Em 2017, data de minha primeira participação como membro da
Comissão Organizadora do Salão de Artes Plástica de Arceburgo, pude aprender
muito sobre artes com o julgamento das obras pelo júri, todos membros de grande
conceito junto às artes plásticas, nacional e internacionalmente. Na ocasião,
após a avaliação e premiação, tivemos uma pequena confraternização com os
jurados e, em meio a uma conversa agradável, um deles, arquiteto e artista,
Fabio Eluf, ao descobrir que eu era um incipiente artista plástico,
questionou-me se os dons artísticos são inatos ao indivíduo ou se são
adquiridos com o tempo e a prática.
Não pensei muito e respondi que ambas as situações estavam
corretas, pois existe algo dentro de cada pessoa que o impulsiona para
determinada área, parecendo até mesmo uma facilidade, mas também não é
impeditivo que alguém adquira e aprenda a técnica com muito estudo, prática e
determinação – uma tríade necessária. Pareceu-me satisfeito com a resposta e os
outros membros, Magno Ribeiro e Linaldo Cardoso, também grandes nomes das
artes, assentiram com a colocação.
Ultimamente, peguei-me divagando sobre tal assunto, porém,
com um pouco mais de maturidade do que na época, afinal, passaram-se sete anos
e muita coisa mudou. Sócrates e Platão eram defensores do inatismo, um conceito
da filosofia que defende a origem dos dons e predisposições dos indivíduos como
sendo algo que nasce consigo. O conhecimento seria despertar aquilo que já está
dentro de nós mesmos. Descartes também era um defensor de tal pensamento,
concluindo em sua obra que as ideias inatas são a assinatura do Criador,
segundo a filósofa Marilena Chauí. Se deixarmos brevemente a filosofia pela
biologia, tais predisposições podem estar inscritas até mesmo no DNA de cada
um, justificando, no desenvolvimento, certas inclinações. Não trata-se de
determinismos, deixo bem claro.
Em contrapartida, diversos pensadores não convenceram-se
pelo surgimento inato das ideias e conceberam o empirismo, tendo como principais
defensores Bacon, Hume e tantos outros. Para os empiristas, o conhecimento é
adquirido por meio das experiências que, ao atingirem os nossos sentidos, nos
fazem aprender. O ser humano possui, via de regra, cinco sentidos que o ajudam
a reconhecer a realidade, fazendo com que as coisas apareçam para si e seu
aparelho cognitivo interprete-as. Tomás de Aquino e Hannah Arendt defendem que
existe o sexto sentido, que une os outros cinco, representado pelo que
entendemos por “senso comum”, sendo aquilo que faz com que os objetos apareçam
iguais para todos. É o atributo que faz os seres humanos se sentirem membros da
mesma espécie. Assim, as experiências despertam o conhecimento.
Tais ideias, o inatismo e o empirismo, apresentaram-se
naquela pergunta acima, que deu origem ao pequeno artigo aqui desenvolvido. Kant
foi mais longe e criticou ambas, pois considerava que ambos os tipos de
filósofos buscavam o conhecimento a partir da realidade, interna e externa,
enquanto deveriam compreender a verdadeira raiz, que é a própria faculdade de
conhecer. É a origem do pensamento, das artes, das leis, de tudo o que hoje
existe no mundo. Sim, conhecimento é poder, basta saber aonde e como
procurá-lo.
Concluo posicionando ainda o que defendi há sete anos:
existe conhecimento que é natural ao indivíduo, mas também o conhecimento que é
absorvido pelas experiências vividas. Mas sem a cognição, sem a faculdade de
pensar e interpretar o que pensamos e absorvemos, de nada adiantará ter o
conhecimento em si ou absorvê-lo pelos sentidos. Será informação subsumida ao
inconsciente, que em nada agregará, pois não houve um real aprendizado. Tudo
passa pela mente e, nas palavras do dr. José Geraldo, da UnB, “a gente só vê o
que tem cognição para ver”, e a realidade é o recorte que fazemos com base no
que temos inscrito em nossa própria cognição, que, muitas vezes, é incorporada
sob a visão do outro, os falsos ídolos tão bem descritos por Bacon.
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