segunda-feira, 2 de setembro de 2024

OS DONS NASCEM CONOSCO OU SÃO DESENVOLVIDOS?

 

 

Em 2017, data de minha primeira participação como membro da Comissão Organizadora do Salão de Artes Plástica de Arceburgo, pude aprender muito sobre artes com o julgamento das obras pelo júri, todos membros de grande conceito junto às artes plásticas, nacional e internacionalmente. Na ocasião, após a avaliação e premiação, tivemos uma pequena confraternização com os jurados e, em meio a uma conversa agradável, um deles, arquiteto e artista, Fabio Eluf, ao descobrir que eu era um incipiente artista plástico, questionou-me se os dons artísticos são inatos ao indivíduo ou se são adquiridos com o tempo e a prática.

Não pensei muito e respondi que ambas as situações estavam corretas, pois existe algo dentro de cada pessoa que o impulsiona para determinada área, parecendo até mesmo uma facilidade, mas também não é impeditivo que alguém adquira e aprenda a técnica com muito estudo, prática e determinação – uma tríade necessária. Pareceu-me satisfeito com a resposta e os outros membros, Magno Ribeiro e Linaldo Cardoso, também grandes nomes das artes, assentiram com a colocação.

Ultimamente, peguei-me divagando sobre tal assunto, porém, com um pouco mais de maturidade do que na época, afinal, passaram-se sete anos e muita coisa mudou. Sócrates e Platão eram defensores do inatismo, um conceito da filosofia que defende a origem dos dons e predisposições dos indivíduos como sendo algo que nasce consigo. O conhecimento seria despertar aquilo que já está dentro de nós mesmos. Descartes também era um defensor de tal pensamento, concluindo em sua obra que as ideias inatas são a assinatura do Criador, segundo a filósofa Marilena Chauí. Se deixarmos brevemente a filosofia pela biologia, tais predisposições podem estar inscritas até mesmo no DNA de cada um, justificando, no desenvolvimento, certas inclinações. Não trata-se de determinismos, deixo bem claro.

Em contrapartida, diversos pensadores não convenceram-se pelo surgimento inato das ideias e conceberam o empirismo, tendo como principais defensores Bacon, Hume e tantos outros. Para os empiristas, o conhecimento é adquirido por meio das experiências que, ao atingirem os nossos sentidos, nos fazem aprender. O ser humano possui, via de regra, cinco sentidos que o ajudam a reconhecer a realidade, fazendo com que as coisas apareçam para si e seu aparelho cognitivo interprete-as. Tomás de Aquino e Hannah Arendt defendem que existe o sexto sentido, que une os outros cinco, representado pelo que entendemos por “senso comum”, sendo aquilo que faz com que os objetos apareçam iguais para todos. É o atributo que faz os seres humanos se sentirem membros da mesma espécie. Assim, as experiências despertam o conhecimento.

Tais ideias, o inatismo e o empirismo, apresentaram-se naquela pergunta acima, que deu origem ao pequeno artigo aqui desenvolvido. Kant foi mais longe e criticou ambas, pois considerava que ambos os tipos de filósofos buscavam o conhecimento a partir da realidade, interna e externa, enquanto deveriam compreender a verdadeira raiz, que é a própria faculdade de conhecer. É a origem do pensamento, das artes, das leis, de tudo o que hoje existe no mundo. Sim, conhecimento é poder, basta saber aonde e como procurá-lo.

Concluo posicionando ainda o que defendi há sete anos: existe conhecimento que é natural ao indivíduo, mas também o conhecimento que é absorvido pelas experiências vividas. Mas sem a cognição, sem a faculdade de pensar e interpretar o que pensamos e absorvemos, de nada adiantará ter o conhecimento em si ou absorvê-lo pelos sentidos. Será informação subsumida ao inconsciente, que em nada agregará, pois não houve um real aprendizado. Tudo passa pela mente e, nas palavras do dr. José Geraldo, da UnB, “a gente só vê o que tem cognição para ver”, e a realidade é o recorte que fazemos com base no que temos inscrito em nossa própria cognição, que, muitas vezes, é incorporada sob a visão do outro, os falsos ídolos tão bem descritos por Bacon.

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