terça-feira, 25 de junho de 2024

O embate geracional mocoquense

 Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

(Publicado no jornal Cidade News)


      O desenvolvimento industrial em Mococa teve início ao final dos anos 1880. Passou a crescer e desenvolver ao longo do começo do século XX e consolidou-se, de fato, nos anos de 1940 e 1950. Em época similar, o governo federal iniciava uma abordagem econômica denominada “Política Desenvolvimentista”, que visava acelerar o processo de industrialização do Brasil. Nos anos de 1970 e 1980, foi imperativa a mudança. O desenvolvimento industrial significa mais geração de empregos, mais impostos ao Fisco, uma suposta melhoria na qualidade de vida dos indivíduos. Com instalação de empresas, espera-se um “boom” imobiliário, aumento do custo de vida e a perda de características que então eram a norma – tudo há prós e contras.

Ocorre que o desenvolvimento industrial e comercial de um lugar implica no crescimento do próprio lugar, pois é visto como centro de oportunidades. Mais pessoas chegam, com o sonho da melhora da qualidade de vida. Os moradores sentem um certo abalo nas estruturas sociais e econômicas, pois o Mercado sabe como aumentar os preços quando há demanda para tanto. Porém, partindo um pouco para as questões espirituais, metafísicas, das cidades, o espírito social é modificado com o progresso. Tal situação ocorre primeiro no plano físico, com novos loteamentos, que fazem a cidade expandir; edifícios mais modernos, com design até então não visto no lugar; presença das grandes redes; etc. Somente depois de algum tempo é percebida no plano metafísico.

Mococa é um verdadeiro exemplo do que acima foi mencionado. Situa-se, atualmente, em um embate entre duas gerações. Uma geração mais antiga viu o município incipiente, pouco industrializado, com urbanização concentrada na região central, havendo surtos locais de zoneamento urbano, com característica muito similares aos bairros rurais paulistas, que Antônio Candido descreve tão bem. Conviviam sob o ar típico de uma pequena cidade interiorana e, hoje em dia, veem-na com muito saudosismo. Qualquer rua, casa ou praça desperta um sentimento nostálgico e de saudades do passado. Em contrapartida, convive tal geração com uma outra mais jovem, que já conheceu a cidade sob o desenvolvimento fabril, em constante expansão urbana, já evidente a perda das características do interior, já situada com os computadores, internet e celulares: é tecnológica. O surgimento desta última é algo bem recente na história de Mococa.

Ocorre que o crescimento do lugar implica no aumento de diversos fatores negativos, dentre eles, o aumento da criminalidade. O policiamento de um grande centro demanda um contingente de policiais muito maior do que de um centro urbano menor. Cada vez mais, a vida vai se tornando voraz como o próprio Mercado o é, e os indivíduos vão se tornando resignados, fechados, pois ocorre o que o sociólogo alemão, Georg Simmel, denominava o “direito à desconfiança”.  As pessoas, desconfiadas dos demais, enclausuram a vida em uma espécie de bolha, com locais específicos para tratar de assuntos particulares; com profissionais que já possuem conceito; barram a ida a locais que são popularmente inadequados para andar em certos horários da noite. Com os vizinhos, há um tratamento objetivo. Os muros das residências crescem cada vez mais, ao passo que seus moradores fecham-se nas casas com medo do que há lá fora.

A primeira geração mencionada sente muito com tudo isso, pois sentem falta das conversas, encontros, visitas, ao passo que a geração mais nova já interpreta isso como realidade e, com o tempo, tais práticas vão imperando em detrimento das antigas. Como escreveu o sociólogo francês, Roger Bastide, “se os processos psíquicos de uma geração não se transmitissem à geração seguinte, não prosseguissem nesta outra, cada um de nós seria obrigado a recomeçar a aprendizagem da vida, o que excluiria toda a possibilidade de progresso e desenvolvimento” (Sociologia e psicanálise. São Paulo: Melhoramentos, EDUSP, 1974, p.49). O que acontecia em São Paulo e no Rio de Janeiro por exemplo, não está mais tão distante, no presente.

É a marcha evolutiva da sociedade, que altera sua personalidade e, consequentemente, dos indivíduos que pertencem àquele meio.

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