quinta-feira, 12 de março de 2026

CORRIGENDAS SOBRE AS ANTIGAS FAZENDAS DE MOCOCA

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


A inteligência artificial cogitou nos deslumbrar com uma interpretação de como seria a antiga sede, hoje não mais existente, com base no desenho do Visconde de Taunay.

Segundo nossas pesquisas, um dos antigos moradores da região de Mococa seria José da Silva Santos, que recebeu carta de sesmaria em seu favor, contendo “uma légua de terras de testada e três de fundo, no termo da Villa de Mogy Mirim, no sertão encostado à beira do Rio Pardo, principiando a medição da légua de testada na barra que faz no dito rio Pardo o córrego do Barreiro, chamado de Jacutinga”, emitida em 16 de fevereiro de 1815, embora criasse gado na região há algum tempo. Depois, vieram a família do alferes João de Souza Nogueira, em 1820 na sesmaria da Zabelonia, e José Christóvão de Lima, na fazenda da Água Limpa.

Na década de 1830, é possível observar um povoamento mais dinâmico e constante, embora houvessem diversos sitiantes e posseiros espalhados pelo território. A história oficial de Mococa carece de certas corrigendas, que as pesquisas sérias e fulcradas em fontes primárias hão de desbravar. Humberto de Queiroz destaca os seguintes fazendeiros: Diogo Garcia da Cruz, na Alegria; José Christovam de Lima, na Água Limpa; Antônio José Gomes, no Ribeirão do Meio; José Gomes da Lima, na Bôa-Vista; Francisco José Barbosa, na Pedra Branca; José Caetano de Figueiredo, na Cachoeira; Joaquim Custodio Dias, na Lage; José Pereira dos Santos (Pae), em Sta. Thereza, todos já falecidos e Manoel Vicente da Rocha, que vive ainda, com perto de 100 anos, na Ressaca.

A região da Ressaca é a mesma da antiga Jacutinga. Tratava-se de um grande condomínio rural, por assim dizer, pois vários eram os proprietários de pequenas ou grandes porções de terras. No auto de confrontação e avaliação da fazenda da Ressaca, de 1851, consta a informação de que teria 3.195 alqueires de terras, e um bom número de condôminos. O mesmo aconteceria na fazenda São João, que ocuparia grandes porções das terras orientais de Mococa, e diversos eram os proprietários, do rio Pardo até chegar nas terras da Lage, aproximadamente.

Uma figura esquecida foi Cirino Pinto da Fonseca, o proprietário da fazenda da Jacutinga e do Remanço, ambas na região da Ressaca, entre a fazenda da Prata e o rio Pardo. Ele já possuía suas terras em 1837, sendo um dos primeiros povoadores. José Crescêncio de Souza, outro proprietário da região, faleceu em 1851 e possuía terras na Ressaca. Ao lado desta, havia a fazenda do Tamanduá, propriedade pro indiviso onde estavam estabelecidos Antonio Malaquias da Silva, Custódio José de Magalhães, Vicente Lourenço da Silva e tantos outros. A fazenda do Saltador, também na mesma região, era propriedade de Ignácio Fernandes Garcia, Miguel Joaquim Pereira, Domingos José Guedes, Manoel Antonio da Rocha e vários outros.

A fazenda da Boa Vista, do capitão José Gomes de Lima, objeto de certa controvérsia geográfica, situava-se não na região de Igaraí, mas sim nas terras da antiga fazenda da Alegria. Eram tão vastas que iam verticalmente do rio Pardo até o ribeirão das Areias, alcançando a divisa com Cajuru pela serra da Borda da Mata. Ele, em declaração de 1856, refere sua propriedade como Zabellona. Não possuía terras além destas. Existiam sítios e chácaras que levavam o nome “Boa Vista”, especialmente para os lados de Igaraí e Caconde, mas que não devem ser confundidas com as terras de José Gomes de Lima.

Bem ao norte, junto ao referido ribeirão das Areias, existia a fazenda das Areias, também um núcleo de povoamento – provavelmente, que daria origem à São Benedito das Areias. Em 1856, situavam-se nesta local Manoel Vicente de Oliveira, Francisco Gonçalves de Castro, Francisco de Moraes Preto e outros. Em local próximo, mas ainda por definir sua exata localização, existiu a fazenda do Rio das Pedras, onde vários proprietários possuíam terras condominiais.

No livro de registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, lavrado em 1856 pelo pároco, frei Clemente de Gênova, consta que Venerando Ribeiro da Silva adquiriu a fazenda do Ribeirão da Prata em 1839, em compra feita à João Lourenço Cardozo. José Pereira dos Santos, por sua vez, em 24/01/1838, adquiriu as fazendas da Cachoeira do Ribeirão do Meio, então propriedade de Francisco Vicente da Costa, e da Barra do Jatobá, de Venerando Ribeiro, posteriormente unidas e denominadas fazenda Santa Thereza. Os vendedores, aliás, são nomes de antigos moradores da região.

Na fazenda das Canoas, na divisa com Minas Gerais, existiu a figura de Lourenço Cabelludo, apontado como um dos primeiros moradores da região. Seus herdeiros venderam suas terras ao padre João Rodrigues Martins, em meados de 1830. Há menção, aliás, que, em 1825, José Custódio Dias possuía a fazenda do Ribeirão das Canoas, mas provavelmente incorporava-se ao grande núcleo rural da Água Limpa e Lage, e não à Canoas, onde surgiria a estação e o povoado no final do século XIX. Estas duas fazendas, aliás, pertenciam à freguesia de Caconde, enquanto as demais à paróquia de Casa Branca. A fazenda das Canoas confrontava com as terras da fazenda da Pedra Branca, de propriedade da família Barbosa, também antigos proprietários da região.

Válido ressaltar, aliás, a influência das fazendas Soledade e Bica de Pedra, propriedades de Domiciano José de Souza e Vigilato José de Souza, irmãos e sócios até 1852, quando Vigilato falece e, no ano seguinte, é dividida por auto de confrontação e avaliação. Seria o núcleo que deu origem à fazenda Itaiquara e à cidade de Tapiratiba. Tanto o núcleo da Água Limpa e Lage, quanto o da Alegria foram desmembrados e deram origem à várias fazendas.

Não pode-se esquecer de figuras como Catharina Candida de Senna e Antonio José Gomes, proprietários da fazenda do Ribeirão do Meio, que foram os primeiros doadores de terras para o patrimônio de São Sebastião. Thereza Maria de Jesus, sua filha, ficou com parte das terras que confrontavam com tal patrimônio. José Gomes d’Avellino, outro filho, herdou boa parte das terras da fazenda, bem como parte nas fazendas Velha e São João.

O povoamento de Mococa não foi algo uníssimo, regrado e limitado a poucas pessoas. Incontáveis eram os proprietários de terras, fossem elas grandes latifúndios ou pequenas glebas. De forma suscinta, este trabalho visa esclarecer alguns equívocos e dar outra perspectiva sobre a vida rural no povoamento de Mococa. aos poucos, desbravamos o passado de nossa terra, para dar clareza ao ofuscamento da história.

 

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