Da fazenda das Areias às doações dos alforriados
Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo
Instituto Bruno Giorgi
O povoamento de
localidades, via de regra, acontece próximo aos rios ou veios d’água, de modo
que exista abastecimento aos moradores. O sesmeiro José da Silva Santos, que
adquiriu uma sesmaria aquém do rio Pardo, em 1815, era servido pelo córrego do
Barreiro, posteriormente referido como córrego da Jacutinga e ribeirão da
Ressaca. A capela de São Sebastião surgiria, também, às margens de ribeirões:
quando da doação dos 16 alqueires de terras por dona Catharina Candida de Senna
e seu marido, Antonio José Gomes, as terras eram atravessadas pelo córrego do
Lino; com a permuta de terras e as sucessivas doações, que importaram em 33
alqueires, o ribeirão do Meio seria o curso de água que atravessava o
patrimônio de São Sebastião.
Para fins
didáticos, o povoamento de Mococa, além da região da capela, pode ser dividido
da seguinte forma: o núcleo da Água Limpa e da Lage, iniciado em meados de
1822, familiar, na porção leste e nordeste do Município; o núcleo da Alegria,
iniciado em 1820, mas intensificado a partir de 1833, também familiar, na
porção ocidental do Município; o núcleo da Ressaca, iniciado em 1815, com
pluralidade de povoadores, na porção sudeste e sul da povoação; o núcleo de
Canoas, norte, iniciado anteriormente à década de 1830, pluralidade de
moradores; e o núcleo das Areias, bem na porção noroeste, que será esmiuçado
adiante.
Os mais antigos
proprietários da fazenda das Areias foram Antonio de Castro Nunes e sua esposa,
Maria Zeferina da Cunha, que venderam parte de suas terras a Manoel Vieira d’Oliveira
em 1833. Os filhos de Antonio e Maria Zeferina, Francisco Gonçalves de Castro e
Luiza Zeferina d’Aguiar, quando do falecimento dos seus pais, receberam à título
de herança as terras da fazenda das Areias, avaliadas em mais de seis contos de
réis, e confrontava com José Borges e outros, pelo Nascente; João Cardozo e
outros, pelo Sul; João Gonçalves (ou João Gonçalo) e outros, pelo Poente e capitão
Francisco de Moraes Preto e outros, pelo Norte.
A porção de terras
que coube ao Manoel Vieira d’Oliveira fazia as seguintes confrontações: pelo Nascente,
com Vicente d’Almeida e seus sócios; pelo Poente, com o vendedor; e pelo Norte
e pelo Sul, com Gabriel Garcia de Figueiredo. Também foram proprietários da
fazenda das Areias, Joaquim José Rosa, que a adquiriu de Joaquim Sigara; e Manoel
Pereira Duarte, que comprou-a de Vicente Ferreira de Paula. A fazenda das Areias,
assim como outras tantas propriedades rurais daquele tempo, eram grandes condomínios,
pro-indiviso.
Em 1860, o
capitão Francisco de Moraes Preto e sua esposa, dona Luiza Ferreira da Paixão,
moradores da freguesia de São Francisco das Chagas do Monte Santo, peticionaram
ao Juízo Municipal de Casa Branca, de modo a pleitear a divisão da fazenda das
Areias. É no auto de divisão que confirma-se que a fazenda situava-se tanto em
São Paulo, quanto em Minas Gerais, dos dois lados do ribeirão das Areias. Tanto
é verdade que, em 30 de novembro de 1860, o juiz municipal de Casa Branca, José
Alves dos Santos Junior, remeteu carta precatória ao juiz municipal da Vila de
São Carlos do Jacuhy, requerendo “permissão para proceder a divisão na parte
em que as terras são do município de Jacuhy”, o que foi concedido, por
despacho de 5 de fevereiro de 1861, assinado apenas por “Silva”, juiz de Jacuhy.
Outros foram os
interessados, podendo mencionar Antonio Joaquim Teixeira, Francisco Gonçalves
de Castro, Maria Flausina do Carmo, Francisco Marçal da Cruz e sua esposa,
Delmira Maria de Almeida, e outros tantos signatários e confrontantes. Foram nomeados
louvados o major Gabriel Garcia de Figueiredo, Ildefonso Garcia Leal e
Florentino Ferreira da Cunha, conforme termo acossado nos autos, datado de 28
de maio de 1862. Os louvados, em termo
de 3 de junho de 1862, descreveram os limites da fazenda, da seguinte forma, às fls. 27 e verso:
“[...]
Principiando no espigão do bacamarte aonde feixa no córrego das pedras,
seguindo pelo espigão acima devidindo com João Cardozo de Toledo e seos sócios,
e ‘ahy devedindo sempre pelo espigão que contraverte para Macahúbas, devisando
com Vicente de Almeida e seos sócios, pelo mesmo espigão adiante devisando com
terras de José Borges e seos sócios, e pelo mesmo espigão adiante até sahir na
estrada que vem de Campinas e por ella adiante devidindo com herdeiros do finado Comendador Coelho até a divisa da
fazenda do socio Preto pelo espigão tudo quanto verte as Arêas pelo espigão até
o cume da segunda serra e correndo sempre por este segundo cume, caminhando para
o poente à rumo direito até um sapecado ou Lage de pedra, desta procurando o mesmo rumo
até onde estão dous páos de Jequitibá, e destes até a Serra do Taquary
devisando com Mauricio José de Souza, José Antonio Borges e seos sócios e João
nantes até encontrar com o rumo da fazenda de João Cardozo de Toledo e seos sócios
no descalcvado da serra deste á rumo na caxoeira das pedrass redondas, desta a
rumo onde feixa estas divisas [...]”
A fazenda das
Areias possuía 1.647 alqueires de terras, sendo 1.300 alqueires de plantas de
milho e terras de cultura de primeira sorte, e 347 alqueires de serrados e
capins, avaliada em 44:205$000 (quarenta e quatro contos e duzentos e cinco mil
réis).
Segundo narra
Sander Rogerio Ribeiro Pereira, nas imediações, existiu a fazenda do Barro
Preto, de propriedade de João Campanha dos Santos. A sua filha, Laura Maria dos
Santos, casada com Antonio Ignacio Lopes, herdeira da fazenda, teria vendido ao
Barão de Monte Santo, tenente-coronel Gabriel Garcia de Figueredo, anexadas à
vasta fazenda da Borda da Mata, antigo núcleo da Alegria. Presumimos, portanto,
que a fazenda do Barro Preto poderia ser parte da fazenda das Areias ou alguma porção
de terras que não foi contemplada nos registros paroquiais de terras. O Barão
de Monte Santo, quando do 13 de maio de 1888, teria doado aos seus
ex-escravizados, Madalena Figueredo, Maria Joana, Esmeralda, Vitória Figueredo,
Eufrasia e Daniel, cerca de cinquenta alqueires de terras, dos quais nove
alqueires foram doados pelos novos proprietários para constituir um patrimônio à
capela de São Benedito, o que sucedeu à povoação e ao surgimento do que, nos
dias atuais, nos referimos como o distrito de São Benedito das Areias.
FONTES:
Documentais:
Autos de divisão
da fazenda das Arêas, acervo do Fundo do Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo, no Arquivo Histórico-Documental de Casa Branca, 1860;
Livro de
registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, 1856.
Livros e
revistas:
PEREIRA, Sander
Rogerio Ribeiro. Fragmentos para a história do distrito de São Benedito das
Areias. In: Mococa, 170 anos da Freguesia de São Sebastião da Boa Vista.
Mococa: edição dos autores, 2026;

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