terça-feira, 1 de agosto de 2023

BREVE HISTÓRICO SOBRE A PROMOTORIA DE JUSTIÇA DA COMARCA DE MONTE SANTO DE MINAS-MG

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

 

Noções gerais

No período colonial, a ideia de instituir uma promotoria de justiça surgiu em meados de 1609, quando da criação do Tribunal de Relação da Bahia, que era presidido pelo Governador-Geral do Brasil, e compunha-se de dez desembargadores. Antes disso, as funções que nos dias de hoje pertencem ao Ministério Público eram divididas entre vários atores distintos, conforme determinavam as Ordenações Manuelinas, de 1521, sucedidas pelas Ordenações Filipinas, de 1603, os códigos legais e jurídicos que vigoravam no Reino de Portugal e nas suas colônias.

Com o advento do Império do Brasil, foi promulgada a Lei de 29 de novembro de 1832, que foi chamada de “Código de Processo Criminal”, a qual visava dar novo aspecto ao Judiciário Brasileiro. No Art. 5º da referida Lei, consta que, em cada termo ou julgado, haveria um Conselho de Jurados, um Juiz Municipal, um Promotor Público, um Escrivão das execuções, e os Oficiais de Justiça, que os Juízes julgassem necessários. 

É no Art. 37, do referido Código, que consta a especificação das atribuições do promotor público, sendo: Denunciar os crimes publicos, e policiaes, e accusar os delinquentes perante os Jurados, assim como os crimes de reduzir á escravidão pessoas livres, carcere privado, homicidio, ou a tentativa delle, ou ferimentos com as qualificações dos artigos 202, 203, 204 do Codigo Criminal; e roubos, calumnias, e injurias contra o Imperador, e membros da Familia Imperial, contra a Regencia, e cada um de seus membros, contra a Assembléa Geral, e contra cada uma das Camaras;  Solicitar a prisão, e punição dos criminosos, e promover a execução das sentenças, e mandados judiciaes. Dar parte ás autoridades competentes das negligencias, omissões, e prevaricações dos empregados na administração da Justiça”.

O termo Ministério Público foi utilizado pela primeira vez no Art. 18 do Decreto nº 5.618, de 02 de maio de 1874, o qual regulamenta as Relações do Império (Relações era o termo utilizado para designar os tribunais de segunda instância). Promotor é um termo que tem sua origem no latim, e significa algo como “dar movimento, mover para frente” (“pro”, significa “à frente”; e “motus” conjugação do verbo movere, que significa “mover, mudar”).

Os promotores teriam progressivas conquistas nos textos constitucionais e na legislação infraconstitucional vindoura. Talvez, a culminância tenha sido com a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, que elenca o Ministério Público entre as funções essenciais à Justiça, e especifica, no Art. 127, sua função, qual seja, de garantir “a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”. Da mesma forma, a Constituição de 1988 traz os princípios que regem o Ministério Público, as suas formas de organização e as garantias que lhe são asseguradas. O chefe do Ministério Público da União é o Procurador-Geral da República, nomeado pelo Presidente da República, nos termos da própria Constituição. Nos Estados, são os chefes do Ministério Público os Procuradores-Gerais de Justiça.

 

A instalação da comarca

A Comarca de Monte Santo foi criada por meio do Decreto nº 243, de 21 de Novembro de 1890, abaixo transcrito, ipsis litteris:

“O dr. Governador do Estado de Minas Geraes, tendo em vista a proposta da repartição de estatística, datada de 20 do corrente mez, e usando da atribuição conferida pelo §1. art. 2. do decreto n.7, de 20 de novembro de 1889, decreta:

Art. 1. Fica elevada á categoria de villa e constituida em município, a freguezia de S. Francisco do Monte Santo, e desmembrada do de S. Carlos do Jacuhy.

Paragrapho único. O novo município será instalado logo que os seus habitantes offereçam ao Governo os edifícios precisos para paço do conselho municipal, cadêa e escolas de ambos os sexos.

Art. 2. É creada a comarca de Monte Santo, composta do termo de S. Francisco do Monte Santo.

Paragrapho único. Emquanto não for installada a nova comarca, fica o termo de que ella se compõe annexado á de Muzambinho.

Art. 3. Revogam-se as disposições em contrario.

Palácio do Governo, em Ouro Preto, 21 de Novembro de 1890.”

