Parte II
De súbito
despertei, ouvindo murmúrios, e percebi logo que estava em uma praia repleta de
pessoas. Vi meu guia sorrindo para mim e, ao fundo, um grande monte que se
elevava aos infinitos céus, sobre as nuvens, ao lado das estrelas.
Embora mais
claro fosse que aquele desfiladeiro de súplicas, a pequena chama da vela
possuía sua serventia. Disse eu, me empertigando, ao meu mestre:
− Ó meu ilustre
mestre, como saímos daquele antro, daquele poço de pesadelos?
− Tens tantas
perguntas, e satisfeito fico em saná-las se puder fazê-lo. Após sua queda,
intimidado pelos olhos bestiais do senhor do reino da dor, carreguei-o para
dentro das entranhas do mundo, mais fundo até que saímos nesta praia, do outro
lado de onde tu entraste.
Ao ouvir tais
palavras, me senti fraco por ter travado severa batalha e, subjugado, ter
caído, havendo sido carregado, qual fardo pesado de lenha, pelo meu mestre.
Ele, perspicaz, percebeu meu desânimo e se prontificou a me creditar:
− Vejo em teu
olhar a vergonha, a qual não deverias ter. O ser movido pelo ódio intimida quem
quer que seus olhos encare. Lutaste uma batalha, de fato, mas não te constranja
a derrota, pois derrota maior fora a dele. Almeja o ser causar dor e vergonha,
mas esquecem as almas que o falhanço maior fora o dele, que, movido pela
soberba, rebelou-se contra o grande juiz e perdeu, aprisionado nas vísceras da
terra. Não te perturbes, pois a luz divina te acompanha. Carreguei um soldado
até esta praia, um nobre cavaleiro que trás em si grande honra e valor. Se mil
vezes precisasses, as mil o carregaria, pois carga leve é alguém que tem a
mente e o coração voltados aos céus.
Senti-me
revigorado com tais palavras. Meu guia e mestre falara como se chuva fosse às
plantações, brotando esperança e energia.
Disse ele:
− Cruzamos
aquele local de justiça, pois é justamente o que ele o é. Os que saíram do reto
caminho pagam por seus erros, tendo consciência ou não de seu vilipêndio à
norma. Mas agora rumemos ao monte do Purgatório.
Pela praia,
andamos por entre as incontáveis almas apreensivas. Tornei-me novamente ao meu
guia e perguntei:
− Ó mestre, que
fazem estes pobres infelizes?
Ao que ele me
respondeu:
− Pergunta a
qualquer deles.
Coloquei,
gentil, minha mão sobre o ombro de um dos vultos a minha frente e disse:
− Pobre sombra,
que outrora caminhaste pela terra, o que aguarda? Que destino todos aqui
almejam?
− Ó tu que
ainda respiras, aguardamos a permissão vinda das estrelas para que possamos nos
purificar de nossos erros. Longínqua é a espera, provação maior, acredito, que
a que tem por de trás daqueles portões guardados por guerreiro angelical – e
perguntei-lhe seu nome. – Sou o que, em um acesso de ira e orgulho, fez romper
a grande barca que a todos recebe. Arrependi-me tardiamente, motivo pelo qual espero
eternamente.
− E creio que
tu – disse meu mestre ao condenado –, embora blasfêmia contra os textos tenha
cometido, em uma esperança progressista, almejavas o bem da barca. Por isso
acolhido fostes. Penses nisto: esta praia nada tem de sofrimento em comparação
ao que poderias estar passando nos caminhos que eu e este – apontou para mim –
cruzamos.
Despedimo-nos
da alma, que parecia satisfeita com as palavras sábias de meu guia, e fomos ao
encontro do porteiro do monte, munido de espada e sentado, importante, sobre
três degraus. O guardião, tal qual ao Poeta, me marcou a testa com a espada,
traçando sete letras P. Permitiu-nos, então, a entrada e iniciamos a
nossa escalada.
Tal qual o titã
que confrontou os deuses e o peso do mundo carregava, os arrogantes em vida
subiam com pesos nas costas pela trilha do monte. Vi a alma de uma senhora que,
devido à sua proximidade, prefiro que nossa conversa seja mantida apenas nos
labirintos de minha mente. Ao terraço seguinte, avistamos a amargura que viviam
os invejosos e, em seguida, a redenção enevoada dos iracundos. Atente leitor
que, tal como aconteceu ao Poeta, uma das marcas em minha testa me era retirada
ao findar a subida de um terraço.
Eis que
alcançamos a casa dos preguiçosos, aqueles que perderam grandes empreitadas e bem
sabiam disso. Energizados, locomoviam-se eternamente. Vi ali desertores de
guerras, tendo-os identificado pelo escárnio de uma alma, que gozava de sua
omissão.
