quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O ENSAIO PERDIDO DO DR. BOURROUL

 

Os ligeiros apontamentos sobre a origem de Mococa

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Retrado do Dr. Bourroul, óleo sobre tela de P. V. Lopes de Leão (1940).

Dados biográficos

A presença de Estevam Leão Bourroul em Mococa no final do século XIX foi uma das dádivas à intelectualização e à cultura desta próspera cidade.

Nasceu em São Paulo, no dia 18 de maio de 1856, filho do farmacêutico Camilo Bourroul e de dona Mathilde Cason Bourroul, oriundos de uma antiga família provençal, de Nice, França. Bacharelou-se em humanidades, com distinção no Lyceu Imperial de Nice, em 1872. No Brasil, cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, bacharelando-se em ciências jurídicas e sociais em 28 de novembro de 1881. No mesmo dia, foi eleito deputado estadual pelo 9º distrito, sendo o autor do projeto de lei nº 34, de 31 de janeiro de 1883, em concurso com Antonio José Corrêa, futuro Barão do Rio Pardo, que propunha a elevação da vila de Caconde à categoria de cidade.

E. L. Bourroul, como foi mormente referido, foi advogado, tabelião, secretário de Estado, escritor, jornalista e, principalmente, historiador. Em 1º de novembro de 1894, ao lado do dr. Antônio de Toledo Piza e do dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, funda o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Consignou Torres de Oliveira, em 1938, que o dr. Bourroul era “o escritor elegante, culto e finíssimo, que encantava a todos os que tinham ocasião de ler seus trabalhos”.


 Ata de fundação do IHGSP, onde é possível ver a assinatura do dr. Bourroul. Acervo do IHGSP, veiculada nas redes sociais da Instituição.

Esteve em Mococa entre os anos de 1895 e 1898. Advogado, possuía o respeito dos mocoquenses, sendo advogado e amigo de Manoel Caetano de Figueiredo, proprietário da fazenda Campestre. Também, na cidade, angariou uma amizade que duraria muitos anos, com o farmacêutico e historiador, Humberto de Queiroz que, futuramente, seria seu confrade no IHGSP. Ao dr. Bourroul foi dada a incumbência de emitir parecer para a monografia A Mocóca, de sua fundação até 1900, escrita por Queiroz, apresentada no 2º Congresso Brasileiro de Geografia, que ocorreu entre os dias 7 e 16 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro. Foi embora de Mococa ao final do ano de 1898, tendo em vista duas tentativas de assassinato contra sua pessoa, possivelmente por razões políticas, uma vez que era monarquista em tempos de efervescente republicanismo. 

Casou-se em São Paulo, no dia 8 de dezembro de 1879, no oratório do Palácio Episcopal, em cerimônia presidida pelo bispo de São Paulo, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, com dona Maria da Gloria Rodrigues Vasconcellos. O casal teve os seguintes filhos: Estevam Victor (1881-1908); Paulo Sobrinho (1882-1883); Helena (1883-1970); Olga Helena (1885-1968); Matilde (1886-1962); Maria Martha (1891-?); e Pedro de Alcântara (1898-1950), este último nascido na fazenda Campestre.

Transcrição do termo de casamento

Aos oito dias do mez de Dezembro do anno de mil oitocentos setenta e nove, na capella, digo, no Oratório do Palácio Episcopal, pelas oito horas da tarde, em presença do Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Diocesano Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, receberão-se em matrimonio Estevão Leão Bourroul e Dona Maria da Gloria Rodrigues de Vasconcellos, esta freguesa da Matriz de Santa Iphigenia, filha legitima de João Maria Rodrigues de Vasconcellos e de Dona Maria das Chagas Pereira, aquelle freguez da Igreja da Sé, filho legitimo de Camillo Bourroul e de Dona Mathilde Cason Bourroul, e no mesmo acto lhes forão conferidas as bençãos nupciais, sendo testemunhas Doutor Rafael Tobias de Aguiar, Dona Anna Candida Gomes de Aguiar e Padre Carlos Maria Terrier, ausente e representado pelo Doutor Alberto Saladino Figueira de Aguiar. (a.) O Conego Cura Carlos Augusto Gonçalves Benjamin.

Projeto de lei nº 34, de 1883, assinado pelo dr. Bourroul e pelo futuro Barão do Rio Pardo, que elevava Caconde à categoria de cidade. Arquivo da ALESP.

Obras conhecidas

Ø  Um heróe da Sciencia;

Ø  Hercules Florence;

Ø  Frei Caetano de Messina;

Ø  Silhouettes Contemporaneas;

Ø  Pio IX, o Grande;

Ø  Thiers;

Ø  Paul de Cassagnac;

Ø  Louis Veuillot;

Ø  Os Estudantes Brasileiros na Belgica;

Ø  O Partido Conservador da Franca;

Ø  Consolidação do Codigo de Posturas da Camara Municipal da Cidade de Franca;

Ø  Impressões de um Romeiro;

Ø  Não!

