Há um diálogo
bem interessante na saga As Cônicas de
Gelo e Fogo, livro A Fúria dos Reis. Duas personagens dialogam e lorde Varys
desfere o seguinte enigma ao lorde Tyrion: “Numa
sala estão sentados três grandes homens: um rei, um sacerdote e um homem rico
com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento
comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele que mate os
outros dois. ‘Faça isso’, diz o rei, ‘pois eu sou seu governante por direito’.
‘Faça isso’, diz o sacerdote, ‘pois estou ordenando em nome dos deuses’. ‘Faça
isso’, diz o rico, ‘e todo este ouro será seu’. Agora, diga-me: Quem sobrevive
e quem morre?” (Ed. Suma, p.48).
Paralela a tal
indagação, surge outra, tão intrigante quanto: onde reside o poder? No presente
enigma, o poder parece representar-se em três formas: pela governança, pela
divindade ou pela riqueza, e os três grandes homens usam de tais objetos para
sujeitar o mercenário à sua vontade. Se interpretarmos pelo “argumento da
autoridade”, recairemos em uma falácia tremenda, pois os três homens, em
teoria, representam figuras de autoridade: o rei é a figura mais alta em um
reino, e é esperado que goze da vassalagem de seus súditos; o sacerdote é o
intérprete da vontade dos deuses, mas seu nicho limita-se aos seus fiéis; e o
homem rico, representando o poder econômico, possui conceito ante a sociedade.
O poder pode residir simultaneamente em todos eles, em formas diferentes.
Embora seja um
enigma em um livro de fantasia, parece-nos muito pertinente para o presente
momento, pois vivemos uma época voltada de forma frenética à disputa pelo poder
político: período de eleições municipais. No que tange a vida como um todo, escolhas
devem ser feitas e escolher um lado necessariamente implica em excluir todos
aqueles que não comungam das ideias comuns do grupo. É como diz Norberto
Bobbio, no livro Direita e Esquerda:
direita e esquerda são termos excludentes, pois não pode um movimento ser
simultaneamente os dois. Escolha e arque com seus resultados.
Na escolha, que
cabe ao povo, carece usar o convencimento de que o candidato fará o melhor pela
comunidade. Em termos práticos, as promessas somente serão comprovadas se o
candidato for eleito, pois em tempos de campanha não há efetivamente qualquer
prática, apenas gera-se a expectativa de que faça algo se eleito. Na verdade,
quem escolhe não possui qualquer atributo que lhe compete o poder de eleger
alguém, pois o voto possui o mesmo valor para cada eleitor, da mesma forma que
o mercenário do enigma acima não possui qualquer aptidão especial.
Portanto, resta
procurar a resposta certa. O poder reside
onde acreditamos que ele reside, é uma sombra na parede que pode matar:
esta é a resposta de lorde Varys. O mercenário acolheria o pedido de quem ele
acreditasse que possui efetivamente poder. O governo, os deuses ou o ouro. Mas
é sua espada que possui o condão, da mesma forma que o voto do povo possui o
peso de escolher um dirigente, como o polegar dos césares romanos decidia pela
vida e pela morte. É um “click” e
está feito!
O povo acredita
que o poder e a autoridade estão nos que ocupam momentaneamente os cargos do
Poder Executivo, encerrados em seus gabinetes; ou naqueles que possuem poder
econômico e que retribuirá a “gentileza” da contratação; ou em quem propaga a
palavra de Deus, que aconselha e guia em nome Dele.
A autoridade,
onde existe qualquer subterfúgio, deixa de existir. Não é a argumentação, as
poses, a força, a coerção, o cargo, a promessa ou o suborno que irão conferir a
autoridade a alguém. Ela é maior que um conselho e menor que uma ordem, diz
Hannah Arendt. Embora andem juntos no caminhar da sociedade, autoridade e poder
não carecem de qualquer atributo. Porém, o povo acredita que estão nas figuras
eletivas; acredita tanto que esquece quem efetivamente possui o poder: o
próprio povo!
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