O livro de Registro de Juramentos da Comarca iniciou-se em 05 de maio de 1891, e foram empossados os senhores: tenente Eduardo Mafra, Tabelião do 1º Ofício Judicial e de Notas; Carlos de Paula Ferreira, Tabelião do 2º Ofício Judicial e de Notas e oficial de Registro interino; Antônio José da Cunha, escrivão de órfãos; Sydalino Silvino da Silva, contador, partidor e distribuidor interino; e José Villela de Freitas, partidor. O MM. Juiz era o dr. Severino Eulógio Ribeiro de Rezende. Contudo, a instalação da Comarca seria efetivada apenas em 31 de março de 1892.

Notícia do Jornal oficial do Estado de Minas Gerais, de 10/05/1892, referente a instalação da Comarca.

O cargo de promotor público fora conferido ao dr. Wenceslau Brás Pereira Gomes. Porém, não tardou para que pedisse exoneração do cargo. Em 11 de setembro de 1891, toma posse como promotor interino da Comarca, o dr. Aristides da Silveira Lobo Sobrinho. Em 30 de novembro do mesmo ano, seria empossado o promotor público titular da Comarca, dr. João Baptista Pereira d’Almeida

Promotores da Comarca

Foram promotores da Comarca de Monte Santo, conforme o Livro de Registro de Juramentos:

Wenceslau Braz Pereira Gomes  – 1890

Aristides da Silveira Lobo Sobrinho – 21.09.1891 (interino)

João Baptista Pereira d’Almeida – 30.11.1891

Antônio Ataliba e Silva – 01.03.1893

Raymundo de Paula Xavier – 25.05.1894 (interino)

Aristides da Silveira Lobo Sobrinho – 04.08.1894 (interino)

Custódio de Almeida Lustosa – 29.09.1894

Antônio Ataliba e Silva – 10.01.1895 (interino)

Urias Ferreira Carvalhaes – 29.07.1895 (interino)

Capitão Juvêncio Cornélio Alves – 01.12.1896

João Pinto de Magalhães – 02.09.1897 (interino)

Urias de Mello Botelho – 19.11.1897 (interino)

Urias de Mello Botelho – 19.05.1898

Antônio Hilário Soares da Silva – 16.03.1899

Albano de Moraes – 05.06.1900 (interino)

José Eduardo do Amaral – 30.04.1903

Julio Octaviano Ferreira – 25.07.1903

João Villela de Freitas – 01.05.1904

Valdomiro de Barros Magalhães – 11.03.1906 (interino)

Tancredo Alves – 26.03.1906

João Domingues Pijarro Costa – 29.05.1906 (interino)

Capitão Urias Ferreira Carvalhaes – 10.06.1907

Manoel Neiva Leal – 24.04.1908

João Frade Bala – 18.08.1908 (interino)

Affonso Godilho Costa − 23.12.1908 (interino)

Antônio Rocha – 08.05.1909

Alfredo Pimenta de Pádua – 24.07.1909

João Nantes de Castilho – 02.12.1909 (interino)

Capitão Urias Ferreira Carvalhaes – 18.04.1910 (interino)

Olympio de Faria Barreto – 23.06.1911

Antônio Vilela da Costa – 18.07.1911

José do Patrocínio da Silva Pontes – 21.12.1911 (interino)

Tito Lívio Lage da Silva Pontes – 11.06.1912

Alberto Cavalcanti Barreto de Almeida e Albuquerque – 21.07.1912

Francisco Coelho – 18.03.1913 (interino)

Urias Ferreira Carvalhaes – 01.06.1914

Alberto Cavalcanti Barreto de Almeida e Albuquerque – 29.07.1916

Constantino Mouza – 06.12.1916 (interino)

José do Patrocínio da Silva Pontes – 28.05.1917

Constantino Mouza – 12.01.1918 (interino)

Francisco Coelho – 02.09.1918 (interino)

Constantino Mouza – 05.10.1918 (interino)

Tito Lívio Lage da Silva Pontes – 21.12.1918 (interino)

Telêmaco Autran Dourado – 07.01.1919

Appolinário Fernandes Telles – 05.03.1925

Carlomano Coelho – 26.01.1926

Tristão Tavares de Lima Júnior – 25.07.1927 (interino)

Agenor Ferreira Rabelo – 05.10.1927

Florencio Tavares de Lima – 19.11.1927

Antônio Felicio Cintra Netto – 28.01.1932

Antônio Felicio Cintra Netto – 28.01.1936

José do Patrocínio da Silva Pontes – 31.07.1937

Natalino Triginelli – 07.01.1938

Sebastião Parisi – 20.04.1938 (interino)

José Pereira Quinette – 12.09.1938 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 29.02.1947 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 29.03.1947 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 29.04.1947 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 28.05.1947 (interino)

