Ora, que desventura preparou o acaso! Que fado, que despropósito! Nos recantos de
uma cidade, após transpostos os portões brancos de ferro daquela casa
assoalhada deserta, passadas a garagem e a claraboia coberta de tela verde,
após a cozinha de azulejos portugueses, a porta dupla de madeira branca e a
escadaria, sob o olhar distante de todo o Centro da cidade, chega-se ao local
do despautério: o galinheiro, cena de um crime que segue relatado. Advirto: o
ato criminoso aqui não é entre os humanos, mas entre os sujeitos do galinheiro.
Não é crime aos olhos positivados dos homens, mas há, aí, uma ideia. “Ah, mas
aves não pensam!” – não sobre letras e números, mas compreendem o que o
empirismo e a sobrevivência ensinam. Para elas, é o que basta.
Dizem por aí que, em casa que há um gato, outros chegam, mas não
falaremos de gatos. Pergunto-me apenas se o princípio é o mesmo quanto aos
galináceos, pois é o que aconteceu.
O vento soprou diferente. Cruzava a copa das árvores violentamente,
conduzindo as folhas ao esmo de sua vontade; derrubava as frutas maduras de
seus galhos altos, para a infelicidade do granjeiro, que as veria espatifadas
no solo de terra escura e coberto de folhas secas de outras épocas; e empurrou,
vinda do além-muro, uma galinha de outros campos. Como surgiu, uma incógnita!
Veio do ar e pelo ar, ou de causas alheias ao conhecimento do granjeiro. Fato é
que aquela galinha de penas pretas chegou ao quintal de chofre.
Entre o seu conhecimento empírico e o seu extinto de sobrevivência,
deve ter vislumbrado a terra das oportunidades, afinal, um largo quintal,
repleto de insetos, frutas e o que mais quisesse se deleitar. Tinha companhia,
aliás: cerca de quinze outros galináceos. Felizmente, para ela, o granjeiro,
que ia até a casa duas vezes ao dia, perceberia a sua chegada. Estava podando
as árvores, depois de lançar às aves quirela e milho. Encerrada a fome, veio a
sede, mas de sangue; as galinhas viram a intrusa, uma forasteira que invadira
suas dependências. Um amontoado delas partiu para a ignorância, atacando a
pobre galinha com seus bicos e golpes de espora.
O granjeiro ouvira a manifestação toda. Os piados, as folhas secas
farfalhando e foi checar, desconfiado. Viu uma nuvem de penas e de poeira e
correu, acreditando que fosse um gato ou algum lagarto. Estava enganado,
afinal: era uma galinha, que ele não reconheceu como sendo sua. Era de fora. Sabe-se
lá como, ele afugentou os galináceos e salvou aquela que fora vilipendiada.
Levou-a para o quartinho do fogão de lenha, aonde guardava o milho e suas
ferramentas.
Não foi fácil a recuperação, mas o coração do granjeiro apiedou-se
pela ave moribunda. Fez um ninho, aplicou medicação e a alimentava naquele
quarto escuro. As demais habitantes sondavam aquela que consideravam uma
intrusa; vigiavam pela janelinha lateral, sempre fechada, apenas esperando o
momento certo...
O que intriga é o fato de, mesmo não estando em meio direto das
outras, aquela galinha tenha sido objeto de tamanha hostilidade. Não a viam,
não a ouviam, pois, machucada, não cacarejava, mas as demais estavam cada vez
mais alvoroçadas, em especial por ser inacessível o cômodo da convalescente.
Os dias passaram, e a estrangeira recuperava-se cada vez mais. Os
sinais eram bons: sobreviveria, afinal! O granjeiro, satisfeito, resolveu
tentar introduzir uma primeira vez, sob sua vigília, a galinha recuperada.
Prostrado na soleira do cômodo, abriu lentamente a porta, e atirou milho no
chão para chamar a atenção da galinha. Pois ela, mesmo evidenciando estar
reticente, saiu. O pátio estava deserto, até então.
