Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
A data, então aceita, como a da fundação do povoado de Nossa Senhora da Luz das Canoas é meramente especulativa, carecendo de fontes históricas que corroborem-na. Ficou consignado na história de Mococa que o distrito de Igaraí teria suas origens na antiga fazenda da Água Limpa, cujo primeiro proprietário foi José Christóvam de Lima (1798-1864). Conta-se que um grande cruzeiro teria sido instalado, dando, afinal, origem a um pequeno povoamento. Era prática comum que a fé acompanhasse o destino de um lugarejo.
O historiador, Adriano
Campanhole, em seu livro Memória da
Cidade de Caconde, assinala que, em 6 de maio de 1892, teria sido emitida
provisão, autorizando a ereção de uma capela, em louvor à Nossa Senhora da Luz,
em Caconde.
"D. Lino. Aos que esta nossa provisão virem saúde
e benção em o Senhor. Fazemos saber que atendendo ao que nos representou o
cidadão João Pinheiro da Silva, residente em Mococa e tendo em vista a
informação prestada pelo mto. redmo. pároco de Caconde, a cuja estola pertence
o impetrante Havemos por bem pela presente conceder licença para que no bairro
denominado Nossa Senhora da Luz da dita Paróquia de Caconde, se possa erigir e
levantar uma nova capela sob a invocação de Nossa Senhora da Luz, contanto que
seja em lugar alto, livre de umidade, desviada quanto possível de lugares
imundos e casas particulares e que tenha âmbito em redor para andarem
procissões, devendo ser o local para tal fundação designado pelo Revmo. Pároco
respectivo a quem autorizamos para benzer e lançar a primeira pedra do edifício
na forma do ritual romano. Na mesma capela não se poderão celebrar ofícios
divinos sem uma provisão nossa, precedendo informação paroquial de achar-se ela
provida de para- mentos, alfaias precisas e habilitada com competente
patrimônio. Esta será apresentada ao Rev. pároco daquela igreja que a
registrará integral- mente no Livro do Tombo da Matriz para a todo o tempo
constar. Dada e passada na Câmara Episcopal desta cidade de São Paulo sob nosso
sinal e selo de nossas armas, aos 6 de maio de 1892. E eu pe. Adelino Jorge
Montenegro, escrivão da Câmara Eclesiástica a subscrevi. Cônego Antônio
Guimarães Barroso, por autorização do Exmo. Rev. Sr. Bispo"
(Campanhole, 1979, p. 536).
Algumas
fazendas de Mococa, ao longo dos anos de 1880, por força de leis da Assembleia
Provincial, como a nº 60, de 23.05.1881, e a nº 70, 17.06.1881, foram
transferidas para o Município de Caconde, como as de Vigilato de Souza Dias, d.
Mariana de Almeida e Souza, Manoel Ignacio Franco e José Ignacio Franco. O que
pode revelar que, por carto tempo, o território onde seria erigida Igarahy
pertenceu à Caconde.
Escreve o professor Paladini que “a vida religiosa de Igaraí nos conta a história; seu início teve um acontecimento comovente: Lavínia Ribeiro do Vale, fazendeira na região, quando passava pelo local com a filha enferma, à procura de assistência médica em Guaxupé, Minas Gerais, fez uma promessa: se a filha recuperasse a saúde, daria um lote de terra para construir uma igreja em louvor a ‘Nossa Senhora da Luz’. Seu pedido foi atendido e, assim, começou a vida religiosa do distrito” (Paladini, 2013, p. 107). Diz ainda que uma capela foi erigida no local. Contudo, segundo a tradição oral da família Pereira Lima, rememorada pela ex-vereadora de Mococa, Dra. Marilia Pereira Lima Pucciarelli, a construção da capela deveu-se ao coronel José Pereira Lima, pela recuperação da saúde de sua filha, Lavinia Pereira Lima.
O antigo nome
de Igarahy era Povoado de Nossa Senhora da Luz das Canoas, cuja capela levava o
mesmo nome. Segundo uma matéria do Jornal
do Commercio, de 1899, existiam três bairros rurais no município de Mococa:
Alegria, São João do Rio Pardo e Nossa Senhora da Luz das Canoas. Nos livros de
tombo da paróquia de São Sebastião, há o registro de um termo de benção da
capela, em 8 de setembro de 1900, bem como a lavratura da provisão de 31 de
agosto de 1900, emitida pelo bispo de São Paulo, dom Antônio Candido de
Alvarenga, em favor de José Pereira Lima.
