quarta-feira, 16 de julho de 2025

CATHARINA CANDIDA DE SENNA, A FUNDADORA ESQUECIDA DE MOCOCA

 

por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti



Assinatura de dona Catharina Candida de Senna no seu testamento. 

Dona Catharina Candida de Senna é lembrada apenas nos rodapés da história de Mococa, pois, quando os historiadores analisaram a sua participação no surgimento do povoado de São Sebastião da Boa Vista, verificaram que, em 1843, sua contribuição estaria encerrada. Desse momento em diante, não é mencionada nos livros. Devido à sua participação considerada limitada, especialmente subsumida à memória de seu marido, seus dados biográficos não foram pesquisados a fundo.

Segundo informações, Catharina Maria de Jesus, seu nome de batismo, teria nascido por volta do ano de 1792, no território da Vila de São João del Rei. Em seu assento de casamento, consta que era natural de Lavras, em Minas Gerais, local onde seus pais, Miguel Joaquim da Cunha Bastos e dona Helena Joaquina da Silva, se casaram em 28 de julho de 1783. A guisa de curiosidade, segundo narra Waldemar de Almeida Barbosa, a capela em devoção à Sant’Ana fora elevada à categoria de Matriz por provisão de 21 de novembro de 1760, de Dom Frei Manoel da Cruz, primeiro bispo de Mariana. Desde 3 de abril de 1754, fora provisionada a sua pia batismal. 

Pela provisão de 18 de setembro de 1751, obtiveram os moradores das Lavras do Funil, freguesia de Carrancas, licença para erigir uma capela em honra da Senhora Santa Ana. E Luís Gomes Salgado, para patrimônio da dita capela, doou umas capoeiras nas vizinhanças da referida capela, conforme sentença de aceitação datada de 21 de abril de 1753. A provisão de pia batismal, teve-a a capela em 3 de abril de 1754. Tem-se a impressão de que o arraial, formado em tôrno da capela, cresceu rapidamente, pois, em 1760, tinha já mais moradores que a própria sede da freguesia, isto é, Carrancas. Nesse ano de 1760, o juiz das diligências do Bispado de Mariana, Pe. Dr. José Soares Aranha Brandão, visitando a matriz de Carrancas e capelas filiais, mostrou a necessidade de nova matriz, pois a que havia em Carrancas pertencia a particular, não tinha adro, nem comodidade para procissões. Ciente do fato, os moradores da Aplicação da capela de Santana das Lavras do Funil dirigiram um apêlo ao sr. Bispo, pedindo a transferência da sede da paróquia de Carrancas para a capela de Santana; alegaram que estavam construindo nôvo corpo da: igreja, ficando a parte antiga como capela-mor. Entre os signatários da petição figuram nomes conhecidos, como Bartolomeu Bueno do Prado, Diogo Bueno da Fonseca etc. O requerimento foi remetido ao vigário de Carrancas, Pe. Manoel Martins, que deu parecer favorável, alegando, entre outras cousas, que Carrancas tinha uns 500 moradores, enquanto a Aplicação de Santana tinha mais de mil. A provisão de Dom Frei Manoel da Cruz, primeiro bispo de Mariana, datada de 21 de novembro de 1760, determinava fôsse a capela de Santana das Lavras do Funil erigida em Matriz da paróquia “que até agora se intitulava das Carrancas” (Barbosa, 1971, p.265).

Pouco depois de seu nascimento, seus pais peticionaram ao governo da Capitania, solicitando concessão de sesmaria no Pé da Serra do Curralinho, termo de São João Del Rei. O despacho foi datado de 22 de setembro de 1794.

Em 1º de junho de 1808, Catharina se casa com o português, Antonio José Gomes, natural da vila de Freira, freguesia de Sanfins, bispado do Porto, filho de Antonio José Gomes de Mattos e de Ana Maria de Jesus. O casamento ocorreu na capela filial de São Miguel do Cajuru, Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del Rei, conforme o seu assento transcrito, abaixo:

Matriz de Nossa Senhora do Pilar de S. João del Rei, MG e capelas filiadas cap. S. Miguel do Cajuru aos 01-06-1808 Antonio Jose Gomes, n. freg. Sanfins da vila da Feira Bispado do Porto, f.l. Antonio Jose Gomes de Mattos e Ana Maria de Jesus = cc Catarina Maria de Jesus, n. N. Sra do Porto-Lavras, f.l. Miguel Joaquim da Cunha Bastos e Helena Joaquina da Silva, Test.: Alf. João Bastista Barroso e Manoel Joaquim Villas Boas (Sette e Junqueira, 2016, http://www.projetocompartilhar.org/Familia/JoaoAlvesCampos.htm).

