domingo, 30 de agosto de 2026

MONJOLINHO, ANTIGA FAZENDA DE MOCOCA

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi

 

Antonio Xavier de Souza, um dos proprietários da fazenda do Monjolinho, 
foi presidente da Câmara de Mococa, de 1887 a 1889.
Fotografia do Family Search, corrigida com IA. 

Lafayette de Toledo menciona em seu ensaio, Diccionario Topographico da Comarca de Casa Branca, a existência de uma fazenda denominada Monjolinho do Rio Pardo, situada no Município de Casa Branca, em 1829. Na época, na verdade, situava-se toda a região no território da Vila de São José do Mogi Mirim. Difícil, sem maiores informações, dizer se trata-se da mesma fazenda que ora narramos alguns fatos de sua história.

No Registro Paroquial de Terras da Vila de Casa Branca, de 1856, consta a presença de André Bernardes de Souza na fazenda do Monjolinho, situada nos arredores da capela de São Sebastião. Adquiriu seus quatro alqueires por compra à José Pereira dos Santos, em 2 de outubro de 1852, por escritura particular. Declarou, ademais, que a fazenda encontrava-se pro-indiviso, e confrontava com a fazenda de José Cristóvão de Lima pelo nascente (leste); com José Gomes, pelo norte; e com José Pedro, pelo poente (oeste) e sul. A declaração, firmada pelo próprio André Bernardes de Souza, data de 18 de outubro de 1856, apresentada ao pároco de Casa Branca, frei Clemente de Genova, no mesmo dia.

Poucos anos mais tarde, em 7 de julho de 1862, é instaurado o auto de divisão da fazenda do Monjolinho junto ao Juízo Municipal e de Órfãos da Vila de Casa Branca, iniciado por petição protocolada por Antonio Xavier de Souza e sua esposa, dona Francisca Silveria de Arantes. Dentre outros, são signatários da petição: José de Souza Dias; Diogo Garcia de Figueredo, como procurador de São Sebastião; Francisco José Dias e sua esposa, Iria Josepha da Silva, por procurador; André Bernardes de Souza; Maria Emerenciana no Nascimento, a rogo; Theodora Maria de Souza, a rogo; Bartholomeu de Faria; e Antonio Luis dos Santos, a rogo.

Em 14 de julho, prestam juramento perante o Juiz Municipal, doutor José Alves dos Santos Junior, os louvados divisores, Ildefonso Gracia Leal e Gabriel Fernandes Pinheiro, de modo a promover a lotação e confrontação da fazenda do Monjolinho, cujo auto foi lavrado no dia seguinte, 15, principiando “... na barra do córrego das Pedras, e por este acima até a barra do córrego da Cobiça, e por este acima a barra do córrego que desce para o Gordura, e por este acima até suas cabeceiras e destas acima, beirando a capoeira ao espigão, até aqui divisando com Antonio Luis dos Santos, e pelo mesmo espigão adiante até a estrada do Ribeirão de São João, e por este abaixo sempre adiante, até o açude de André, até aqui divisando com José Christóvão Lima, pulando o Ribeirão a ponta de uma cerca, por este acima até o espigão, divisando até aqui com Bonifácio de Souza Penna, e pelo mesmo espigão, abaixo, sempre adiante, até a ponta do valo, divisando aqui com o capitão José Gomes Lima, e pelo mesmo valo abaixo, até o ribeirão até aqui  divisando com Venancio Dias de Moura, e por este Ribeirão acima, até onde teve princípio, divisando até aqui com as terras de São Sebastião”.

Declararam, ainda, que a fazenda possuía 256 alqueires de plantas de milho, sendo 221 alqueires de cultura de primeira sorte, avaliados em 6:630$000 (30$000 o alqueire); 30 alqueires de 1ª sorte, avaliados em 1:200$000 (40$000 o alqueire); 5 alqueires de serrados, avaliados em 50$000 (10$000 o alqueire), importando a soma 7:880$000.

Ildefonso Garcia Leal, elaborou uma tabela onde consta a relação dos sócios da fazenda do Monjolinho ou Ribeirão do Meio:

Snr. Antonio Xer de Souza

389$956

1:707$184

Franco José Dias

83:712

366$472

Francisco Isidoro

58$811

257$461

Manoel Isidoro

58$811

257$461

Joaqm Isidoro

44$859

196$382

Joaqm e Furtuoso (órfãos)

128$571

562$855

Francelina

128$571

562$855

Theodora Ma de Souza

318$536

1:394$479

Bartholomeu de Faria

82$355

360$531

Antonio Luis dos Santos

261$648

1:145$436

André Bernardes de Souza

27$904

122$157

Patrimônio

216$256

946$727

Soma

1:800$000

7:880$000

 Às fls. 17, juntou-se uma petição de Theodora Maria de Souza, onde consta um equívoco por parte do contador, uma vez que as partes cabíveis aos órfãos, Joaquim e Furtuoso, a ela pertencem, conforme título acossado nos autos, dado de 3 de fevereiro de 1845. Menciona-se, ademais, a fazenda da Cobiça, provavelmente que confrontava com parte do patrimônio de São Sebastião. No dia 18, foi procedida a competente divisão dos quinhões. A partilha foi homologada, por sentença, em 15 de novembro de 1862.

