domingo, 25 de maio de 2025

O DISTRITO DE IGARAHY NAS TRÊS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

A data, então aceita, como a da fundação do povoado de Nossa Senhora da Luz das Canoas é meramente especulativa, carecendo de fontes históricas que corroborem-na. Ficou consignado na história de Mococa que o distrito de Igaraí teria suas origens na antiga fazenda da Água Limpa, cujo primeiro proprietário foi José Christóvam de Lima (1798-1864). Conta-se que um grande cruzeiro teria sido instalado, dando, afinal, origem a um pequeno povoamento. Era prática comum que a fé acompanhasse o destino de um lugarejo.

O historiador, Adriano Campanhole, em seu livro Memória da Cidade de Caconde, assinala que, em 6 de maio de 1892, teria sido emitida provisão, autorizando a ereção de uma capela, em louvor à Nossa Senhora da Luz, em Caconde.

"D. Lino. Aos que esta nossa provisão virem saúde e benção em o Senhor. Fazemos saber que atendendo ao que nos representou o cidadão João Pinheiro da Silva, residente em Mococa e tendo em vista a informação prestada pelo mto. redmo. pároco de Caconde, a cuja estola pertence o impetrante Havemos por bem pela presente conceder licença para que no bairro denominado Nossa Senhora da Luz da dita Paróquia de Caconde, se possa erigir e levantar uma nova capela sob a invocação de Nossa Senhora da Luz, contanto que seja em lugar alto, livre de umidade, desviada quanto possível de lugares imundos e casas particulares e que tenha âmbito em redor para andarem procissões, devendo ser o local para tal fundação designado pelo Revmo. Pároco respectivo a quem autorizamos para benzer e lançar a primeira pedra do edifício na forma do ritual romano. Na mesma capela não se poderão celebrar ofícios divinos sem uma provisão nossa, precedendo informação paroquial de achar-se ela provida de para- mentos, alfaias precisas e habilitada com competente patrimônio. Esta será apresentada ao Rev. pároco daquela igreja que a registrará integral- mente no Livro do Tombo da Matriz para a todo o tempo constar. Dada e passada na Câmara Episcopal desta cidade de São Paulo sob nosso sinal e selo de nossas armas, aos 6 de maio de 1892. E eu pe. Adelino Jorge Montenegro, escrivão da Câmara Eclesiástica a subscrevi. Cônego Antônio Guimarães Barroso, por autorização do Exmo. Rev. Sr. Bispo" (Campanhole, 1979, p. 536).

Algumas fazendas de Mococa, ao longo dos anos de 1880, por força de leis da Assembleia Provincial, como a nº 60, de 23.05.1881, e a nº 70, 17.06.1881, foram transferidas para o Município de Caconde, como as de Vigilato de Souza Dias, d. Mariana de Almeida e Souza, Manoel Ignacio Franco e José Ignacio Franco. O que pode revelar que, por carto tempo, o território onde seria erigida Igarahy pertenceu à Caconde.

Escreve o professor Paladini que “a vida religiosa de Igaraí nos conta a história; seu início teve um acontecimento comovente: Lavínia Ribeiro do Vale, fazendeira na região, quando passava pelo local com a filha enferma, à procura de assistência médica em Guaxupé, Minas Gerais, fez uma promessa: se a filha recuperasse a saúde, daria um lote de terra para construir uma igreja em louvor a ‘Nossa Senhora da Luz’. Seu pedido foi atendido e, assim, começou a vida religiosa do distrito” (Paladini, 2013, p. 107). Diz ainda que uma capela foi erigida no local. Contudo, segundo a tradição oral da família Pereira Lima, rememorada pela ex-vereadora de Mococa, Dra. Marilia Pereira Lima Pucciarelli, a construção da capela deveu-se ao coronel José Pereira Lima, pela recuperação da saúde de sua filha, Lavinia Pereira Lima. 

O antigo nome de Igarahy era Povoado de Nossa Senhora da Luz das Canoas, cuja capela levava o mesmo nome. Segundo uma matéria do Jornal do Commercio, de 1899, existiam três bairros rurais no município de Mococa: Alegria, São João do Rio Pardo e Nossa Senhora da Luz das Canoas. Nos livros de tombo da paróquia de São Sebastião, há o registro de um termo de benção da capela, em 8 de setembro de 1900, bem como a lavratura da provisão de 31 de agosto de 1900, emitida pelo bispo de São Paulo, dom Antônio Candido de Alvarenga, em favor de José Pereira Lima.