Ø  O Conde de Parnahyba;

Ø  O Barão de Jaguará;

Ø  Relatorios, apresentados aos drs. conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves e Pedro Vicente de Azevedo;

Ø  O Dr. Gumbleton Daunt;

Ø  Manifesto aos Eleitores;

Ø  A Crise Republicana;

Ø   Annaes da Diocese de S. Paulo;

Ø  D. Lino;

Ø  Historia do Paraná, com prefácio do monsenhor Manoel Vicente da Silva;

Ø  Annaes da imprensa paulista;

Válido ressaltar que este ilustre cultor da ilustração deixou inúmeros artigos ao longo de sua grande jornada na imprensa paulista, como é o caso do presente ensaio, que abaixo segue transcrito. Sabe-se, também, que o dr. Bourroul honrava seus amigos com trabalhos de pesquisa manuscritos, verdadeiras preciosidades.

Obituário

Dr. Bourroul faleceu em 28 de agosto de 1914, na cidade de São Paulo. Contava 58 anos. Foi sepultado no Cemitério da Consolação às 16h do dia 29 de agosto. O jornal Correio Paulistano, em laudo artigo, descreveu a vida e o trabalho do dr. Bourroul, destacando o brilhantismo de sua pessoa, “uma das figuras mais populares de S. Paulo pela sua simplicidade e pela sua bohemia de espirito, que mal escondia as suas grandes qualidades e sua vastíssima illustração”.

Sobre os “ligeiros apontamentos”

Em um artigo publicado no Arquivo Illustrado, sobre a biografia do Barão de Monte Santo, consta a informação que o dr. Bourroul escrevera um ensaio sobre a origem de Mococa para o antigo jornal, Monitor Paulista, de propriedade do tenente Wenceslau de Almeida, no ano de 1895. Uma vez que o jornal foi suprimido no mesmo ano, e não havia um arquivo que preservasse suas páginas na ocasião do encerramento de suas atividades e nos anos subsequentes, o texto do dr. Bourroul foi considerado perdido. Sabia-se de sua existência, mas seu teor era desconhecido. Localizado o ano de 1895, foi possível encontrar o trabalho, para o proveito da historiografia de Mococa.

Sob o pseudônimo Iskander, dr. Bourroul narrou o surgimento de Mococa, suas leis e atividade política, além de traçar alguns aspectos sobre Caconde, Casa Branca e São José do Rio Pardo. Publicados nos dias 5, 12 e 19 de dezembro de 1895, pode-se supor que seria dividido em quatro partes, pois, ao final do terceiro artigo, ficou consignado (continua), mas, pelos infaustos desígnios do destino, o jornal encerrou suas atividades sem que a quarta parte fosse publicada. Contudo, graças à vital ajuda do historiador e professor, Antonino Silva, foi possível o resgate do artigo do dr. Bourroul sobre Mococa, que segue abaixo, transcrito em sua íntegra, ipsis litteris.

Ligeiros apontamentos

I.

Sr. Redactor,

Ahi vão os apontamentos prometidos sobre o município de Mocóca.

São ligeiros, succintos e incompletos.

Mais tarde, quando publicar os meus Annaes Paulistas, fornecerei á illustrada direcção do Monitor um trabalho menos resumido e mais satisfactorio.

Datam de 1840 as primeiras tentativas de povoação desta zona. Fazendeiros do Sul de Minas, attrahidos pela fama da uberdade deste sertão, para aqui se transplantaram com suas famílias. Dos primeiros habitantes desta região, entre os quaes avultam os nomes de venerandos troncos de illustre estirpe, alguns mortos, outros vivos, darei opportunamente noticia circumstanciada, como merecem. E o farei nestas mesmas columnas.

Ao passo que aos bandeirantes Paulistas deve-se a conquista de imensos sertões, quaes os de Goyaz e Matto Grosso, transpondo os Andes, avassalando o Paraná e o Prata e destruindo Guairá (o maior peccado histórico de nossas fastos), a região Paulista entre o Mogy-Guassú e o Rio-Grande deveu a sua povoação aos Mineiros.

Assim, o Sertão do Capim-Mimoso foi povoado por Mineiros em fins do século passado. (Franca d’El-Rey, depois Franca do Imperador, freguezia em 1804.)

Antheriormente, Caconde, pela era de 1750 a 1760, foi apossada por exploradores do ouro, vindos de Cabo-Verde. As primeiras casas foram levantadas no Bom Sucesso, a pouco mais de suas léguas da actual cidade. Denominou-se primitivamente Nossa Senhora do Bom-Sucesso do Rio-Pardo, e em 1775 já era freguezia, e como tal foi desmembrada da vigararia da vara de Mogy-mirim e da parochia de Mogy-guassú pelo Diocesano D. Frey Manuel da Ressureição, terceiro bispo de S. Paulo.