A fazenda do Monjolinho, é certo, subsumiu-se às fazendas que confrontava, existindo, hoje, apenas alguns poucos documentos que atestam a sua existência.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

JOÃO ESTIGARRIBIA

 

Do Rio de Janeiro à vida com padre Sigar

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Recorte do jornal do obituário de João. 

João Manoel, escravo, nasceu no Rio de Janeiro em 2 de fevereiro de 1790. Pouco se sabe de seus primeiros anos de vida. Naquela época, filho de escravizados, escravizado era. João recebeu estudos nas primeiras letras e nas noções básicas da matemática por intermédio de seu senhor, o capitão João Ribeiro de Almeida, que, segundo conta-se, deu-lhe “educação igual a de seus filhos”. O capitão João Ribeiro faleceu em 1839 e seu inventário foi aberto em  27 de junho do mesmo ano, na fazenda Pouso Alegre, na vila de Barbacena. Dentre os bens, estava João Manoel. Contava 49 anos e, segundo narra o jornal A Mococa, foi ele vendido em praça pública, assim como parte dos bens do finado capitão. O arrematante, um comerciante de escravos de nome Antonio José Maia Maciel.  

Foi revendido para Graciano Ribeiro da Cunha, morador da capela de Espírito Santo do Rio do Peixe. Segundo narra Aguinaldo Ribeiro da Cunha Filho, este antigo morador da freguesia de Caconde, chegou nesta região em meados de 1841. Foram cerca de vinte anos o período que permaneceu com Graciano, trabalhando como alfaiate. Em 1860, foi vendido ao padre Joaquim Feliciano do Amorin Sigar, cura da capela do Espírito Santo do Rio do Peixe, que seguiu para a freguesia de São Sebastião da Boa Vista em 1864, a qual estava desde o ano anterior desvalida de um sacerdote.

No dia 2 de fevereiro de 1876, dois grandes acontecimentos marcariam sua vida: recebera a carta de alforria, bem como casara-se com Umbelina Maria de Jesus. Em seu obituário, publicado no A Mococa, consta que era muito popular, estimadíssimo em Mococa, onde tinha muitos amigos e era amparado no momento de necessidade. Falecera em 7 de dezembro de 1896, aos 106 anos de idade e, como atestou o cônego Bento Monteiro do Amaral, não eram poucos os que tentavam amparar o caixão do ancião, estimado que era. O proprietário da “Casa Feliz”, senhor Eduardo Rodrigues, depositou uma coroa de flores, trabalho de sua esposa, cujos dizeres eram os seguintes: “Ao filho do povo. Eduardo Rodrigues”.

Foi sepultado no Cemitério de Mococa, em um jazigo cedido gratuitamente pela Câmara Municipal, onde, por subscrição popular, fez-se um túmulo de mármore.

Assim descreveu-o Humberto de Queiroz, em sua Monografia:

 

“Entre os três escravos que trouxe o Padre Velho, veio o conhecido João de Amorim – o João Estigarribia, velho preto que lhe servia de sacristão.

Preto pernóstico, bom falante, fecundo cronologista, conservador, patriota, com ares afidalgados de ex-criado do conselheiro Euzebio de Queiroz e do Duque de Caxias, que o fora, dizia. Era propenso a aristocracias o velho Estigarribia, e, verdade seja dita, sabia mais de história contemporânea do Brasil, com datas e minuciosidades, do que muita gente que tinha nome na história.

Tinha convivido com Pedro II, dizia ele – o Imperador, e falava do pai do velho monarca, vítima dos patriotas de 15 de novembro, com ares de familiaridade e camaradagem.

Sobreviveu a seu senhor, que o libertara; serviu ainda como sacristão de outros padres, serviu de troça ao rapazio vagabundo e imbecil e morreu em 1897, com mais de cem anos.

Pobre João!

De pouco lhe valeu a pose aristocrática de homem independente – morreu mendigando!

Para conduzir seu encarquilhado cadáver à última morada, fomos nós, alguns amigos do negro secular, avisados à última hora, levar esse corpo abandonado e já em decomposição, ao mundo do esquecimento.

O tempo consumiu o relógio de sol, do largo da Matriz, do qual tanto se orgulhava o sacristão do Padre Velho, o tempo consumiu também o antigo sacristão... Tout passe!”

Faleceu com o sobrenome do Amorim, provavelmente advindo de seu último senhor, o que era comum naquela sociedade, onde poucos tinham sobrenome, muitos eram dos santos.  Foi conhecido como João Estigarribia, de cuja figura agora lembramos.