Dino Marccheroni – 15.05.1965

Paulo Pedro Bezamat – 30.04.1975

José Renato Moura Resende – 21.07.1975

Euripedes Cardeal Sobrinho – 18.08.1978

Euripedes Cardeal Sobrinho – 08.03.1979 (substituto)

José Algusto Silva Nunes – 06.07.1979

José Robério Colabardini – 01.02.1983

Sebastiana Lourdes Salles Pereira – 11.03.1983

José Robério Colabardini – 28.05.1983 (substituto)

José Robério Colabardini – 01.08.1984

Claudio de Barros Pinheiro – 18.08.1989 - 2016

 

O último promotor titular da Comarca de Monte Santo de Minas foi o dr. Cláudio de Barros Pinheiro, que ingressou no Ministério Público em 14.02.1986, tendo sido promotor de Jacuí antes de ir para Monte Santo de Minas. Aposentou-se em 28.09.2016 e, desde então, há a vacância do cargo de promotor titular da Comarca.

Atualmente, o Ministério Público atua em Monte Santo de Minas com a zelosa cooperação dos promotores de São Sebastião do Paraíso, contando com a atuação dos doutores Rodrigo Colombini, Promotor de Justiça em exercício das funções sem prejuízo de suas atribuições; Manuella de Oliveira Nunes Maranhão Ayres Ferreira, Promotora de Justiça em cooperação; e Emílio Carlos Walter, Promotor de Justiça em Cooperação. A oficiala do Ministério Público da Comarca é a bacharela Cristina de Fátima Cruz e Silva, que ocupa o cargo desde 28.12.2001, com formidável esmero no exercício das funções inerentes de seu cargo.

 

Dra. Sebastiana Lourdes Salles Pereira - A primeira promotora da Comarca

Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, turma de 1969, Dra. Sebastiana Lourdes Salles Pereira foi a primeira mulher a ocupar o cargo de promotora da Comarca de Monte Santo de Minas. Embora tenha passado por um curto período de tempo, seu nome entra para um rol de mulheres que, enfrentando as dificuldades impostas pelas condições adversas de sua época, sobressaiu e ingressou às fileiras da Promotoria de Justiça.

Quando de sua formatura, recebeu o prêmio “Francisco Brant”, por ter obtido a melhor média em Direito Judiciário Penal. Ingressou para o Ministério Público em 21.07.1974, tendo sido empossada promotora de Monte Santo de Minas em 11.03.1983, e aposentou-se em 21.01.1998. Dra. Sebastiana faleceu em 21.07.2017, na cidade de Contagem-MG.

 

Dr. Telêmaco Autran Dourado – um homem devotado à Justiça

Telêmaco Autran Dourado nasceu em 05 de Maio de 1893, no Estado do Rio Grande do Sul. Era filho de Angelo Cardoso Dourado e de Francisca Autran da Mata e Albuquerque. Bacharelou-se em Direito pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, em 1916. Foi casado em primeiras núpcias com dona Alice de Freitas, com quem teve cinco filhos: Telemaco Autran Dourado Filho; Anísio de Freitas Autran Dourado; Vinicius Autran Dourado; Francisca de Freitas Autran Dourado; e Waldomiro de Freitas Autran Dourado, este um grande literato brasileiro. Com o falecimento de sua esposa, casou-se com dona Maria Silvia Ibrahim..

Dr. Telêmaco ocupou inúmeros cargos do Judiciário montesantense: foi delegado de polícia, empossado em 14.09.1917; juiz municipal, empossado em 22.01.1918; promotor público, empossado em 19.01.1919. Em meados de 1925, foi nomeado juiz de Direito da Comarca de Patos de Minas, porém, no ano seguinte, retornou para Monte Santo de Minas para ocupar o cargo de Juiz de Direito, ocupando o cargo de 1926 até meados de 1938, quando foi nomeado Juiz da 3ª Vara da Comarca de Belo Horizonte. Em 1934, publicou o livro “Despachos e decisões”, pela editora Condor

Em 02 de Setembro de 1941, foi nomeado Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, com assento na 1ª Câmara Cível, por ato assinado pelo Dr. Benedito Valadares, governador do Estado. Por meio de Decreto, datado de 10 de Maio de 1957, Dr. Telêmaco foi nomeado ministro togado do Superior Tribunal Militar, tomando posse no dia 13 do mesmo mês. À frente do STM, fora relator do Regimento Interno, entre os anos de 1960 e 1961 e Conselheiro da Ordem do Mérito Jurídico Militar, condecoração esta que a ele foi outorgada por seus pares. Em 02 de Maio de 1963, Dr. Telêmaco aposentou-se, a pedido.

Faleceu aos 80 anos de idade, no dia 16 de Outubro de 1973, no Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério São João Batista.

 


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