As minas de ouro ahi existentes eram muito ricas. O livro de tombo menciona a posse solemne do “novo descoberto das Itapuavas do Rio Pardo, barra do Bom Jesus”, tomada pelo padre Bueno de Azevedo a 14 de Fevereiro de 1782, em virtude da carta do Bispo D. Frey Manuel, de 24 de Dezembro de 1781.

Foi esta localidade, em 1846, erecta em capella curada pelo Bispo D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade; e a primeira missa foi celebrada no mesmo anno na noite do Natal, pelo padre Manuel Machado d’Assumpção, capellão do tenente Gabriel Garcia de Figueiredo.

A primeira missa da capella curada; porque a primeira vez que aquelle sacerdote celebrou neste logar, foi na fazenda velha do mesmo tenente Gabriel, justamente reputado como o fundador da povoação.

O patrimônio foi doado por diversos fazendeiros empenhados no esplendor do culto catholico[1], e a Imagem de São Sebastião collocada na capella em 1850.

O arraial ficou pertencendo ao município de Casa Branca, que abrangia igualmente a freguezia de Caconde e o Curato de São Simão (Lei n. 15 de 25 de Fevereiro de 1841.) A villa de Casa Branca pertencia então ao termo de Mogy-mirim, parte integrante da 3ª comarca do mesmo nome e depois 7ª comarca (Mogy-mirim e Franca); mais tarde da comarca de Franca até 1863, quando Casa Branca tornou a pertencer á comarca de Mogy-mirim até a creada a de seu nome, lei n. 46 de 6 de abril de 1872, art. 1º §1º, sendo-lhe incorporada a freguezia de São Sebastião da Boa Vista pela lei n. 25 de 17 de Março de 1871. Mas não antecipemos.

A capella curada foi elevada á freguezia pela lei n. 15 de 5 de Abril de 1856: tem justamente a idade do autor destas linhas. Era então vice-presidente de S. Paulo em exercício o dr. Antonio Roberto de Almeida, que succedeu ao dr. José Antonio Saraiva e serviu de 16 de Maio de 1855 a 28 de Abril do anno seguinte.

A lei n. 29 de 24 de Março de 1871 elevou a freguezia á categoria de villa, com a obrigação de seus habitantes construírem edifício para a cadêa e casa de câmara. Esta lei foi sancionada pelo presidente da província dr. Antonio da Costa Pinto e Silva, mais tarde conselheiro e ministro.

A primeira Camara Municipal foi composta dos srs. tenente-coronel Gabriel Garcia de Figueiredo (presidente), dr. José Americo de Siqueira, João Evangelista de Sillos, alferes Francisco Fernandes Pedrosa, alferes José Justino de Figueiredo, capitão Antonio Luiz de Souza e alferes Gabriel Fernandes Pinheiro, servindo de secretario o sr. Antonio Dias dos Reis.

Já em acta da 1ª sessão de 1873, a 3 de Fevereiro, a Camara approvava o Codigo das Posturas; o vereador Sillos indicava que o imposto de licença pago pelos mascates estrangeiros fosse superior ao que pagam os nacionaes; e mais que se representassem à Assembléa Provincial peindo a decretação do ensino primário obrigatório.

O primeiro orçamento municipal publicado (não encontrei outro anterior na colleção de leis provinciaes) é o de 1879. Resolução n. 13 de 31 de Maio § 17. A receita e a despeza estavam orçadas em 3:242$.

Naquelle mesmo anno o orçamento municipal da Franca era de 5:873$705, o de Batataes de 3:820$; o anterior de Caconde fôra de 1:286$920.

 

II.

Este termo obteve um logar de juiz municipal e de orphams pelo decreto n. 5533 de 16 de Maio de 1874.

A lei n. 10 de 24 de Março de 1874 estabelece que – os termos de Caconde e São Sebastião da Bôa Vista ficam constituindo uma comarca, cuja cabeça será São Sebastião da Bôa Vista.

A nova comarca devia, portanto, chamar-se – comarca de São Sebastião da Bôa Vista.

Tal, porem, não aconteceu. E na sessão de 22 de Junho de 1874, a Camara Municipal approvava unanimemente a indicação do vereador dr. José Americo de Siqueira, para que se consignasse na acta “um voto de pezar pelo facto de haver sido alterada pelo poder executivo geral a lei que creou a comarca comprehendendo este termo e o de Caconde, com a denominação desta localidade e com séde na mesma, alteração essa que foi feita com a nomeação do dr. José Pinheiro de Ulhôa Cintra[2] para juiz de direito da comarca de Cqaconde; que ficasse na mesma acta declarado que a Camara, como representante legitima dos interesses do município, via, tomada da mais profunda sorpreza e consternação essa invasão do poder executivo na esphera do legislativo, com offensa manifesta de seus direitos, e que em tempo opportuno rengisse ella com toda a energia, reivindicando os seus direitos”.

