Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
O tenente e professor, Augusto Ernesto Lages, nasceu em meados de 1860, na cidade de Diamantina, Estado de Minas Gerais. Era filho de José Coelho Lages (27.08.1827-14.11.1909) e de dona Maria Paulina de Araújo (?). O sobrenome "Lages" advém de Francisco Rodrigues Lages, pai de sua avó paterna, Beatriz Angélica da Assumpção, a qual foi casada com Clemente Coelho Linhares.
Foram seus irmãos: padre Ernesto Augusto Lages (1858-1945);
Ambrosina de Araújo Lages; Carolina Augusta Lages; José Coelho Araújo Lages;
Maria Clotildes de Oliveira Lages; Amélia Antônia de Oliveira Lages; Francisco
Coelho de Oliveira Lages; e Antonieta Coelho de Araújo Lages.
Seu tio-avô, tenente Francisco de Paula Lages (1800-1851)
fora uma figura de grande respeito. Obtivera sua patente militar da Guarda
Nacional; atuara em Conceição do Mato Dentro como juiz de paz e delegado de
polícia, além de ter sido vereador na primeira legislatura do município. Era,
ainda, fazendeiro, proprietário da fazenda Lambari. Logo, era uma figura de
importante renome.
Tendo atuado como professor entre 1887 e 1888, na cidade de
Carangola, não tardou para que seguisse seu irmão, padre Ernesto, para a
Província de São Paulo, quando este era padre da paróquia de Mococa, empossado
em 1887. Os irmãos eram republicanos ferrenhos, e não tardou para que houvessem
fortes desavenças com as autoridades monarquistas do lugar. Fosse coincidência
ou obra do destino, o fato é que os irmãos encontravam-se residindo em Mococa
quando o Império brasileiro caiu e o imperador, dom Pedro II, fora deposto.
As Câmaras Municipais, órgãos administrativos de até então, foram dissolvidas e substituídas pelos chamados "Conselhos de Intendência". Era fato que o momento era delicado, e que os ânimos estavam exaltados: as dúvidas dos monarquistas martelavam suas cabeças, enquanto os republicanos comemoravam o golpe que resultou na nova forma de governo. O padre Lages seria, afinal, membro e presidente da primeira Intendência, sendo nomeado em 31 de Janeiro de 1890, e empossado em 05 de fevereiro do mesmo ano, junto dos senhores: dr. João P. De Mello Moraes; Estebio Ribeiro da Silva; Carmo Taliberti; e Humberto de Queiroz. Este último, autor do primeiro grande ensaio historiográfico sobre Mococa, escreveu que o padre Ernesto era "envolvido abertamente no movimento político de então, como republicano intransigente, o que se verá, mais tarde, soffreu injusta guerra e perseguição, foi atrozmente calunniado e, por isso, removido de Mocóca" (QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca: de sua fundação até 1900. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XV, ano 1910. São Paulo: Typographia do Diário Official, 1912, p. 162). Era a guerra do poder e da influência.
Segundo Humberto de Queiroz, desde que fora proclamada a
República, a política do município era extremadíssima. Padre Lages pediria sua
remoção da Intendência em abril de 1890, e seria, inclusive, enviado para outra
paróquia, e este fato fora lembrado pelo Jornal "A República", edição
de 13 de outubro de 1890, que segue transcrita:
"O digno sacerdote, padre Ernesto Lages, vigário de
Mocóca, acaba de ser demittido pelo bispo diocesano por não querer prestar-se a
tramoia dos especuladores, que querem que todo transe fazer da religião uma
arma política contra a República. O grande crime do distincto padre foi o de
ser republicano e o de entender que as cousas de seu ministério pairam muito
mais alto do que todas essas frágeis e impotentes ambições, que procuram
guindar-se, fazendo do altar degrao para subir até ás posições perdidas. O povo
de Mocóca, apreciador das qualidades de verdadeiro ministro da religião, da
sensatez e do critério do padre Lages, indignou-se com a notícia de tão
escandalosa demissão, que todos sabem ser devida unicamente a fins políticos, e
prepara para resistir a ella, oppondo-se a que outro padre tome conta da
parochia. Dizem notícias dali que se receiam graves e imminentes conflictos e
que a população não entregará a egreja ao novo parocho”.
Conforme ainda nos relata Humberto de Queiroz, uma das cenas
mais lastimáveis do momento fora a tentativa de assassinato do senhor Augusto
Ernesto Lages. O dedicado professor, irmão do politiqueiro padre, figurava como
delegado de polícia em exercício quando, na noite do dia 11 de abril de 1894,
sofrera violento atentado contra sua vida. A notícia foi contada no jornal O
Estado de S. Paulo, edição de 17.04.1894, constante em seu acervo, e que segue
abaixo:
"Temos algumas informações a respeito dos conflictos
havido na Mocóca. O tenente Augusto Ernesto Lages, subdelegado, na noute de 11
do corrente, estando escrevendo dentro da sala de sua casa, recebeu dois tiros
de revólver partidos da rua, por dois indivíduos. Uma bala alojou-se em um
braço, de que se tornava necessário fazer a amputação, e outra interessou o
pulmão; os médicos que o examinaram declararam não ser grave este ferimento.
Contava que os mandantes do crime sao chefes monarchistas do logar, coronel
Diogo de Figueiredo, ex-barão de Monte Santo, Custódio Pinheiro e outros, que
se acham detidos para averiguações. A força que para ahi tinha partido de
Campinas já regressou, tendo deixado um contingente que ainda continua em
diligência para capturar alguns indivíduos implicados na desordem"
Um erro de informação, contudo, veiculado em alguns jornais
da época, informaram que Augusto restara morto: evidente equívoco.
Segundo a tradição oral, Augusto
saiu com vida e refugiou-se com a família no incipiente povoado vizinho de São
João da Fortaleza, hoje Arceburgo. A tradição oral ainda relata que ele
escondera-se no porão de uma residência, já demolida, nas imediações de onde
hoje encontra-se edificado o Hotel David. O atentado, embora tenha permitido o
destino que o professor continuasse vivo, custou-lhe um dos braços que, devido
aos ferimentos, careceu de ser amputado.
Augusto Ernesto Lages viveu no
povoado junto de sua esposa, dona Messias Garcia Lages, oriunda de distinta
família de Mococa, e das duas filhas, Thelezilla Garcia Lages (?-1968) e
Julieta Garcia Lages (?-1973), e atuara principalmente como professor da rede
de ensino municipal. Sabe-se que no início dos anos de 1910, assumiu uma
cadeira de ensino na cidade de Caldas, Minas Gerais, cidade onde sua filha,
Thelezilla, casou-se com o sr. Dalmo Ridolfi, em julho de 1916. Retorna para
Arceburgo em meados de 1920, onde faleceu no dia 20 de novembro de 1929,
sepultado nesta mesma cidade. Sua filha, Julieta, seguiu o ofício do pai, e
continuou a lecionar na cidade até meados da década de 1950, quando mudou-se
para a cidade de Caldas, após aposentar-se. As desavenças políticas em Mococa
fizeram, afinal, que Arceburgo recebesse um grande preceptor...
* Texto publicado no Jornal Cidade News, de Mococa-SP, em duas partes.
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