sexta-feira, 4 de setembro de 2026

EM DEFESA DE MONTMORENCY

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi

O desabamento da ponte.

A história se ocupa dos homens, asseverou Marc Bloch, embora, por óbvio, sua afirmação se refere à humanidade como um todo, e não apenas ao gênero homem. Da mesma forma, Immanuel Kant afirmou que a história trata da narrativa das manifestações das leis universais, de modo que, “com a observação, em suas linhas gerais, do jogo da vontade humana, ela possa descobrir aí um curso regular”. Hoje, naturalmente, é possível observar que mesmo as catástrofes do passado influenciaram a vida futura, possibilitando novos ares e desdobramentos.

Arthur Pio Deschamps de Montmorency era engenheiro. Ao que tudo indica, nasceu no Rio de Janeiro ao final dos anos de 1850, filho de Thomaz Deschamps de Montmorency e de dona Amélia Pio de Montmorency. Desde o século XVI, existia na França, na região de Île-de-France, a comuna de Montmorency, sujeita a administração de um duque. Há de se supor, portanto, que o engenheiro possuía traços nobiliárquicos em suas veias.

Em 1883, era nomeado engenheiro-fiscal do prolongamento da estrada de ferro da Mogiana até Poços de Caldas, com vencimentos anuais de 6:000$000. Pode-se supor que seria o seu primeiro contato com a região de Rio Pardo, onde participou, todos sabem, do projeto da ponte metálica, vencendo a concorrência, em 1896. Em julho, segundo Cármen Maschietto, encontrava-se em Rio Pardo, onde ofertou à Câmara Municipal uma proposta “visando a construção de uma usina geradora de energia elétrica. A Câmara aceitou a proposta em todos os seus termos e o prefeito municipal, Sr. Francisco Escobar, lavrou termo de compromisso com o Dr. Montmorency em 25 de julho de 1896”. Lembrado pelo desabamento da ponte, esquecido pela construção da primeira usina elétrica de São José do Rio Pardo.

Orville Derby, geólogo norte-americano, naturalizado brasileiro. 
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. 


Em detrimento do estampado na capa d’O Estadão, em janeiro de 1898, acerca do desabamento da recém-inaugurada ponte metálica, fato este que possibilitou que Euclides da Cunha seguisse para a cidade, onde iria trabalhar na ponte e em sua “irmã” – a obra Os Sertões –, Montmorency conseguiu atestar a sua inocência. No arquivo digital do jornal O Estado de S. Paulo, encontra-se cópia do depoimento prestado por uma das testemunhas, o dr. Orville Derby, geólogo e historiador, chefe da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo. Ele esteve em Rio Pardo, onde examinou o leito do rio. Respondendo à quarta pergunta, sobre a questão geológica, informou o seguinte:

[...] disse que verificou que o leito do rio é formado de rocha viva de caráter granítico, estando, porém, essa rocha, bastante decomposta no lugar do pilar do lado direito da ponte em construção, correspondendo em posição com o pilar que abateu na primeira ponte; que a rocha que tem a superfície regularmente resistente está mais apodrecida em baixo ao ponto de poder ser extraída em blocos à picareta, apresentando demais na profundidade de meio a um metro, um vão oco de posição quase horizontal, da espessura de dois a quatro centímetros, de modo que a parte superficial da rocha constitui uma verdadeira abóbada e tendo embaixo um espaço vazio de cerca de um palmo que comprometeria a estabilidade de qualquer obra construída sobre essa rocha; que só com uma sondagem bastante persistente poder-se-ia descobrir esse espaço oco na rocha [...]”.

Pois bem parece que a Superintendência de Obras, após o depoimento do dr. Derby, concordou que o desabamento foi, antes, fato de força maior do que qualquer negligência perpetrada pelo dr. Montmorency. Ele seguiu trabalhando como engenheiro. Diz-se a tradição oral que sua situação financeira se abalou após o problema da ponte. Em 1904, encontrava-se e São Paulo, capital, uma vez que teve seu contrato de prestação de serviços prorrogado por seis meses pela prefeitura. Em data que não se pode precisar, retornou para o Rio de Janeiro com a família, casado que era com dona Marianna Hervey Silva de Montmorency, com descendência. No dia 7 de agosto de 1905, faleceu, sendo sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier, popularmente chamado Cemitério do Caju, e sua missa de sétimo dia foi celebrada no dia 12, na igreja de São Francisco de Paula.

Figura injustiçada da história, Montmorency foi o pioneiro da luz elétrica em São José do Rio Pardo. Cento e vinte e oito anos depois, é impossível não concordar que o desabamento da ponte foi um dos fatos mais fortuitos de Rio Pardo: chegou Euclides da Cunha e suas anotações de Canudos.

 

Fontes:

MASCHIETTO, Cármen Cecília Trovatto. História da iluminação elétrica de São José do Rio Pardo. In: A Gazeta do Rio Pardo. Edição de 25/12/1979.

MONTMORENCY, Arthur Pio Deschamps de. Ponte de S. José do Rio Pardo. In: O Estado de S. Paulo, edição de 18/08/1899.

 

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