Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti
A inteligência artificial cogitou nos deslumbrar com uma interpretação de como seria a antiga sede, hoje não mais existente, com base no desenho do Visconde de Taunay.
Segundo nossas pesquisas, um dos
antigos moradores da região de Mococa seria José da Silva Santos, que recebeu
carta de sesmaria em seu favor, contendo “uma légua de terras de testada
e três de fundo, no termo da Villa de Mogy Mirim, no sertão encostado à beira
do Rio Pardo, principiando a medição da légua de testada na barra que faz no
dito rio Pardo o córrego do Barreiro, chamado de Jacutinga”, emitida em
16 de fevereiro de 1815, embora criasse gado na região há algum tempo. Depois,
vieram a família do alferes João de Souza Nogueira, em 1820 na sesmaria da
Zabelonia, e José Christóvão de Lima, na fazenda da Água Limpa.
Na década de 1830, é possível
observar um povoamento mais dinâmico e constante, embora houvessem diversos
sitiantes e posseiros espalhados pelo território. A história oficial de Mococa
carece de certas corrigendas, que as pesquisas sérias e fulcradas em fontes
primárias hão de desbravar. Humberto de Queiroz destaca os seguintes
fazendeiros: Diogo
Garcia da Cruz, na Alegria; José Christovam de Lima, na Água Limpa; Antônio
José Gomes, no Ribeirão do Meio; José Gomes da Lima, na Bôa-Vista; Francisco
José Barbosa, na Pedra Branca; José Caetano de Figueiredo, na Cachoeira;
Joaquim Custodio Dias, na Lage; José Pereira dos Santos (Pae), em Sta. Thereza,
todos já falecidos e Manoel Vicente da Rocha, que vive ainda, com perto de 100
anos, na Ressaca.
A região da Ressaca é a mesma da
antiga Jacutinga. Tratava-se de um grande condomínio rural, por assim dizer,
pois vários eram os proprietários de pequenas ou grandes porções de terras. No auto
de confrontação e avaliação da fazenda da Ressaca, de 1851, consta a informação
de que teria 3.195 alqueires de terras, e um bom número de condôminos. O mesmo
aconteceria na fazenda São João, que ocuparia grandes porções das terras
orientais de Mococa, e diversos eram os proprietários, do rio Pardo até chegar
nas terras da Lage, aproximadamente.
Uma figura
esquecida foi Cirino Pinto da Fonseca, o proprietário da fazenda da Jacutinga e
do Remanço, ambas na região da Ressaca, entre a fazenda da Prata e o rio Pardo.
Ele já possuía suas terras em 1837, sendo um dos primeiros povoadores. José Crescêncio
de Souza, outro proprietário da região, faleceu em 1851 e possuía terras na
Ressaca. Ao lado desta, havia a fazenda do Tamanduá, propriedade pro
indiviso onde estavam estabelecidos Antonio Malaquias da Silva, Custódio
José de Magalhães, Vicente Lourenço da Silva e tantos outros. A fazenda do
Saltador, também na mesma região, era propriedade de Ignácio Fernandes Garcia,
Miguel Joaquim Pereira, Domingos José Guedes, Manoel Antonio da Rocha e vários
outros.
A fazenda da Boa Vista, do capitão
José Gomes de Lima, objeto de certa controvérsia geográfica, situava-se não na
região de Igaraí, mas sim nas terras da antiga fazenda da Alegria. Eram tão
vastas que iam verticalmente do rio Pardo até o ribeirão das Areias, alcançando
a divisa com Cajuru pela serra da Borda da Mata. Ele, em declaração de 1856,
refere sua propriedade como Zabellona. Não possuía terras além destas. Existiam
sítios e chácaras que levavam o nome “Boa Vista”, especialmente para os lados
de Igaraí e Caconde, mas que não devem ser confundidas com as terras de José
Gomes de Lima.
Bem ao norte, junto ao referido
ribeirão das Areias, existia a fazenda das Areias, também um núcleo de
povoamento – provavelmente, que daria origem à São Benedito das Areias. Em 1856,
situavam-se nesta local Manoel Vicente de Oliveira, Francisco Gonçalves de Castro,
Francisco de Moraes Preto e outros. Em local próximo, mas ainda por definir sua
exata localização, existiu a fazenda do Rio das Pedras, onde vários
proprietários possuíam terras condominiais.
No livro de
registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, lavrado em 1856 pelo
pároco, frei Clemente de Gênova, consta que Venerando Ribeiro da Silva adquiriu
a fazenda do Ribeirão da Prata em 1839, em compra feita à João Lourenço
Cardozo. José Pereira dos Santos, por sua vez, em 24/01/1838, adquiriu as
fazendas da Cachoeira do Ribeirão do Meio, então propriedade de Francisco
Vicente da Costa, e da Barra do Jatobá, de Venerando Ribeiro, posteriormente
unidas e denominadas fazenda Santa Thereza. Os vendedores, aliás, são nomes de
antigos moradores da região.
Na fazenda
das Canoas, na divisa com Minas Gerais, existiu a figura de Lourenço Cabelludo,
apontado como um dos primeiros moradores da região. Seus herdeiros venderam
suas terras ao padre João Rodrigues Martins, em meados de 1830. Há menção,
aliás, que, em 1825, José Custódio Dias possuía a fazenda do Ribeirão das
Canoas, mas provavelmente incorporava-se ao grande núcleo rural da Água Limpa e
Lage, e não à Canoas, onde surgiria a estação e o povoado no final do século
XIX. Estas duas fazendas, aliás, pertenciam à freguesia de Caconde, enquanto as
demais à paróquia de Casa Branca. A fazenda das Canoas confrontava com as
terras da fazenda da Pedra Branca, de propriedade da família Barbosa, também antigos
proprietários da região.
Válido ressaltar,
aliás, a influência das fazendas Soledade e Bica de Pedra, propriedades de
Domiciano José de Souza e Vigilato José de Souza, irmãos e sócios até 1852,
quando Vigilato falece e, no ano seguinte, é dividida por auto de confrontação
e avaliação. Seria o núcleo que deu origem à fazenda Itaiquara e à cidade de
Tapiratiba. Tanto o núcleo da Água Limpa e Lage, quanto o da Alegria foram
desmembrados e deram origem à várias fazendas.
Não pode-se
esquecer de figuras como Catharina Candida de Senna e Antonio José Gomes, proprietários
da fazenda do Ribeirão do Meio, que foram os primeiros doadores de terras para
o patrimônio de São Sebastião. Thereza Maria de Jesus, sua filha, ficou com
parte das terras que confrontavam com tal patrimônio. José Gomes d’Avellino,
outro filho, herdou boa parte das terras da fazenda, bem como parte nas
fazendas Velha e São João.
O povoamento
de Mococa não foi algo uníssimo, regrado e limitado a poucas pessoas. Incontáveis
eram os proprietários de terras, fossem elas grandes latifúndios ou pequenas
glebas. De forma suscinta, este trabalho visa esclarecer alguns equívocos e dar
outra perspectiva sobre a vida rural no povoamento de Mococa. aos poucos,
desbravamos o passado de nossa terra, para dar clareza ao ofuscamento da
história.

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