Parte I
Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
Ó torpe destino, que me levou aos trágicos fins das almas, tão justo de fato o és? Pune
e condecora; és um juiz que profere sorridente ou amargo uma sentença.
O fogo sem luz
dos umbrais medonhos me foram mostrados, por motivos que os Céus não me permitiram
conhecer, causam-me arrepios que nem mesmo a pior das calamidades me causaria.
Senti indo
embora qualquer luz divina que possuía – se é que de tamanha graça minha alma
se fez digna. O ar tóxico me fora apresentado quando despertei após minha
inconsciência ante os umbrais malditos. Fiz-me obrigado a transpassar, sob a
temida inscrição, os portões escuros. Sem alguém para guiar-me, qual a graça
que recebeu o Poeta, locomovi-me sem rumo. Não andei muito pelas sombras e ais
quando, por fim, resolvi parar e no chão esperar meu fado desconhecido.
No escuro, ouvi
passos e senti alguma alma presente, rumando tão somente aos meus temores. Os
ruídos pararam e uma voz me chamou:
- Saias, meu
filho. Nada de mal infligir-lhe-irei, pois sou um dos que da alma lírica
desfruta, tal como tu. Escrevi sobre terras que homens jamais desbravaram;
sobre a ganância do ser discorri. Meu nome é o mesmo do santo Evangelista e meu
sobrenome de terras anglas a mim veio.
Saí da rocha
onde me escondia e vi o doce rosto idoso com um pequeno castiçal e vela acesa
em mãos. Disse-lhe arrebatado:
- Conheço teu
rosto e a ti idolatro; és meu mestre, patrono da fantasia. Tua literatura é
minha inspiração – E, perturbado, lhe perguntei. – Mas nobre homem, que causa
injusta lhe encontrar aqui, nesse poço de desespero e prantos!
- Acalma-te o
peito, meu filho, e saiba de antemão que aqui nada há de injusto – disse-me,
estendendo a mão. – O motivo de me dirigir a essas covas é um pedido de uma
nobre senhora que, em vida, muito lhe amou e, agora, na morte, intercede por ti
e por tua família. Sabendo que meu discípulo és, pediu a mim que te levasse a
ela. Sabido era que nos campos do destino tu se perdera; sentia tua chama
murchar. E essa digníssima senhora em teu socorro veio mais uma vez, enviando a
mim dos alvos prados a teu socorro.
- Pois a essa
senhora muito sou grato, e sinto que minha madrinha sempre guarda e guardará
por mim em seu coração. Mas, mestre, é certo o que me disse? Levar-me-á a ela?
E o sol e o vento sentirei novamente? Temo preso aqui ficar antes que a areia
de minha ampulheta se esgote.
- Virtuoso
rapaz, fique em paz. Irei te levar, como disse, à tua salvadora, que a ti
deseja ver mais que tudo, ao lado da Virgem Mãe, que pela humanidade roga. Lá,
a rainha das rainhas ajudar-te-á.
Qual faminto
que é alimentado, senti-me renovado naquele momento. Aprumei-me e segui meu
mestre pelo escuro iluminado por aquela chama diminuta.
Descemos uma
trilha silenciosa em uma escuridão sepulcral. Meu guia se fez silencioso e
assim preferi ficar. Quando, em certo ponto da estrada, ele parou, virou-se par
mim e disse:
- Estamos para
adentrar o Inferno. Não te espantes, pois a luz divina toca-te e mal algum o
ferirá aqui. Vamos descer ao centro da terra, transpor o local onde purgam os
arrependidos para que, enfim, possa eu te entregar à doce senhora.
Assenti com a
cabeça em tempo de subir na embarcação que nos atravessou por temível correnteza.
Ao leitor que
acompanha este relato, sinto que minha descida não carece de ser narrada em sua
totalidade, uma vez que ocorreu sem grandes tribulações, mas hei de contar
sobre os quatro encontros que lá tive, nos quais minha atenção foi maior
requerida.
Àqueles cujas
almas não foram inseridas nesta fé dedico esta primeira passagem, pois muitos dos
que encontrei são autores que admiro. Passei horas, ou assim me pareceu – o
tempo naquele lugar me confundiu –, conversando com o mestre da filosofia
condenado a beber o drinque letal de cicuta. Também com seu discípulo, que
desbravou a origem das ideias em sua teoria. O aprendiz deste pude saudar e
gentil foi ao receber meu elogio sobre sua Ética. Os dois chineses, que
dedicaram à tinta para transmitir os seus ensinamentos sobre o Tao, estavam lá,
simpáticos. Àquela inventora de Alexandria, morta por uma turba irracional,
pude abraçar. O sábio de Tiana, dos tempos do rei dos reis, estava lá, quieto.
O grande filósofo se voltou a mim e me apresentou sua mãe, aquela que em vida
fora parteira.
Aquela reunião
ficará em minha mente para sempre, ou até quando me for permitido, e difícil
foi ter que dela me despedir.
