domingo, 2 de abril de 2023

A ilusão do cosmos e a aceitação do caos

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 

Ao despertar, abro a janela. Em um ligeiro hiato, vejo os Sete Princípios, a ordem, as cores do dia. Ouço a harmoniosa música das esferas. Recaio, mesmo que inconscientemente, em certa esperança, que a beleza aflorou e que durará eternamente. Creio que a manhã é bela por estar tão perto dos sonhos. Espreguiçar é um ato necessário no ritual, pois torna certo que não mais estamos naqueles puros devaneios oníricos, vivenciados minutos antes. Desperto, enfim, para lidar com o mundo, com a realidade.

Clamamos sempre pela ordem, pela equidade, mas o mundo dos homens não garante isso. A natureza é ordeira. Suas leis, imperiosas, independentes. A natureza é justa, pois traça a ordem. Cada pequeno detalhe, que aos olhos humanos possa parecer irrisório, é milimetricamente certeiro. A chuva não obedece limite algum. Chove aonde acha por certo a natureza chover, independente de fronteiras municipais ou regionais, e aí está o justo. Essas leis fogem dos olhos humanos, pois são puras demais para que possamos compreendê-las.

O desvio das leis naturais causa a desordem. A natureza, porém, age em desconformidade com seu código quando circunstâncias externas a influenciam. O mundo artificial, confeccionado pelas mãos humanas, repele as leis naturais e o resultado é um: desordem. Talvez, a maior ilusão do mundo seja o ser humano achar que existe ordem em seu mundo artificial, de sombras.

Somos encorajados a nos manter não em ordem, mas no status quo, em certo marasmo de atividade. Os meios coercitivos sociais, legais e tradicionais são dilacerantes para que a ação aconteça. Ação, para a filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), é a atividade coletiva, que foge das necessidades fisiológicas e da manufatura, ou seja, a vida fora da caverna, fora da vida particular. Quando abro a janela, vejo a sociedade, porém, estou em casa: sou um expectador da ação. Deixo o meu refúgio privativo para encontrar-me com a vida pública. Em ambas, ordem também é uma ilusão.

Ultimamente, não deixamos nossas residências desacompanhados. Levamos conosco o peso e a tristeza de várias mortes. O agente viral, Covid-19, ceifou muitas vidas, e as autoridades sanitárias de todo o mundo vêm, há dois anos, tentando resolver a situação. Quando deixamos nossos lares, agimos com todo o cuidado que nos é possível, para que possamos não apenas preservar a nossa vida, mas a de nossos vizinhos, amigos e familiares também. Agir em conjunto, em união, é o meio mais indestrutível para enfrentar crises. Afinal, tudo é uno. Como escreveu Helena Blavatsky (1831-1891), “[...] fecha teus sentidos à tremenda e grande heresia da separatividade que te aparta dos demais”1.

Nos separamos, enquanto um grupo que visa ordem, quando tememos uns aos outros ou nos confrontamos. A divisão ocorre pelo poder, pelo desejo de possui-lo e conservá-lo, ou de temer aqueles que o têm. Poder, se bem analisarmos, é uma ilusão também. Depende de títulos, de influência, de doutrinação, de carisma: não é algo por si só, pois, quando sozinho, não se tem nada. E mesmo deter os atributos utilizados para consegui-lo não é garantia alguma de sucesso. Enquanto um instituto, o poder por si só é uma ilusão.

O medo talvez seja a emoção mais comum. Ao contrário do amor, o medo surge do desconhecimento. Considero que ninguém ama aquilo que desconhece, da mesma forma que ninguém teme aquilo que verdadeiramente conhece. O que são os mitos senão uma maneira de conhecer, mesmo que de forma lendária e improvável? As epopeias são a vã tentativa de acalentar o coração amedrontado dos seres humanos. A sorte da humanidade foi que existiram pessoas que, mesmo com medo, descobriram coragem para enfrentar a dura realidade e sobressair, buscando respostas concretas.

Assim estão agindo, hoje em dia, os médicos, os profissionais da saúde, os cientistas e pesquisadores: agem com medo, mas possuem em si o espírito heroico, e permitem que a coragem prevaleça para que respostas apareçam e a pandemia seja, enfim, superada. Conseguem superar, inclusive, as mentiras disseminadas pelas mídias sociais e seu dinamismo: quebram os mitos com excelência, que traçam inverdades quanto ao vírus! Hoje, temos vacinas contra a Covid-19, sabemos um pouco mais sobre ela do que no ano passado, e logo, saberemos mais.

O mundo enfrentou considerável desordem em 2020, que perdurou até 2021, e continuará, com toda certeza, em 2022, o qual, se assim permitir o destino, será próspero e abençoado! Porém, nos situamos em uma “ordem” nova, com novas formas de convívio social. A adaptação faz parte da vida, pois, quando o externo muda, o interno acompanha. Quando a natureza age, os seres que nela habitam acompanham. Tomaremos cada vez mais cuidados daqui para frente, mas, se a história é cíclica, bem, talvez, futuramente, ainda a humanidade estará desprevenida para a chegada de alguma outra crise. O mais importante, creio, é abrir a janela e perceber que, de fato, o mundo é belo, mesmo com as trevas que nele habitam.

1 BLAVATSKY, Helena. A voz do silêncio. Pensamento: São Paulo, 2010.


Obs.: Texto escrito no final de 2021


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Texto dedicado, em especial, ao meu avô, Venicio Marques (1950-2021), um exemplo de simplicidade e sabedoria; aos meus tios-avós, Ercilia Borgheti da Costa (1935-2021) e José Laurindo Máximo da Costa (1935-2021); e a minha prima, Sonia Lucia Borgheti (1967-2021). Enfrentaram grandes lutas, e, ao menos na história familiar, serão lembrados com carinho e admiração.

 

 

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