Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
Os antecedentes
da cidade de Jacuí remontam tempos antigos e incertos. De fato, já foi escrito
que sua fundação remete ao começo do século XVIII, pois foi encontrada uma
telha datada de 1725, conforme narra F. de Paula Souza, no artigo Reminiscências da Comarca de Jacuhy. Segundo
uma testemunha, Francisco Xavier Bezerra, ouvida no Auto Sumário, instaurado
pelo desembargador Miguel Marcellino Vellozo e Gama, em 9 de maio de 1789 na
Vila de São José do Mogi Mirim, teria sido Francisco Martins Lustosa e ele,
testemunha, os que fincaram os marcos de descobrimento de Ouro Fino e, em ato
contínuo, tomaram a posse de Jacuhy, por ordem do ouvidor da Comarca de São
Paulo, João de Souza Felgueiras. A data, seria anterior a fuga de Lustosa para
Curitiba, portanto, no final da década de 1740.
Documentalmente,
contudo, as menções àqueles sertões surgem no auto de posse pela Vila de
Jundiahy do rio São João. Em 7 de outubro de 1755, “vinha tomar posse de todo o Certão onde anda Pedro Franco Quaresma em
deligencia de descobrir ouro a saber: - do Rio de São João que faz barra no
dito Rio grande, e por elle acima até onde finalizar o dito Pedro Franco com a
sua deligencia, e tão bem de todo o Certão além do dito Rio S. João até o Rio
de Sapocahy da Campanhas de Itajubá, e por elle acima até onde se reparte o
districto elas mesmas Campanhas”, conforme auto de posse lavrado pelo
escrivão de órfãos, José do Rego e Almeida.
Estava, portanto, a região de Jacuhy pertencente à Jundiahy.
Ocorre que, em
1759, Bartolomeu Bueno do Prado, em expedição pela Câmara da Vila de São João
del Rei e pela ouvidoria da Comarca do Rio das Mortes, explorou toda a região
em busca de quilombos. Teria, portanto, descoberto a região para as autoridades
mineiras. Quando Bueno do Prado retorna à presença do governador, recebeu a
chefia das minas de Jacuhy, o que insinua alguns elementos de povoação e mineração
naquelas paragens, que podem ter começado após a posse por Lustosa. A vila de
Jundiahy, contudo, reafirmaria a posse do Desemboque, do ribeirão de São Pedro
de Alcanthara e Almas e dos Pinhaes, em 3 de outubro de 1761, ratificada por
novo termo de posse, firmado em 7 de setembro de 1762. Jacuhy voltava a
pertencer aos paulistas.
Segundo narra o
historiador, Mario Mazzuia, no livro Jundiaí
através de documentos, em 22 de maio de 1763, foi lavrado termo de eleição
e dado juramento ao capitão Domingues Rodrigues da Silva, para servir como almotacé
no Arraial de Nossa Senhora da Conceição de São Pedro de Alcantara e Almas. Em 17 de julho do mesmo ano, na presença do
juiz ordinário, Francisco Barreto Leme, estava, presentes o “Capitão Pedro
Franco Quaresma e o capitão João Pires Rodrigues, ambos para servirem de Juizes
ordinários e José Antônio Lobo de Mello p.ª servir de Almotacê inclusive o
Capitão Domingos Rodrigues da Silva; para escrivão da Republica o licenciado
Mathias de Souza Murça”, e pelo juiz Barreto Leme, foi-lhes dado posse nos
respectivos cargos.
Em 18 de março
de 1764, foi lavrado termo de eleição de dois juízes ordinários para servirem
no “Arraial de São Pedro e Almas do descoberto do desemboque”, eleitos Capitão
Pedro da Rocha, com 14 votos, e Francisco Bueno Pedroso, com 11 votos. Foram também
candidatos os senhores Domingos Rodrigues Chaves, Pedro Lourenço, José Pedroso
e João Machado Prado. Mazzuia não menciona se foi-lhes dado posse antes da
chegada do governador de Minas Gerais, Luiz Diogo Lobo da Silva, em setembro
daquele mesmo ano. Em 24 de setembro de 1764, foi publicado um bando em Jacuhy,
onde o governador reconhecia o pertencimento à Minas das terras compreendidas “dentro da demarcação deste Governo das Minas
Geraes as terras que formão os novos descubertos dos Rios de Sam João do
Jacuhy, Sam Pedro de Alcantara, Almas, Ribeirão de Sancta Anna até a Serra que
termina no Rio Grande e no sitio chamado o Dezemboque, e todos os mais
Destrictos”. A posse, dizem testemunhas, foi realizada de forma violenta,
tanto na esfera civil quanto religiosa. O então comandante do registro de
Jacuhy, Jeronimo Dias Ribeiro, foge para o registro de Itupeva, nas imediações do
atual município de Aguaí, SP, fundando, pouco depois, o Registro de São Matheus,
que deu origem ao povoamento de Caconde, SP.
Mazzuia ainda
escreve, em Jundiaí através de documentos
– opúsculo, que, sobre Jacuí, “Não se
conhece ao certo, a data em que chegaram ao local os primeiros moradores. Das versões
conhecidas, a mais aceita é a que dá o velho Anhanguéra como responsável pelo
evento ao construir um pouso á margem de uma estrada que facilitaria os meios
de comunicação do extremo com Rio e São Paulo (Terreno doado por Antonio Alves
da Costa, em cumprimento de uma promessa feita á São Pedro de Alcantara [...]”.
Jacuhy voltaria
a pertencer, a partir de 1775, ao bispado de São Paulo, uma vez que este
ingressou com ação em face do cabido de Mariana pelas paróquias do Sul de
Minas. E assim permaneceria até 1900, quando a recém-criada diocese de Pouso
Alegre coloca termo ao domínio paulista sobre Jacuí.
Aspecto do “Mapa Corographico da Capitania de S.
Paulo”, feito pelo engenheiro Antonio Róiz Montezinho, conforme suas
observações, feitas entre 1791 e 1792. Arquivo do Museu Paulista. É possível
observar as localidades mencionadas na Revista do IHGSP, vol. XXIV, do que se destaca
Mogi Mirim, Mogi Guaçu, o Registro de São Mateus, Jacuhy, Cabo Verde e Casa
Branca.
Fontes:
CAMPANHOLE,
Adriano et al. Aditamentos à história da
fundação de Jundiaí. Jundiaí: FOHAT LUX, 1994.
MAZZUIA,
Mário. Jundiaí através de documentos.
Campinas: Palmeiras, 1976.
_________. Jundiaí através de documentos – opúsculo.
Jundiaí: edição do autor, 1977.
PAULA SOUZA, F. Reminiscencias da comarca de Jacuhy. In: Revista do Arquivo Público Mineiro, volume IV, 1899, p. 237-274.
SÃO PAULO,
Arquivo do Estado. Documentos
interessantes para a história e os costumes de São Paulo, vol. XI. São
Paulo: Typ. Espindola, Siqueira & Comp., 1896.
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