O mestre me
levou para baixo. Não andamos muito quando o segundo fato marcante de minha
jornada aconteceu. Às almas arrastadas por forte ventania chegamos, e eu, mesmo
assustado com o que via, conversava com meu mestre. Quando perguntou meu guia o
meu nome, uma das almas me chamou. Estava assustado com aquele círculo de
sofrimento, mas atendi ao chamado da condenada, que veio até mim:
- Ouvi teu
nome, e certamente sei que de minha casa tu és. Meu marido ao rei prestou um
serviço e sua majestade do Tibre com um título de conde o condecorou. Tornei-me
condessa, mas eu, em minhas necessidades, me envolvia com outros homens; por
isso aqui estou. Em vida, não tive arrependimento, e agora também não hei de
tê-lo. És um belo rapaz, e muito me satisfaz saber que o nome de minha casa
exibe descendentes de beleza angélica – e voltou para o seu sofrimento.
Virei-me ao
mestre e disse:
- Da beleza e
do fogo esta é serva.
E disse-me o
mestre:
- Entendes,
então, o motivo de estar aqui aquela senhora.
Rumamos para
baixo, passando pelos locais de dor e de justiça. Reconheci diversas almas, que
pagavam seus pecados com as penas impostas.
Pelo lodaçal,
chegamos à cidadela daquele local e, ao ingressarmos, pude ver nas covas que
chamas ardentes expeliam um homem que reconheci, embora a transfiguração por causa
de sua pena ofuscasse meus olhos:
− Se permite
uma arguição, ó pastor dos rebanhos divinos, conheço-te embora eu tenha
abraçado a vida em tempos em que, suponho, vossa graça estivesse chafurdando
neste poço de sofrimento. Foste o guardião das chaves do imponente santuário de
minha terra.
E, atento aos
meus dizeres, o espírito me disse:
− A pequena
fortaleza na qual preguei muito me era cara, e alegro-me em ter-te aqui, filho,
mesmo que de eras após meu egresso.
E eu a ele:
− Ouvi as
histórias e posso deduzir, sem presunção, mas condoendo-me por eminente figura
estar aqui e não ao lado do Pai, que nesta vala se encontra pelos maus usos da
estola. Semente tua lançastes ao mundo.
− Envergonho-me
de que o saibas. Mas, se dias passardes aqui, verás que estes buracos
incandescentes de homens da minha vocação estão repletos.
− Disto não
duvido – e a alma fora puxada para baixo por outra.
Disse meu guia:
− O homem é
falho; teorias pouco são frutíferas por haver de ser o homem quem as executa,
movido por sua ambição egoísta – e seguimos caminho.
No momento em
que estávamos no local dos que utilizavam da violência, desferida contra o
próximo, reconheci um condenado que emergira do temível rio de sangue fervente.
Aproximei-me da borda e gritei:
- Ó tu que
terras teve em minha cidade, assassinado fostes e teu sangue escuro e malévolo
marca o local de tua passagem. Conheço as histórias e sei que mereceu esse
sofrimento.
Ele me encarou
e aos guardas solicitei que permitissem que se aproximasse. O líder, preceptor
do ilustre herói grego, permitiu, quando meu mestre lhe mostrou a vela que
carregava. A alma disse-me:
- Ávidas são
tuas palavras, e vergonhosos meus pensamentos. Fico encabulado de ter nesse
antro infernal uma figura de minha terra, que regozija-se com meu sofrimento.
Fui cruel por assim exigir minha ocupação. Não fales que aqui me vistes, pois
vejo que vivo está e ao mundo há de retornar – e submergiu no rubro rio.
A meu mestre,
eu disse:
- Cruel e violento
foste este aqui em excesso, pois deleitava-se com a dor do próximo – e seguimos
caminho.
Conforme
andávamos pela margem do rio, os guardas, respondendo às minhas perguntas
quando arguidos, informaram que outros de minha cidade e de seus arredores ali estavam:
aquele que almejava o título de barão, mas o gentil Imperador lhe negou; aquele
que, em frenesi, puxou a trança da jovem moça para ceifar-lhe a vida; o que
atirou no próprio pai a mando do irmão, estando, este último, na floresta, mais
adiante naquele círculo, como lenha pútrida; o assassino que as orelhas de suas
vítimas punha em seu cinto. Ouvi os nomes e relembrava as histórias,
contando-as ao meu mestre que, atento, me escutava.
No centro
daquele rio fervente, havia o que incitou e comandou o genocídio, o que começou
a guerra e matou milhões. Sua cabeça, fora do rio, era alvo constante das
flechas dos enfurecidos guardas, que batiam seus cascos furiosos no chão antes
de flechá-lo.
Por fim,
descendo mais e mais, alcançamos o local mais frio que algum dia já pisei. No
lago gélido, vi as almas congeladas e, ao centro, o que incitou uma revolta
contra o Senhor e caiu dos Céus. Qual Excalibur, estava cravado na terra.
Terrível era sua aparência e mastigava em suas três bocas os três que o Poeta
descreveu outrora.
- Mestre –
chamei-o –, vamos ao monte?– e ele confirmou.
Senti-me,
porém, ao encarar a criatura, sem forças e vi necessidade de sentar,
desfalecendo naquele antro congelante.
