terça-feira, 10 de outubro de 2023

O INDIVÍDUO COMO TAL

 

Um breve diálogo com o sociólogo George Simmel (1858-1918)


Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

É assunto psicológico que “uma das grandes causas do desamparo interior” (BONAVENTURE, Léon. Prefácio. In: Individuação nos contos de fadas. São Paulo: Paulinas, 1984, p.08) dos indivíduos resultam da sua ignorância com relação a si próprio. Porém, os reflexos desta questão respingam na sociologia, uma vez que a sociedade nada mais é que o local da ação. As pessoas almejam, segundo Georg Simmel, preservar “a autonomia e a particularidade de sua existência” (SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: Sociologia – essencial. São Paulo: Penguin Classics Cia das Letras, 2013, p. 311); elas relutam ao nivelamento e a serem consumidos.

As relações individuais nas cidades pequenas são baseadas na afetividade, em uma constante e subjetiva solidariedade que, quando questionada, é objeto de reações do coletivo. Nas cidades maiores, baseadas na economia monetária, existe a chamada objetividade no tratamento: predomina a redução de valores qualitativos à valores quantitativos (ibid., p. 315). A cidade resume-se ao palco da situação. Para tentar livrar-se, os indivíduos tornam-se reservados e conferem-se o direito à desconfiança.

O que vemos é a “dificuldade de fazer valer a própria personalidade nas dimensões da vida na cidade grande” (ibid., p .325). Em meio à incapacidade de sobrepor-se à cultura objetiva, o indivíduo quer destacar-se, sendo “o único meio de salvar para si, mediante o desvio pela consciência dos outros, alguma autoestima e preencher o lugar na consciência” (ibid., p.326). Tal recurso é o meio empregado para ressaltar a autoestima. Tendo os indivíduos se emancipado mentalmente dos grilhões de uma vida baseada na servidão, e, ao recusarem-se a abrir mão de sua condição de individualidade, recém descoberta, tomam ciência que igualmente “querem se distinguir uns dos outros” (ibid., p.328).

O resultado, hoje, é o que vemos em Mococa, uma cidade às vias de se tornar “cidade grande”: indivíduos que colocam a consciência de si acima dos demais, cometendo, por exemplo, atos de imprudência no trânsito; provocando queimadas em zonas residenciais; promovendo a queima de artifícios pirotécnicos; etc. O argumento óbvio de apologia a tal ideia é o “eu posso”; os outros são ou empecilhos para a realização da vontade ou pessoas menores, cujos desejos são secundários em relação aos seus. Os desejos do ego devem sobrepor-se aos do coletivo, à lei. Contudo, no que tange aos atos que são social e legalmente proibidos, não adianta o mero querer: é como diz o grande Raul Seixas, na canção “Por quem os sinos dobram”: “[...] é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro. Evita o aperto de mão de um possível aliado. Convence as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo”.

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