terça-feira, 22 de julho de 2025

CONVENTO DE SÃO JOSÉ


 90 anos de sua inauguração parcial

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti



Vista aérea do Convento, fotografia de Lauro D'Angelo, acervo da Casa de Cultura "Rogério Cardoso"

Em 28 de junho de 1927, Mococa recebia a sexta visita pastoral de D. Alberto José Gonçalves, bispo da Diocese de Ribeirão Preto. Às 15h, a comitiva era recepcionada na estação pelo monsenhor dr. Félix Brandi, pelo capelão da Santa Casa, padre João Angelli, por autoridades, pela população e pelo frei Bernardino de Lavalle, capuchinho que, desde o ano anterior, prestava trabalho missionário em Mococa.

Frei Bernardino de Lavalle, o idealizador

Nascido João Molling, frei Bernardino era austríaco, nascido no Tirol, em 30 de outubro de 1843, e ingressou na Ordem em 28/10/1862; entre 1889 e 1892, foi Provincial de Trento e foi o responsável pelo envio dos primeiros missionários capuchinhos para a Missão de São Paulo, tendo ele próprio partido para o Brasil em 9 de outubro de 1894, chegando em Piracicaba, SP. Foi uma figura de grande importância na Ordem Capuchinha, sendo Frei Guardião de Taubaté, de 1909 até 1911; Guardião de São Paulo, entre 1911 e 1913; e Conselheiro da Missão em dois períodos, de 1907 a 1911 e de 1916 até 1924. Chegou em Mococa por volta de 1926, encantando a população com a sua missão. Faleceu em São Paulo, à meia-noite do dia 15 para 16 de abril de 1930, em idade avançada. A ideia de que Mococa deveria providenciar a construção de um convento para os capuchinhos partiu de frei Bernardino.

Convento de São José, acervo de Antonino Silva.

Nos anos seguintes, o número de missionários capuchinhos na cidade cresce constantemente, auxiliando os párocos, monsenhor Félix e, a partir de 1930, monsenhor Argilio Malatesta, nos desígnios da Paróquia. Foram os responsáveis, dentre tantas obras sociais, pelo incrementado auxílio ao dispensário de São Francisco, no Asylo de Mendicidade, realizando uma quermesse entre 24 de dezembro de 1933 e 10 de janeiro de 1934, visando arrecadar insumos, o que foi um sucesso.

Em 30 de dezembro de 1933, registrou-se no Livro de Tombo nº III que, tendo obtido autorização da Diocese, do superior-geral regular de Roma e da população mocoquense, os freis capuchinhos escolheram a cidade de Mococa para a fundação do Seminário Seráfico Provincial, obra que foi posta à cargo do construtor técnico dos capuchinhos, frei Egydio de Abetone.

Poucos meses mais tarde, em 27 de maio de 1934, era realizada a benção e o lançamento solene da pedra angular do edifício do Convento de São José, que foi coberta de laje de pedra lavrada e cimento, na parte angular dos alicerces. O terreno compreendia uma área de 3 alqueires, sendo adquirido pela Ordem Seráfica da família do dr. Augusto Freire de Matos Barreto, conforme escritura lavrada no 11º Ofício da Comarca de São Paulo. Às 16h, partiram da Igreja Matriz de São Sebastião, após a missa grandemente concorrida, dois andores: no primeiro, carregava-se a pedra angular; no outro, uma imagem de São José, escultura feita com cedro pelo escultor italiano, Giacomo Scopoli. Entre o repique dos sinos, o estampido dos fogos de artifício e a música das duas bandas presentes, o povo assistiu um marco na história de Mococa. A benção da pedra fundamental foi feita pelo monsenhor Argilio e pelo frei Manoel.

Lançamento da pedra fundamental do Convento, em 27/05/1934, presentes, ao centro, monsenhor dr. Argilio Malatesta e frei Manoel de Seregnaro. Acervo de Antonino Silva.

Dom Alberto José Gonçalves, ao centro; ao seu lado esquerdo, monsenhor dr, João Lauriano, e do lado direito, monsenhor dr. Argilio Malatesta, ladeados pelos frades capuchinhos. Fotografia do jornal Correio Paulistano, remasterizada.


