domingo, 30 de março de 2025

AS VISITAS IMPERIAIS A CASA BRANCA

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Dom Pedro II, retrato de Mathew Brady, 1876.

O desenvolvimento dos “Sertões do Rio Pardo” tornou-o populoso e objeto crescente dos olhares governamentais. De fato, em outubro de 1877, o empresário e político, Martinho Prado Júnior, teria externado sua euforia ao escrever uma carta, onde afirma que “enfim São Simão não é mais o sertão de outros tempos. Os germes de civilização aí estão semeados e medrando com força (Beiguelman, 2005, p. 104)”. Sobre Ribeirão Preto, teria sido deveras enérgico. Na época em questão, era vereador por Araras e preparava-se, no ano seguinte de 1878, para assumir uma cadeira na Assembleia Provincial de São Paulo. Viu, portanto, com demasiada energia, o desenvolvimento dos antigos sertões, em pleno processo de crescimento.

No ano seguinte, 1878, Casa Branca estaria em polvorosa. Em 14 de setembro, na edição nº 6.551 do Correio Paulistano, estampava a seguinte nota:

“Visita Imperial

Consta-nos que o tenente-coronel Manoel Ferreira de Aguiar recebê a hontem uma carta do presidente da província avisando de que S. M. o Imperador devia aqui chegar no dia 14 do corrente, e que se preparasse para hospedal-o.

Na absoluta carência de casa decente, para nella receber o augusto hospede, o delegado de policia José Hypolito de Carvalho recorreu ao prestimoso e venerando cidadão tenente-coronel Vicente F. de Sillos Pereira (muito distincto chefe do partico conservador), que não hesitou em pôr, jubilosamente, á disposição do mesmo delegado a sua casa, a qual já se acha desoccupada e prompta a receber o chefe da Nação.

É deste modo que se patentea que o préstimo dos conservadores desta cidade vai além do-de ganhar sempre as eleições.

Casa Branca, 11 de Setembro de 78”.

Segundo o mesmo jornal, que narrou os acontecimentos na edição nº 6.557, de 21 de setembro, teria o presidente da província de São Paulo notificado dois liberais, que escusaram-se de colaborar com a recepção do Imperador, Dom Pedro II, e da Imperatriz, Dona Tereza Cristina, e o delegado de polícia recorreu, portanto, ao tenente-coronel Vicente, que prontamente atendeu à solicitação. Teve benéfica colaboração do major Urias Gonçalves dos Santos e outros correligionários.

Chegou a imperial comitiva no dia 15, e logo Dom Pedro II se dirigiu à residência que seria seu pouso durante sua estadia em Casa Branca. Descansou por um quarto de hora e dirigiu-se à Igreja Matriz para pôr-se em oração. Passeou pela cidade e almoçou. Segundo o Correio, a Câmara Municipal não fez-se representar em sua totalidade, pois não foi realizado convite. Teria havido um baile em sua honra. Um episódio chamou a atenção: dona Francisca Soares, uma respeitada senhora, teria feito a promessa de não morrer antes de abraçar o imperador e, conforme nos conta Ganymedes José, amparado no artigo do dr. Aristides Serpa, teria dito a Dom Pedro II: “- Como está branco este menino! Vi-o ainda ontem!”, enquanto batia em sua barba. Diz-se que o Imperador apertou entre suas mãos a mão da senhora.

Curiosamente, um episódio de desgosto acometeu o tenente-coronel Vicente, pois, no dia 16, seu troly foi apoderado por um gatuno, que disse ao cocheiro que “o tomava com autorização do sr. tenente-coronel”. Não foi localizado em tempo. O Imperador partiu para a estação e Vicente Ferreira de Sillos Pereira não pôde acompanhá-lo e despedir-se de Dom Pedro II. Acompanharam-no o dr. Baptista Pereira, dr. Moreira de Barros, dr. José Oscar e outros.  

Dom Pedro II, contudo, retornaria à Casa Branca poucos anos depois, em outubro de 1886. Às 20h30 do dia 26, voltando de Batatais, o Imperador foi recebido pelas autoridades e pela população, sendo hospedado pelo coronel Antônio José Corrêa. As ruas da cidade foram adornadas com arcos de flores e folhagens para recebê-lo. Dom Pedro II visitou a igreja matriz, as escolas públicas, a Santa Casa, o edifício da Câmara Municipal, e as obras do mercado e da cadeia, além de ir ver as voçorocas. Na tarde daquele mesmo dia, partiu a comitiva para Mogi Mirim.

