quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

EXISTE UM SÓ CATOLICISMO?

 

Comentários ao livro “Os Catolicismos Brasileiros”, de Arnaldo Lemos Filho

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Foi Gramsci quem proferiu a seguinte afirmação: “Cada religião [...] é na realidade uma multiplicidade de religiões distintas e muitas vezes contraditórias [...]”. Tal afirmação é devidamente explicada no livro do professor Arnaldo Lemos Filho. Os Catolicismos Brasileiros foi a sua dissertação de mestrado, apresentado para o programa de pós-graduação da PUC-SP, e convertido em livro para o deleite dos estudiosos, já na terceira edição, lançado pela Editora Alínea, Campinas

O livro, no seu início, procura mostrar as respostas dadas á seguinte pergunta: por que o Catolicismo não se fragmentou como o Protestantismo?  Se a Igreja Católica mantem sua unidade do ponto de vista da fé, o mesmo não acontece do ponto vista sociológico. Há vários catolicismos. No final, ele mostra a que esta unidade é aparente.  De um lado, o predomínio da tradição, nas suas duas vertentes, a legitimação da ordem social e o espiritualismo, de outro lado, a renovação com as vertentes da modernização e da contestação.

Se fizermos um apanhado geral sobre a história do país, iremos ver que o poder religioso era exclusivamente conferido ao papa, que concedia ao Rei de Portugal atribuições da casa do espírito, acumulando em conjunto com o poder secular. Quando do descobrimento das minas, por exemplo, El Rei era Grão-mestre da Ordem de Cristo, e possuía o condão da nomeação dos párocos, de receber dízimos etc., conforme nos conta a historiadora Claudia Damasceno Fonseca, no livro Arraiais e vilas D’El Rei. Contudo, desde o início do século XVIII, a Coroa não permitiu a instalação de ordens religiosas na região das minas – uma medida de controle total da localidade.

A religião, portanto, passaria a ser exercida inicialmente pela população leiga, que representava os conceitos religiosos da melhor forma que dispunham. O professor Arnaldo é assertivo ao relatar que, nos incipientes povoados, a atividade religiosa começou com o povo. É interessante, no estudo da história das cidades, o fato de que não imaginamos o poder religioso exercido antes de sua institucionalização: o vemos já comandado por um pároco e o que acontecia antes é suprimido do imaginário. O povo professava a sua fé à sua maneira. De fato, poucos eram os que tinham condição de ir até um centro urbano maior, assistir uma missa ministrada por um pároco, ainda mais se levarmos em conta a distância e a dificuldade de locomoção. Nesta situação, o povo passou a exercer a religiosidade, que lhes era necessária, da forma que dispunham, extraoficialmente.

A religião do povo sempre foi vista como superstição, conforme o professor Arnaldo nos relata. Era tida como banalidade, uma forma rudimentar e pouco – ou nada – séria. Tal distanciamento – entre o povo e a igreja institucionalizada – teve diversas formas de resultados. No livro, professor Arnaldo nos conta a história da Igreja da “Mãozinha”, originada na cidade de Itapira-SP. O povo passou a cultuar um cogumelo no formato de mão, repleto de misticismo. A reação da Igreja foi, obviamente, contrária à ideia de manter tal culto. Com o passar dos anos, houve um cisma religioso dos adeptos da “Mãozinha”, que resultou na Igreja Católica Brasileira, fundada no Rio de Janeiro em 1945, pelo bispo excomungado, dom Carlos Duarte Costa, mas com raízes bem solidificadas nos eventos que aconteceram em Itapira, fomentados pelo padre Manoel Carlos de Amorim Correia, em 1912. 

O que são as simpatias e outras crendices senão a forma de externar a religião do povo? O distanciamento da religião institucionalizada, somado à vontade do povo em ter a acesso à religião resultam, por exemplo, nas personalidades messiânicas, cujo papel divino recebe do “grupo de crentes que lho atribui”, conforme nos conta a socióloga, Maria Isaura Pereira de Queiroz, no livro O messianismo no Brasil e no mundo, obra vencedora do prêmio Jabuti de 1967.

A religião assume diversas formas, de fato. Cada grupo social passa a interpretar os textos sagrados conforme a sua necessidade e condições de vivência. Outrora, o aparelho de coerção e de distanciamento social era corroborado pela Igreja predominante, um sustentáculo da ideologia de seu tempo. “A Igreja Católica, como instituição, reflete em seu interior as contradições das classes existentes na sociedade. A religião varia, pois, conforme a representação que cada classe faz de sua posição dentro da estrutura social [...]” ().

Dentro de todas as relações sociais, talvez seja atributo inerente de sua origem a presença do poder, como forma de amálgama – mesmo de forma velada, sutil. A dominância faz parte da estrutura idiossincrática do brasileiro, resultado das antigas hierarquias, relações de mando e o vislumbre do próximo como algo útil a ser meramente utilizado até que não lhe seja mais interessante. O poder é a fonte de água da qual todos querem beber, mas cujo acesso é cerceado por várias cercas: véus ideológicos, econômicos, sociais, religiosos,...

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