A comarca de Caconde foi installada a 13 de Novembro do mesmo anno, comparecendo naquelle dia perante a Camara Municipal desta villa o juiz nomeado, dr. José Pinheiro de Ulhôa Cintra.

São Sebastião da Bôa Vista obteve os fóros da cidade pela lei n. 20 de 8 de Abril de 1875 §2º; com a denominação de MOCÓCA[3]. A mesma lei elevou a cidade as villas de S. Sebastião (marinha), Caçapava e Batataes.

Caconde só foi elevada a cidade pela lei n. 10 de 9 de Março de 1883, por um projecto do autor destas regras[4].

A segunda Camara Municipal, primeira da cidade, foi composta dos srs. José Thomaz de Carvalho, presidente, Antonio Manuel Ribeiro, Antonio José Dias Lima, José Pereira dos Santos, Tertuliano José Vieira da Silva, Miguel Ferreira da Silva, Theophilo Custodio Dias, Pedro Fernandes Pedrosa e Antonio Corrêa de Souza. Celebrou a sua primeira sessão a 2 de Fevereiro de 1877, servindo de secretario o sr. Antonio Dias dos Reis.

A Camara do quatriênio seguinte ficou composta dos Srs. tenente Diogo Garcia de Figueiredo, presidente, Antonio Dias dos Reis, José Pereira dos Santos, Francisco Garcia de Figueiredo, Joaquim Fernandes Pinheiro, José Manuel da Silva, alferes José Joaquim de Figueiredo, Antonio José Dias Lima e Antonio da Costa Pereira; secretario, João Mendes de Oliveira Brandão. Celebrou a sua primeira sessão a 7 de Janeiro de 1881.

Voltaremos a tratar da Camara Municipal.

Em 1872 contava a povoação 3.934 almas, sendo 1.097 escravos. Em 1876 contava 10 eleitores[5].

O senador Joaquim Floriano de Godoy dava, em 1870, a esta povoação 4.087 habitantes[6].    

Em 1886 Mocóca contava 5.255 almas, sendo 1.306 escravos, representando um valor de 368:800$000.

A eleição de 1881, primeira após a lei de 9 de Janeiro, que estabeleceu o systema directo, concorreram ás urnas nesta cidade 74 eleitores. Em 1889 votaram 95.

Após a republica, em 1891, o numero de eleitores da mocóca era de 453. Em 1893, de 695. Em 1894 de 713 tendo, porem, concorrido á ultima eleição municipal 458 eleitores.

Em 1886 a exportação média annual do café era de 1:400.000 kilogrammas, e o fumo de 21.000 kilogrammas.

O preço médio das terras por alqueire era de 150$000 para as superiores; 80$000 para as de 2ª qualidade, 50$000 para as baixas e 10$000 para as de campo.

Já vimos que na doação do patrimônio trinta e três alqueires foram orçados em 333$000, em 1847.

Em 1886 contava o município 14 fazendas de criar, com a seguinte producção annual de gado:

Bovino 4.500 cabeças

Equino 1.300 ″

Suíno 4.000 ″

Lanígero 800 ″

No mesmo anno as rendas municipaes (exercício de 1885-86) produziram 6:736$600. As rendas geraes e provinciaes eram arrendadas por uma agencia da colletoria de Casa Branca, que rendeu 16:335$071 para os cofres geraes, 67:607$362 para os provinciaes e 16:927$024 para os municipaes.

O orçamento municipal da Mocóca para o exercício de 1881-85 foi de 6:670$000.

A lei n. 80 de 25 de Agosto de 1892, alterando a lei n. 18 de 21 de Novembro de 1891, que organizou o poder judiciário, em seu art. 1º §1º extinguiu os termos judiciários, passando cada um dos que existiram a constituir comarca.

Assim a comarca de Cacode, comprehendendo Mocóca e classificada comarca geral de 1ª entrância pelo decreto n. 5.631 de 16 de Maio de 1874, com sua séde nesta villa, ficou dividia, sendo nomeado juízes letrados para ambas.

A freguezia de S. José do Rio Pardo, termo de Casa Branca, ei n. 43 de 16 de Abril de 1874, art. 3º, foi desligada desse termo para o de Caconde, lei n. 40 de 8 de Maio de 1877.

Não tendo obtido previsão canônica, o arraial de S. José do Rio Pardo foi de novo levado a freguezia annexado ao termo de Casa Branca, lei n. 70 de 14 de Abril de 1880. Pertenceu, pois, a esta comarca pelo espaço de 3 annos.