Em 15 de julho de 1895, os moradores do arraial de Nossa Senhora da Luz das Canoas peticionam ao Diretório do Partido Republicano de Mococa, solicitando que, na localidade, fosse criado um distrito de paz. Firmam a petição os seguintes senhores: José Cypriano de Castro; Virgilio de Souza Dias; Francisco Euzebio de Farias; Justinianno Pereira Martins; Antonio Marques Padilha; Pedro Ferreira de Souza; Vicente Ferreira de Oliveira; Joaquim Ferreira de Souza; Jacintho Antonio Candido; Custodio Ferreira de Souza; Olympio Coelho de Moraes; Octaviano Soares de Souza; Francisco Theophilo de Oliveira; Eduardo Martins de Souza; José Antonio Dias; José Antonio Baptista; Jeronymo da Selva Queiroz; Francisco Diogo de Figueiredo; Emygdio Fernandes de Souza; José Pires Eustachio; Gabriel Pires Eustachio Sobrinho; Francisco Antonio da Cunha; Paulo Theodoro de Morais; Manoel Mecias Ribeiro; Gabriel Domingos de Araujo; Francisco Ignacio Franco; Jacintho Fontana de Souza; João Bento de Almeida; Martimiano Martins; José Joaquim Pereira do Lago; Pedro Mescias Ribeiro; Antonio Magalhaes; José Vieira Martins; Antonio Luis dos Santos; João Vieira de Souza; Antonio Vieira de Souza; Azarias Pires; Emigdio Pires; José Ferreira de Souza; Luis Nattimo; Antonio Henrique de Meirelles. O dito abaixo-assinado foi remetido ao Congresso Estadual de São Paulo, onde tramitou nas duas Casas. O projeto de lei, aliás, tramitou sob o nº 7 de 1900.

Poucos anos mais tarde, teria sito elevado o povoado à condição de distrito de paz, com o nome Igarahy. Conforme dita a Lei nº 918, de 3 de agosto de 1904, sancionada pelo presidente do Estado de São Paulo, dr. José Tibiriçá, criou-se, no povoado de Nossa Senhora da Luz das Canoas, um distrito de paz, nos seguintes termos:

Artigo 1.° - Fica creado no povoado de N. S. da Luz das Canôas, no municipio e comarca de Mocóca, um districto de paz com a denominação de Igarahy.

Artigo 2.° - As divisas deste districto de paz serão as seguintes :

« Principiam na barra do Corrego da Lage, no rio das Canôas, e « por este rio acima e pelas divisas com o Estado de Minas, até ao rio « Guaxupé; e por este abaixo divisando com o municipio de Caconde até ás divisas com o municipio de São José do Rio Pardo e tomando á direita e por essas mesmas divisas em direcção á serra da fazenda de Theophilo Custodio Dias e pela continuação desta serra, denominada Serrinha comprehendendo toda a vertente do corrego da Lage e até ao rio das Canôas, no ponto em que começaram estes limites.

Artigo 3.º - As propriedades a que se referem as leis numeros 60 e 70, de 23 de Maio e 17 de Junho de 1881, continuam a pertencer ao municipio de Caconde, excepto a fazenda São Francisco e a parte de terras da Bica de Pedra, comprehendida entre essa fazenda e o municipio de Mocóca.

Artigo 4.º - Revogam-se as disposições em contrario.

O Secretario de Estado dos Negocios do Interior e da Justiça assim a faça executar.

Palacio do Governo do Estado de São Paulo, em 3 de Agosto de 1904.

JORGE TIBIRIÇÁ

J. CARDOSO DE ALMEIDA

Publicada na Directoria da Justiça, da Secretaria dos Negocios do Interior e da Justiça, em 3 de Agosto de 1904.

O director, Joaquim Roberto de Azevedo Marques”.

