Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
(Publicado no jornal Cidade News)
O desenvolvimento industrial em Mococa teve início ao final dos anos 1880. Passou a crescer e desenvolver ao longo do começo do século XX e consolidou-se, de fato, nos anos de 1940 e 1950. Em época similar, o governo federal iniciava uma abordagem econômica denominada “Política Desenvolvimentista”, que visava acelerar o processo de industrialização do Brasil. Nos anos de 1970 e 1980, foi imperativa a mudança. O desenvolvimento industrial significa mais geração de empregos, mais impostos ao Fisco, uma suposta melhoria na qualidade de vida dos indivíduos. Com instalação de empresas, espera-se um “boom” imobiliário, aumento do custo de vida e a perda de características que então eram a norma – tudo há prós e contras.
Ocorre que o desenvolvimento
industrial e comercial de um lugar implica no crescimento do próprio lugar,
pois é visto como centro de oportunidades. Mais pessoas chegam, com o sonho da
melhora da qualidade de vida. Os moradores sentem um certo abalo nas estruturas
sociais e econômicas, pois o Mercado sabe como aumentar os preços quando há
demanda para tanto. Porém, partindo um pouco para as questões espirituais,
metafísicas, das cidades, o espírito social é modificado com o progresso. Tal
situação ocorre primeiro no plano físico, com novos loteamentos, que fazem a
cidade expandir; edifícios mais modernos, com design até então não visto no
lugar; presença das grandes redes; etc. Somente depois de algum tempo é
percebida no plano metafísico.
Mococa é um verdadeiro exemplo do
que acima foi mencionado. Situa-se, atualmente, em um embate entre duas
gerações. Uma geração mais antiga viu o município incipiente, pouco
industrializado, com urbanização concentrada na região central, havendo surtos
locais de zoneamento urbano, com característica muito similares aos bairros
rurais paulistas, que Antônio Candido descreve tão bem. Conviviam sob o ar
típico de uma pequena cidade interiorana e, hoje em dia, veem-na com muito
saudosismo. Qualquer rua, casa ou praça desperta um sentimento nostálgico e de
saudades do passado. Em contrapartida, convive tal geração com uma outra mais
jovem, que já conheceu a cidade sob o desenvolvimento fabril, em constante
expansão urbana, já evidente a perda das características do interior, já
situada com os computadores, internet e celulares: é tecnológica. O surgimento
desta última é algo bem recente na história de Mococa.
Ocorre que o crescimento do lugar
implica no aumento de diversos fatores negativos, dentre eles, o aumento da
criminalidade. O policiamento de um grande centro demanda um contingente de
policiais muito maior do que de um centro urbano menor. Cada vez mais, a vida
vai se tornando voraz como o próprio Mercado o é, e os indivíduos vão se
tornando resignados, fechados, pois ocorre o que o sociólogo alemão, Georg
Simmel, denominava o “direito à desconfiança”. As pessoas, desconfiadas dos demais,
enclausuram a vida em uma espécie de bolha, com locais específicos para tratar
de assuntos particulares; com profissionais que já possuem conceito; barram a
ida a locais que são popularmente inadequados para andar em certos horários da
noite. Com os vizinhos, há um tratamento objetivo. Os muros das residências
crescem cada vez mais, ao passo que seus moradores fecham-se nas casas com medo
do que há lá fora.
A primeira geração mencionada
sente muito com tudo isso, pois sentem falta das conversas, encontros, visitas,
ao passo que a geração mais nova já interpreta isso como realidade e, com o
tempo, tais práticas vão imperando em detrimento das antigas. Como escreveu o
sociólogo francês, Roger Bastide, “se os processos psíquicos de uma geração não
se transmitissem à geração seguinte, não prosseguissem nesta outra, cada um de
nós seria obrigado a recomeçar a aprendizagem da vida, o que excluiria toda a
possibilidade de progresso e desenvolvimento” (Sociologia e psicanálise. São
Paulo: Melhoramentos, EDUSP, 1974, p.49). O que acontecia em São Paulo e no Rio
de Janeiro por exemplo, não está mais tão distante, no presente.
É a marcha evolutiva da sociedade,
que altera sua personalidade e, consequentemente, dos indivíduos que pertencem
àquele meio.
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