quinta-feira, 11 de maio de 2023

O Cântico

 

Parte III

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Ó, Glória Celeste! Tão sábia e generosa és! Por qual motivo, ó Pai, questiono-te? Sempre soube, ou assim creio saber, que tu, pai dos pais, és o maior guia ante a escuridão. Sei a resposta, porém, para tal retórica; a arguição é parte inerente de teus filhos, não lhes retira tal prerrogativa, e a isto lhe sou deveras grato!

O vislumbre que tive me encheu o olhar de júbilo. A glória que existe nos Céus é tamanha que mente alguma, seja de convicto devoto, seja de astuto filósofo, é capaz de conceber. Ali, não há sequer rastro de trevas, apenas a mais pura e imaculada luz. A chama vive eterna e acolhedora nos salões eternos de bem-aventurança.

Me virei, então, ao meu guia:

- Ó nobre mestre, que pelos caminhos da incerteza me conduziu, há de me deixar agora? Aprecia-me tua companhia. Retornará ao teu lugar enfim, qual filho que retorna ao seu lar?

- Acalma teu coração, te peço. Vejo-te irrequieto há tempos – ele vociferou, sereno, qual professor zeloso que ensina teimoso aluno. – Saiba que hei de guia-lo ainda até o Céu de Júpiter, pois tua salvadora lá reside, onde os grandes governantes e políticos estão, nos corredores da justa-medida e do amor ao agir pelos outros. Agora, anda filho. Cá estamos, no primeiro Céu: a Lua.

As almas que abriram mão de seus votos encontram-se neste Céu. Foram insuficientes na coragem, porém, dotadas de virtudes. O meu sábio guia, me apontava nomes e eu reconhecia rostos de luz, que vira, outrora, nos livros. A gentil alma que me guiava dirigiu-me ao Céu seguinte, Mercúrio, onde estão as almas que, tendo fama ou o desejo de obtê-la, pecaram na justiça. Ouvi, ali, incontáveis nomes, perdidos agora nas lembranças da Vida.

O terceiro Céu, Vênus, recebia os que fizeram bom uso da virtude do amor, e, adiante, vi um casal familiar. Corri até eles, abracei-os com ternura, e eles retribuíram com afeto.

- Ó, irmã de minha avó, que deleite vê-la! Entristece-me saber que partiu, que teu velório foi pouco assistido, mas o Pai permitiu, afinal, que tão unido casal permanecesse unido aqui, nos passos celestes!

- Que emoção ter-te aqui, leve lembranças aos vivos, diga-lhes que em paz repousamos! – e seguiram para com outras almas próximas.

Com o olhar turvo pelas lágrimas, pedi um momento ao meu guia, e ele sorriu:

- Teu coração é justo, bom e sabe o que sente. Chora, filho, pois o choro é a mais pura verdade!

- Pois saiba, ó mestre, que apenas choro na presença de quem nutro a mais terna confiança. Seguimos? – E ele consentiu, levando-me ao próximo Céu.

No Sol, estão os teólogos, os estudiosos, e meu mestre revelou-me interessante conclusão:

- Saiba, meu filho, que eu resido aqui, no limiar do amor e da sabedoria, adiante, minha amada me aguarda, mas antes que, pondo a ansiedade e a dúvida a frente do bom-senso, me questione, informo-te que minha mão não sairá de teus ombros.

Vi inúmeros sábios, pessoas cuja admiração era-me tamanha. O bispo-teólogo que trouxe-nos vários ensinamentos após o seu período no escuro, os leitores da física da natureza, que interpretaram a Ordem e obtiveram o mais elevado grau. Quanta sabedoria e, ainda assim, tão pequena!

O Céu de Marte recebia os que lutaram pela igreja, e avistei uma figura, que, permitindo meu mestre, lhe falei:

- Ó, alma guerreira! Conheço-te, pois de uma das cidades que guardou os portões da ilustre Barca. Tu batalhou contra o pecado e, mais ainda, enfrestastes demônios frente a frente! O inimigo foi por ti sobrepujado, e aquela dama foi liberta por teu empenho divino!

- Aquela terra jaz em meu coração, és-me querida! E vejo que, tendo-te lá residência, ela está bem amparada de heróis!

As palavras gentis me acertaram o peito, mas este começou a disparar, como um tambor que, golpeado incessantemente por um soldado, prevê a guerra. Vi, no sexto Céu, ela: minha madrinha, aquela que enviara meu guia ao meu encontro.

Com os braços abertos, corri até ela, e entre o mais poderoso abraço que pude dar e as lágrimas que jorravam de meu olhar, vi sua face de luz; forte era o seu brilho, alegre o seu sorriso. Ela, enfim, me disse:

- Meu filho, meu amado filho, estava aqui, te esperando, almejando que tua viagem fosse bem ultimada. Vi tua luz no mundo minguar, e não pude, ante toda a inquietação que sabes que possuo, me abster. Providenciei que tivesse tal jornada, para que fugisse, qual o Poeta, dos malefícios do teu meio. Acalma-te, eleva-te o espírito. Estarei sempre intercedendo por ti, pelos teus, pelo meu amado. Agora, venha, quero que siga-me ao Criador. Há de contemplar a vista que poucos mortais viram. Ó, guia de meu filho, te agradeço, e agora dispenso-te de tamanha tarefa. A ti, serei grata, pois unira-me ao meu querido filho!

- Nobre senhora, se mil vezes pudesse, mil vezes o traria até aqui, pois ele é uma alma boa, virtuosa, tal como pouco há no mundo hoje. Meu filho, grato por ter acompanhado-te! E, agora, despeço-me, afinal.