Fontes:

A MOCOCA, edição de 12/12/1896;

CUNHA FILHO, Aguinaldo Ribeiro da. A família Ribeiro da Cunha. In: Revista da ASBRAP, nº 9. 2002, p. 183-278;

QUEIROZ, Humberto de. A Mococa: de sua fundação até 1900. Mococa: KKRibeiro.com, 2024;


JOSÉ RIBEIRO DE ALMEIDA
, capitão.
Inventário transcrito por Erlaine Januário a pedido de Adonias Ribeiro Franco e Adair Franco dos Reis. Publicado no site Projeto Compartilhar (disponível em < http://www.projetocompartilhar.org/DocsMgGL/JoseRibeirodeAlmeida1839.htm >, acesso em 24/08/2026);

domingo, 23 de agosto de 2026

TARSILA E O PRIMEIRO BISPO MOCOQUENSE

 Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 

 
Tarsila e D. Benedito, disponível no Google.

Tarsila do Amaral foi uma proeminente artista plástica. Traço único, visão singular, vida sofrida. Desilusões amorosas, pobreza, tragédias sucessivas e a crítica pesada contra sua obra marcaram a sua vida. Teve, contudo, bons amigos que marcaram profundamente sua vida - como toda amizade deve fazer. Mario de Andrade, principalmente. No fim da vida, no começo da década de 1970, encontrava-se reclusa, necessitando de cadeira de rodas após uma cirurgia mal sucedida que lhe custou o movimento das pernas, divorciada, filha e neta falecidas, apegou-se na fé espírita. Tornou-se amiga de Chico Xavier. Despertou sua antiga religiosidade, que lhe valeu em seus últimos anos de ostracismo - que se impôs ou lhe foi imposto. 


Neste estado de espírito elevado e moléstia física, recebeu a visita de dom Benedito Ulhôa Vieira, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, a pedido de dona Clarinha Homem de Mello Azevedo, que relatou a condição da artista plástica. Dirigiu-se à residência, em Higienópolis. Celebrou missa sobre o piano da sala, narra a historiadora Mary Del Priore. Na parede, uma pintura do Sagrado Coração de Jesus, obra de Tarsila. Dom Benedito exclamou que a obra era linda, ao que a artista respondeu: "É seu!". Deu a obra ao bispo, que retornaria outras vezes para visitá-la.


Em 12 de janeiro de 1973, "recebeu a extrema-unção de seu amigo, o Bispo auxiliar D. Benedito Ulhôa Vieira", conforme o jornal O Fluminense, de 18 de janeiro daquele ano. Estava internada na Beneficência Portuguesa desde 16 de dezembro do ano anterior. Faleceu em 17 de janeiro de 1973, aos 86 anos. A missa de 7° dia, que contou com a presença, dentre outros, do dr. Sérgio Buarque de Holanda, foi celebrada por Dom Benedito, em 24 de janeiro, na capela do Colégio São Luís. 


Dom Benedito foi investido como Arcebispo de Uberaba, em julho de 78. Natural de Mococa, SP, foi o primeiro desta cidade a ocupar cargos tão elevados dentro da Igreja Católica. 


Fontes:


DEL PRIORE, Mary. Tarsila: uma vida doce-amarga. 5ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2026;

MENEZES, Terezinha Hueb de. Dom Benedito e a tela de Tarsila do Amaral (acesso em 23/08/2026, disponível em < https://jmonline.com.br/dom-benedito-e-a-tela-de-tarsila-do-amaral-1.169358?amp=1 >);

O Fluminense, jornal, edição de 18/01/1973.

sábado, 22 de agosto de 2026

O ADVENTO REPUBLICANO DE RIO PARDO

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Bruno Giorgi


Capa do jornal A Platéa, de São Paulo, sobre o ocorrido em Rio Pardo. 


Em 4 de março de 1878, o partido republicano de Casa Branca se reúne na residência de Luciano Ribeiro da Silva para escolha de um representante ao Congresso Republicano, que ocorreria no dia 10, próximo. Foi eleito o dr. José Costa Machado, “chefe do mesmo partido no município, vai dignamente representá-lo”. 

No dia 7 do mesmo dia e ano, na residência de Ignácio Fernandes Garcia, os republicanos mocoquenses elegiam o seu representante, eleitos João Baptista de Lima e o dr. Américo Brasiliense d’Almeida e Mello. Na oportunidade, Ignacinho propôs que fosse escolhida uma comissão permanente, de modo que fossem tratados dos assuntos do partido local, eleitos: Ignacio Fernandes Garcia, com 36 votos; José de Souza Dias, 34; Antonio Xavier de Souza, 34; Luiz José de Souza Penna, 33; e o professor Antonio Rabello Cysterna, 22. O Clube Republicano foi instalado em Mococa no dia 15 de agosto de 1888, sendo formado o primeiro diretório por José de Souza Dias, Humberto de Queiros e Antonio Muniz Ferreira. Possível, pois, observar a efervescência republicana na região.