Foi elevado a villa pela lei n. 49 de 20 de Março de 1885, installada a 8 de Maio de 1886.

O decreto n. 179 de 29 de maio de 1891 elevou a villa á categoria de cidade, com a denominação de – CIDADE LIVRE – do Rio Pardo.

O mesmo governador Dr. Americo Braziliense, por decreto de 6 de junho do mesmo anno, attendendo a representação dos moradores, retificou aquelle acto, tirando á cidade de S. José a denominação de – LIVRE.

III.

A legislação provincial e estadoal referente a este município é pouco volumosa.

Consta dos decretos e resoluções cuja summa vamos dar.

Heureux les peuples qui n’ont pas d’histoire.

Obteve esta Villa uma 2ª cadeira de primeiras lettras para o sexo feminino. – Lei n. 37 de 6 de Abril de 1872.

As suas divisas com a Parochia da Villa de Casa Branca serão o rio Pardo, e com as Villas de Caconde, S. Simão e Cajurú as divisas que já existiam. – Lei n. 15 de 5 de Abril de 1856.

Pela Lei n. 55 de 15 de Abril de 1868 foi declarado que esta freguezia, limitada em seu território pelo rio Pardo e Ribeirão das Canôas, até entestar com as divisas de Caconde, fica incorporada a este município, ficando o restante do território da mesma freguezia pertencendo á Villa de Cajurú.

Esta Freguezia foi desligada do Municipio de Caconde, e incorporada ao de Casa Branca, ficando com as seguintes divisas: Começando no rio Pardo, onde conflue o ribeirão Guaxupé; seguirão sua corrente acima até os limites com a Provincia de Minas Geraes; voltarão á esquerda até o rio das Canôas, partindo sempre com a referida Provincia; prosseguirão por este ultimo abaixo até a confluência no Rio das Arêas, e irão por este acima pela antiga divida; procurarão o cume da serra do Cubatão até o rio Cubatão; e por este abaixo até o rio Pardo, pela antiga divisa; e seguindo pelo rio Pardo acima até a confluência no Guaxupé, ahi terminarão. – Lei n. 25 de 17 de Março de 1871.

Ficaram pertencendo a este município, sendo desligadas do de Cajuru as fazendas do capitão José Caetano de Figueiredo e Manuel Caetano de Figueiredo. – Lei n. 18 de 16 de Março de 1873.

A Matriz desta cidade obteve uma loteria pela lei n. 34 de 20 de Abril de 1875; sendo, porém, esta revogada pela lei n. 11 de 7 de Julho do mesmo anno.

A este município ficou pertencente a fazenda denominada Coqueiros, situada no de S. Simão, é propriedade do capitão José Caetano de Figueiredo. – Lei n. 55 de 21 de Maio de 1877 art. 1º.

A Resolução n. 21 A de 1º de Junho de 1877 approvou o Codigo das Posturas da Camara Municipal desta cidade.

Ficou pertencendo a este município e desligada de Casa Branca a fazenda do capitão Vicente Alves de Araujo Dias – Lei n. 33 de 31 de Março de 1884.

Foi desmembrada do município de Casa Branca e annexada a este, a fazenda de José Julio de Araujo Macedo, situada entre os dois municípios. – Lei n. 50 de 1º de Abril de 1884.

Artigos de posturas, marcando vencimentos dos empregados da Camara Municipal. – Resolução n. 21 de 1º de Abril de 1884.

Código das posturas da Camara Municipal. – Resolução n. 52 de 18 de Junho de 1884.

Foram reestabelecidas as antigas divisas pelo rio Pardo, entre este município e o de Casa Branca, alterando-se nesta parte a lei n. 70 de 14 de Abril de 1880 – Lei n. 5 de 6 de Fevereiro de 1885.

Á Matriz desta cidade foi concedida uma loteria. – Lei n. 95 de 20 de Abril de 1885.

Artigos de posturas sobre venda de gêneros em fazendas. – Resolução n. 148 de 18 de Maio de 1889.

Foram creados neste termo um officio de partidor, e um officio de partidor e contador – Decreto n. 54 de 29 de Maio de 1890.

Ficou pertencendo ao município de S. José do Rio Pardo a fazenda denominada – Tubaca – do capitão Vicente Alves de Araujo Dias, revogada a lei n. 33 de 31 de Março de 1884. – Decreto n. 3 de 17 de Setembro de 1891.

Foram creados neste termo um 2º officio de tabellião do publico; judicial e notas e um officio de distribuidor, annexo ao de partidor e contador. – Lei n. 40 de 8 de Julho de 1892.  