Em 15 de julho
de 1895, os moradores do arraial de Nossa Senhora da Luz das Canoas peticionam
ao Diretório do Partido Republicano de Mococa, solicitando que, na localidade,
fosse criado um distrito de paz. Firmam a petição os seguintes senhores: José
Cypriano de Castro; Virgilio de Souza Dias; Francisco Euzebio de Farias;
Justinianno Pereira Martins; Antonio Marques Padilha; Pedro Ferreira de Souza;
Vicente Ferreira de Oliveira; Joaquim Ferreira de Souza; Jacintho Antonio
Candido; Custodio Ferreira de Souza; Olympio Coelho de Moraes; Octaviano Soares
de Souza; Francisco Theophilo de Oliveira; Eduardo Martins de Souza; José
Antonio Dias; José Antonio Baptista; Jeronymo da Selva Queiroz; Francisco Diogo
de Figueiredo; Emygdio Fernandes de Souza; José Pires Eustachio; Gabriel Pires
Eustachio Sobrinho; Francisco Antonio da Cunha; Paulo Theodoro de Morais;
Manoel Mecias Ribeiro; Gabriel Domingos de Araujo; Francisco Ignacio Franco;
Jacintho Fontana de Souza; João Bento de Almeida; Martimiano Martins; José Joaquim Pereira do
Lago; Pedro Mescias Ribeiro; Antonio Magalhaes; José Vieira Martins; Antonio Luis dos Santos;
João Vieira de Souza; Antonio Vieira de Souza; Azarias Pires; Emigdio Pires;
José Ferreira de Souza; Luis Nattimo; Antonio Henrique de Meirelles. O dito
abaixo-assinado foi remetido ao Congresso Estadual de São Paulo, onde tramitou
nas duas Casas. O projeto de lei, aliás, tramitou sob o nº 7 de 1900.
Poucos anos
mais tarde, teria sito elevado o povoado à condição de distrito de paz, com o
nome Igarahy. Conforme dita a Lei nº 918, de 3 de agosto de 1904, sancionada
pelo presidente do Estado de São Paulo, dr. José Tibiriçá, criou-se, no povoado
de Nossa Senhora da Luz das Canoas, um distrito de paz, nos seguintes termos:
“Artigo 1.° - Fica creado no povoado de N. S.
da Luz das Canôas, no municipio e comarca de Mocóca, um districto de paz com a
denominação de Igarahy.
Artigo 2.° - As divisas deste districto de
paz serão as seguintes :
« Principiam na barra do Corrego da Lage, no
rio das Canôas, e « por este rio acima e pelas divisas com o Estado de Minas,
até ao rio « Guaxupé; e por este abaixo divisando com o municipio de Caconde
até ás divisas com o municipio de São José do Rio Pardo e tomando á direita e
por essas mesmas divisas em direcção á serra da fazenda de Theophilo Custodio
Dias e pela continuação desta serra, denominada Serrinha comprehendendo toda a
vertente do corrego da Lage e até ao rio das Canôas, no ponto em que começaram
estes limites.
Artigo 3.º - As propriedades a que se
referem as leis numeros 60 e 70, de 23 de Maio e 17 de Junho de 1881, continuam
a pertencer ao municipio de Caconde, excepto a fazenda São Francisco e a parte
de terras da Bica de Pedra, comprehendida entre essa fazenda e o municipio de
Mocóca.
Artigo 4.º - Revogam-se as disposições em
contrario.
O Secretario de Estado dos Negocios do
Interior e da Justiça assim a faça executar.
Palacio do Governo do Estado de São Paulo,
em 3 de Agosto de 1904.
JORGE TIBIRIÇÁ
J. CARDOSO DE ALMEIDA
Publicada na Directoria da Justiça, da
Secretaria dos Negocios do Interior e da Justiça, em 3 de Agosto de 1904.
O director, Joaquim Roberto de Azevedo
Marques”.