Em agosto de 1889, Francisco Glicério, célebre republicano, pernoitou em São José do Rio Pardo. Era rota para Mococa, pois circundava a região da Mogiana para sua campanha política à Câmara dos Deputados. Ficou no Hotel Brasil propriedade de Ananias José Ferreira Barbosa. Naquela tarde, 10 de agosto, já no hotel, o dr. Muniz de Sousa teceu conferência ao povo que, ao final, dissipou-se em perfeita harmonia. Após o jantar, durante certo tempo, Glicério palestrou aos que estavam presentes e retirou-se em cerca de 21h. O tal cabo Francisco da Silva Rego, da força policial local, quando das 22h, estava no quintal do hotel, uns dizem que bêbado, outros que estava copulando com uma funcionária do hotel. Ananias e alguns mais o levaram para a cadeia e, quando lá chegaram, o ébrio verifica-se tão sóbrio quanto poderia parecer. Por conta da hostilidade vinda dos praças, voltaram ao Hotel. 

Pouco tempo passado, ouve-se o sino da cadeia. Os praças atacam o hotel e a residência de seu proprietário. Tiros, pedras, arrombamentos, destruição. O hotel foi totalmente depredado. O prejuízo de Ananias Barbosa jamais seria recuperado. Afinal, morrera na miséria anos mais tarde. Não tardou para que forças republicanas se organizassem e, segundo Honório de Silos, 300 pessoas armadas, advindas das fazendas locais colaboram com a defesa e com a retomada do controle da cidade. O presidente da Câmara e chefe liberal, capitão Saturnino Barbosa, é preso, bem como outros mais que não fugiram. O povo, empolgado, entoava a Marselhesa e outros hinos. À tarde do dia 11, chegam de Casa Branca o juiz de Direito, o juiz municipal e o delegado. 40 praças são enviados para Rio Pardo, vindos à mando do Governo Provincial. Por dias, a cidade estava ocupada militarmente até que, por fim, estabeleceu-se a ordem. 

Segundo Lúcio de Mendonça e Honório de Silos, foi o advento do que ocorreria poucos meses depois, a Proclamação da República. No dia 24 de agosto, foi instaurado inquérito policial na subdelegacia de polícia, cuja cópia conseguimos recentemente, para estudos.  

A República foi antecipada em Rio Pardo, depois rebatizada Cidade Livre do Rio Pardo, nome que ostenta em seu brasão atual. Glicério, em carta publicada por Silos, descreve Rio Pardo como sua segunda casa. Nada menos do que esperado, afinal.  

 

Fontes: 

CASA BRANCA, jornal, edição de 10 de março de 1878; 

O ESTADO DE S. PAULO, jornal, edição de 10 de março de 1878;

SILOS, Honório de. Glycerio em São José do Rio Pardo. São Paulo: Indústria Gráfica Siqueira, 1946.  


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

AS OUTRAS PONTES DE EUCLIDES

DO PROJETO DA PONTE DO RIO CANOAS AOS CONTATOS DE EUCLIDES DA CUNHA COM MOCOCA E CASA BRANCA NO CONTEXTO DO TRIÂNGULO CULTURAL


Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 


Resumo: A participação de Euclides da Cunha na região de São José do Rio Pardo não limitou-se apenas à construção da ponte do rio Pardo e a escrita d’Os Sertões. Elaborou duas outras pontes. No plano físico, ao autor, em 1898, foi incumbida a elaboração de laudos e projetos sobre a ponte no rio Canoas, em Mococa, SP, pelo Governo do Estado de São Paulo. No plano imaterial, Euclides consolidou várias amizades com grandes nomes do passado regional, como é o caso de Humberto de Queiroz, farmacêutico de Mococa, e Lafayette de Toledo, solicitador da Comarca de Casa Branca, ambos primeiros autores da história de suas respectivas cidades e, ao lado de Euclides, confrades do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Em 2025, o Instituto Bruno Giorgi, por meio de portaria da presidência, criou o “Triângulo Cultural”, uma região que engloba São José do Rio Pardo, Mococa e Casa Branca, de modo a incentivar o intercambio cultural entre as cidades, tendo como representantes, respectivamente, Euclides da Cunha, Bruno Giorgi e Ganymedes José. O presente artigo, portanto, visa evidenciar que tal intercambio cultural vai muito além, pois personalidades marcantes de cada cidade tiveram interações entre si, o que fortalece, nos dias atuais, a ideia de fomento ao Triângulo Cultural. 

Palavras-chave: Euclides da Cunha; Rio Pardo; Triângulo Cultural; Instituto Bruno Giorgi. 

Contracapa da Revista de Estudos do Instituto Bruno Giorgi n°5.

“Agora, me tornei a morte, destruidor de mundos”, disse o físico, Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica. O medo do caos, dos reflexos da destruição, impacta, é fato. Mas aquilo que é destruído, na verdade, pode antes significar um recomeço. Em Rio Pardo, possibilitou a chegada de um engenheiro revolucionário à literatura brasileira. Euclides da Cunha chegou para remediar e, mais do que isso, para construir pontes, não apenas no sentido literal de erguer estruturas que possibilitam a travessia e o intercâmbio entre as margens de um rio. 