(Texto transcrito por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti, em 3 de dezembro de 2025, pela ocasião dos 130 anos da veiculação da primeira parte do ensaio do dr. Bourroul, com a valiosíssima contribuição do historiador mocoquense, Antonino Silva. Também, consigno os agradecimentos à Evelina, do IHGSP, sempre diligente, e a Sander Rogerio, confrade do IHCA, que despertou o interesse pelo dr. Bourroul).



Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti é advogado; pós-graduado em Gestão Pública (2023); pós-graduando em Filosofia e Sociologia (2025); é membro e pesquisador do Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo – IHCA (2017-presente); colaborador do Instituto Bruno Giorgi – IBG (2023-presente); um dos idealizadores da Revista de Estudos do Instituto Bruno Giorgi e membro do Conselho Editorial; articulista do Boletim Informativo do IHCA; colunista do jornal Cidade News; foi o revisor, colaborador e prefaciador do livro A Mococa: de sua fundação até 1900, de autoria de Humberto de Queiroz, organizado IBG, relançado em 2024; autor dos livros A Igreja do Morro: levantamento histórico em comemoração aos 70 anos da Igreja de Santa Cruz de Mococa-SP e Neide Falarini Bedin: a vereadora, a artista, a madrinha, publicados em 2025; proprietário do blog Bico de pena e afins, onde publica artigos de cunho histórico, sociológico e genealógico; colaborou com a publicação de diversos livros e revistas. É o presidente da Comissão Cultural da 88ª Subseção da OAB/SP, para o exercício 2025-2027.



[1] Entre os quaes Venerando Ribeiro da Silva, protector da capella; Salvador Pedro de Moraes; Emygdio Antonio de Jesus; Joaquim Gonçalves de Moraes; José Gomes de Lima; Domingos Antonio de Castro; José Pereira dos Santos.

O auto de posse judicial no terreno do patrimônio doado, reconhecido no espaço de 33 alqueires de planta de milho, avaliado em 333$000 em dinheiro, traz a data de 4 de Dezembro de 1847, sendo fabriqueiro Felicissimo Antonio Pereira, juiz municipal 1º supplente Antonio José Teixeira de Carvalho e Vasconcellos, official de justiça Severiano Constantino Pereira, fiscal Joaquim José Pereira; auto julgado por sentença a 15 de Dezembro de 1847, sendo presidente da província o brigadeiro Bernardo José Pinto Galvão Peixoto e Vigario Capitular do Bispado o Conselheiro dr. Vicente Pires da Motta.  

[2] Já fallecido. Foi juiz de direito em S. João da Boa Vista e Casa Branca; magistrado probo e modesto, irmão dos drs. Delfino Cintra e Barão do Jaguará, influencias nos antigos 3º e 9º districtos; também fallecidos ambos este anno, a poucos mezes de distancia

[3] Mais de espaço nos alongaremos sobre este nome de MOCÓCA, dado pelos primeiros habitantes á povoação com o diminutivo de – MOCOQUINHAS.

[4] Então deputado autonomista por este districto, mas sem votação alguma nesta cidade, por ser ignorado por todas as chapas exclusivamente partidárias, o que não impedio a sua eleição a 26 de Novembro de 1881, em 2º escrutínio.

O projecto traz o n. 34 e a data de 31 de Janeiro de 1883. Assignou-o igualmente o sr. tenente-coronel Antonio José Corrêa, Barão do Rio Pardo. 

[5] A Provincia de S. Paulo, mappa annexo á pagina 46.

[6] Manuel Euphrasio, Apontamentos hist.., II, pag. 73.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

90 ANOS DA CAPELA DE CANOAS



Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 



Há poucos dias, a capela de Nossa Senhora Aparecida, situada em Canoas, o pequeno povoado do Município de Mococa, nos limites com Minas Gerais, comemorou seus 90 anos de inauguração. 
O povoado surge em decorrência da inauguração da estação da Mogiana, em 1890, por iniciativa, segundo depoimentos, de João Nicola. 
Aquele local, no começo do século XX, aparece na divisão dos quarteirões eleitorais como "Pedra Branca", sendo eleitores da localidade: Antônio José Vieira, Antônio de Oliveira Rocha, Antônio Ferreira Guimarães Junior, Bernardino Teixeira Bastos, Evaristo Teixeira da Silva, Henrique Longuinho Pimenta, Honório Teixeira da Silva, José Candido Pinto, Joaquim Garcia de Figueiredo, Joaquim Teixeira da Silva, Joaquim Candido Pinto, Joaquim Gomes Saldanha, Lourenço Xenofante Staffa e capitão Olimpio Garcia de Figueiredo.
O local estratégico, situado na fronteira entre Minas e São Paulo, bem como situada uma estação ferroviária, que possibilitava o transporte de cargas e do café das grandes fazendas limitrofes, elevou Canoas a um ponto comercial considerável. 
Os anos se passaram e mais famílias chegaram: Coelho Marcelino, Espírito Santo, Del Telesco, Mancuso, dentre tantos outras que depositaram na prosperidade do povoado as suas esperanças. 
Em junho de 1934, de modo a atender as necessidades espirituais daquele bom povo, uma comissão foi formada, de modo a realizar as obras da vindoura capela, assim composta: Olimpio Garcia de Figueiredo, presidente; dr. Francisco Pereira Lima, vice-presidente; João Del Tedesco, tesoureiro; e Aristides Del Tedesco, secretário. 
O terreno foi doado pelo capitão Olimpio, conforme contrato particular de doação, abaixo transcrito:

