Creio que a melhor definição que já ouvi sobre a natureza da esquerda e da direita foi proferida em um discurso, no bicentenário da Independência, pela oradora, professora Rosa Maria Magalhães Bassani de Moraes. Disse, com razão, que não foram mais do que “acidentes de localização” nos tempos da Revolução Francesa. De fato, na Assembleia Nacional Francesa, os partidários da monarquia sentavam-se à direita; os adeptos da Revolução, à esquerda – e assim surgiu a dicotomia. Podemos entender os dois termos como dois grandes grupos que abarcam ideias similares entre si, porém, antagônicas com o outro grupo.
No livro Esquerda e Direita, Norberto Bobbio, o
célebre cientista político italiano, diz que esquerda e direita “são termos antitéticos que há mais de dois
séculos têm sido habitualmente empregados para designar o contraste entre as
ideologias e entre os movimentos em que se divide o universo, eminentemente
conflitual, do pensamento e das ações políticas”. Bobbio diz que são
excludentes e exaustivos, vez que nenhuma doutrina ou movimento pode ser
simultaneamente os dois e somente podem ser ou de esquerda ou de direita.
Bobbio ainda
diz que a distinção entre os dois termos “não
tem mais nenhuma razão para ser utilizada”, vez que, conforme Sartre, são
duas caixas vazias. Tal esgotamento terminológico não faria mais sentido,
portanto. Talvez, a culminância dos dois conceitos tenha ocorrido no período da
Guerra Fria, quando todo o mundo foi polarizado pela luta sem armas entre
Estados Unidos e União Soviética.
Bobbio deixa
claro que os dois termos, embora excludentes, quando tratados com extremismo, se
tocam, o que pode sugerir que o espectro político não é plano, e sim esférico,
permitindo que o lado extremo de qualquer ideologia possua traços
antidemocráticos. Logo, os extremistas, sejam eles de esquerda ou de direita,
são contrários ao que se entende por democracia. Os maiores exemplos de
governos ideologicamente alinhados à direita extremista são a Itália Fascista e
a Alemanha Nazista; da esquerda extremista, a União Soviética. Um extremista,
seja de que lado for, é inimigo da razão.
Escolher um
lado é necessariamente excluir o oposto e, na vida cotidiana, atentamos apenas
para nossas próprias convicções e necessidades em detrimento dos demais, do
coletivo. Já tratamos em outro artigo neste conceituado veículo de imprensa que
a individualização está se extremando cada dia mais. Olha-se mais para a
própria casa do que para a rua. O resultado é uma população objetivamente
vinculada, reservada ao “direito à desconfiança”, que G. Simmel explicou com
primor.
Reside na linha
dos paradoxos, pois a mente humana não é integralmente livre, como pensamos,
pois nossas convicções são formadas por um processo histórico. Em suma, somos
frutos do nosso próprio tempo, e é a sociedade quem condiciona nosso ser. Com
base em nosso arcabouço familiar, especialmente constituído pela classe social
a qual pertencemos – ou a que acreditamos pertencer, sem de fato constituir
parte nela –, percebemos o mundo e exigimos a atuação do Poder Público. Quem
realmente busca entender as necessidades dos outros, na tomada das decisões,
tentando conciliar uma tese e uma antítese, de modo a criar uma síntese?
Olhamos com veemência o que queremos e, com um trator, atropelamos o próximo.
Na verdade,
esquerda e direita são termos que abarcam pessoas para um projeto de poder, de
modo a colocar uma tarja de “inimigos” naqueles que não seguem tal projeto e,
em nosso radicalismo para preservar as nossas próprias ideias, não observamos
que o diálogo racional é a saída para todo e qualquer problema. Esquecemos dos
princípios básicos da democracia, e ela não abarca qualquer ato de extremismo.
O poder não corrompe aquele que já não era corrompido – apenas é um mecanismo
para externar uma condição previamente existente. Não se trata, portanto, de
brigas ideológicas que irão mudar o curso da História; a grande briga global é
entre a necessidade de muitos contra a ambição de poucos poderosos. Auri sacra fames!
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