É provável que seu irmão, Joaquim José da Cunha Bastos, casado em Alfenas, em 1821, tenha sido o primeiro da família a se estabelecer no sul de Minas, inaugurando tais caminhos para que, anos mais tarde, dona Catharina descesse rumo aos sertões do rio Pardo, nos tempos da intensificação de sua povoação, onde estabeleceu com seu marido e seus filhos. Adquiriram uma vasta propriedade, que foi denominada fazenda Ribeirão do Meio. A essa altura, já era Catharina Candida de Senna, nome que deriva de sua devoção à Santa Catarina de Senna.

Mário Leite, autor de Paulistas e mineiros, edificadores de cidade, escreve que, entre as grandes propriedades da Água Limpa, de José Christovão de Lima, estabelecido em meados de 1822, e da Alegria, cujo dono, Diogo Garcia da Cruz, a adquiriu em 1833, existiam vários sitiantes e fazendeiros de propriedades menores, citando:

Entre “Alegria” e “Água Limpa”, constituídos em fulcros da região desbravada, surgiram pequenos núcleos, povoados por parentes e amigos de Diogo Garcia da Cruz e de José Christovam de Lima, contando-se Antonio José Gomes, luso, ligado à família de Diogo Garcia da Cruz, José Caetano de Figueiredo, Francisco José Barbosa, Joaquim Custódio Dias, Manoel Pereira dos Santos e Manoel Vicente da Rocha (Leite, 1961, p. 196).

Humberto de Queiroz, farmacêutico e primeiro historiador de Mococa, em sua famosa biografia, narra que, nos anos de 1840, diversos proprietários de terras encontravam-se estabelecidos em suas fazendas, mencionando:

[...] entre os lavradores mais abastados desse tempo, tempo em que não existia uma só casa onde é hoje a cidade de Mocóca, contavam-se os seguintes: Diogo Garcia da Cruz, na Alegria; José Christovam de Lima, na Água Limpa; Antônio José Gomes, no Ribeirão do Meio; José Gomes da Lima, na Bôa-Vista; Francisco José Barbosa, na Pedra Branca; José Caetano de Figueiredo, na Cachoeira; Joaquim Custodio Dias, na Lage; José Pereira dos Santos (Pae), em Sta. Thereza, todos já falecidos e Manoel Vicente da Rocha, que vive ainda, com perto de 100 anos, na Ressaca (Queiroz, 1913, p. 24).

O grau de ligação entre a família de Antonio José Gomes e de Diogo Garcia da Cruz não foi bem explicitado pelo autor. Talvez, fosse alguma especulação, devido ao sobrenome “Gomes”, que ganhou reverência na região através de José Gomes de Lima, ligado ao capitão Diogo pelo casamento com sua filha, Maria Constança de Figueiredo. Antonio José Gomes aparece como uma das figuras que ajudou na construção da capela de São Sebastião.

Em 1839, o casal, devido à fé de dona Catharina aos santos católicos, São Sebastião e São Francisco das Chagas, realizou a doação de 16 alqueires de terras para que fosse erigida a capela. Ocorre, porém, que quatro anos depois, em 1843, o capitão José Gomes de Lima, segundo Humberto de Queiroz, desgostou de a localidade ser muito próxima de sua fazenda e permutou as terras com o casal.

No dia 4 de julho de 1846, Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade concede provisão para que erigisse uma capela em louvor à São Sebastião, no território da Vila de Casa Branca, atendendo, assim, à representação de Venerando Ribeiro da Silva.

Provisão de ereção da Capela de São Sebastião da Boa Vista na vila de Casa Branca favor de Venerando Ribeiro da Silva digo da Freguezia de Batatais e Cajurú.

D. Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade por mercê de Deus e confirmação da Santa Sé Apostólica, bispo de São Paulo do Conselho de S. Majestade o Imperador Grã Cruz da Ordem de Cristo.