Euclides foi além. Pontes são, na linguagem figurada hodierna, a possibilidade de estreitar laços. Da mesma forma que tais estruturas ligam as margens de um rio, as pontes no sentido figurado revelam a conexão entre os indivíduos que, separados quais as orlas de rios ou vales, se unem por alguma afinidade. Como asseverou o poeta florentino, Dante Alighieri, a “[...] operação da virtude por si só deve ser a de conquistar amigos, uma vez que a nossa existência precisa deles e a finalidade da virtude é fazer com que a nossa existência seja feliz” (ALIGHIERI, 2019, p. 125). Euclides fez amigos, e revelou em sua correspondência a falta lhe era sentida de tais amigos em seu convívio posterior à São José do Rio Pardo. 

Foi por força da Lei nº 53, de 4 de agosto de 1892, promulgada pelo vice-presidente do Estado de São Paulo, dr. José Alves de Cerqueira Cesar, que foi “auctorizado a mandar construir uma ponte metallica sobre o rio Pardo, na cidade de S. José do Rio Pardo, despendendo para isso a quantia necessaria” (sic.). O respectivo projeto de lei tramitou na Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo, advindo do Senado paulista, sob o nº 37/1892. Segundo o professor, Rodolpho José Del Guerra, uma vez autorizada a construção da ponte, em 1896, coube ao engenheiro Arthur Pio Deschamps de Montmorency a realização dos trabalhos. Euclides da Cunha esteve em Rio Pardo duas vezes naquele ano, na qualidade de fiscal das obras (DEL GUERRA, 1998, p. 7). Em 1º de agosto de 1897, tirou licença de seu cargo para acompanhar, como repórter d’O Estado de S. Paulo, a Guerra de Canudos. 

A ponte ruiu. Euclides sentiu-se responsável, vez que era engenheiro-fiscal das obras. Foi para São José do Rio Pardo, em fevereiro de 1898, para reconstruir a estrutura. No casebre, às margens do rio Pardo, no canteiro de obras, nasceria Os Sertões e o euclidianismo. Euclides foi além. Fez amizades com intelectuais da época. Francisco Escobar, Jovino de Sylos, Humberto de Queiroz e Lafayette de Toledo, para citar alguns. Cerca de um mês após a retirada da última peça da ponte caída, em 30 de maio de 1898, a Secretaria de Obras de São Paulo convocou Euclides da Cunha à Mococa, cidade vizinha, “a fim de examinar a ponte que alli existe” (sic.), na região de Canoas, na divisa com Minas Gerais, no local denominado Ponte da Pedra Branca. 

Era intenção do governo de São Paulo que a ponte sobre o rio Canoas fosse declarada de utilidade pública, angariando benefícios para os passantes. Para atravessar a ponte, propriedade particular, os passantes deveriam pagar uma taxa, sendo 4/000 réis para lote de cargueiros; 2/000 réis para carros de boi e /400 réis para cavaleiros. O escritor analisou a situação da ponte e atestou, em ofícios de 4 e 11 de julho de 1898, que a reforma importaria um valor de 4:308$125 réis, enquanto construir uma nova impunha 3:099$950 réis, com uma possível redução de 20%, segundo seus cálculos. Euclides atestou que a aquisição da ponte pelo Estado iria acarretar um alívio para o pequeno lavrador, que deveria arcar com o valor da tarifa para atravessá-la. Com 35 metros de comprimento e 3,5 de largura, era a via de acesso de Minas Gerais e São Paulo, fato este aduzido por Euclides, que faz referência às cidades mineiras de “Monte Santo, S. Sebastião, Muzambinho, Passos, villas de Santa Barbara, Guaxopé e Jacuhy, arraiais de S. Pedro, Pratinha, Santa Rita Velha e S. Bom Jesus da Penha” (sic.), indicando o interesse da ponte. 

O projeto de lei nº 44 de 1898 tramitou na Câmara dos Deputados e no Senado, ambos do Estado de São Paulo, e foi convertido na Lei nº 566, de 27 de agosto de 1898, sendo o governo de São Paulo “auctorizado a entrar em negociações com o Governo de Minas afim de declarar de utilidade publica a ponte situada no rio ‘Canôas’, junto á estação de Canôas do ramal ferreo Rio Pardo” (sic.). Provavelmente, autoridades de São João da Fortaleza, hoje Arceburgo, conheceram Euclides da Cunha em Canoas, tendo em vista ser a primeira localidade ao entrar no Estado de Minas Gerais por aquele caminho. Em posse do Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo, à guisa de curiosidade, está um livro com dedicatória assinada por Euclides ao médico local, dr. Herculano de Paula Borges, o que prova algum relacionamento entre tais figuras. 

Acompanha o projeto, aliás, a planta da ponte existente sobre o rio Canoas, escala 1:100, de autoria de “Euclydes da Cunha, Engenheiro Ajudante de 1ª Classe”, cuja cópia permanece sob a guarda do arquivo histórico da ALESP. Paralelamente, em 21 de julho de 1899, foi pedida a desapropriação da ponte à Assembleia mineira. Era a segunda vez, pois, por projeto do deputado, dr. Américo Luz, de 09/09/1887, requeria-se a desapropriação da ponte (PEREIRA, 2025, p. 163). Somente em 1926 uma nova ponte foi erguida, por convênio entre a Câmara de Arceburgo e o Governo do Estado de Minas Gerais, e com recursos particulares de beneméritos. 

