Parte III
Ó, Glória Celeste! Tão sábia e generosa és! Por qual
motivo, ó Pai, questiono-te? Sempre soube, ou assim creio saber, que tu, pai
dos pais, és o maior guia ante a escuridão. Sei a resposta, porém, para tal
retórica; a arguição é parte inerente de teus filhos, não lhes retira tal
prerrogativa, e a isto lhe sou deveras grato!
O vislumbre que tive me encheu o olhar de júbilo. A
glória que existe nos Céus é tamanha que mente alguma, seja de convicto devoto,
seja de astuto filósofo, é capaz de conceber. Ali, não há sequer rastro de
trevas, apenas a mais pura e imaculada luz. A chama vive eterna e acolhedora
nos salões eternos de bem-aventurança.
Me virei, então, ao meu guia:
- Ó nobre mestre, que pelos caminhos da incerteza me
conduziu, há de me deixar agora? Aprecia-me tua companhia. Retornará ao teu
lugar enfim, qual filho que retorna ao seu lar?
- Acalma teu coração, te peço. Vejo-te irrequieto há
tempos – ele vociferou, sereno, qual professor zeloso que ensina teimoso aluno.
– Saiba que hei de guia-lo ainda até o Céu de Júpiter, pois tua salvadora lá
reside, onde os grandes governantes e políticos estão, nos corredores da
justa-medida e do amor ao agir pelos outros. Agora, anda filho. Cá estamos, no
primeiro Céu: a Lua.
As almas que abriram mão de seus votos encontram-se
neste Céu. Foram insuficientes na coragem, porém, dotadas de virtudes. O meu
sábio guia, me apontava nomes e eu reconhecia rostos de luz, que vira, outrora,
nos livros. A gentil alma que me guiava dirigiu-me ao Céu seguinte, Mercúrio,
onde estão as almas que, tendo fama ou o desejo de obtê-la, pecaram na justiça.
Ouvi, ali, incontáveis nomes, perdidos agora nas lembranças da Vida.
O terceiro Céu, Vênus, recebia os que fizeram bom uso
da virtude do amor, e, adiante, vi um casal familiar. Corri até eles,
abracei-os com ternura, e eles retribuíram com afeto.
- Ó, irmã de minha avó, que deleite vê-la!
Entristece-me saber que partiu, que teu velório foi pouco assistido, mas o Pai
permitiu, afinal, que tão unido casal permanecesse unido aqui, nos passos
celestes!
- Que emoção ter-te aqui, leve lembranças aos vivos,
diga-lhes que em paz repousamos! – e seguiram para com outras almas próximas.
Com o olhar turvo pelas lágrimas, pedi um momento ao
meu guia, e ele sorriu:
- Teu coração é justo, bom e sabe o que sente. Chora,
filho, pois o choro é a mais pura verdade!
- Pois saiba, ó mestre, que apenas choro na presença
de quem nutro a mais terna confiança. Seguimos? – E ele consentiu, levando-me
ao próximo Céu.
No Sol, estão os teólogos, os estudiosos, e meu mestre
revelou-me interessante conclusão:
- Saiba, meu filho, que eu resido aqui, no limiar do
amor e da sabedoria, adiante, minha amada me aguarda, mas antes que, pondo a
ansiedade e a dúvida a frente do bom-senso, me questione, informo-te que minha
mão não sairá de teus ombros.
Vi inúmeros sábios, pessoas cuja admiração era-me
tamanha. O bispo-teólogo que trouxe-nos vários ensinamentos após o seu período
no escuro, os leitores da física da natureza, que interpretaram a Ordem e obtiveram
o mais elevado grau. Quanta sabedoria e, ainda assim, tão pequena!