Aos que esta nossa provisão virem saúde e benção em o Senhor. Fazemos saber que atendendo ao que por sua petição nos representou Venerando Ribeiro da Silva, e mais povos da freguezia de Cajurú, havemos por bem pela presente conceder faculdade para que possam fundar e erigir e edificar uma capela em a povoação de São Sebastião contanto que seja em local decente, alto, livre de umidades, desviado o quanto possível de lugares imundos e sórdidos, e de casas particulares, não sendo porém em lugar ermo, e despovoado, e que tenha âmbito em roda para poderem andar procissões, o qual lugar será assinalado pelo muito digno Vigário da Vara e observando o que determina a Constituição do Bispado e depois de acabada não se poderá nela celebrar missa sem licença nossa para a qual precederá informação do lugar da decência e comodidade da dita capela, e competente patrimônio. Esta será registrada no Livro do Tombo da Matriz para a todo o tempo constar. Dada em Câmara Episcopal de São Paulo sob nosso sinal e selo de nossas armas aos 4 de julho de 1846. E eu o padre Maximino José Corrêa da Silva escrivão ajudante da Câmara Episcopal a escrevi. D. Manoel, Bispo Diocesano. Chancelaria, 12$000 (Campanhole, 1979, p. 535).

A participação do casal depois deste episódio verificou-se como limitada e sequer mencionada nos livros. De fato, a ideia inicial de erigir um patrimônio para satisfazer as necessidades religiosas seria de dona Catharina, a qual, segundo entendemos em análise aos Autos de Divisão da Fazenda Ribeirão do Meio, de 1859, que seria a proprietária da referida fazenda, uma vez que seus filhos atestam que receberam a propriedade de herança materna.

Dona Catharina firmou o seu testamento em 10 de novembro de 1851, redigido por José Antonio Rodrigues Miranda. Em suas disposições, solicita que sua família, além das missas habituais, rezasse mais trinta missas por sua alma. À sua neta, Maria Silveria, deixou uma escrava de 6 para 7 anos de idade, mas, caso não fosse possível, legava o importe de quinhentos mil réis. Ela faleceu em 26 de junho de 1853; seu marido faleceria em 11 de outubro de 1856, tendo ditado seu testamento cinco dias antes,  sendo sepultado com o hábito de São Francisco na antiga capela de São Sebastião. Em 1859, quando foi instaurada a divisão da fazenda do Ribeirão do Meio, verificamos que a propriedade possuía 483 alqueires de terras de qualidade variada, avaliada em dez contos de réis.

A divisão da fazenda foi assim disposta: à Venerando Ribeiro da Silva, 304 alqueires e três quartas; à José Gomes d’Avellino, filho, 108 alqueires e 1 quarta; à João Francisco Lemes, 30 alqueires; à Antonio Joaquim Barbosa, 30 alqueires; e à Francisco de Paula Gomes, 10 alqueires.

Dona Catharina foi colocada como uma personagem marginal da história de Mococa, embora sua colaboração tenha sido vultuosa. Foi a principal fomentadora dos desígnios da vindoura cidade. Esta pequena contribuição visa salvar o seu legado e sua memória. É, afinal, a fundadora de São Sebastião da Boa Vista, embora quis o destino que sua doação de terras fosse alvo de permuta, o que levou ela e o marido ao rodapé da história de Mococa.  

Fontes: 
BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário histórico-geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: 1979. 

CAMPANHOLE, Adriano. Memória da cidade de Caconde. São Paulo: Edição do autor, 1979.

SETTE, Batyra e JUNQUEIRA, Regina. João Alves Campos e Maria Leme da Silva. Projeto Compartilhar (disponível em http://www.projetocompartilhar.org/Familia/JoaoAlvesCampos.htm, acesso em 16 de julho de 2025). 

QUEIROZ, Humberto de. A Mococa: de sua fundação até 1900. Edição organizada e revisada pelo Instituto Bruno Giorgi. Mococa: KKRibeiro.com, 2024

Um comentário:

  1. Excelente matéria, sempre tem algo que passa despercebido, um detalhe aqui outro ali. Mas a História prossegue. Ainda mais hoje com os arquivos abertos e pessoas dispostas aparecem personagens que ficaram no anonimato

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