Poucos passos foram suficientes para que a ira fosse despertada e
para chamar ao galinheiro Marte, deus da guerra. As outras galinhas surgiram
repentinamente! Sagazes, voaram de todos os lados, cercando a pobre e indefesa
intrusa. Os golpes foram severos, mas, por sorte, o granjeiro, esquivando-se
daquela furiosa investida, resgatou novamente a estrangeira e levou-a para o
cômodo, tornando a medicá-la.
O que fazer, afinal? Pensaria em um plano. Cuidaria novamente da
enferma, afinal, animais também sentem dor, e não era de sua índole permitir
que aquela galinha perecesse à mingua. Colocou-a no ninho improvisado e a
alimentou, antes de trancar a porta e ir embora. A tarde chegava ao fim.
A noite se aproximava cada vez mais. O vento estava diferente. A
lua observava, distante e discretamente o galinheiro, e não suspeitava o que
presenciaria. Os cães ganiam, ao longe, e as luzes da cidade, qual as estrelas
no céu, começavam a despertar. Os poleiros, contudo, estavam desertos. Os
ninhos, vazios. O pátio, contudo, estava cheio. De frente para a porta do
cômodo do fogão de lenha, era tramada uma escaramuça. Lá dentro, dormia serena
a galinha machucada, e mal ela imaginava que, afinal, dormiria para sempre...
Quando a manhã raiou, o granjeiro tomou seu café, vestiu-se, leu o
jornal e subiu para a casa aonde situava o galinheiro. O dia estava normal.
Nada de novo sobre o mundo. Girou a chave no portão, cruzou a garagem e a
cozinha, destrancou a porta dos fundos e desceu a escada. Concentrado em não
pisar em falso, ele sequer percebeu as penas nos degraus.
Distraído, o homem foi ao cômodo, aonde prepararia o milho e a
quirela. Girou a chave. Abriu a porta. Seu olhar adentrava o recinto devagar.
No meio da sala, o susto: sangue e penas. Assustado, correu mais à frente o
olhar e se deparou com a galinha, afinal. Estava morta, toda bicada, toda
ensanguentada. A janela lateral estava aberta. Mas ele sequer a abria!
Atordoado, saiu dali rumo ao pátio. Viu algumas galinhas se aproximarem. Em
seus bicos, o líquido vermelho. Afinal,
as assassinas, que provavelmente abriram a janelinha para que pudessem ceifar
aquela vida. Deviam ter alvoroçado tanto por ali, que afinal abriram a janela.
Triste pelo que aconteceu, o granjeiro recolheu a morta e limpou o
chão. Pegou o milho e, deprimido, atirou sem muito entusiasmo pelo pátio.
Foi-se embora em seguida, desapontado por não ter podido salvar aquele pobre
animal.
*
Bem, a história parece uma fábula, porém, é bem real, e aconteceu
com meu padrinho e tio-avô, Renato, na casa dos meus finados bisavós, Pedro
Falarini e Maria da Conceição Coelho Falarini, aonde ele mantém um pomar e
galinhas. Não pude deixar de pensar, quando ele me narrou essa história, no
tema da xenofobia. Afinal, todas elas eram galinhas. Tinham penas, bico,
cacarejavam e ciscavam, mas aquela pobre intrusa foi tratada com hostilidade.
Por qual motivo, afinal, se são todas da mesma raça? São galinhas, mas as de
dentro não permitiram que a estranha permanecesse. Bem, vejo o princípio
aplicado à humanidade. Somos todos seres humanos, mas insistimos em tratar com
certa repulsa outros humanos: negamos asilo aos refugiados, negamos salvamento
às crianças estrangeiras, escravizamos, bombardeamos, tudo para quê? Terras,
dinheiro, ideologia? Somos todos irmãos, partes integrantes de um mesmo
planeta. E insistimos no erro, insistimos no ódio, na separação e na
segregação. E cada vez mais, rumamos para a destruição. Segundo o escritor
Isaac Azimov, em seu livro Escolha a Catástrofe, as formas iminentes e
imediatas de destruição do planeta são fruto não dos fenômenos naturais, mas
sim dos próprios humanos...

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