Fruto de sua viagem, Casa Branca tornara-se um baronato de vida curtíssima. Tenente-coronel Vicente Ferreira de Sillos Pereira foi agraciado com o título de Barão de Casa Branca, por decreto imperial de 7 de maio de 1887, contudo, conforme o necrológio do Correio Paulistano, publicano na edição de 10 de maio de 1887, nº 9.207, “o despacho telegráfico communicando a noticia de tão justa recompensa chegou a Casa Branca horas depois do fallecimento de nosso amigo”, cuja morte deu-se no dia 8 de maio.

Tenente-coronel Vicente Ferreira de Sillos Pereira era natural de São João del Rei, MG, batizado em Campanha, MG, no dia 31 de janeiro de 1812. Era filho de Domingos Antônio de Sillos Pereira (Lisboa, Portugal, c. 1783-Caldas, MG, 19.7.1863) e de dona Francisca Luisa de Mello (São João del Rei, MG, 6.12.1784-Caldas, MG, 13.9.1862). Casou-se duas vezes, com Antônia Maria de Oliveira (1810-1865) e com a casa-branquense Mariana Umbelina de Pádua Lima (1866-1919), com descendência.

 

Fontes:

BEIGUELMAN, Paula. A formação do povo no complexo cafeeiro: aspectos políticos. 3ª ed. São Paulo: EdUSP, 2005.

DE SILLOS, Luiz Gustavo. Barão de Casa Branca. 2012.  Disponível em: < https://familiasillos.blogspot.com/2012/08/barao-da-casa-branca.html >

Hemeroteca da Biblioteca Nacional – Correio Paulistano (1870-1890).

JOSÉ, Ganymedes. O dia que a guerra passou por Casa Branca. 3ª ed. São Paulo: FTD, 1986.

 

sábado, 15 de março de 2025

A PAULISTA JACUHY

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Os antecedentes da cidade de Jacuí remontam tempos antigos e incertos. De fato, já foi escrito que sua fundação remete ao começo do século XVIII, pois foi encontrada uma telha datada de 1725, conforme narra F. de Paula Souza, no artigo Reminiscências da Comarca de Jacuhy. Segundo uma testemunha, Francisco Xavier Bezerra, ouvida no Auto Sumário, instaurado pelo desembargador Miguel Marcellino Vellozo e Gama, em 9 de maio de 1789 na Vila de São José do Mogi Mirim, teria sido Francisco Martins Lustosa e ele, testemunha, os que fincaram os marcos de descobrimento de Ouro Fino e, em ato contínuo, tomaram a posse de Jacuhy, por ordem do ouvidor da Comarca de São Paulo, João de Souza Felgueiras. A data, seria anterior a fuga de Lustosa para Curitiba, portanto, no final da década de 1740.

Documentalmente, contudo, as menções àqueles sertões surgem no auto de posse pela Vila de Jundiahy do rio São João. Em 7 de outubro de 1755, “vinha tomar posse de todo o Certão onde anda Pedro Franco Quaresma em deligencia de descobrir ouro a saber: - do Rio de São João que faz barra no dito Rio grande, e por elle acima até onde finalizar o dito Pedro Franco com a sua deligencia, e tão bem de todo o Certão além do dito Rio S. João até o Rio de Sapocahy da Campanhas de Itajubá, e por elle acima até onde se reparte o districto elas mesmas Campanhas”, conforme auto de posse lavrado pelo escrivão de órfãos, José do Rego e Almeida. Estava, portanto, a região de Jacuhy pertencente à Jundiahy.

Ocorre que, em 1759, Bartolomeu Bueno do Prado, em expedição pela Câmara da Vila de São João del Rei e pela ouvidoria da Comarca do Rio das Mortes, explorou toda a região em busca de quilombos. Teria, portanto, descoberto a região para as autoridades mineiras. Quando Bueno do Prado retorna à presença do governador, recebeu a chefia das minas de Jacuhy, o que insinua alguns elementos de povoação e mineração naquelas paragens, que podem ter começado após a posse por Lustosa. A vila de Jundiahy, contudo, reafirmaria a posse do Desemboque, do ribeirão de São Pedro de Alcanthara e Almas e dos Pinhaes, em 3 de outubro de 1761, ratificada por novo termo de posse, firmado em 7 de setembro de 1762. Jacuhy voltava a pertencer aos paulistas.

