terça-feira, 1 de julho de 2025

NOTAS HISTÓRICAS SOBRE A CAPELA DA APARECIDA


Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Fotografia publicada na Revista Nação Brasileira, em 1926.

A partir da década de 1860, enquanto a capela de São Sebastião era ampliada nos paroquiatos dos padres Lourenço Evangelista Della Moglie e padre Joaquim Feliciano do Amorim Sigar, tornando-se efetivamente uma Igreja Matriz, o bairro além do Ribeirão do Meio era designado República. O nome adveio de José Bento Vieira Sobrinho, farmacêutico que chegou em Mococa em 1862, segundo narra Humberto de Queiroz, em seu livro, A Mococa: de sua fudação até 1900 (1913). Nos dias atuais, a República abrangeria principalmente os bairros do Brás, Descanso e Aparecida. Quando a Companhia Mogyana de Estradas de Ferro inaugurou a estação de Mococa, em 18 de março de 1890, o seu entorno foi referido como Bairro da Estação, “desmembrado” da República.
Era uma época de expansão da cidade. Em 18 de outubro de 1890, em substituição ao padre Ernesto Lages, é provido para a Paróquia de São Sebastião o padre Bento Monteiro do Amaral (1867-1954), vindo de Brotas com um grande espírito reformador em seu cerne. Empreendeu as obras da nova Igreja Matriz, da capela de Santa Cruz, na Mocoquinha, e da capela de Nossa Senhora Aparecida, no bairro da República e Estação. Foi Luiz Ricci, italiano, o doador do terreno.
O Bispado de São Paulo, através de Provisão de 30 de dezembro de 1890, autorizou a construção da capela, cuja benção da pedra fundamental deu-se em 20 de janeiro de 1891, conforme termo lavrado no Livro de Tombo da Paróquia, abaixo transcrito:
"Termo de Bênção da Pedra fundamental da Capella de Nossa Senhora Apparecida.
Aos dias vinte do mez de Janeiro de mil oitocentos e noventa e um, nesta Parochia de São Sebastião da Boa Vista, na cidade Mococa, Estado e Diocese de São Paulo, em virtude da Delegação que esepecialmente me foi conferida pelo Exmo. e Revmo. Snr. Bispo Diocesano, por sua Veneravel Provisão de 30 de Dezembro de mil oitocentos e noventa, que é do theor seguinte: D. Lino Deodato Rodriguez de Carvalho, por mercè de Deus e da Santa Sé Apostolica, Bispo de São Paulo, etc. etc.
Aos que esta Nossa Provisão virem, Saude e Benção em Senhor.
Attendendo ao que por sua petição nos representou o Revmo. Pe. Bento Monteiro do Amaral, Vigario Encomendado da Parochia de São Sebastião da Boa Vista, da cidade Mococa, deste Bispado.
Havemos por bem, pela Presente, conceder Faculdade para que nos terrenos de propriedade do cidadão Luiz Ricci, n'essa mesma Parochia, se possa erigir e fundar uma Capella, sob a invocação da Nossa Senhora Apparecida, filial à Matriz da referida Parochia, com tanto que seja em lugar alto, livre de humidade, desviado quanto possivel de lugares Imundos e casas particulares e que tenha ambito em roda para andarem procissões, sendo o local para tal fundação designado pelo respectivo Parocho, a quem autorizamos para benzer a primeira pedra do edificio, na forma do Ritual Romano; na mesma Capella não se poderão celebrar os officios Divinos sem nova Provisão Nossa, para cuja acquisição precederá a necessaria informação Parochial sobre sua capacidade e decencia".

As obras começaram. A capela teria certo requinte a mais do que a capela de Santa Cruz, mas não seria inaugurada tão cedo. Em 1902, Luiz Ricci organiza uma festa em louvor à Nossa Senhora Aparecida, visando angariar fundos para a conclusão da capela. Em 1903, organiza outra festa, muito bem frequentada. Ocorre, contudo, que o destino não desejou que a Capela fosse tão já inaugurada. Um mês depois da festa, em 15 de novembro de 1903, Luiz sofreu um acidente e faleceu. As obras e movimentações em torno da capela cessaram.
Fotografia publicada no jornal A Mococa, em 1936.

Somente em 1919, no paroquiato do monsenhor doutor Felix Brandi (1858-1939), teve-se a iniciativa de retomar as obras. Uma grande festa foi organizada, tendo como festeiros, segundo narra o professor Paladini, no livro Assim Nasceu Mococa (1995), Zacarias Fernandes Pinheiro e sua esposa, Lina Leopoldina Pinheiro. Foi bem frequentada, diga-se de passagem, e os valores arrecadados colaboraram para que, em 7 de maio de 1921, fosse realizada a inauguração, com a presença do bispo da Diocese de Ribeirão Preto, Dom Alberto José Gonçalves, o qual procedeu a benção da capela.
Fotografia publicada no jornal A Mococa, em 1956.