Ao centro, Dom Alberto, ladeado pelos monsenhores João Lauriano e Argilio Malatesta, também identificados: prof. Oscar Villares, Maria Dulce Figueiredo Silva, Isabel de Lima Camargo e frei Egydio.


Assinaram a ata as seguintes pessoas: monsenhor Argilio Malatesta; frei Manoel de Seregnaro; frei Angelo Maria do Bom Conselho; frei Egydio de Abetone; dr. Albertin Nogueira, prefeito municipal; dr. Genésio Candido Pereira, juiz de direito; Vicente Parisi Filho, juiz de paz; Mari Pavan, coletor estadual; dr. Florindo Longo, promotor; Onofre Miranda, coletor federal; Adalberto dos Santos Figueiredo; Francisco Muniz Barreto; João Baptista de Lima Figueiredo; Antonio Lima Figueiredo; Francisco Pereira Lima; dr. Francisco de Lima Camargo; João Bento da Silva; Antonio Peres Fernandes; Oscar Villares; Homero Leite; Maria Isabel de Lima Camargo; Ermelinda Vieira; Isabel do Prado Barreto; Hilda Silva; Maria Garcia de Figueiredo; Maria Vieira do Prado Barreto; Eunice Vieira Barreto; Maria Dulce da Silva; e Clarice Silva.  

Além das bases inaugurais da ideia de se erigir o convento por frei Bernardino, não é possível não fazer menção às abnegadas senhoras, que lançaram-se às campanhas para que uma ideia virasse realidade. Dona Maria Isabel de Lima Camargo, Maria Dulce da Silva, Marina Garcia de Figueiredo e Anna Ranulpha de Abreu, verdadeiras forças para que o Convento fosse do mundo das ideias ao plano tangível.

A inauguração do convento foi muito festiva. Ocorreu em 7 de julho de 1935, há 90 anos. Foi, aliás, sua inauguração parcial. Nos dias 3, 4 e 5, foi realizado um tríduo e, no dia 6, chegou à cidade de Mococa o bispo diocesano, Dom Alberto José Gonçalves, e o vigário-geral da diocese, monsenhor dr. João Lauriano. No largo da Igreja Matriz de São Sebastião, grande massa popular reuniu-se. Dr. José Thiago de Siqueira Junior proferiu um eloquente discurso, saudando o bispo diocesano e a Ordem Capuchinha. Dom Alberto também discursou, informando que os capuchinhos sempre foram desejosos de possuir uma casa em Mococa e que, naquele momento, quase concluída a obra, seria o maior convento da Ordem no Estado de São Paulo até então.

No dia seguinte, 7, às 8h, após a missa, uma procissão partiu da Igreja Matriz rumo ao Convento, levando as imagens de São José e de São Francisco. Dom Alberto, acolitado pelos monsenhores Lauriano e Malatesta, pelo padre Ditino Della Parte e pelo superior regular dos capuchinhos, frei Manoel de Seregnaro, procedeu a benção da capela e do Convento, enquanto um coro de clérigos da Ordem, sob a regência de frei Alexandre, entoavam belos hinos e cânticos. Terminada a benção, foi a vez de discursar o dr. Francisco Teive de Almeida Magalhães que, com tamanho brilho, discorreu sobre as valiosas glórias da Ordem Capuchinha através dos tempos. Logo após, frei Modesto de Rezende discursou sobre as vicissitudes da construção, mas teceu grandes elogios à comissão das obras e à nobreza de coração do povo de Mococa. O valor total arrecadado foi de quase 105 contos de réis.

O bispo permaneceu mais alguns dias em Mococa, partindo para Ribeirão Preto na manhã do dia 10 de julho. No dia seguinte, enviou uma missiva à Paróquia, nos seguintes dizeres:

Mons. Argilio,

Mais um avez agradeço as suas gentilezas para commigo. Peço que em meu nome agradeça aos jornaes as homenagens que me prestaram.

É necessário que V. Revma. faça constar no Livro de Tombo a cerimonia da benção do Convento com a descripção dos actos. Lembre também que administrei o Sacramento da Confirmação a 2.109 pessoas, durante os dias de minha permanência ahi.