Segundo narra o historiador, Mario Mazzuia, no livro Jundiaí através de documentos, em 22 de maio de 1763, foi lavrado termo de eleição e dado juramento ao capitão Domingues Rodrigues da Silva, para servir como almotacé no Arraial de Nossa Senhora da Conceição de São Pedro de Alcantara e Almas.  Em 17 de julho do mesmo ano, na presença do juiz ordinário, Francisco Barreto Leme, estava, presentes o “Capitão Pedro Franco Quaresma e o capitão João Pires Rodrigues, ambos para servirem de Juizes ordinários e José Antônio Lobo de Mello p.ª servir de Almotacê inclusive o Capitão Domingos Rodrigues da Silva; para escrivão da Republica o licenciado Mathias de Souza Murça”, e pelo juiz Barreto Leme, foi-lhes dado posse nos respectivos cargos.

Em 18 de março de 1764, foi lavrado termo de eleição de dois juízes ordinários para servirem no “Arraial de São Pedro e Almas do descoberto do desemboque”, eleitos Capitão Pedro da Rocha, com 14 votos, e Francisco Bueno Pedroso, com 11 votos. Foram também candidatos os senhores Domingos Rodrigues Chaves, Pedro Lourenço, José Pedroso e João Machado Prado. Mazzuia não menciona se foi-lhes dado posse antes da chegada do governador de Minas Gerais, Luiz Diogo Lobo da Silva, em setembro daquele mesmo ano. Em 24 de setembro de 1764, foi publicado um bando em Jacuhy, onde o governador reconhecia o pertencimento à Minas das terras compreendidas “dentro da demarcação deste Governo das Minas Geraes as terras que formão os novos descubertos dos Rios de Sam João do Jacuhy, Sam Pedro de Alcantara, Almas, Ribeirão de Sancta Anna até a Serra que termina no Rio Grande e no sitio chamado o Dezemboque, e todos os mais Destrictos”. A posse, dizem testemunhas, foi realizada de forma violenta, tanto na esfera civil quanto religiosa. O então comandante do registro de Jacuhy, Jeronimo Dias Ribeiro, foge para o registro de Itupeva, nas imediações do atual município de Aguaí, SP, fundando, pouco depois, o Registro de São Matheus, que deu origem ao povoamento de Caconde, SP.

Mazzuia ainda escreve, em Jundiaí através de documentos – opúsculo, que, sobre Jacuí, “Não se conhece ao certo, a data em que chegaram ao local os primeiros moradores. Das versões conhecidas, a mais aceita é a que dá o velho Anhanguéra como responsável pelo evento ao construir um pouso á margem de uma estrada que facilitaria os meios de comunicação do extremo com Rio e São Paulo (Terreno doado por Antonio Alves da Costa, em cumprimento de uma promessa feita á São Pedro de Alcantara [...]”.

Jacuhy voltaria a pertencer, a partir de 1775, ao bispado de São Paulo, uma vez que este ingressou com ação em face do cabido de Mariana pelas paróquias do Sul de Minas. E assim permaneceria até 1900, quando a recém-criada diocese de Pouso Alegre coloca termo ao domínio paulista sobre Jacuí.

Aspecto do “Mapa Corographico da Capitania de S. Paulo”, feito pelo engenheiro Antonio Róiz Montezinho, conforme suas observações, feitas entre 1791 e 1792. Arquivo do Museu Paulista. É possível observar as localidades mencionadas na Revista do IHGSP, vol. XXIV, do que se destaca Mogi Mirim, Mogi Guaçu, o Registro de São Mateus, Jacuhy, Cabo Verde e Casa Branca. 


Fontes:

CAMPANHOLE, Adriano et al. Aditamentos à história da fundação de Jundiaí. Jundiaí: FOHAT LUX, 1994.

MAZZUIA, Mário. Jundiaí através de documentos. Campinas: Palmeiras, 1976. 

