Homenagem tardia, porém, oportuna ao Dia das Mulheres
Ao longo do século XIX, diversas práticas eram exercidas exclusivamente pelos homens; é um fato de nossa História recente, inclusive. Curiosamente, em meio ao falocentrismo dominante, Mococa presenciou uma exceção à regra.
Em 1888, era diretora do Collegio de Meninas de Mococa, dona Marianna Carmelitana de Arantes, conhecida popularmente como D. Carmelitana Arantes. Vinda de Passos, MG, onde ocupou cargo como professora de uma escola particular, nasceu em 1845, em Carmo de Minas, MG, filha de Thomas Joaquim de Arantes Marques Junior (1820-1888) e de dona Francisca Carolina de Mello (1826-1900), sendo a primeira filha do casal, que teria outros dez filhos. Professora de formação, tornou-se poetisa e charadista, uma grande colaboradora de almanaques uberabenses, gaúchos e lusitanos.
Foi em Mococa que, em 1889, começou a circular o jornal O Porvir, cuja redatora era D. Carmelitana Arantes, sendo, portanto, a primeira mulher jornalista de Mococa. Uma vez que se trata de uma folha antiga, não se sabe de exemplares que tenham sobrevivido à passagem do tempo. Contudo, com base em informações da época, é possível aflorar algumas de suas características.
O jornal A Idea, impresso em Curitiba, PR, edição nº 12, de 20 de março de 1889, p. 03, há a seguinte menção:
“Honraram-nos mais com suas remessas os seguintes jornais: [...] O Porvir, redactora D. Carmelitana de Arantes. Pequenino porém um bello periódico. Si sua gentil redactora continuar a nos enviar, nos dará um bello porvir. Publica-se em Mocóca”.
O célebre historiador de Araxá, MG, radicado em Casa Branca, SP, Lafayette de Toledo, em um excelente trabalho, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. III, em 1898, p. 303-521, informa que Mococa teve tal jornal, e assim o descreve:
“Folha de formato mignon, editada por Adeodado de Alvarenga e da que foi redactora d. Carmelitana Arantes. Era impresso na typographia do Monitor Paulista, e durou pouco tempo” (p. 359).
Quanto a sua redatora, ela mudou-se de Mococa em data incerta. Sabe-se que exerceu o magistério em Campinas, SP, na década de 1910. De Herodes à Pilatos, dividia-se entre São Paulo e Minas Gerais. Em 1932, quando de seu falecimento, o jornal Monitor Mineiro, publicou a seguinte nota, na edição nº 1.062, do dia 28 de fevereiro daquele ano:
“Em Olympia, no Estado de S. Paulo, onde estava residindo, falleceu, há poucos dias, em avançada idade, a distincta senhora exma. d. Marianna Carmelitana de Arantes, prezada irmã do professor Emilio Mario de Arantes, residente em Passos. A extincta, que era poetisa e escriptora de valor, manteve por longo tempo, em Mocóca, onde era estimadíssima, um internato para meninas, tendo prestado relevantes serviços á causa do ensino naquella culta cidade. Á sua distincta família, os nossos sinceros votos de pezar”.
Dona Carmelitana de Arantes é um nome que se perdeu nos alfarrábios da História mocoquense, mas sua atuação, contrariando o que ditava-se nos meandros sociais e políticos de sua época, é digna de ser rememorada! Foi, afinal, a primeira mulher redatora de jornal de Mococa.
Imagem: Poema "Esperança", de autoria de dona Carmelitana de Arantes, publicado no Novo Almanach de Lembranças Luzo-Brazileiro para o ano de 1891, Lisboa, Portugal, 1890.

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