sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

A LOUCURA PARTIDÁRIA

Partidos políticos não possuem ideologia no interior


“Como aderir a afirmações que desconhecemos?”, questiona a filósofa Simone Weil, respondendo-se em ato contínuo: “Basta submeter-se incondicionalmente à autoridade da qual elas emanam”. A autoridade, quando aceita, basta por si só como argumento, diz-nos São Tomás de Aquino. 

O livro Pela supressão dos partidos políticos1, de autoria de Simone Weil, a arrojada filósofa francesa, foi escrito no final da primeira metade do século XX, e, em sua simplicidade, se apresenta como um contraponto às doutrinas atuais. Inicialmente, a ideia apresentada é a da busca pelo “bem”, que, para a autora, estaria paralelo ao conceito da verdade, da justiça e da utilidade pública. A democracia e o poder são os meios que visam o bem. No mais, a percepção da unidade é conceito central, vez que só há um “bem”, uma “justiça”. A pluralidade de concepções destes conceitos salta ao seu significado originário, recaindo em “mal” e em “injustiça”. 

Weil retrata que os partidos políticos seriam integrantes e reforçadores deste maniqueísmo. De fato, o conceito de partido político advém do verbo “partir”, logo, trata-se de uma divisão. Cada partido conta sua história, tem a sua ideologia e lê – quando o fazem – uma doutrina, recomendada aos filiados. Tal cisão é um agrupamento de pessoas ideologicamente reunidas para fins evidentemente políticos. Conforme Afonso Arinos de Melo Franco, “partido é fração, é parte. E parte não é o todo2”. 

Segundo a autora, os partidos políticos criam paixões coletivas; exercem pressão coletiva; e tem por fim o seu próprio crescimento. Logo, para Weil, “todo partido político é totalitário3”. Como forma de divulgar sua constituição, usam-se da propaganda como forma de convencimento, garantindo, assim, coerência naquilo que se propaga. Para Afonso Arinos, partidos políticos “exercem a sua função precípua precisamente na arregimentação das opiniões para a conquista, pelo voto, dos poderes do Estado4”.

Ideologia é um termo muito utilizado na sociologia para designar algo diferente de uma ideia. Segundo a filósofa Marilena Chauí, no livro O que é ideologia, ideologia seria o meio empregado para que a dominação fosse efetivada pela classe dominante5. Cria-se a ideia, altamente coerente, de que a realidade é aquela mostrada; que há legitimação do que acontece; que a noção do correto e do errado se baseiam nesta visão. Os grupos constituem uma ideologia de modo a perseguir os seus objetivos, especialmente de reafirmar a sua doutrina e objetivos. As lacunas, contudo, quando tentadas a serem preenchidas, vez que destroem a coerência ideológica e, consequentemente, causam rupturas desta ideologia6. Ideologia é um véu que ofusca a visão da realidade. 

A democracia brasileira, usa-se dos partidos políticos na consecução da própria democracia, e o que estamos evidenciando aqui não é um ataque, mas uma compreensão de como funcionam os partidos, especialmente no interior paulista e mineiro. 

O poeta francês, René Char, escreveu, em certa ocasião: “Notre héritage n’est precede d’aucun testament” (“Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento”). O peso desta afirmação, em questões históricas, é por demasiado intenso: a tradição, os costumes, tudo aquilo que foi feito na sociedade em tempos idos, mas que cristalizou-se na mentalidade social, não é escolha condicionada à adesão voluntária. Arraigado na personalidade social, é imposto, em um primeiro momento. Conforme La Boetie, a “natureza do homem é ser livre e desejar sê-lo, mas também é tal que naturalmente preserva o costume e o hábito a ele impostos pela criação7”

Desde a primeira metade do período imperial, o Brasil possui partidos em seu quadro político: começou com o conservador e o liberal. Contudo, segundo conta a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz, na obra Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios, é dificultoso tentar defini-los, separá-los: era propagado que “não há nada de tão semelhante a um conservador quanto um liberal no poder8”. O anedotário da época não era de todo ficcional. 