Alguns anos mais tarde, da mesma forma que as capelas de Nossa Senhora da Luz de Igaraí, São Benedito, de Nossa Senhora Aparecida de Estação de Canoas e Santa Cruz, a capela da Aparecida foi entregue aos cuidados dos frades capuchinhos do Convento São José.
Fotografia disponível no site da Prefeitura de Mococa, antes da pintura atual.

Em 28 de dezembro de 1935, uma comissão foi nomeada pela Diocese de Ribeirão Preto, visando proceder com a reforma da capela, sendo constituída da seguinte forma: Alexandre Cunali, presidente; Pedro Nicola, tesoureiro; Pedro Cunali, secretário; e o Ver. Frei Egydio Albertone foi nomeado construtor técnico. As obras começaram em 1936 e foram concluídas um ano mais tarde.
Com os anos, algumas intervenções foram feitas na capela, como a pintura externa e a remoção da balaustrada que ladeava a escadaria da entrada.
Aspecto atual da Capela, Google Maps.

Atualmente, faz parte da Paróquia de Santo Antônio, tendo como pároco titular, padre João Marcos Moreira.

RÁPIDA BIOGRAFIA DE LUIZ RICCI

Pouco se sabe sobre o italiano Luiz Ricci. Chegou no Brasil em meados dos anos de 1880, sendo naturalizado brasileiro em novembro de 1887. No ano seguinte, em maio de 1888, foi nomeado 1º suplente de delegado de polícia, em Mococa, função que desempenhou até meados de dezembro de 1891. Foi vereador, nos tempos do Conselho de Intendência, em 1891.
Em 10 de setembro de 1892, foi nomeado para o 122º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, de Mococa, patente de alferes. Pedreiro, foi o doador do terreno e principal protagonista da construção da capela de Nossa Senhora Aparecida.
Em 15 de novembro de 1903, um mês depois de organizar a festa da Aparecida, foi vitimado por uma violenta pancada no peritônio e nas vísceras, enquanto realizava as molduras no frontispício da capela, falecendo após horas de agonia. Nesta ocasião, já não possuía três dedos da mão direita, decepados por uma serra circular, em sua oficina. Deixou mulher e não se tem ciência se tinha descendêcia. A cidade de Mococa ficou enlutada e as obras da capela, estagnadas.

Notícia veiculada pelo jornal, O Estado de S. Paulo, em 10/09/1892, com a nomeação dos novos membros do 122º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, em Mococa, sendo Luiz Ricci nomeado alferes.


ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES PARA O HISTÓRICO DA CAPELA
Por Sander Rogerio Ribeiro Pereira

Acredito, embora até o momento sem documentação que possa comprovar, que o risco arquitetônico desta capela seja de autoria do arquiteto italiano Paulo Victorio Lanzoni (1858 - 1941). Uma nota a ser assinalada sobre a história da "villa" ou bairro da Aparecida é que em dezembro de 1908, o coronel Olympio Carvalhaes (? - 1927), sugeriu o aproveitamento do bosque que se erguia no bairro da Aparecida para uma festividade social. E sua lembrança foi tão feliz que em menos de dois meses o bosque estava muito bem preparado e a festa se realizou com muita pompa e entusiasmo, contando com a presença da Filarmônica Mocoquense.

A imagem de Nossa Senhora Aparecida
Fotografia da imagem, acervo de Sander Rogerio.

A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (fac-símile), presente no altar-mor da capela, exibe cabelos curtos, similar à imagem original do Santuário Nacional de Aparecida, SP, cujos cabelos eram igualmente curtos, não ultrapassando os ombros. Os cabelos longos na imagem original foram introduzidos em 1978, durante a restauração – seria mais apropriado dizer "reconstrução" – da imagem, após ter sido danificada em múltiplos fragmentos por um indivíduo com transtornos psicológicos. A intenção era que os cabelos maiores auxiliassem na fixação da cabeça ao corpo. Este restauro, liderado por Maria Helena Chartuni, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), resultou em uma reformulação significativa da imagem, especialmente da cabeça, a área mais afetada. A comparação de fotos pré e pós-restauro evidencia as mudanças nos traços faciais, incluindo a alteração dos cabelos e a modificação da forma, que era mais arredondada e com traços mais delicados. A imagem da capela foi restaurada em 2015, a pedido do padre Fábio Donizetti Golfetti , então pároco da paróquia de Santo Antônio e Santa Clara e manteve suas características originais


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