terça-feira, 2 de maio de 2023

O Cântico

 

Parte II

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


De súbito despertei, ouvindo murmúrios, e percebi logo que estava em uma praia repleta de pessoas. Vi meu guia sorrindo para mim e, ao fundo, um grande monte que se elevava aos infinitos céus, sobre as nuvens, ao lado das estrelas.

Embora mais claro fosse que aquele desfiladeiro de súplicas, a pequena chama da vela possuía sua serventia. Disse eu, me empertigando, ao meu mestre:

− Ó meu ilustre mestre, como saímos daquele antro, daquele poço de pesadelos?

− Tens tantas perguntas, e satisfeito fico em saná-las se puder fazê-lo. Após sua queda, intimidado pelos olhos bestiais do senhor do reino da dor, carreguei-o para dentro das entranhas do mundo, mais fundo até que saímos nesta praia, do outro lado de onde tu entraste.

Ao ouvir tais palavras, me senti fraco por ter travado severa batalha e, subjugado, ter caído, havendo sido carregado, qual fardo pesado de lenha, pelo meu mestre. Ele, perspicaz, percebeu meu desânimo e se prontificou a me creditar:

− Vejo em teu olhar a vergonha, a qual não deverias ter. O ser movido pelo ódio intimida quem quer que seus olhos encare. Lutaste uma batalha, de fato, mas não te constranja a derrota, pois derrota maior fora a dele. Almeja o ser causar dor e vergonha, mas esquecem as almas que o falhanço maior fora o dele, que, movido pela soberba, rebelou-se contra o grande juiz e perdeu, aprisionado nas vísceras da terra. Não te perturbes, pois a luz divina te acompanha. Carreguei um soldado até esta praia, um nobre cavaleiro que trás em si grande honra e valor. Se mil vezes precisasses, as mil o carregaria, pois carga leve é alguém que tem a mente e o coração voltados aos céus.

Senti-me revigorado com tais palavras. Meu guia e mestre falara como se chuva fosse às plantações, brotando esperança e energia.

Disse ele:

− Cruzamos aquele local de justiça, pois é justamente o que ele o é. Os que saíram do reto caminho pagam por seus erros, tendo consciência ou não de seu vilipêndio à norma. Mas agora rumemos ao monte do Purgatório.

Pela praia, andamos por entre as incontáveis almas apreensivas. Tornei-me novamente ao meu guia e perguntei:

− Ó mestre, que fazem estes pobres infelizes?

Ao que ele me respondeu:

− Pergunta a qualquer deles.

Coloquei, gentil, minha mão sobre o ombro de um dos vultos a minha frente e disse:

− Pobre sombra, que outrora caminhaste pela terra, o que aguarda? Que destino todos aqui almejam?

− Ó tu que ainda respiras, aguardamos a permissão vinda das estrelas para que possamos nos purificar de nossos erros. Longínqua é a espera, provação maior, acredito, que a que tem por de trás daqueles portões guardados por guerreiro angelical – e perguntei-lhe seu nome. – Sou o que, em um acesso de ira e orgulho, fez romper a grande barca que a todos recebe. Arrependi-me tardiamente, motivo pelo qual espero eternamente.

− E creio que tu – disse meu mestre ao condenado –, embora blasfêmia contra os textos tenha cometido, em uma esperança progressista, almejavas o bem da barca. Por isso acolhido fostes. Penses nisto: esta praia nada tem de sofrimento em comparação ao que poderias estar passando nos caminhos que eu e este – apontou para mim – cruzamos.

Despedimo-nos da alma, que parecia satisfeita com as palavras sábias de meu guia, e fomos ao encontro do porteiro do monte, munido de espada e sentado, importante, sobre três degraus. O guardião, tal qual ao Poeta, me marcou a testa com a espada, traçando sete letras P. Permitiu-nos, então, a entrada e iniciamos a nossa escalada.

Tal qual o titã que confrontou os deuses e o peso do mundo carregava, os arrogantes em vida subiam com pesos nas costas pela trilha do monte. Vi a alma de uma senhora que, devido à sua proximidade, prefiro que nossa conversa seja mantida apenas nos labirintos de minha mente. Ao terraço seguinte, avistamos a amargura que viviam os invejosos e, em seguida, a redenção enevoada dos iracundos. Atente leitor que, tal como aconteceu ao Poeta, uma das marcas em minha testa me era retirada ao findar a subida de um terraço.

Eis que alcançamos a casa dos preguiçosos, aqueles que perderam grandes empreitadas e bem sabiam disso. Energizados, locomoviam-se eternamente. Vi ali desertores de guerras, tendo-os identificado pelo escárnio de uma alma, que gozava de sua omissão.