A história partidária é uma história de lutas internas pelo poder. Idealista, eram poucos: o desejo de influência e poder é o que leva alguém à vida política, na maior parte dos casos. Os políticos, conforme escreve a referida socióloga no livro Cultura, sociedade urbana, sociedade rural, não eram escolhidos por serem boas pessoas: “[...] a escolha de um candidato era em geral determinada pelas suas relações com o clã político-familiar e não pela sua influência. Votava-se por ele, porque pertencia ao mesmo clã ou a um clã aliado9”. 

O tempo passa e esta estrutura não muda. A nomenclatura de nada resume a ideia partidária (peixe-boi não é peixe). No Brasil, não é pré-requisito ser social-democrata para ser do PSDB; da mesma forma, conhecer a ideologia liberal é dispensável para filiar-se ao PL. A filiação resume-se meramente a aumentar a adesão, visando-se expansão partidária, informada por Simone Weil. Talvez – e tal informação é facilmente percebida – as exceções repousem sobre os partidos de esquerda (PT, PSOL, etc.) e os partidos de viés religioso (DC, etc.), que propagam uma ideologia. O Centro permite-se ser fisiológico: oscila no espectro político (PSDB, MDB, PSD). A direita ainda carece de organização, pois voltou-se a um representante, que foi filiado em inúmeros partidos, sem definir-se ideologicamente. 

Não obstante, podemos ver um fenômeno dotado de personalismos, uma vez que o partido representa não a ideologia, mas a pessoa. Foi o que aconteceu na última eleição presidencial, onde Bolsonaro filiou ao PL, e seus adeptos o seguiram: não foi por conta da ideologia do partido, mas sim da pessoa do candidato. Da mesma forma, é possível ver que, dentro do PT, existe duas vertentes: os petistas e os lulistas, estes adoradores da pessoa Lula, e aqueles, à ideologia partidária. 

No interior, onde a herança é justamente do patrimonialismo e do coronelismo, há a contribuição para a confusão entre público e particular, e a política é, infelizmente, vista como meio para ascensão social, qual o funcionalismo público. Outro fator é a limitação ao acesso à educação, aos livros e às bibliotecas contribui para o desconhecimento das ideologias partidárias e, para os poderosos, isto é interessante, especialmente para os que desejam que a população permaneça em anestesiada alienação mental: visa-se o desconhecer para gerar poder.

A ideologia partidária é fraca, portanto, e pouco observada no interior. Um exemplo cabal – muito representativo, por sinal – é o evidente e irônico alinhamento dos membros diretores do PT municipal com a Administração Pública, primordialmente do PL, em Arceburgo: os dois partidos que lutaram pela presidência da República! São poucas exceções que vislumbra-se identidade partidária plena, mas a ideia de ser excludente é imperativa. 

Não é errático dizer que a esquerda se organizou melhor pós-ditadura, a partir de 1985. O Partido Comunista de 1922 foi, posteriormente, perseguido e cassado por Vargas; a justiça eleitoral, recém-criada, barrou a sua inscrição. Tal segmento surge em meio a um sistema pacato patrimonialista, onde o interesse particular justificava qualquer ação ou voto. E, de fato, conforme as historiadoras, Lília Schwarcz e Heloisa Starling, no livro Brasil: uma biografia, a própria origem do partido se deu em um contexto de divergência interna que tolhia a liberdade de mobilização10. O ideal formativo seguiria caminho, contudo: a questão operária. No período da Ditadura (1964-1985), novamente vemos a dispersão. A esquerda se reorganizou, lá no final dos anos de 1980, com Lula. Houve, evidentemente, a adesão de inúmeros intelectuais, o que gerou o Partido dos Trabalhadores, evocando a questão operária novamente, que fermentava. Lula teria agido como canal para a objetivação dos ideais de um grupo. Antes disso, o entusiasmo era vencido pelo Estado. A inércia no que tange ao patrimonialismo era tamanha, e questionar o antigo sistema dos coronéis não era para poucos. 