O Céu de Marte recebia os que lutaram pela igreja, e
avistei uma figura, que, permitindo meu mestre, lhe falei:
- Ó, alma guerreira! Conheço-te, pois de uma das
cidades que guardou os portões da ilustre Barca. Tu batalhou contra o pecado e,
mais ainda, enfrestastes demônios frente a frente! O inimigo foi por ti
sobrepujado, e aquela dama foi liberta por teu empenho divino!
- Aquela terra jaz em meu coração, és-me querida! E
vejo que, tendo-te lá residência, ela está bem amparada de heróis!
As palavras gentis me acertaram o peito, mas este
começou a disparar, como um tambor que, golpeado incessantemente por um
soldado, prevê a guerra. Vi, no sexto Céu, ela: minha madrinha, aquela que
enviara meu guia ao meu encontro.
Com os braços abertos, corri até ela, e entre o mais
poderoso abraço que pude dar e as lágrimas que jorravam de meu olhar, vi sua
face de luz; forte era o seu brilho, alegre o seu sorriso. Ela, enfim, me
disse:
- Meu filho, meu amado filho, estava aqui, te
esperando, almejando que tua viagem fosse bem ultimada. Vi tua luz no mundo
minguar, e não pude, ante toda a inquietação que sabes que possuo, me abster.
Providenciei que tivesse tal jornada, para que fugisse, qual o Poeta, dos
malefícios do teu meio. Acalma-te, eleva-te o espírito. Estarei sempre
intercedendo por ti, pelos teus, pelo meu amado. Agora, venha, quero que
siga-me ao Criador. Há de contemplar a vista que poucos mortais viram. Ó, guia
de meu filho, te agradeço, e agora dispenso-te de tamanha tarefa. A ti, serei
grata, pois unira-me ao meu querido filho!
- Nobre senhora, se mil vezes pudesse, mil vezes o
traria até aqui, pois ele é uma alma boa, virtuosa, tal como pouco há no mundo
hoje. Meu filho, grato por ter acompanhado-te! E, agora, despeço-me, afinal.
- Meu guia, sábio e terno, te agradeço por tudo! Por
tua obra, por teus conselhos, por tua companhia! Sei que teu nome há de ser
lembrado por anos a fio! E jamais hei de esquecer tua feitoria!
Minha senhora levou-me adiante, e naquele Céu, vi uma
alma que não pude deixar de interpelar:
- Tu, ó alma benemérita, que edificou a minha terra,
saibas que teu nome ainda é reverenciado, que ainda é bem quisto e admirado!
Nesse tempo de agora, conta com mais de dez mil almas, e, embora careça da
justiça dos homens, ainda há de muito prosperar!
A alma, surpresa com minhas palavras, respondeu-me,
ajoelhando:
- Jovem vivo, que abençoado seja esse dia! Receber
notícia jubilosa é uma dádiva! Fiz o que pude por tal terra, e faria mais se a
febre não tivesse acometido-me, mas sei que o plano Dele é maior, e que fiz o
necessário.
Ao adentrar o outro Céu, Saturno, vi logo de imediato
uma figura conhecida, e lhe dirigi poucas palavras:
- De minha avó, é tia, senhora, e saiba que tua filha
está a caminho, pois no Purgatório ela se encontra. Ela há de chegar e breve,
aquela que, em vida, fora apegada a matéria, mas a graça de Deus é perdoar, e
ela se aproxima – e me beijou a testa, com tamanha ternura que meu peito se
inflou.
Não pude deixar de reparar, é claro, que, ao lado
desta senhora, havia outra, mais quieta, mas não menos familiar:
- Mãe de minha avó, regozijo-me em vê-la! Alma
contemplativa, filósofa do mundo e leitora das almas, como me alegro! Sou o
filho da filha de teu mais novo rebento, há de se lembrar!
- E como os anos lhe foram felizes! Que assim o seja
sempre! – ajoelhei e beijei-lhe as mãos. Senti um mão acariciar meu cabelo, e
virei-me.