Subimos mais, ao local dos avarentos. Tão logo vi os corpos no chão, um deles me chamou:

− Venha, rapaz, pois teu rosto reconheço, mesmo que anos mais amadurecido. Sei que és meu parente; reconheço meus familiares. Estou aqui aguardando o Santo Pai autorizar minha subida aos felizes e bem-aventurados campos.

− Ó minha parente, sei bem como vivias. Do ouro não te libertavas, embora em excesso o tivesse. Mas muito me satisfaz saber que, tão breve, poderá contemplar as mansões celestiais.

− Hoje, ao olhar pelos recantos de minhas lembranças, me enrubesço tamanha minha desonra. Agora, contudo, estou indo me limpando após cair em um lamaçal. Ei de ver, tão logo permitam os Céus, minha mãe amada, e aquela que me disse a idade com que passaria para esta vida. Se as vir, rogo-lhe, parente, que lhes diga que estou chegando. Também dê lembranças minhas aos que estão vivos. Peça perdão por mim!

Fiquei consideravelmente contente com a mudança ao vê-la, pois, mesmo conhecendo sua vida apenas após sua morte, admirava sua pessoa, sua erudição, e me empenharia, disse a mim mesmo, a entregar os recados.

Subimos aos próximos terraços e eis que dos gulosos senti pena. Rumo ao topo, no recanto destinado aos luxuriosos, pagando pelo fogo, vi almas de pessoas que conheci e outras de que ouvi dizeres malfadados e surpresa em mim não existia, pois sabia que, se ali não estivessem, nos antros infernais haveriam de estar. De fato, os que quebram tamanho juramento, ante a família, ante a fé e ao Pai, são vários, e tais atos sequer são sabidos.

Enquanto caminhávamos rumo ao topo do monte, vi, esquivando-se do fogo, alguém que me surpreendeu:

− Ó mestre, vejo uma alma a quem gostaria de dizer poucas palavras, se assim me permitir – e ele sorriu, atendendo o meu desejo.

Minha energia crescera e corri em direção ao espírito. Ao me aproximar, abracei-o.

− Que acontece?! – gritou a alma – Que fazes?! Sequer te conheço, vivo que entre mortos caminha!

− É certo que não me conheces, mas de tua família eu sou. Dos ramos do galho, sou o terceiro, da mais nova rama que brotou. Sei quem és, pois teu rosto vi, apenas uma vez. Sou um dos que teu nome carrega, vindo este das terras ao norte do país de onde imigrastes teu pai.

Estupefato, a alma parou por um instante e sorriu:

− Glória ao Pai! Vejo que minha penit ência se tornou alegre por um curto momento! Que toquem as clarinetas! Fico contente por te conhecer, embora gostaria que isso tivesse acontecido em vida! Mas diga-me: de minha prole, quem ainda reside no mundo?

− Das mulheres, duas se foram. Aquela cujo nome é o mesmo que da avó do Filho, e a tua mais velha. E são três as que ainda caminham, vivazes.

Ele pareceu satisfeito, porém, entristecido:

− Não sei se comemoro que a maioria esteja aqui, ou se me alegro de que contigo elas estejam. E diga-me ainda, meu rapaz, se minha amada no campo do silêncio repousou?

− Afirmo-te que sim. Está aqui, e logo termine tua purificação, a verás! Pois creio que nos recantos do Céu ela esteja, uma vez que sua face não vi no fosso de tormento por onde caminhei.

− Quero que assim se concretize! Estarei logo com minha família! E aos vivos, minhas calorosas lembranças, pois amo-os todos.

E me despedi, pronto para chegar ao cume do morro com meu guia. Quando, enfim, atingimos o local, meu mestre assoprou a vela, e, curioso, perguntei:

− Carregaste essa chama tão cuidadosamente, mestre. E agora a apaga; qual o motivo?

− És perspicaz, nobre rapaz. Essa chama iluminou nosso caminho; mesmo pequena, teve grande valia, e um pouco do fogo celestial conosco estava iluminando as trilhas e seus olhos. A visão que agora tem não mais carece desta vela.

Ainda preocupado, perguntei:

− Sei mestre que seu lar se encontra sobre nossas cabeças, mas a dúvida, mesmo assim, me atormenta; me abandonará, tal qual poeta fez ao outro neste ponto?

− Minha missão é entregar-te àquela senhora, e, assim, poderei voltar ao meu conforto nas mansões do Paraíso. Vamos! Subiremos aos céus! Abraçaremos o manto celeste!

− E às estrelas, rumaremos!

E assim, com júbilo, saciei minha sede no rio que ali havia antes de embarcar na última parte de minha jornada, alcançando, enfim, o reino dos céus e aquela que nesta empreitada colocou-me. E como lhe agradeço por isso!

 

Fim da parte II 

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