Embora o contexto da Guerra Fria tenha evocado a antiga divisão oriunda da Revolução Francesa, a direita misturava-se com o conservadorismo e com o sistema então operante. A direita busca, atualmente, estruturação, porém, como a esquerda, usa-se de uma pessoa para conduzir tal ordem nova. Organiza-se às costas de Bolsonaro, mas é questão complexa um parlamentar histórico do “Centrão” representar ideais. Será que os conhece, de fato? São seus reais pilares? É questão que carece de análise. A Direita conservadora, que tinha Oliveira Vianna em seu quadro intelectual, hoje possui outros gurus e representantes como canais. Surgiu a tentativa de usar o partido NOVO como novidade, mas não foi bem-sucedida. A frase “o NOVO é velho” foi muito difundida. O povo já não engole certas terminologias e promessas saturadas. Se a estruturação da direita terá sucesso, cabe à História dizer. 

A ideia de heróis e mártires necessariamente é contrária à ideia do coletivo que batalha por um ideal: exclui-se o todo em prol do um. No fim, o que existe é a necessidade de sobreposição do ego. A bem da verdade, o interiorano segue aquilo que ele julga ser correto. Alguns, têm mais noção de bem comum e de justiça social do que outros, e a experiência partidária se torna apenas um veículo para efetivar a outorga do poder pelo povo. Sabe-se apenas que se não estiver filiado, não pode concorrer aos cargos eletivos. Geralmente, em cidades pequenas, há maniqueísmo político: oposição e situação. A briga chega na vida privada. O pensamento de massa, estudado inclusive por Freud, em nada contribui para erigir o bem-comum, afinal, gera-se “alma coletiva, graças à qual sentem, pensam e agem de modo inteiramente diferente do que cada um sentiria, pensaria e agiria isoladamente11”. Logo, anula-se a individualidade.

A massa é conduzida por paixões, e uma das formas de fabricá-las é por meio dos partidos, como já nos disse Weil. Pensar, realizando juízos críticos, é o que diferencia o indivíduo e a massa. O que Santo Agostinho disse – que cada indivíduo é um novo começo – é de fácil percepção, e as várias pessoas e seus vários “começos”, todos unidos pelo bem, movem e cuidam do mundo e dos seus iguais.


Notas e bibliografia:

1 WEIL, Simone. Pela supressão dos partidos políticos. Coleção Biblioteca Antagonista. Belo Horizonte: Âyiné, 2019.

2 FRANCO, Afonso Arinos de Melo. História e teoria dos partidos políticos no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 1974, p. 68.

3 WEIL, op.cit., p.24.

4 FRANCO, op.cit., p.10. 

5 CHAUI, Marilena. O que é ideologia. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 2001, p.111.

6 Ibid.,p.133.

7 LA BOETIE, Étienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. São Paulo: Edipro, 2017, p. 54. 

8 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo: Alfa-ômega, 1976, p. 75.

9 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Cultura, sociedade rural, sociedade urbana. São Paulo: USP, 1978, p. 17.

10 SCHWARCZ, Lília; STARLING, Heloisa. Brasil: uma biografia. 2ªed, São Paulo: Cia. das Letras, 2018, p. 337.

11 FREUD, Sigmund.Psicologia das massas e análise do eu. Porto Alegre: L&PM, 2023, p. 54.


Autor: Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti, pós-graduado em Gestão Pública; bacharel em direito; membro e pesquisador do Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo-IHCA; colunista do jornal Cidade News, de Mococa-SP; editor e colunista da revista O Infante, especializada em direito militar; desenvolve pesquisas na área da sociologia, da história e da política em seu blog, Bico de pena e afins, e no Boletim Informativo do IHCA.

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