Subimos mais,
ao local dos avarentos. Tão logo vi os corpos no chão, um deles me chamou:
− Venha, rapaz,
pois teu rosto reconheço, mesmo que anos mais amadurecido. Sei que és meu
parente; reconheço meus familiares. Estou aqui aguardando o Santo Pai autorizar
minha subida aos felizes e bem-aventurados campos.
− Ó minha
parente, sei bem como vivias. Do ouro não te libertavas, embora em excesso o
tivesse. Mas muito me satisfaz saber que, tão breve, poderá contemplar as
mansões celestiais.
− Hoje, ao
olhar pelos recantos de minhas lembranças, me enrubesço tamanha minha desonra.
Agora, contudo, estou indo me limpando após cair em um lamaçal. Ei de ver, tão
logo permitam os Céus, minha mãe amada, e aquela que me disse a idade com que
passaria para esta vida. Se as vir, rogo-lhe, parente, que lhes diga que estou
chegando. Também dê lembranças minhas aos que estão vivos. Peça perdão por mim!
Fiquei
consideravelmente contente com a mudança ao vê-la, pois, mesmo conhecendo sua
vida apenas após sua morte, admirava sua pessoa, sua erudição, e me empenharia,
disse a mim mesmo, a entregar os recados.
Subimos aos
próximos terraços e eis que dos gulosos senti pena. Rumo ao topo, no recanto
destinado aos luxuriosos, pagando pelo fogo, vi almas de pessoas que conheci e
outras de que ouvi dizeres malfadados e surpresa em mim não existia, pois sabia
que, se ali não estivessem, nos antros infernais haveriam de estar. De fato, os
que quebram tamanho juramento, ante a família, ante a fé e ao Pai, são vários,
e tais atos sequer são sabidos.
Enquanto
caminhávamos rumo ao topo do monte, vi, esquivando-se do fogo, alguém que me
surpreendeu:
− Ó mestre,
vejo uma alma a quem gostaria de dizer poucas palavras, se assim me permitir –
e ele sorriu, atendendo o meu desejo.
Minha energia crescera
e corri em direção ao espírito. Ao me aproximar, abracei-o.
− Que
acontece?! – gritou a alma – Que fazes?! Sequer te conheço, vivo que entre
mortos caminha!
− É certo que
não me conheces, mas de tua família eu sou. Dos ramos do galho, sou o terceiro,
da mais nova rama que brotou. Sei quem és, pois teu rosto vi, apenas uma vez.
Sou um dos que teu nome carrega, vindo este das terras ao norte do país de onde
imigrastes teu pai.
Estupefato, a
alma parou por um instante e sorriu:
− Glória ao
Pai! Vejo que minha penit ência se tornou
alegre por um curto momento! Que toquem as clarinetas! Fico contente por te
conhecer, embora gostaria que isso tivesse acontecido em vida! Mas diga-me: de
minha prole, quem ainda reside no mundo?
− Das mulheres,
duas se foram. Aquela cujo nome é o mesmo que da avó do Filho, e a tua mais
velha. E são três as que ainda caminham, vivazes.
Ele pareceu
satisfeito, porém, entristecido:
− Não sei se
comemoro que a maioria esteja aqui, ou se me alegro de que contigo elas
estejam. E diga-me ainda, meu rapaz, se minha amada no campo do silêncio
repousou?
− Afirmo-te que
sim. Está aqui, e logo termine tua purificação, a verás! Pois creio que nos
recantos do Céu ela esteja, uma vez que sua face não vi no fosso de tormento
por onde caminhei.
− Quero que
assim se concretize! Estarei logo com minha família! E aos vivos, minhas
calorosas lembranças, pois amo-os todos.
E me despedi,
pronto para chegar ao cume do morro com meu guia. Quando, enfim, atingimos o
local, meu mestre assoprou a vela, e, curioso, perguntei:
− Carregaste
essa chama tão cuidadosamente, mestre. E agora a apaga; qual o motivo?
− És perspicaz,
nobre rapaz. Essa chama iluminou nosso caminho; mesmo pequena, teve grande
valia, e um pouco do fogo celestial conosco estava iluminando as trilhas e seus
olhos. A visão que agora tem não mais carece desta vela.
Ainda
preocupado, perguntei:
− Sei mestre
que seu lar se encontra sobre nossas cabeças, mas a dúvida, mesmo assim, me
atormenta; me abandonará, tal qual poeta fez ao outro neste ponto?
− Minha missão
é entregar-te àquela senhora, e, assim, poderei voltar ao meu conforto nas
mansões do Paraíso. Vamos! Subiremos aos céus! Abraçaremos o manto celeste!
− E às
estrelas, rumaremos!
E assim, com
júbilo, saciei minha sede no rio que ali havia antes de embarcar na última
parte de minha jornada, alcançando, enfim, o reino dos céus e aquela que nesta
empreitada colocou-me. E como lhe agradeço por isso!
Fim da parte II
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