Igarahy se tornou distrito policial em 21 de fevereiro de 1907. O primeiro cartorário de Igarahy foi Manoel Cardoso de Azevedo Barreto, que permaneceu no ofício de 1905, data de sua nomeação, até 1908, quando opta por renunciar. É sucedido por Tertuliano Leite de Meirelles, que é nomeado em maio de 1909 e permanece 20 anos como escrivão de paz, até sua morte. Encerrando o período ora analisado, em 1929, assume o oficial Reinaut Meirelles Sobrinho.

Os primórdios da iluminação pública rememoram o ano de 1909, quando a Companhia de Luz e Fôrça lançou-se a realizar a instalação, sendo seu gerente o capitão F. Barreto, e que contou com a contribuição dos seguintes senhores: major José Quintino Pereira, doador dos postes; coronel José Pereira Lima, que ofereceu as cruzetas; e dr. Augusto Barreto, capitão Lucino Barreto, João Batista de Lima Figueiredo e Antonio J. Dias Lima, que colaboraram de diversas formas. Em janeiro de 1910, o sistema funcionava regularmente, contando o abastecimento de energia elétrica público com 30 lâmpadas incandescentes e o particular, com 50 lâmpadas.

Em 1895, por força do projeto de lei nº 158, visava-se criar duas escolas no povoado de Nossa Senhora da Luz das Canoas, mas não tem-se notícia se efetivamente foi aprovado na Câmara dos Deputados, haja visto que, as notícias do ensino na localidade são posteriores à instalação do distrito de paz. O ensino data oficialmente, portanto, de 1909, quando, por força da Lei nº 1.178, de 23 de novembro, cria-se uma escola mista em Igarahy, bem como em São Benedicto e Canôas, sendo os primeiros professores do distrito Olegário Augusto Gonçalves e Francellina Pires Freitas. Sabe-se que também lecionaram em Igarahy, no começo do século XX, Maria das Dores Pinho de Oliveira, Sophia Siqueira, Amélia Gilli e Honorina Silva. No ano de 1921, a Secretaria do Tesouro concede o importe de 5:000$000 para a construção do prédio destinado às Escolas Reunidas de Igarahy, visando unificar o ensino, que era espalhado nas várias fazendas da região, sendo seu diretor Francisco Roberto de Almeida.

Em 1911, monsenhor dr. Félix Brandi, pároco titular da Paróquia de São Sebastião, lavrou a provisão de um ano de celebração de missa em favor da Capela de Nossa Senhora da Luz de Igarahy, passada em 18 de janeiro daquele mesmo ano. Na mesma oportunidade, lavrou as provisões de celebrações nas capelas de Nossa Senhora Aparecida da fazenda Cascata, quinquenal, e de São Benedito, anual. No relatório do movimento paroquial de 1936, monsenhor Argilio Malatesta, escreve que, dentre as capelas situadas em terreno próprio, estavam a de Nossa Senhora da Luz de Igaray e a de Nossa Senhora Aparecida em Canoas. Conforme a documentação analisada, chega-se à conclusão que a história mocoquense se referia, portanto, ao povoado de Canoas, quando, na verdade, tratava-se da história do distrito de Igarahy. Sabe-se que a capela foi posta aos cuidados dos Capuchinhos, nos anos de 1930, bem como em S. Benedicto e em Canôas.

Ainda nas três primeiras décadas do século XX, tem-se notícia de que havia, já em 1906, uma igreja presbiteriana em pleno funcionamento em Igarahy. O mais antigo sub-prefeito de Igarahy, que foi possível localizar, foi o senhor Victorio Pires Eustachio, um dos signatários da petição que requereu a criação do distrito de paz. Este cargo equivale, nos dias atuais, ao cargo de administrador.

Uma pequena observação etimológica, quando a requisição da criação do distrito foi protocolada, o nome do arraial de Nossa Senhora da Luz das Canoas foi alterado pera Igarahy, que significa, conforme o documento, algo como “Rio das Canoas”. Yg-ára, ou y-yára, significam “o que sobrenada” ou “o que está acima da água”, e hy, “água”, formando, assim, o nome do distrito. 


Obs.: Em decorrência da ausência de fotografias mais antigas, nos valemos da que encabeça este artigo, dos anos de 1960, disponível no site oficial da Prefeitura Municipal de Mococa.

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