segunda-feira, 2 de setembro de 2024

ONDE RESIDE O PODER?

 


Há um diálogo bem interessante na saga As Cônicas de Gelo e Fogo, livro A Fúria dos Reis.  Duas personagens dialogam e lorde Varys desfere o seguinte enigma ao lorde Tyrion: “Numa sala estão sentados três grandes homens: um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele que mate os outros dois. ‘Faça isso’, diz o rei, ‘pois eu sou seu governante por direito’. ‘Faça isso’, diz o sacerdote, ‘pois estou ordenando em nome dos deuses’. ‘Faça isso’, diz o rico, ‘e todo este ouro será seu’. Agora, diga-me: Quem sobrevive e quem morre?” (Ed. Suma, p.48).

Paralela a tal indagação, surge outra, tão intrigante quanto: onde reside o poder? No presente enigma, o poder parece representar-se em três formas: pela governança, pela divindade ou pela riqueza, e os três grandes homens usam de tais objetos para sujeitar o mercenário à sua vontade. Se interpretarmos pelo “argumento da autoridade”, recairemos em uma falácia tremenda, pois os três homens, em teoria, representam figuras de autoridade: o rei é a figura mais alta em um reino, e é esperado que goze da vassalagem de seus súditos; o sacerdote é o intérprete da vontade dos deuses, mas seu nicho limita-se aos seus fiéis; e o homem rico, representando o poder econômico, possui conceito ante a sociedade. O poder pode residir simultaneamente em todos eles, em formas diferentes.

Embora seja um enigma em um livro de fantasia, parece-nos muito pertinente para o presente momento, pois vivemos uma época voltada de forma frenética à disputa pelo poder político: período de eleições municipais. No que tange a vida como um todo, escolhas devem ser feitas e escolher um lado necessariamente implica em excluir todos aqueles que não comungam das ideias comuns do grupo. É como diz Norberto Bobbio, no livro Direita e Esquerda: direita e esquerda são termos excludentes, pois não pode um movimento ser simultaneamente os dois. Escolha e arque com seus resultados.

Na escolha, que cabe ao povo, carece usar o convencimento de que o candidato fará o melhor pela comunidade. Em termos práticos, as promessas somente serão comprovadas se o candidato for eleito, pois em tempos de campanha não há efetivamente qualquer prática, apenas gera-se a expectativa de que faça algo se eleito. Na verdade, quem escolhe não possui qualquer atributo que lhe compete o poder de eleger alguém, pois o voto possui o mesmo valor para cada eleitor, da mesma forma que o mercenário do enigma acima não possui qualquer aptidão especial.

Portanto, resta procurar a resposta certa. O poder reside onde acreditamos que ele reside, é uma sombra na parede que pode matar: esta é a resposta de lorde Varys. O mercenário acolheria o pedido de quem ele acreditasse que possui efetivamente poder. O governo, os deuses ou o ouro. Mas é sua espada que possui o condão, da mesma forma que o voto do povo possui o peso de escolher um dirigente, como o polegar dos césares romanos decidia pela vida e pela morte. É um “click” e está feito!

O povo acredita que o poder e a autoridade estão nos que ocupam momentaneamente os cargos do Poder Executivo, encerrados em seus gabinetes; ou naqueles que possuem poder econômico e que retribuirá a “gentileza” da contratação; ou em quem propaga a palavra de Deus, que aconselha e guia em nome Dele.

A autoridade, onde existe qualquer subterfúgio, deixa de existir. Não é a argumentação, as poses, a força, a coerção, o cargo, a promessa ou o suborno que irão conferir a autoridade a alguém. Ela é maior que um conselho e menor que uma ordem, diz Hannah Arendt. Embora andem juntos no caminhar da sociedade, autoridade e poder não carecem de qualquer atributo. Porém, o povo acredita que estão nas figuras eletivas; acredita tanto que esquece quem efetivamente possui o poder: o próprio povo!

 

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