segunda-feira, 24 de agosto de 2026

JOÃO ESTIGARRIBIA

 

Do Rio de Janeiro à vida com padre Sigar

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Recorte do jornal do obituário de João. 

João Manoel, escravo, nasceu no Rio de Janeiro em 2 de fevereiro de 1790. Pouco se sabe de seus primeiros anos de vida. Naquela época, filho de escravizados, escravizado era. João recebeu estudos nas primeiras letras e nas noções básicas da matemática por intermédio de seu senhor, o capitão João Ribeiro de Almeida, que, segundo conta-se, deu-lhe “educação igual a de seus filhos”. O capitão João Ribeiro faleceu em 1839 e seu inventário foi aberto em  27 de junho do mesmo ano, na fazenda Pouso Alegre, na vila de Barbacena. Dentre os bens, estava João Manoel. Contava 49 anos e, segundo narra o jornal A Mococa, foi ele vendido em praça pública, assim como parte dos bens do finado capitão. O arrematante, um comerciante de escravos de nome Antonio José Maia Maciel.  

Foi revendido para Graciano Ribeiro da Cunha, morador da capela de Espírito Santo do Rio do Peixe. Segundo narra Aguinaldo Ribeiro da Cunha Filho, este antigo morador da freguesia de Caconde, chegou nesta região em meados de 1841. Foram cerca de vinte anos o período que permaneceu com Graciano, trabalhando como alfaiate. Em 1860, foi vendido ao padre Joaquim Feliciano do Amorin Sigar, cura da capela do Espírito Santo do Rio do Peixe, que seguiu para a freguesia de São Sebastião da Boa Vista em 1864, a qual estava desde o ano anterior desvalida de um sacerdote.

No dia 2 de fevereiro de 1876, dois grandes acontecimentos marcariam sua vida: recebera a carta de alforria, bem como casara-se com Umbelina Maria de Jesus. Em seu obituário, publicado no A Mococa, consta que era muito popular, estimadíssimo em Mococa, onde tinha muitos amigos e era amparado no momento de necessidade. Falecera em 7 de dezembro de 1896, aos 106 anos de idade e, como atestou o cônego Bento Monteiro do Amaral, não eram poucos os que tentavam amparar o caixão do ancião, estimado que era. O proprietário da “Casa Feliz”, senhor Eduardo Rodrigues, depositou uma coroa de flores, trabalho de sua esposa, cujos dizeres eram os seguintes: “Ao filho do povo. Eduardo Rodrigues”.

Foi sepultado no Cemitério de Mococa, em um jazigo cedido gratuitamente pela Câmara Municipal, onde, por subscrição popular, fez-se um túmulo de mármore.

Assim descreveu-o Humberto de Queiroz, em sua Monografia:

 

“Entre os três escravos que trouxe o Padre Velho, veio o conhecido João de Amorim – o João Estigarribia, velho preto que lhe servia de sacristão.

Preto pernóstico, bom falante, fecundo cronologista, conservador, patriota, com ares afidalgados de ex-criado do conselheiro Euzebio de Queiroz e do Duque de Caxias, que o fora, dizia. Era propenso a aristocracias o velho Estigarribia, e, verdade seja dita, sabia mais de história contemporânea do Brasil, com datas e minuciosidades, do que muita gente que tinha nome na história.

Tinha convivido com Pedro II, dizia ele – o Imperador, e falava do pai do velho monarca, vítima dos patriotas de 15 de novembro, com ares de familiaridade e camaradagem.

Sobreviveu a seu senhor, que o libertara; serviu ainda como sacristão de outros padres, serviu de troça ao rapazio vagabundo e imbecil e morreu em 1897, com mais de cem anos.

Pobre João!

De pouco lhe valeu a pose aristocrática de homem independente – morreu mendigando!

Para conduzir seu encarquilhado cadáver à última morada, fomos nós, alguns amigos do negro secular, avisados à última hora, levar esse corpo abandonado e já em decomposição, ao mundo do esquecimento.

O tempo consumiu o relógio de sol, do largo da Matriz, do qual tanto se orgulhava o sacristão do Padre Velho, o tempo consumiu também o antigo sacristão... Tout passe!”

Faleceu com o sobrenome do Amorim, provavelmente advindo de seu último senhor, o que era comum naquela sociedade, onde poucos tinham sobrenome, muitos eram dos santos.  Foi conhecido como João Estigarribia, de cuja figura agora lembramos.

Fontes:

A MOCOCA, edição de 12/12/1896;

CUNHA FILHO, Aguinaldo Ribeiro da. A família Ribeiro da Cunha. In: Revista da ASBRAP, nº 9. 2002, p. 183-278;

QUEIROZ, Humberto de. A Mococa: de sua fundação até 1900. Mococa: KKRibeiro.com, 2024;


JOSÉ RIBEIRO DE ALMEIDA
, capitão.
Inventário transcrito por Erlaine Januário a pedido de Adonias Ribeiro Franco e Adair Franco dos Reis. Publicado no site Projeto Compartilhar (disponível em < http://www.projetocompartilhar.org/DocsMgGL/JoseRibeirodeAlmeida1839.htm >, acesso em 24/08/2026);

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