- Meu guia, sábio e terno, te agradeço por tudo! Por tua obra, por teus conselhos, por tua companhia! Sei que teu nome há de ser lembrado por anos a fio! E jamais hei de esquecer tua feitoria!

Minha senhora levou-me adiante, e naquele Céu, vi uma alma que não pude deixar de interpelar:

- Tu, ó alma benemérita, que edificou a minha terra, saibas que teu nome ainda é reverenciado, que ainda é bem quisto e admirado! Nesse tempo de agora, conta com mais de dez mil almas, e, embora careça da justiça dos homens, ainda há de muito prosperar!

A alma, surpresa com minhas palavras, respondeu-me, ajoelhando:

- Jovem vivo, que abençoado seja esse dia! Receber notícia jubilosa é uma dádiva! Fiz o que pude por tal terra, e faria mais se a febre não tivesse acometido-me, mas sei que o plano Dele é maior, e que fiz o necessário.

Ao adentrar o outro Céu, Saturno, vi logo de imediato uma figura conhecida, e lhe dirigi poucas palavras:

- De minha avó, é tia, senhora, e saiba que tua filha está a caminho, pois no Purgatório ela se encontra. Ela há de chegar e breve, aquela que, em vida, fora apegada a matéria, mas a graça de Deus é perdoar, e ela se aproxima – e me beijou a testa, com tamanha ternura que meu peito se inflou.

Não pude deixar de reparar, é claro, que, ao lado desta senhora, havia outra, mais quieta, mas não menos familiar:

- Mãe de minha avó, regozijo-me em vê-la! Alma contemplativa, filósofa do mundo e leitora das almas, como me alegro! Sou o filho da filha de teu mais novo rebento, há de se lembrar!

- E como os anos lhe foram felizes! Que assim o seja sempre! – ajoelhei e beijei-lhe as mãos. Senti um mão acariciar meu cabelo, e virei-me.

Deparei com novo rio de lágrimas, pois aquele que me afagara era-me extremamente querido. Abracei-o e muito lhe contei; o pai de minha mãe, que, qual o Pescador, praticava a profissão com esmero. Adiante, mais conhecidos, todas almas de familiares queridos, que se reuniram para me ver: os pais de meus avós e seus irmãos; parentes que nutri afeto, embora o grau seja levemente distante; meu outro avô, sábio e brilhante.

Mas, antes que eu pudesse, minha senhora apertou-me as mãos e me dirigiu em frente. Ela me guiou ao guardião das chaves, o primeiro Pastor, nomeado pelo Filho:

- Irei perguntar-lhe, qual o fiz ao Poeta, o que é, para ti, a fé. Satisfaça-me a curiosidade, meu filho.

- Ó, Pescador, a fé me é bem quista, pois é o que garante-nos caminhar. Fé é a espera sábia naquilo que apenas o Senhor sabe. O grande Pai traça sábios e justos destinos, e orienta os seus filhos para que sigam-nos, porém, é atributo dos homens o livre-arbítrio, então, concluo que a fé é o esperar seguro naquilo que é mostrado pelo Criador, e ter um bom ouvido para escutar seus ensinamentos; bons olhos para ver o caminho correto; e boa fala para opinar dignamente.

- Estou satisfeito, de fato! Tal virtude está presente em si, mais do que pensa, acredita! E mais: o toque do místico arquiteto está em você, uma sutil chama que garante-lhe uma percepção diversa – e, com o polegar, desenhou o famoso símbolo de redenção em minha testa.

Nas Estrelas Fixas, os mais puros estavam, era o local aonde os beatos e santos residiam, e um deles se aproximou, e me disse:

- Vós sois uma alma da Lei, e dela sou patrono. Exerci a advocacia em vida, e crê em meus dizeres: é teu caminho. Não desvie a rota, que palmilhastes tão bem.

- Santa alma, grato fico por tuas palavras. Esta aqui, ao meu lado, certa vez me disse que o mais importante é que sejamos livres, e, de fato, concordo com tal assertiva. Liberdade é a condição do homem, e a Lei há de concretizá-la. A Justiça é a capacidade de saber garantir a cada ser ou objeto aquilo que lhe compete, de acordo com a natureza de sua existência e com os atos que pratica.

- Satisfeito estou em ver teu conhecimento. Agora, siga.

Caminhamos mais além, pelo Primum Mobile, e me deparei com magnânima visão adiante: a Rosa Mística e os coros angélicos, estes rodopiavam em torno de uma potente luz: anjos, arcanjos, príncipes, potencias, virtudes, dominações, tronos querubins e serafins.

A luz parecia-me dividida em três. O santo que me atendera antes estava ao meu lado, e rezou para que eu pudesse me aproximar. A Mãe de Todos, ouvindo a prece, sorriu e por mim, intercedeu. Pude avançar, sozinho, mas a magnificência da face do grande Pai me era tão pura, tão calorosa e terna, que meu olhar desviou. Não estava preparado para tal vislumbre.

Arrisquei novamente, e vi três orbes de luz: da Pomba, pude ver certos traços; um rosto pensei ter visto, mas a luminescência foi tamanha, que meus olhos novamente desviaram.

Olhei, soberano de mim mesmo, para trás e pensei que estava mesmo no Paraíso, e que, tendo tido uma caminhada ilustre e única, deveria modificar, afinal, meu cerne. Não posso descrever mais o que vi, pois a essência do que é eterno não pode ser compreendido pelos mortais. Amar é a única forma de compreender o que ali reside eternamente: é a única exceção ao meu entendimento de que amar é conhecer. Se foi sonho ou fantasia, não cabe a mim dizer. Apenas saiba que minha ignorância é tamanha, e a tua, singelo leitor, há de sê-la tal e qual...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...