As histórias misteriosas são várias,
e rodeiam de pessoas à lugares e objetos, envolvendo todos estes
sujeitos em vários mistérios que, durante anos, são corroborados por certos atributos.
Criaturas sombrias, objetos amaldiçoados e locais assombrados existem aos
montes na imaginação e na cultura popular. Uivos distantes remetem-se aos
lobisomens, que, como um atributo de sua fisiologia mítica, têm a função de
amedrontar.
O medo pode ser utilizado para
fortalecer a manutenção do poder. Diz-se que líderes governam com fulcro no
respeito e na admiração do seu povo, mas é equivocado confundir, contudo, a
autoridade genuína com a coerção causada pelo medo. A autoridade desaparece sem
nem ter surgido quando uma espada é o meio que se utiliza para ordenar; e,
neste caso, o braço que a empunha apenas é objeto coadjuvante.
Atualmente, o gênero “terror”,
enquanto literário e cinematográfico, parece ter perdido seu fôlego, e seu
resultado – o medo – deixou o cenário para o ceticismo. O ser humano se
reafirma no topo de toda a escala da realidade e da mitologia, se sobressaindo
ante Matinta, Cérbero e demais entidade, além de disputar o cume da pirâmide
com os seus iguais. Para tanto, lutas individuais carecem de reforços,
mantendo, obviamente, a hierarquia, para a que apenas um se sente no trono. Não
bastasse isso, o poder se reafirma com a temerosidade causada pelos mais
fortes.
O medo como objeto para atingir a
coerção é empregado continuamente no desentranhar da história. Não vivia o ser
humano incentivado a se manter no reto caminho para que não afrontasse os
deuses? Para tanto, devia consentir a sevícia dos detentores do arbítrio. O
domínio da Igreja Católica nos capítulos da Idade Média na Europa e sua
intervenção, fosse direta ou indireta, na política medieval eram corroborados
pela temerosidade. Quem gostaria de passar a eternidade em um antro escuro de
eterna danação, comandada pelos anjos que caíram do Paraíso por afrontar sua
deidade? As camadas populares – e não apenas elas – da escala social feudal
eram incentivadas a obedecerem às leis atemporais sob tal alegação de um destino
no além-túmulo que não era agradável.
Há uma oração sufista atribuída à
Rabiah al-Adawiyah que diz o seguinte: “[Deus] Se eu te adorar por medo do
inferno, queima-me no teu inferno; se eu te adorar por desejo do Paraíso,
exclua-me do teu Paraíso; mas se eu te busco pelo que tu és, não esconda de mim
a tua face”.
A obediência fundada em temerosidade
desvirtua a autoridade, que, segundo o historiador alemão Theodor Mommsen, “é
mais que um conselho e menos que um comando”. A reação que resulta da coerção
por meio do medo é um ódio silencioso, que pode ser exteriorizado cedo ou
tarde. A sanguinolência com que certos regimes monárquicos findaram revela a
afirmação anterior.
Para o filósofo grego Aristóteles, a
forma de governo que é antagônica à monarquia é a tirania; a desvirtuação do
governo “de um”, cuja característica inerente a si era o arbitrário
gerenciamento da máquina estatal, sem haver limitações éticas ou legais ao
poder do tirano. Seu poder era refletido na espada, mas sua afirmação advinha
do medo.
O terror é a arma principal de
sistemas políticos de viés autoritário e totalitário. As suas benesses eram,
dentre outras, conseguir o silêncio da oposição e defender o estado, e sua
titularidade era conferida às polícias secretas. As massas, responsáveis por
alavancar os líderes totalitários, viviam uma dicotomia: apoiar o movimento que
denunciava suas aflições políticas, sociais e econômicas, e conviver com a
ideia de não poder interagir com os seus semelhantes. Afinal, seu vizinho
poderia denunciá-lo ao Estado se você opinasse sobre um livro lido ou por outra
trivialidade qualquer. O individualismo desaparecia, abrindo caminho para uma
massa monolítica que não exercia os atos de pensar e de socializar e se deixava
tornar receptora de ideias já pensadas por aquele grupúsculo detentor do poder.
Eis que surge uma questão: qual é o
limite de uma sociedade coagida pelo medo para que se gere a ordem e se afirme
o poder do governante? O adestramento de seres humanos com a temerosidade
resulta, em certo ponto, em ataques contra a desejada ordem e,
concomitantemente, na perda do poder.
Por fim, passo a escrever de forma
informal para poder explicar o motivo de ter dado o título escolhido a este
pequeno artigo. Lobisomens fazem parte do folclore global e, resumindo a trama,
são homens que se transformam em lobos. Sua origem mitológica é variável de acordo com cada cultura. O significado deste mito é a
prevalência de instintos animalescos que se sobrepõem à razão humana, pois o
ser humano é um animal e, como tal, não escapa do inato fado da natureza sobre
seus ombros. A razão é o filtro que nos diferencia dos demais animais.
As virtudes políticas e sociais,
quando se emprega o instinto de sobrevivência por agentes corruptos e
autoritários, perdem suas graças e são substituídas por mesquinhezes
personalistas, fundadas na satisfação das necessidades efêmeras dos instintos
primitivos que não são, por desdém ou ignorância, policiados.
O dinamismo imposto pelas mídias
sociais torna as informações imediatas e constantes, desgastando a estrutura
política e social daqueles que usam daqueles artifícios para a sobrevivência
instintiva. A era da arbitrariedade parece ter se encerrado com as democracias,
que visam, dentro de um ordenamento institucional sólido e igualitário,
garantir os princípios que foram invocados na Revolução Francesa, visando a
igualdade, a liberdade e a fraternidade, excluindo a arbitrariedade e a
temerosidade.
Reflita sobre as ideias que lhe
chegam e que desconhecem a priori, pois, às vezes, um lobisomem nada mais é que
uma forma coercitiva para manter-te em casa e um corpo-seco, um artifício para
te afastar de alguma localidade. O verdadeiro poder advém, ao contrário do que
muitos dizem, do conhecimento, e não da espada.

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