_________. Jundiaí através de documentos – opúsculo. Jundiaí: edição do autor, 1977.

PAULA SOUZA, F. Reminiscencias da comarca de Jacuhy. In: Revista do Arquivo Público Mineiro, volume IV, 1899, p. 237-274.

SÃO PAULO, Arquivo do Estado. Documentos interessantes para a história e os costumes de São Paulo, vol. XI. São Paulo: Typ. Espindola, Siqueira & Comp., 1896.

domingo, 9 de março de 2025

A PRIMEIRA JORNALISTA DE MOCOCA

Homenagem tardia, porém, oportuna ao Dia das Mulheres


Ao longo do século XIX, diversas práticas eram exercidas exclusivamente pelos homens; é um fato de nossa História recente, inclusive. Curiosamente, em meio ao falocentrismo dominante, Mococa presenciou uma exceção à regra.


Em 1888, era diretora do Collegio de Meninas de Mococa, dona Marianna Carmelitana de Arantes, conhecida popularmente como D. Carmelitana Arantes. Vinda de Passos, MG, onde ocupou cargo como professora de uma escola particular, nasceu em 1845, em Carmo de Minas, MG, filha de Thomas Joaquim de Arantes Marques Junior (1820-1888) e de dona Francisca Carolina de Mello (1826-1900), sendo a primeira filha do casal, que teria outros dez filhos. Professora de formação, tornou-se poetisa e charadista, uma grande colaboradora de almanaques uberabenses, gaúchos e lusitanos.  


Foi em Mococa que, em 1889, começou a circular o jornal O Porvir, cuja redatora era D. Carmelitana Arantes, sendo, portanto, a primeira mulher jornalista de Mococa. Uma vez que se trata de uma folha antiga, não se sabe de exemplares que tenham sobrevivido à passagem do tempo. Contudo, com base em informações da época, é possível aflorar algumas de suas características.


O jornal A Idea, impresso em Curitiba, PR, edição nº 12, de 20 de março de 1889, p. 03, há a seguinte menção:


“Honraram-nos mais com suas remessas os seguintes jornais: [...] O Porvir, redactora D. Carmelitana de Arantes. Pequenino porém um bello periódico. Si sua gentil redactora continuar a nos enviar, nos dará um bello porvir. Publica-se em Mocóca”.


O célebre historiador de Araxá, MG, radicado em Casa Branca, SP, Lafayette de Toledo, em um excelente trabalho, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. III, em 1898, p. 303-521, informa que Mococa teve tal jornal, e assim o descreve:


“Folha de formato mignon, editada por Adeodado de Alvarenga e da que foi redactora d. Carmelitana Arantes. Era impresso na typographia do Monitor Paulista, e durou pouco tempo” (p. 359).


Quanto a sua redatora, ela mudou-se de Mococa em data incerta. Sabe-se que exerceu o magistério em Campinas, SP, na década de 1910. De Herodes à Pilatos, dividia-se entre São Paulo e Minas Gerais. Em 1932, quando de seu falecimento, o jornal Monitor Mineiro, publicou a seguinte nota, na edição nº 1.062, do dia 28 de fevereiro daquele ano:


“Em Olympia, no Estado de S. Paulo, onde estava residindo, falleceu, há poucos dias, em avançada idade, a distincta senhora exma. d. Marianna Carmelitana de Arantes, prezada irmã do professor Emilio Mario de Arantes, residente em Passos. A extincta, que era poetisa e escriptora de valor, manteve por longo tempo, em Mocóca, onde era estimadíssima, um internato para meninas, tendo prestado relevantes serviços á causa do ensino naquella culta cidade. Á sua distincta família, os nossos sinceros votos de pezar”.


Dona Carmelitana de Arantes é um nome que se perdeu nos alfarrábios da História mocoquense, mas sua atuação, contrariando o que ditava-se nos meandros sociais e políticos de sua época, é digna de ser rememorada! Foi, afinal, a primeira mulher redatora de jornal de Mococa.

Imagem: Poema "Esperança", de autoria de dona Carmelitana de Arantes, publicado no Novo Almanach de Lembranças Luzo-Brazileiro para o ano de 1891, Lisboa, Portugal, 1890.


CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...