Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
A busca pela imortalidade
sempre esteve na mente daqueles que a tem como uma necessidade. Ponce de León,
explorador espanhol, conforme dita a lenda, procurou a fonte da juventude.
Nicolau Flamel, alquimista francês, trabalhou para produzir a pedra filosofal,
a qual, segundo conta-se, é dotada de magníficos poderes, dentre os quais, a
imortalidade, conferida ao seu detentor.
Evidentemente,
a imortalidade física, biológica, não foi alcançada – até onde se sabe – e o
ser humano buscou outras formas de perpetuar a sua história, empenhando-se para
deixar um legado para as futuras gerações, quando de sua morte.
A filósofa e
teórica política, Hannah Arendt, em seus livros A Condição Humana e Entre
o Passado e o Futuro, coloca a busca pela vida imortal ligada ao ingresso à
vida política e, assim, se sobrepondo à ação por ser uma questão
individualista, sendo aquela uma condição coletiva – política –, conforme a
autora.
O legado dos
seres humanos pode ser observado sob duas formas: a primeira, o legado físico,
material, advém da imortalização visual, tangível, como na construção de obras
monumentais e imponentes, as quais levarão para o futuro o nome daqueles que
deram a anuência para a sua realização em uma placa de cobre ou bronze. No
geral, estas construções dão caráter visível ao legado.
A segunda
forma, embora ocorra com tamanha frequência, é, de certa forma, ignorada.
Trata-se do legado imaterial, intangível. Uma forma de percebê-lo é o resultado
de ações passadas que até os dias de hoje permanecem no seio político-social,
sejam consideradas boas ou ruins.
Imagine, pois,
uma sociedade que foi construída empregando a escravidão. A mesma, quando de
sua criminalização, permanece na mentalidade social por meio da ideia de
primazia de um povo em detrimento de outro. Com os anos, os hábitos vão sendo
transformados, mas a ideia inicial da escravidão – o racismo e/ou a xenofobia –
permanece em um percentual da sociedade. O resultado são os ataques ao povo que
anos antes fora escravizado. Este é um exemplo de legado imaterial negativo,
que ainda está vivo pelo globo terrestre, deixado pelos antigos impérios.
O agir (nos já
referidos termos de Arendt), quando guiado pelo individualismo, resulta no
patrimonialismo: a satisfação dos desejos particulares pela Administração
Pública, confundindo, assim, as duas esferas (público e privado). A prática
patrimonialista está mais do que difundida na sociedade brasileira. O meio
público aparenta ser um meio legítimo a ser utilizado em benefício daqueles que
detém o poder. Evitando generalizações, algumas pessoas aventuram-se na política
com esta finalidade, tornando a ação um meio e os ideias do patrimonialismo, um
fim.
O que a
sociedade vê hoje − os absurdos da corrupção − é o resultado de anos e anos do
emprego da ideia do uso da política como meio, tornando-se arraigada e, de certa
forma, perdoada, pois são vários os que desejam usufruir dela.
A corrupção do
sistema gera crises profundas, que podem ser levadas adiante pelas gerações,
ainda mais se a corrupção for mascarada por véus, como a ideologia e a
alienação. Cria-se a ideia de que aquele determinado comportamento é o correto
para uma determinada finalidade, sendo que o fim do patrimonialismo é o “eu” e
não o “nós”. E, assim, tem-se o aval da sociedade para que ocorra determinado
evento.
Legar
monumentos para o futuro não é algo ruim, mas deve ser feito com parcimônia. As
várias obras inacabadas e as novas iniciadas todos os dias, que demorarão anos
para serem concluídas, evidenciam a prática da imortalidade na política: é mais
fácil iniciar uma outra obra do que concluir uma antiga, visando o
reconhecimento futuro quando do lançamento da pedra fundamental.
Da mesma forma,
legar ideias e ideais não é algo ruim, quando, novamente, feito com parcimônia.
A política é meio e fim em si: gerir o bem-comum, visando o melhor para todos.
Quando há corrupção no sistema, a sociedade é infectada por um parasita de
difícil destruição, pois ele se fixa nas falhas do pensamento e da moral
individual.
A compra de
votos é um exemplo que colabora para a destruição sistêmica da sociedade, pois aqueles
que se valem destes subterfúgios para assumir a cadeira executiva, no geral,
tendem a ser governantes amorais, pífios, incongruentes. E a prática faz as
pessoas apoiarem o candidato não pelas suas ideias, mas sim pela cesta básica
ou pelas contas pagas. E isso é encorajado, pois os governos tendem a deixar as
pessoas nos quadros da miserabilidade – será parte do esquema deixar este
legado negativo?
Legados
imateriais são vários, perceptíveis, mas quando se emprega o senso crítico para
analisar o meio político e social. J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos
Anéis, considerava a mortalidade dos homens algo positivo, pois eles não
veriam a passagem do tempo destruir o mundo. Não obstante, a destruição causada
pelo tempo, sem levar em conta os desgastes inerentes a ação natural, é
colaborada pelo ser humano e seu hábito ignóbil de tentar destruir a alma
humana.

Nenhum comentário:
Postar um comentário