"Contracto por instrumento particular de doação pura e simples.
Entre Olympio Garcia de Figueiredo, brasileiro, lavrador, viuvo, residente neste municipio, e a Fabrica da Igreja Matriz, entidade juridica de mão morta, com sede nesta cidade, neste acto representada pelo seu fabriqueiro e vigario desta parochia Mons. Argilio Malatesta, fica justo, combinado e contractado o seguinte: Olympio Garcia de Figueiredo é senhor e possuidor de um terreno a beira da estrada que da estação de Canôas, deste municipio, vae a Arceburgo, do Estado de Minas Geraes, medindo 25 metros de frente por 40 metros da frente aos fundos, ou sejam mil metros quadrados; que o alludido terreno foi desmembrado do sitio “Canôas” que por sua vez é desmembrado do imóvel “Pedra Branca”, deste municipio, sitio esse que houve por compra feita a Azarias Pereira da Silva, conforme escriptura publica lavrada nas notas do 1º tabelião desta cidade, em 21 de março de 1920, sob nº 4.129 e confrontando o mesmo em sua totalidade com o doador, Rio Canôas e com a estrada pública que vae à fazenda de João Baptista de Souza; que nesse terreno está sendo construída uma Igreja sob a invocação de Nossa Senhora Conceição Apparecida. 
Que possuindo o alludido terreno livre e desembaraçado de quaesquer onus, de sua livre e espontanea vontade e tendo somente em vista os seus sentimentos religiosos e catholicos, cuja causa deseje que se estenda cada vez mais, faz doação pura e simples do mesmo à Fabrica da Matriz desta cidade, estimando o alludido terreno na importância de quinhentos mil reis (500$000); que assim cede e transfere à mencionada Fabrica toda a posse, domínio, direito e acção que tenha no alludido terreno para que do mesmo use e goze como seu que fica sendo, abrigando-se o mesmo doador por si, seus herdeiros ou successores, em qualquer tempo fazer esta doação boa, firme e valiosa e responder pela evicção do direito. 
  A Fabrica da Matriz desta cidade por seu fabriqueiro supra mencionado, declara aqui aceitar este instrumento particular de doação. Declarando mais que pagará impostos de transmissão inter-vivos por occasião de ser este instrumento transcripto no Registro Geral desta comarca. Assim juntos e contractados mandaram lavrar este instrumento em duas vias na forma da lei, que assignam na presença de duas testemunhas, abaixo. 
Mococa, 23 de Maio de 1934.
(a.) Olympio Garcia de Figueiredo
Mons. Argilio Malatesta
João Del Tedesco
Affonso Prescendo
 Esta copia do contracto de doação do terreno, onde está sendo construída a Capela de N. S. Apparecida em Canoas e por mim lavrada está conforme o original remetido a Curia Diocesana para os dins de direito. O Vigario (a.) Mons. Argilio Malatesta. Mococa, 1º de junho de 1934".

As obras ficaram sob a responsabilidade de João Del Tedesco. Diversas doações foram realizadas, podendo-se citar: os sinos, vindos da J. Nicola e irmãos; a imagem de Nossa Senhora Aparecida, doada por José Augusto dos Santos; a imagem de São José, pelo dr. Arthur De Lucca Neto; São Sebastião, por dr. José Armando; e os lustres, pelo dr. Américo Pereira Lima. 
Em 17 de novembro de 1935, após uma missa muito concorrida, celebrada pelo padre Salim Abrão, da Paróquia de São João Batista de Arceburgo, fez-se a esperada inauguração, para o júbilo dos moradores de Canoas. 
Em 30 de abril de 1944, a fé novamente moveu seus habitantes, sob a orientação e iniciativa do frei Isidoro de Telve, capuchinho, e de dona Maria da Conceição de Mourão Figueiredo, que coordenaram a criação da Irmandade de Nossa Senhora Aparecida, integrando-a como zeladores: Pedro Rossetti, João Caetano da Silva, Francisco Marioto, Primo de Sordi, João Jacinto Alves, Rosa Mancuso, Celina de Moraes, Geralda Pontes, Carolina Bini e outros 52 membros. 
Assim como as demais capelas filiais da Paróquia de São Sebastião de Mococa, a capela de Canoas foi entregue aos cuidados dos freis capuchinhos. 
Hoje, zelam pela Capela a Paróquia de Santa Cruz, podendo-se mencionar os cuidados promovidos por Antônia Regina Mancuso Silva, Natalina Marcelino Balan e Moisés Campos, sob a competente supervisão do padre Antônio Carlos Ferreira de Souza.
Em abril de 2025, com o lançamento do livro "A Igreja do Morro", que rememora os 70 anos da Igreja de Santa Cruz, o povoado de Canoas teve sua história narrada com primor pelo renomado historiador, Sander Rogerio, no capítulo "A Estação Canoas: Achegas para sua história". 
Canoas nasceu sob a proteção dos trilhos do trem; minguou pela força do asfalto e dos automóveis. As vicissitudes do destino diminuíram sua população e seu comércio, mas não fizeram esmorecer em nada a lembrança de seu povo e da cidade de Mococa, que nutre, por aquele pequeno povoado, admiração pelas glórias do passado. 

