sábado, 23 de maio de 2026

A CAPELA DE SÃO BENEDITO

 

Da fazenda das Areias às doações dos alforriados


Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi



O povoamento de localidades, via de regra, acontece próximo aos rios ou veios d’água, de modo que exista abastecimento aos moradores. O sesmeiro José da Silva Santos, que adquiriu uma sesmaria aquém do rio Pardo, em 1815, era servido pelo córrego do Barreiro, posteriormente referido como córrego da Jacutinga e ribeirão da Ressaca. A capela de São Sebastião surgiria, também, às margens de ribeirões: quando da doação dos 16 alqueires de terras por dona Catharina Candida de Senna e seu marido, Antonio José Gomes, as terras eram atravessadas pelo córrego do Lino; com a permuta de terras e as sucessivas doações, que importaram em 33 alqueires, o ribeirão do Meio seria o curso de água que atravessava o patrimônio de São Sebastião.

Para fins didáticos, o povoamento de Mococa, além da região da capela, pode ser dividido da seguinte forma: o núcleo da Água Limpa e da Lage, iniciado em meados de 1822, familiar, na porção leste e nordeste do Município; o núcleo da Alegria, iniciado em 1820, mas intensificado a partir de 1833, também familiar, na porção ocidental do Município; o núcleo da Ressaca, iniciado em 1815, com pluralidade de povoadores, na porção sudeste e sul da povoação; o núcleo de Canoas, norte, iniciado anteriormente à década de 1830, pluralidade de moradores; e o núcleo das Areias, bem na porção noroeste, que será esmiuçado adiante.

Os mais antigos proprietários da fazenda das Areias foram Antonio de Castro Nunes e sua esposa, Maria Zeferina da Cunha, que venderam parte de suas terras a Manoel Vieira d’Oliveira em 1833. Os filhos de Antonio e Maria Zeferina, Francisco Gonçalves de Castro e Luiza Zeferina d’Aguiar, quando do falecimento dos seus pais, receberam à título de herança as terras da fazenda das Areias, avaliadas em mais de seis contos de réis, e confrontava com José Borges e outros, pelo Nascente; João Cardozo e outros, pelo Sul; João Gonçalves (ou João Gonçalo) e outros, pelo Poente e capitão Francisco de Moraes Preto e outros, pelo Norte.

A porção de terras que coube ao Manoel Vieira d’Oliveira fazia as seguintes confrontações: pelo Nascente, com Vicente d’Almeida e seus sócios; pelo Poente, com o vendedor; e pelo Norte e pelo Sul, com Gabriel Garcia de Figueiredo. Também foram proprietários da fazenda das Areias, Joaquim José Rosa, que a adquiriu de Joaquim Sigara; e Manoel Pereira Duarte, que comprou-a de Vicente Ferreira de Paula. A fazenda das Areias, assim como outras tantas propriedades rurais daquele tempo, eram grandes condomínios, pro-indiviso.

Em 1860, o capitão Francisco de Moraes Preto e sua esposa, dona Luiza Ferreira da Paixão, moradores da freguesia de São Francisco das Chagas do Monte Santo, peticionaram ao Juízo Municipal de Casa Branca, de modo a pleitear a divisão da fazenda das Areias. É no auto de divisão que confirma-se que a fazenda situava-se tanto em São Paulo, quanto em Minas Gerais, dos dois lados do ribeirão das Areias. Tanto é verdade que, em 30 de novembro de 1860, o juiz municipal de Casa Branca, José Alves dos Santos Junior, remeteu carta precatória ao juiz municipal da Vila de São Carlos do Jacuhy, requerendo “permissão para proceder a divisão na parte em que as terras são do município de Jacuhy”, o que foi concedido, por despacho de 5 de fevereiro de 1861, assinado apenas por “Silva”, juiz de Jacuhy.

Outros foram os interessados, podendo mencionar Antonio Joaquim Teixeira, Francisco Gonçalves de Castro, Maria Flausina do Carmo, Francisco Marçal da Cruz e sua esposa, Delmira Maria de Almeida, e outros tantos signatários e confrontantes. Foram nomeados louvados o major Gabriel Garcia de Figueiredo, Ildefonso Garcia Leal e Florentino Ferreira da Cunha, conforme termo acossado nos autos, datado de 28 de maio de 1862.  Os louvados, em termo de 3 de junho de 1862, descreveram os limites da fazenda, da seguinte forma, às fls. 27 e verso:

“[...] Principiando no espigão do bacamarte aonde feixa no córrego das pedras, seguindo pelo espigão acima devidindo com João Cardozo de Toledo e seos sócios, e ‘ahy devedindo sempre pelo espigão que contraverte para Macahúbas, devisando com Vicente de Almeida e seos sócios, pelo mesmo espigão adiante devisando com terras de José Borges e seos sócios, e pelo mesmo espigão adiante até sahir na estrada que vem de Campinas e por ella adiante devidindo com herdeiros do  finado Comendador Coelho até a divisa da fazenda do socio Preto pelo espigão tudo quanto verte as Arêas pelo espigão até o cume da segunda serra e correndo sempre por este segundo cume, caminhando para o poente à rumo direito até um sapecado ou Lage de pedra, desta procurando o mesmo rumo até onde estão dous páos de Jequitibá, e destes até a Serra do Taquary devisando com Mauricio José de Souza, José Antonio Borges e seos sócios e João nantes até encontrar com o rumo da fazenda de João Cardozo de Toledo e seos sócios no descalcvado da serra deste á rumo na caxoeira das pedrass redondas, desta a rumo onde feixa estas divisas [...]”

A fazenda das Areias possuía 1.647 alqueires de terras, sendo 1.300 alqueires de plantas de milho e terras de cultura de primeira sorte, e 347 alqueires de serrados e capins, avaliada em 44:205$000 (quarenta e quatro contos e duzentos e cinco mil réis).

Segundo narra Sander Rogerio Ribeiro Pereira, nas imediações, existiu a fazenda do Barro Preto, de propriedade de João Campanha dos Santos. A sua filha, Laura Maria dos Santos, casada com Antonio Ignacio Lopes, herdeira da fazenda, teria vendido ao Barão de Monte Santo, tenente-coronel Gabriel Garcia de Figueredo, anexadas à vasta fazenda da Borda da Mata, antigo núcleo da Alegria. Presumimos, portanto, que a fazenda do Barro Preto poderia ser parte da fazenda das Areias ou alguma porção de terras que não foi contemplada nos registros paroquiais de terras. O Barão de Monte Santo, quando do 13 de maio de 1888, teria doado aos seus ex-escravizados, Madalena Figueredo, Maria Joana, Esmeralda, Vitória Figueredo, Eufrasia e Daniel, cerca de cinquenta alqueires de terras, dos quais nove alqueires foram doados pelos novos proprietários para constituir um patrimônio à capela de São Benedito, o que sucedeu à povoação e ao surgimento do que, nos dias atuais, nos referimos como o distrito de São Benedito das Areias.

 

FONTES:

Documentais:

Autos de divisão da fazenda das Arêas, acervo do Fundo do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no Arquivo Histórico-Documental de Casa Branca, 1860;

Livro de registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, 1856.

Livros e revistas:

PEREIRA, Sander Rogerio Ribeiro. Fragmentos para a história do distrito de São Benedito das Areias. In: Mococa, 170 anos da Freguesia de São Sebastião da Boa Vista. Mococa: edição dos autores, 2026;

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CAPITÃO BENJAMIN DINAMARCO

  UM NOME ESQUECIDO DA POLÍTICA MOCOQUENSE Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Inst...