A ida até Canoas, a planta da ponte e a elaboração dos dois ofícios à Superintendência de Obras, os quais foram anexados ao projeto de lei nº 44/1898, é prova documental de que a presença de Euclides fez-se sentir, também, em Mococa. Pode-se supor, ademais, que a amizade com Humberto de Queiroz tenha começado em época próxima. Ele era um farmacêutico, formado na Escola de Pharmacia de Ouro Preto, em 1886, autor da primeira monografia a tratar da história de Mococa, cidade onde chegou em fevereiro de 1887 e permaneceu até março de 1903. Republicano, político e intelectual, colaborava com o extinto jornal local, Monitor Paulista. Lafayette de Toledo, outro nome da intelectualidade regional, morava em Casa Branca, onde era político e solicitador da comarca. Era sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, fundado em 1º de novembro de 1894, instituição que Euclides da Cunha foi admitido como sócio em 1897. A relação dos dois provavelmente começou neste local. Ademais, Lafayette foi o autor do grande Diccionario Topographico da Comarca de Casa Branca e quem forneceu ao Euclides a correspondência de Canudos. 

As únicas menções da passagem de Euclides da Cunha por Mococa são os seus dois ofícios à Superintendência de Obras, bem como, em Casa Branca, sabe-se de sua presença através de uma pequena nota d’O Estado de S. Paulo, edição de 26/11/1899, nº 7.675, cujo teor é o seguinte: “Esteve nesta cidade, de visita aos drs. Waldomiro Silveira e Lafayette de Toledo, o dr. Euclydes Cunha, illustre engenheiro e nosso distincto collaborador” (sic.). O bom engenheiro e exímio escritor fez-se presente além do rio Pardo. 

Os três, Humberto, Euclides e Lafayette, não eram naturais das cidades em que residiam quando contemporâneos. Um paulista, um fluminense e um mineiro que, pelos incógnitos motivos do destino, estabeleceram contato. Os três, confrades do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, homens das letras, dotados da visão dos sábios. Provavelmente, a amizade não era tão próxima quanto a consolidada com Francisco Escobar, fato este que comprova-se pela quantidade de missivas, mas certamente os três proeminentes nomes eram intercambistas de seus trabalhos. Ademais, eram quase que da mesma idade: Toledo nasceu em 12/11/1865; Euclides, em 20/01/1866 e Queiroz nasceu em 02/02/1866. 

Humberto de Queiroz, inclusive, aquele que Euclides descreveu como “sempre o mesmo aquele magnifico rapaz”, em carta à Escobar de 26/01/1903 (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 146), foi o autor de um artigo, veiculado no jornal, O Rio Pardo, edição de 1º/06/1899, no qual narra uma reunião na casa de Euclydes, onde foram lidos alguns trechos da obra vindoura. Mente acurada, Queiroz entendeu a grandiosidade do trabalho literário de imediato, consignando a “sincera admiração por esse trabalho de um valor extraordinário, por esse livro que vai em breve produzir real sensação no mundo que lê” (DEL GUERRA, 1998, p. 10-11). 

A ponte foi inaugurada em 18 de maio de 1901. No jornal, A Mococa, edição de 23/05/1901, consta a seguinte nota: “Realisou-se a 18 do corrente a inauguração da ponte metallica sobre o Rio Pardo na visinha cidade de S. José. Por esse motivo foi muito cumprimentado n’aquelle dia o engenheiro constructor, sr. dr. Euclydes Cunha”. 

A benção da ponte foi realizada pelo padre José Thomaz de Ancassuerd, de família de Cajuru, tendo ocupado o cargo de vigário da paróquia de São Sebastião, em Mococa, de 1880 a 1883, quando foi à Rio Pardo. Ao som das bandas e dos discursos eloquentes, o povo celebrava não apenas a grandeza do monumento, mas também a figura de seu engenheiro que, decidido por remediar aquele caótico episódio do começo de 1898, trabalhou com afinco na edificação da nova ponte. Euclides e a família partiram de São José do Rio Pardo no mesmo ano, uma vez concluída a empreita. 

O que sucedeu ao fato, e que consagrou o escritor, foi a publicação de Os Sertões, sua maior obra e um dos mais importantes livros da literatura brasileira, escrito mormente em São José do Rio Pardo “nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante” (CUNHA, 2020, p. 5). No aniversário de um ano da inauguração da ponte, sinal de que a obra aguentaria as intempéries, Euclides, em carta à Escobar, indicava sua vontade de fazer-se presente. Lamentou o fato. Esperava que quatro amigos, pelo menos fizessem-se presentes: Álvaro de Oliveira Ribeiro, João Moreira, Jovino de Sylos e o próprio Escobar. Este fez-se presente, e Lafayette de Toledo, porém, sem a presença dos “numerosos quatro amigos”, que “reduziram-se a dois” (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 135). 

