantendo, obviamente, a hierarquia, para a que apenas um se sente no trono. Não bastasse isso, o poder se reafirma com a temerosidade causada pelos mais fortes.

O medo como objeto para atingir a coerção é empregado continuamente no desentranhar da história. Não vivia o ser humano incentivado a se manter no reto caminho para que não afrontasse os deuses? Para tanto, devia consentir a sevícia dos detentores do arbítrio. O domínio da Igreja Católica nos capítulos da Idade Média na Europa e sua intervenção, fosse direta ou indireta, na política medieval eram corroborados pela temerosidade. Quem gostaria de passar a eternidade em um antro escuro de eterna danação, comandada pelos anjos que caíram do Paraíso por afrontar sua deidade? As camadas populares – e não apenas elas – da escala social feudal eram incentivadas a obedecerem às leis atemporais sob tal alegação de um destino no além-túmulo que não era agradável.

Há uma oração sufista atribuída à Rabiah al-Adawiyah que diz o seguinte: “[Deus] Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no teu inferno; se eu te adorar por desejo do Paraíso, exclua-me do teu Paraíso; mas se eu te busco pelo que tu és, não esconda de mim a tua face”.

A obediência fundada em temerosidade desvirtua a autoridade, que, segundo o historiador alemão Theodor Mommsen, “é mais que um conselho e menos que um comando”. A reação que resulta da coerção por meio do medo é um ódio silencioso, que pode ser exteriorizado cedo ou tarde. A sanguinolência com que certos regimes monárquicos findaram revela a afirmação anterior.

Para o filósofo grego Aristóteles, a forma de governo que é antagônica à monarquia é a tirania; a desvirtuação do governo “de um”, cuja característica inerente a si era o arbitrário gerenciamento da máquina estatal, sem haver limitações éticas ou legais ao poder do tirano. Seu poder era refletido na espada, mas sua afirmação advinha do medo.

O terror é a arma principal de sistemas políticos de viés autoritário e totalitário. As suas benesses eram, dentre outras, conseguir o silêncio da oposição e defender o estado, e sua titularidade era conferida às polícias secretas. As massas, responsáveis por alavancar os líderes totalitários, viviam uma dicotomia: apoiar o movimento que denunciava suas aflições políticas, sociais e econômicas, e conviver com a ideia de não poder interagir com os seus semelhantes. Afinal, seu vizinho poderia denunciá-lo ao Estado se você opinasse sobre um livro lido ou por outra trivialidade qualquer. O individualismo desaparecia, abrindo caminho para uma massa monolítica que não exercia os atos de pensar e de socializar e se deixava tornar receptora de ideias já pensadas por aquele grupúsculo detentor do poder.

Eis que surge uma questão: qual é o limite de uma sociedade coagida pelo medo para que se gere a ordem e se afirme o poder do governante? O adestramento de seres humanos com a temerosidade resulta, em certo ponto, em ataques contra a desejada ordem e, concomitantemente, na perda do poder.

Por fim, passo a escrever de forma informal para poder explicar o motivo de ter dado o título escolhido a este pequeno artigo. Lobisomens fazem parte do folclore global e, resumindo a trama, são homens que se transformam em lobos. Sua origem mitológica é variável de acordo com cada cultura. O significado deste mito é a prevalência de instintos animalescos que se sobrepõem à razão humana, pois o ser humano é um animal e, como tal, não escapa do inato fado da natureza sobre seus ombros. A razão é o filtro que nos diferencia dos demais animais.

As virtudes políticas e sociais, quando se emprega o instinto de sobrevivência por agentes corruptos e autoritários, perdem suas graças e são substituídas por mesquinhezes personalistas, fundadas na satisfação das necessidades efêmeras dos instintos primitivos que não são, por desdém ou ignorância, policiados.

O dinamismo imposto pelas mídias sociais torna as informações imediatas e constantes, desgastando a estrutura política e social daqueles que usam daqueles artifícios para a sobrevivência instintiva. A era da arbitrariedade parece ter se encerrado com as democracias, que visam, dentro de um ordenamento institucional sólido e igualitário, garantir os princípios que foram invocados na Revolução Francesa, visando a igualdade, a liberdade e a fraternidade, excluindo a arbitrariedade e a temerosidade.

Reflita sobre as ideias que lhe chegam e que desconhecem a priori, pois, às vezes, um lobisomem nada mais é que uma forma coercitiva para manter-te em casa e um corpo-seco, um artifício para te afastar de alguma localidade. O verdadeiro poder advém, ao contrário do que muitos dizem, do conhecimento, e não da espada.

 


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