Leonardo Borgheti
Marques Falarini Belotti
Instituto Histórico
e Cultural de Arceburgo
Instituto Bruno
Giorgi
A história se ocupa dos homens, asseverou Marc Bloch, embora, por óbvio, sua afirmação se refere à humanidade como um todo, e não apenas ao gênero homem. Da mesma forma, Immanuel Kant afirmou que a história trata da narrativa das manifestações das leis universais, de modo que, “com a observação, em suas linhas gerais, do jogo da vontade humana, ela possa descobrir aí um curso regular”. Hoje, naturalmente, é possível observar que mesmo as catástrofes do passado influenciaram a vida futura, possibilitando novos ares e desdobramentos.
Arthur Pio Deschamps
de Montmorency era engenheiro. Ao que tudo indica, nasceu no Rio de Janeiro ao
final dos anos de 1850, filho de Thomaz Deschamps de Montmorency e de dona
Amélia Pio de Montmorency. Desde o século XVI, existia na França, na região de Île-de-France,
a comuna de Montmorency, sujeita a administração de um duque. Há de se supor,
portanto, que o engenheiro possuía traços nobiliárquicos em suas veias.
Em 1883, era nomeado engenheiro-fiscal do prolongamento da estrada de ferro da Mogiana até Poços de Caldas, com vencimentos anuais de 6:000$000. Pode-se supor que seria o seu primeiro contato com a região de Rio Pardo, onde participou, todos sabem, do projeto da ponte metálica, vencendo a concorrência, em 1896. Em julho, segundo Cármen Maschietto, encontrava-se em Rio Pardo, onde ofertou à Câmara Municipal uma proposta “visando a construção de uma usina geradora de energia elétrica. A Câmara aceitou a proposta em todos os seus termos e o prefeito municipal, Sr. Francisco Escobar, lavrou termo de compromisso com o Dr. Montmorency em 25 de julho de 1896”. Lembrado pelo desabamento da ponte, esquecido pela construção da primeira usina elétrica de São José do Rio Pardo.
Em detrimento
do estampado na capa d’O Estadão, em janeiro de 1898, acerca do
desabamento da recém-inaugurada ponte metálica, fato este que possibilitou que
Euclides da Cunha seguisse para a cidade, onde iria trabalhar na ponte e em sua
“irmã” – a obra Os Sertões –, Montmorency conseguiu atestar a sua inocência.
No arquivo digital do jornal O Estado de S. Paulo, encontra-se cópia do
depoimento prestado por uma das testemunhas, o dr. Orville Derby, geólogo e
historiador, chefe da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo. Ele esteve
em Rio Pardo, onde examinou o leito do rio. Respondendo à quarta pergunta,
sobre a questão geológica, informou o seguinte:
“[...] disse
que verificou que o leito do rio é formado de rocha viva de caráter granítico,
estando, porém, essa rocha, bastante decomposta no lugar do pilar do lado
direito da ponte em construção, correspondendo em posição com o pilar que
abateu na primeira ponte; que a rocha que tem a superfície regularmente
resistente está mais apodrecida em baixo ao ponto de poder ser extraída em blocos
à picareta, apresentando demais na profundidade de meio a um metro, um vão oco
de posição quase horizontal, da espessura de dois a quatro centímetros, de modo
que a parte superficial da rocha constitui uma verdadeira abóbada e tendo embaixo
um espaço vazio de cerca de um palmo que comprometeria a estabilidade de
qualquer obra construída sobre essa rocha; que só com uma sondagem bastante
persistente poder-se-ia descobrir esse espaço oco na rocha [...]”.
Pois bem parece
que a Superintendência de Obras, após o depoimento do dr. Derby, concordou que o
desabamento foi, antes, fato de força maior do que qualquer negligência
perpetrada pelo dr. Montmorency. Ele seguiu trabalhando como engenheiro. Diz-se
a tradição oral que sua situação financeira se abalou após o problema da ponte.
Em 1904, encontrava-se e São Paulo, capital, uma vez que teve seu contrato de
prestação de serviços prorrogado por seis meses pela prefeitura. Em data que
não se pode precisar, retornou para o Rio de Janeiro com a família, casado que
era com dona Marianna Hervey Silva de Montmorency, com descendência. No dia 7
de agosto de 1905, faleceu, sendo sepultado no Cemitério de São Francisco
Xavier, popularmente chamado Cemitério do Caju, e sua missa de sétimo dia foi
celebrada no dia 12, na igreja de São Francisco de Paula.
Figura injustiçada
da história, Montmorency foi o pioneiro da luz elétrica em São José do Rio
Pardo. Cento e vinte e oito anos depois, é impossível não concordar que o
desabamento da ponte foi um dos fatos mais fortuitos de Rio Pardo: chegou
Euclides da Cunha e suas anotações de Canudos.
Fontes:
MASCHIETTO,
Cármen Cecília Trovatto. História da iluminação elétrica de São José do Rio
Pardo. In: A Gazeta do Rio Pardo. Edição de 25/12/1979.
MONTMORENCY, Arthur Pio Deschamps
de. Ponte de S. José do Rio Pardo. In: O Estado de S. Paulo, edição de 18/08/1899.