Deparei com novo rio de lágrimas, pois aquele que me
afagara era-me extremamente querido. Abracei-o e muito lhe contei; o pai de
minha mãe, que, qual o Pescador, praticava a profissão com esmero. Adiante,
mais conhecidos, todas almas de familiares queridos, que se reuniram para me
ver: os pais de meus avós e seus irmãos; parentes que nutri afeto, embora o
grau seja levemente distante; meu outro avô, sábio e brilhante.
Mas, antes que eu pudesse, minha senhora apertou-me as
mãos e me dirigiu em frente. Ela me guiou ao guardião das chaves, o primeiro
Pastor, nomeado pelo Filho:
- Irei perguntar-lhe, qual o fiz ao Poeta, o que é,
para ti, a fé. Satisfaça-me a curiosidade, meu filho.
- Ó, Pescador, a fé me é bem quista, pois é o que
garante-nos caminhar. Fé é a espera sábia naquilo que apenas o Senhor sabe. O
grande Pai traça sábios e justos destinos, e orienta os seus filhos para que
sigam-nos, porém, é atributo dos homens o livre-arbítrio, então, concluo que a
fé é o esperar seguro naquilo que é mostrado pelo Criador, e ter um bom ouvido
para escutar seus ensinamentos; bons olhos para ver o caminho correto; e boa
fala para opinar dignamente.
- Estou satisfeito, de fato! Tal virtude está presente
em si, mais do que pensa, acredita! E mais: o toque do místico arquiteto está
em você, uma sutil chama que garante-lhe uma percepção diversa – e, com o
polegar, desenhou o famoso símbolo de redenção em minha testa.
Nas Estrelas Fixas, os mais puros estavam, era o local
aonde os beatos e santos residiam, e um deles se aproximou, e me disse:
- Vós sois uma alma da Lei, e dela sou patrono. Exerci
a advocacia em vida, e crê em meus dizeres: é teu caminho. Não desvie a rota,
que palmilhastes tão bem.
- Santa alma, grato fico por tuas palavras. Esta aqui,
ao meu lado, certa vez me disse que o mais importante é que sejamos livres, e,
de fato, concordo com tal assertiva. Liberdade é a condição do homem, e a Lei
há de concretizá-la. A Justiça é a capacidade de saber garantir a cada ser ou
objeto aquilo que lhe compete, de acordo com a natureza de sua existência e com
os atos que pratica.
- Satisfeito estou em ver teu conhecimento. Agora,
siga.
Caminhamos mais além, pelo Primum Mobile, e me deparei com magnânima visão adiante: a Rosa Mística
e os coros angélicos, estes rodopiavam em torno de uma potente luz: anjos,
arcanjos, príncipes, potencias, virtudes, dominações, tronos querubins e
serafins.
A luz parecia-me dividida em três. O santo que me
atendera antes estava ao meu lado, e rezou para que eu pudesse me aproximar. A
Mãe de Todos, ouvindo a prece, sorriu e por mim, intercedeu. Pude avançar,
sozinho, mas a magnificência da face do grande Pai me era tão pura, tão
calorosa e terna, que meu olhar desviou. Não estava preparado para tal vislumbre.
Arrisquei novamente, e vi três orbes de luz: da Pomba,
pude ver certos traços; um rosto pensei ter visto, mas a luminescência foi
tamanha, que meus olhos novamente desviaram.
Olhei, soberano de mim mesmo, para trás e pensei que
estava mesmo no Paraíso, e que, tendo tido uma caminhada ilustre e única,
deveria modificar, afinal, meu cerne. Não posso descrever mais o que vi, pois a
essência do que é eterno não pode ser compreendido pelos mortais. Amar é a
única forma de compreender o que ali reside eternamente: é a única exceção ao
meu entendimento de que amar é conhecer. Se foi sonho ou fantasia, não cabe a
mim dizer. Apenas saiba que minha ignorância é tamanha, e a tua, singelo
leitor, há de sê-la tal e qual...
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