Um breve diálogo com o sociólogo George Simmel (1858-1918)
Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
É assunto psicológico que “uma das grandes causas do
desamparo interior” (BONAVENTURE, Léon. Prefácio. In: Individuação nos contos
de fadas. São Paulo: Paulinas, 1984, p.08) dos indivíduos resultam da sua
ignorância com relação a si próprio. Porém, os reflexos desta questão respingam
na sociologia, uma vez que a sociedade nada mais é que o local da ação. As
pessoas almejam, segundo Georg Simmel, preservar “a autonomia e a particularidade
de sua existência” (SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In:
Sociologia – essencial. São Paulo: Penguin Classics Cia das Letras, 2013, p.
311); elas relutam ao nivelamento e a serem consumidos.
As relações individuais nas cidades pequenas são
baseadas na afetividade, em uma constante e subjetiva solidariedade que, quando
questionada, é objeto de reações do coletivo. Nas cidades maiores, baseadas na
economia monetária, existe a chamada objetividade no tratamento: predomina a redução
de valores qualitativos à valores quantitativos (ibid., p. 315). A cidade
resume-se ao palco da situação. Para tentar livrar-se, os indivíduos tornam-se
reservados e conferem-se o direito à desconfiança.
O que vemos é a “dificuldade de fazer valer a própria
personalidade nas dimensões da vida na cidade grande” (ibid., p .325). Em meio
à incapacidade de sobrepor-se à cultura objetiva, o indivíduo quer destacar-se,
sendo “o único meio de salvar para si, mediante o desvio pela consciência dos
outros, alguma autoestima e preencher o lugar na consciência” (ibid., p.326).
Tal recurso é o meio empregado para ressaltar a autoestima. Tendo os indivíduos
se emancipado mentalmente dos grilhões de uma vida baseada na servidão, e, ao
recusarem-se a abrir mão de sua condição de individualidade, recém descoberta,
tomam ciência que igualmente “querem se distinguir uns dos outros” (ibid.,
p.328).
O resultado, hoje, é o que vemos em Mococa, uma cidade
às vias de se tornar “cidade grande”: indivíduos que colocam a consciência de
si acima dos demais, cometendo, por exemplo, atos de imprudência no trânsito;
provocando queimadas em zonas residenciais; promovendo a queima de artifícios
pirotécnicos; etc. O argumento óbvio de apologia a tal ideia é o “eu posso”; os
outros são ou empecilhos para a realização da vontade ou pessoas menores, cujos
desejos são secundários em relação aos seus. Os desejos do ego devem
sobrepor-se aos do coletivo, à lei. Contudo, no que tange aos atos que são
social e legalmente proibidos, não adianta o mero querer: é como diz o grande
Raul Seixas, na canção “Por quem os sinos dobram”: “[...] é sempre mais fácil
achar que a culpa é do outro. Evita o aperto de mão de um possível aliado. Convence
as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo no fundo do peito que não era
nada daquilo”.
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