Na vida pessoal, a infidelidade da esposa levou-o à tumba, assassinado, “salvando mais o seu nome e o seu caracter, procurando banhar em sangue, ainda quente, a sua honra ultrajada! Foi um puro e achou a morte por isso” (sic.), conforme narrou o dr. Raphael Corrêa de Sampaio, no seu discurso em cerimônia do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, de 1º de novembro de 1909 (SAMPAIO, 1912, p. 446). O semanário, A Mococa, edição de 22/08/1909, assim descreveu a tragédia da Piedade: 

Euclydes da Cunha

Para nós, como por certo para o paiz inteiro, foi de sorpreza e dor a impressão produzida pela noticia da morte trágica de Euclydes da Cunha. A infidelidade de sua esposa, infidelidade por ella confessada perante a autoridade policia, foi a causa originaria do luctuoso facto, que roubou ao nosso paiz um dos seus intellectuaes de maior valia. Medeiros e Albuquerque, o talentoso e fecundo jornalista fluminense, referindo-se, na sua secção da “Gazeta” ao caso do assassinato do illustre escriptor, conclue a as pequena chronica com as seguintes palavras: “Não lhes parece que ha hypotheses em que, se o divorcio existisse, elle offereceria uma solução menos terrível para casos que, sem elle, acabam de um modo tão trágico?”Lamentando que a escassez de espaço nos inhiba de dizer mais a respeito de Euclydes da Cunha, aqui deixamos o nosso voto de sincero e profundo pezar pela grande perda que com sua morte soffreu a nossa pátria (sic.).   

Euclides, em correspondência ao seu bom amigo Escobar, menciona Humberto de Queiroz, que viajaram juntos de Jacareí, cidade onde Queiroz e sua família mudaram no começo de 1903, à São Paulo. Também, menciona Lafayette de Toledo duas vezes: na citada carta do primeiro ano da ponte e em uma carta cujo teor recai em dúvidas: “O Lafaiete roeu-me, terrivelmente, a corda. Qual revistas do Instituto... qual nada! Engraçado!” (GALVÃO; GALOTTI, 1997, p. 161). Dos três, sobreviveu à década de 1910 apenas Humberto de Queiroz: Toledo faleceu em 31 de março de 1907 e Cunha, em 15 de agosto de 1909. Contudo, é curioso que Euclides da Cunha, grande literato adotado por São José do Rio Pardo; Humberto de Queiroz, o primeiro historiador de Mococa; e Lafayette de Toledo, grande historiador e escritor, tenham convivido juntos por cerca de três anos e, posteriormente, através de missivas que podem ter se perdido. Conhecer a história da região é, de certo modo, trabalhar a compreensão do espírito de coletividade, ligado cultural e historicamente. 

No livro A Mococa, de sua fundação até 1900, Humberto de Queiroz consignou o seguinte: “Acompanhar e descrever o progresso de Mocóca é acompanhar e descrever a formação e progresso de Ribeirão Preto, S. Simão, Jahú, Jaboticabal, Botucatú e tantas outras, desenvolvidas como que por encanto” (sic.) (QUEIROZ, 1913, p. 139). Logo, o princípio povoador de diversas cidades do Estado de São Paulo está tão atrelado a fatores similares quanto os laços familiares de personalidades que, certamente, tiveram protagonismo no povoamento. O processo de intercâmbio histórico e cultural tem se revelado necessário e é uma meta do Instituto Bruno Giorgi, fundado em 2011 em Mococa, SP. O Triângulo Cultural, instituído pela portaria da presidência do IBG em 1º de junho de 2026, é uma região que compreende as cidades de Mococa, Casa Branca e São José do Rio Pardo, que visa demonstrar exatamente este fato. 

Possui como patrono Bruno Giorgi, Ganymedes José e Euclides da Cunha, respectivamente, de modo a torná-los figuras de identificação da cultura e de seu intercâmbio regional. Quanto ao aspecto histórico, embora os três artistas sejam inegavelmente as figuras mais conhecidas de suas respectivas cidades, existem representantes que, além de terem se dedicado à história, também foram contemporâneos e amigos. No plano histórico, o Triângulo Cultural há de invocar a memória de Euclides da Cunha, Lafayette de Toledo e Humberto de Queiroz, os quais, além de grandes sumidades da história e da literatura regional, também eram amigos e colaboraram mutuamente um com o outro. Providenciaram o intercâmbio cultural mais de um século antes de o Instituto Bruno Giorgi sequer ser concebido.

“Toda tradição é uma invenção, mesmo que sem inventores [...]. Regina Abreu (1998) considera os euclidianistas os inventores da tradição euclidiana” (MASCHIETTO, 2002, p. 31), escreveu assertivamente Cármen Cecília Trovatto Maschietto. Foram os amigos e admiradores de Euclides da Cunha que formaram o euclidianismo e perseveraram na preservação de seu legado literário, intimamente atrelado à Rio Pardo. “Graças ao ambiente, em plena natureza e cercado de amigos, e em especial à figura de Escobar, [Euclides] aperfeiçoou o seu trabalho e atingiu a redação final (nunca a definitiva)” d’Os Sertões (GICOVATE, 1984, p. 146), consignou Moisés Gicovate. A amizade possibilitou Os Sertões, afinal, e, da mesma forma que Euclides formou amizades, as cidades de Mococa, São José do Rio Pardo e Casa Branca, quase irmãs de formação histórica, hão de fomentar um rico intercâmbio cultural, rememorando, dentre outros, o grande Euclides da Cunha. 