Igarahy se
tornou distrito policial em 21 de fevereiro de 1907. O primeiro cartorário de
Igarahy foi Manoel Cardoso de Azevedo Barreto, que permaneceu no ofício de
1905, data de sua nomeação, até 1908, quando opta por renunciar. É sucedido por
Tertuliano Leite de Meirelles, que é nomeado em maio de 1909 e permanece 20
anos como escrivão de paz, até sua morte. Encerrando o período ora analisado,
em 1929, assume o oficial Reinaut Meirelles Sobrinho.
Os primórdios
da iluminação pública rememoram o ano de 1909, quando a Companhia de Luz e
Fôrça lançou-se a realizar a instalação, sendo seu gerente o capitão F.
Barreto, e que contou com a contribuição dos seguintes senhores: major José
Quintino Pereira, doador dos postes; coronel José Pereira Lima, que ofereceu as
cruzetas; e dr. Augusto Barreto, capitão Lucino Barreto, João Batista de Lima
Figueiredo e Antonio J. Dias Lima, que colaboraram de diversas formas. Em
janeiro de 1910, o sistema funcionava regularmente, contando o abastecimento de
energia elétrica público com 30 lâmpadas incandescentes e o particular, com 50
lâmpadas.
Em 1895, por
força do projeto de lei nº 158, visava-se criar duas escolas no povoado de
Nossa Senhora da Luz das Canoas, mas não tem-se notícia se efetivamente foi
aprovado na Câmara dos Deputados, haja visto que, as notícias do ensino na
localidade são posteriores à instalação do distrito de paz. O ensino data
oficialmente, portanto, de 1909, quando, por força da Lei nº 1.178, de 23 de
novembro, cria-se uma escola mista em Igarahy, bem como em São Benedicto e
Canôas, sendo os primeiros professores do distrito Olegário Augusto Gonçalves e
Francellina Pires Freitas. Sabe-se que também lecionaram em Igarahy, no começo
do século XX, Maria das Dores Pinho de Oliveira, Sophia Siqueira, Amélia Gilli
e Honorina Silva. No ano de 1921, a Secretaria do Tesouro concede o importe de
5:000$000 para a construção do prédio destinado às Escolas Reunidas de Igarahy,
visando unificar o ensino, que era espalhado nas várias fazendas da região,
sendo seu diretor Francisco Roberto de Almeida.
Em 1911,
monsenhor dr. Félix Brandi, pároco titular da Paróquia de São Sebastião, lavrou
a provisão de um ano de celebração de missa em favor da Capela de Nossa Senhora
da Luz de Igarahy, passada em 18 de janeiro daquele mesmo ano. Na mesma
oportunidade, lavrou as provisões de celebrações nas capelas de Nossa Senhora
Aparecida da fazenda Cascata, quinquenal, e de São Benedito, anual. No
relatório do movimento paroquial de 1936, monsenhor Argilio Malatesta, escreve
que, dentre as capelas situadas em terreno próprio, estavam a de Nossa Senhora
da Luz de Igaray e a de Nossa Senhora Aparecida em Canoas. Conforme a
documentação analisada, chega-se à conclusão que a história mocoquense se
referia, portanto, ao povoado de Canoas, quando, na verdade, tratava-se da história
do distrito de Igarahy. Sabe-se que a capela foi posta aos cuidados dos
Capuchinhos, nos anos de 1930, bem como em S. Benedicto e em Canôas.
Ainda nas três
primeiras décadas do século XX, tem-se notícia de que havia, já em 1906, uma
igreja presbiteriana em pleno funcionamento em Igarahy. O mais antigo sub-prefeito
de Igarahy, que foi possível localizar, foi o senhor Victorio Pires Eustachio,
um dos signatários da petição que requereu a criação do distrito de paz. Este
cargo equivale, nos dias atuais, ao cargo de administrador.
Uma pequena
observação etimológica, quando a requisição da criação do distrito foi
protocolada, o nome do arraial de Nossa Senhora da Luz das Canoas foi alterado
pera Igarahy, que significa, conforme o documento, algo como “Rio das Canoas”. Yg-ára, ou y-yára, significam “o que sobrenada” ou “o que está acima da água”,
e hy, “água”, formando, assim, o nome
do distrito.
Obs.: Em decorrência da ausência de fotografias mais antigas, nos valemos da que encabeça este artigo, dos anos de 1960, disponível no site oficial da Prefeitura Municipal de Mococa.
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