Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
Há poucos dias, a capela de Nossa Senhora Aparecida, situada em Canoas, o pequeno povoado do Município de Mococa, nos limites com Minas Gerais, comemorou seus 90 anos de inauguração.
O povoado surge em decorrência da inauguração da estação da Mogiana, em 1890, por iniciativa, segundo depoimentos, de João Nicola.
Aquele local, no começo do século XX, aparece na divisão dos quarteirões eleitorais como "Pedra Branca", sendo eleitores da localidade: Antônio José Vieira, Antônio de Oliveira Rocha, Antônio Ferreira Guimarães Junior, Bernardino Teixeira Bastos, Evaristo Teixeira da Silva, Henrique Longuinho Pimenta, Honório Teixeira da Silva, José Candido Pinto, Joaquim Garcia de Figueiredo, Joaquim Teixeira da Silva, Joaquim Candido Pinto, Joaquim Gomes Saldanha, Lourenço Xenofante Staffa e capitão Olimpio Garcia de Figueiredo.
O local estratégico, situado na fronteira entre Minas e São Paulo, bem como situada uma estação ferroviária, que possibilitava o transporte de cargas e do café das grandes fazendas limitrofes, elevou Canoas a um ponto comercial considerável.
Os anos se passaram e mais famílias chegaram: Coelho Marcelino, Espírito Santo, Del Telesco, Mancuso, dentre tantos outras que depositaram na prosperidade do povoado as suas esperanças.
Em junho de 1934, de modo a atender as necessidades espirituais daquele bom povo, uma comissão foi formada, de modo a realizar as obras da vindoura capela, assim composta: Olimpio Garcia de Figueiredo, presidente; dr. Francisco Pereira Lima, vice-presidente; João Del Tedesco, tesoureiro; e Aristides Del Tedesco, secretário.
O terreno foi doado pelo capitão Olimpio, conforme contrato particular de doação, abaixo transcrito:
"Contracto por instrumento particular de doação pura e simples.
Entre Olympio Garcia de Figueiredo, brasileiro, lavrador, viuvo, residente neste municipio, e a Fabrica da Igreja Matriz, entidade juridica de mão morta, com sede nesta cidade, neste acto representada pelo seu fabriqueiro e vigario desta parochia Mons. Argilio Malatesta, fica justo, combinado e contractado o seguinte: Olympio Garcia de Figueiredo é senhor e possuidor de um terreno a beira da estrada que da estação de Canôas, deste municipio, vae a Arceburgo, do Estado de Minas Geraes, medindo 25 metros de frente por 40 metros da frente aos fundos, ou sejam mil metros quadrados; que o alludido terreno foi desmembrado do sitio “Canôas” que por sua vez é desmembrado do imóvel “Pedra Branca”, deste municipio, sitio esse que houve por compra feita a Azarias Pereira da Silva, conforme escriptura publica lavrada nas notas do 1º tabelião desta cidade, em 21 de março de 1920, sob nº 4.129 e confrontando o mesmo em sua totalidade com o doador, Rio Canôas e com a estrada pública que vae à fazenda de João Baptista de Souza; que nesse terreno está sendo construída uma Igreja sob a invocação de Nossa Senhora Conceição Apparecida.
Que possuindo o alludido terreno livre e desembaraçado de quaesquer onus, de sua livre e espontanea vontade e tendo somente em vista os seus sentimentos religiosos e catholicos, cuja causa deseje que se estenda cada vez mais, faz doação pura e simples do mesmo à Fabrica da Matriz desta cidade, estimando o alludido terreno na importância de quinhentos mil reis (500$000); que assim cede e transfere à mencionada Fabrica toda a posse, domínio, direito e acção que tenha no alludido terreno para que do mesmo use e goze como seu que fica sendo, abrigando-se o mesmo doador por si, seus herdeiros ou successores, em qualquer tempo fazer esta doação boa, firme e valiosa e responder pela evicção do direito.
A Fabrica da Matriz desta cidade por seu fabriqueiro supra mencionado, declara aqui aceitar este instrumento particular de doação. Declarando mais que pagará impostos de transmissão inter-vivos por occasião de ser este instrumento transcripto no Registro Geral desta comarca. Assim juntos e contractados mandaram lavrar este instrumento em duas vias na forma da lei, que assignam na presença de duas testemunhas, abaixo.
Mococa, 23 de Maio de 1934.
(a.) Olympio Garcia de Figueiredo
Mons. Argilio Malatesta
João Del Tedesco
Affonso Prescendo
Esta copia do contracto de doação do terreno, onde está sendo construída a Capela de N. S. Apparecida em Canoas e por mim lavrada está conforme o original remetido a Curia Diocesana para os dins de direito. O Vigario (a.) Mons. Argilio Malatesta. Mococa, 1º de junho de 1934".
As obras ficaram sob a responsabilidade de João Del Tedesco. Diversas doações foram realizadas, podendo-se citar: os sinos, vindos da J. Nicola e irmãos; a imagem de Nossa Senhora Aparecida, doada por José Augusto dos Santos; a imagem de São José, pelo dr. Arthur De Lucca Neto; São Sebastião, por dr. José Armando; e os lustres, pelo dr. Américo Pereira Lima.
Em 17 de novembro de 1935, após uma missa muito concorrida, celebrada pelo padre Salim Abrão, da Paróquia de São João Batista de Arceburgo, fez-se a esperada inauguração, para o júbilo dos moradores de Canoas.
Em 30 de abril de 1944, a fé novamente moveu seus habitantes, sob a orientação e iniciativa do frei Isidoro de Telve, capuchinho, e de dona Maria da Conceição de Mourão Figueiredo, que coordenaram a criação da Irmandade de Nossa Senhora Aparecida, integrando-a como zeladores: Pedro Rossetti, João Caetano da Silva, Francisco Marioto, Primo de Sordi, João Jacinto Alves, Rosa Mancuso, Celina de Moraes, Geralda Pontes, Carolina Bini e outros 52 membros.
Assim como as demais capelas filiais da Paróquia de São Sebastião de Mococa, a capela de Canoas foi entregue aos cuidados dos freis capuchinhos.
Hoje, zelam pela Capela a Paróquia de Santa Cruz, podendo-se mencionar os cuidados promovidos por Antônia Regina Mancuso Silva, Natalina Marcelino Balan e Moisés Campos, sob a competente supervisão do padre Antônio Carlos Ferreira de Souza.
Em abril de 2025, com o lançamento do livro "A Igreja do Morro", que rememora os 70 anos da Igreja de Santa Cruz, o povoado de Canoas teve sua história narrada com primor pelo renomado historiador, Sander Rogerio, no capítulo "A Estação Canoas: Achegas para sua história".
Canoas nasceu sob a proteção dos trilhos do trem; minguou pela força do asfalto e dos automóveis. As vicissitudes do destino diminuíram sua população e seu comércio, mas não fizeram esmorecer em nada a lembrança de seu povo e da cidade de Mococa, que nutre, por aquele pequeno povoado, admiração pelas glórias do passado.
Fotografia: capela de Nossa Senhora Aparecida, de Canoas, publicada em 1936 no A Mococa.

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