Referências bibliográficas. 

ALIGHIERI, Dante. Convívio. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019; 

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 2ª ed. Jandira: Principis, 2020;

DEL GUERRA, Rodolpho José. Conhecendo Euclides da Cunha – ano 100 (1898-1998). Coleção Municipal, vol. II. Edição do autor: São José do Rio Pardo, 1998; 

GALVÃO, Walnice Nogueira; GALOTTI, Oswaldo. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: EdUSP, 1997;

GICOVATE, Moisés. Euclides da Cunha e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo – Os Sertões (Aspectos inéditos). In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. LXXIX. São Paulo: IHGSP, 1984; 

MASCHIETTO, Cármen Cecília Trovatto. A tradição euclidiana: uma ponte entre a memória e a história. São Paulo: Arte & Ciência, 2002; 

PEREIRA, Sander Rogerio Ribeiro. A estação Canoas: achegas para sua história. In: A Igreja do Morro. Mococa: KKRibeiro.com, 2025; 

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca: de sua fundação até 1900. São Paulo: Typographia do Diario Official, 1913; 

SAMPAIO, Raphael Corrêa de. Discurso proferido pelo orador official, dr. Raphael Corrêa de Sampaio, na sessão anniversaria a 1º de novembro de 1909. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, vol. XIV. São Paulo: Typ. do Diario Official, 1912.


(O presente artigo foi escrito e aprovado no IX Encontro científico de trabalhos acadêmicos com temáticas euclidianas e correlatas, na 88ª Semana Euclidiana)


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A GUARDIÃ DA HISTÓRIA RIO-PARDENSE

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Bruno Giorgi


Amélia Trevisan, acervo de Miguel Paião.

Tive contato com a obra de Amélia Trevisan graças à Plataforma Verri, que é conduzida pelo Dr. Octávio Verri Filho, de Ribeirão Preto. Ao ler a síntese sobre a monografia do seu Mestrado, senti a necessidade de localizar um exemplar – e consegui! Texto excelente, pesquisa criteriosa. Não sabia, até então, que Amélia Franzolin Trevisan possuía uma obra maior do que o livro “Casa Branca, povoação dos ilhéus”, especialmente sobre a cidade de São José do Rio Pardo. O livro sobre as atas dos fundadores, o livro sobre o centenário da Câmara da cidade, o opúsculo com alguns artigos, contribuições com jornais locais. Amélia foi uma profícua historiadora – talvez, a primeira da região.

Nasceu em São Paulo, no bairro de Santana, aos 12 de agosto de 1922, à Rua Olavo Egydio, nº 89. Seus pais eram italianos: Armando Franzolin e Estelita Levischi. Casou-se em 1942 com Oreste Trevisan, passando-se a assinar Amélia Trevisan. Ele faleceria poucos anos mais tarde, em 1949. Nos anos de 1950, assume serviços extraordinárias como escriturária do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Em 1959, é admitida em estágio probatório, por ter sido aprovada em concurso. Ingressa no curso de História da USP, conquistando a licenciatura e o bacharelado. Chega a Rio Pardo graças à Semana Euclidiana, provavelmente a de 1973. Se encanta. Em 19 de março de 1978, dia de São José, é investida do cargo de Chefe de Seção, junto ao Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Na cidade, foi a responsável pela preservação do prédio da Câmara Municipal, de 1886; pela criação e organização da Hemeroteca “Paschoal Artese”, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de Rio Pardo; deu origem ao Arquivo Histórico Municipal “José Honório de Silos”, além, é claro, de preservar a história rio-pardense com seus incontáveis escritos, os quais, segundo o professor Rodolpho José Del Guerra, totalizam mais de 160 artigos. Foi honrada com títulos e premios, quais o de cidadã rio-pardense, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, guardiã da memória rio-pardense, vencedora do prêmio “Clio” da Academia Paulista de História.

A professora Cármen Cecília Trovatto Maschietto, que conheceu esta célebre historiadora e seu incrível trabalho, coordena um resgate sobre o legado de Amélia Trevisan.  A publicação “A GUARDIÃ DA HISTÓRIA RIO-PARDENSE: A VIDA E A OBRA DE AMÉLIA FRANZOLIN TREVISAN”, está às vésperas de vir a público. A pesquisa e a organização são trabalhos meus, com a colaboração, para citar alguns, de Marcos de Martini, Miguel Paião, Ana Paula Lacerda, da Casa Euclidiana, e João Francisco Pestana Moltine, da Hemeroteca. A parte biográfica está em vias de conclusão, e a transcrição dos artigos, bem adiantada. A ideia é, inclusive, transcrever seus trabalhos publicados, e não apenas os artigos de jornal. A expectativa é que, até setembro, o livro seja publicado.

Vivas à memória de Amélia Trevisan, historiadora excepcional, que documentou a historiografia regional!

EM DEFESA DE MONTMORENCY

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