Fizemos boa viagem.

Do servo em N. S.,

+ Alberto, Bispo Diocesano

Em 1942, as obras da Igreja do Convento começaram. Seria posta a cargo do frei Egydio de Abetone, projeto do frei Alberto de Estravino. Sua inauguração ocorreu no dia 19 de março de 1947, com uma missa celebrada na velha capela pelo padre João Bueno Gonçalves. Logo após, uma procissão levou a imagem de São José até a nova igreja, imagem esta que foi benta e entronada, realizando-se nova missa solene e cantada, sendo amplamente concorrida. Estava, afinal, encerrada as obras do Convento de São José.

Igreja e Convento de São José. Acervo de Antonino Silva.

Os frades capuchinhos teriam grande participação na cidade de Mococa. Auxiliariam os párocos, ministrariam os cursos de catecismo, celebrariam missas nas capelas urbanas e rurais. Seriam os freis muito bem quistos pela cidade.

Em junho de 1966, era instalado o relógio da torre do Convento, cuja comissão executiva das obras era composta pelos senhores Ary Alberto Vidotto, Raul Moffi e Hélio Destro, e contou com a contribuição das seguintes empresas: SAEMA - Empresa de Mecanização Agrícola Ltda; Alexandre Cunali S/A - Industrial, Comercial e Agrícola; Metalúrgica Mococa S/A; Metalgráfica Rogek Ltda; Laticínios Mococa S/A; Irmãos Nicola S/A; Indústrias Votorantim S/A; Indústria de Comércio de Cola Santo Antônio S/A; INCOTEMA - Indústria e Comércio Têxtil Mococa S/A; Banco F. Barretto S/A; e sr. Paulo de Barros Whitaker.  

Segundo listagem feita pelo professor Carlos Paladini, em seu livro Mococa: Igrejas e Capelas,  foram guardiões do Convento, os freis: Salvatore de Cavedine, 1935; Angelo Maria de Taubaté, 1938; Emanuele de Seregnaro, 1938; Plácido Maria de Descalvado, 1939; Mansueto de Jaboticabal, 1942; Marcos de Álvares, 1947; Germano de Taubaté, 1950; Anselmo de Taubaté, 1954; Tiago de Cavedine, 1957; Roberto de Rocinha, 1960; Germano de Taubaté, 1960; Martinho de Rio das Pedras, 1962; Plácido Maria de Descalvado, 1965; e Jorge de Funchal, 1965. A Ordem dos Capuchinhos, segundo Antonino Silva, deixou a cidade em 25 de fevereiro de 1979, o que foi grandemente sentido pela população mocoquense.

Após a saída dos capuchinhos, no Convento funcionou por certo tempo a Faculdade de Biblioteconomia do Instituto de Ensino Superior de Mococa e, posteriormente, um hospital psiquiátrico. Nos anos de 1990, Dom Dadeus Grings convidou os membros da Comunidade Missionária da Providência Santíssima para fazer uso das dependências do Convento de São José.

Fundada em 27 de outubro de 1984, pelo monsenhor Orlando Aparecido de Souza Pannaci, pela irmã Lucinéa Maria Ficoto e pela irmã Zélia Maria Pereira, a Providência Santíssima “quer trabalhar na implantação e consolidação do Reino de Cristo nas almas e levar à todos os cantos da terra, com a oração, a ação e o testemunho, aquilo em que acredita e que vive”, conforme informações de seu próprio site. Além do trabalho missionário, constituíram o Instituto de Filosofia e Teologia “São Francisco e Santa Clara de Assis”, que possui autorização da Diocese de São João da Boa Vista para ministrar cursos e para conceder títulos acadêmicos em seu nome. Em 18 de janeiro de 2002, Dom David Dias Pimentel, então bispo diocesano, autorizou o curso de Filosofia; no mesmo ano, em 19 de outubro, foi aprovado o curso de Teologia.

As dependências do Convento, erigido pelos capuchinhos, hoje é zelosamente guardada pelos membros da Providência Santíssima, que, da mesma forma, semeiam o trabalho missionário na cidade de Mococa.

Aspecto do Convento e Igreja, acervo do autor. 


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