Fotografia: capela de Nossa Senhora Aparecida, de Canoas, publicada em 1936 no A Mococa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Os prédios da Câmara Municipal de Mococa

 

por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 

Foto preta e branca de um edifício

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Fotografia do Paço Municipal, nos anos de 1906. Acervo do autor.

Segundo narra Humberto de Queiroz, conforme escrito alhures, era condição para a instalação da Vila de São Sebastião da Boa Vista a construção de um prédio para abrigar a Câmara e a cadeia. Tal construção foi realizada por subscrição popular, encabeçada por Gabriel Garcia de Figueiredo, em 1872. Segundo Humberto de Queiroz, esse “edifício perdurou até o anno em que escrevemos (1900), quando foi demolido, para dar logar ao moderno e elegante Paço Municipal[1]”. Queiroz narra, ainda, que o novo prédio da Cadeia foi edificado em 1895, ao lado do prédio construído em 1872. No jornal, Correio Paulistano, edição de 2 de abril de 1895, consta a informação que foi “solicitada do governo a auctorização de 2:145$374, para pagamento ao contractante das obras da cadeia de Mocóca, referente ao augmento dos alicerces daquelle edificio”.

No prédio da Cadeia, no piso superior, a Câmara realizava a sua sessão de posse dos vereadores, em 6 de janeiro de 1896, conforme narra O Estado de S. Paulo, edição de 18 de janeiro de 1896:

Tomou posse a nova Municipalidade no dia 6.

Foi eleito intendente o distincto clinico sr. dr. Antonio Muniz Ferreira, chefe governista.

A Camara conta 6 republicanos e 2 monarchistas, em uma eleição muito renhida.

Por occasião da posse da Camara, inaugurou-se o novo paço municipal.

É bem construído e elegante. Apenas a escada é bizarra e original, e muito baixa.

A mobília é luxuosa e muito superior á da Camara Municipal de São Paulo.

No mesmo edifício funciona o Forum. Mas os juízes dão as suas audiências em um local acanhado.

Entende-se, afinal, que as obras no prédio da Cadeia, no sentido de sua ampliação, serviram para abrigar o Paço Municipal. Na sessão da Câmara dos Deputados de São Paulo, de 25 de julho de 1899, o deputado Amador Cobra, ao solicitar a palavra na discussão da emenda ao projeto de lei nº 97 de 1899, expressa-se nos seguintes termos:

Sr. Presidente, pedi a palavra para apresentar uma emenda que não traz despesa alguma. Ella trata exclusivamente de uma restituição ao município de Mocóca.

Em 1870, mais ou menos, os habitantes daquella localidade querendo obter do governo a elevação da freguesia a villa, fizeram a expensas suas um prédio, que servia ao mesmo tempo de cadeia, paço municipal e fórum e o offereceram ao governo para gozarem dos foros de villa.

De facto, o prédio teve esse destino até 1875, como v. exa. sabe, sr. presidente, porque alli residiu como juiz de direito. Nessa época o governo mandou fazer um prédio novo, que destinou a cadeia e fórum. E a Camara Municipal, não tendo prédio próprio, começou a ocupar o prédio do governo, ficando em completo abandono a cadeia velha, que alli se está esboroando.

Lembrei-me, pois, de apresentar uma emenda pedindo no governo que restitua o prédio velho ao município para installação do respectivo paço da Camara. Já vê v. exa. que a emenda não traz despesas alguma: é apenas uma restituição. Por isso estou certo que os meus collegas não negarão seu voto para a restituição, afim de que a Camara possa celebrar suas sessões mais condignamente em prédio próprio.   

Assim, menciona o deputado Amador Cobra que o governo provincial edificou um prédio para a cadeia. Afirma Queiroz, nesse prédio funcionou a Câmara Municipal.

A Cadeia, bom edifício, feito pelo Governo Estadual, custou 40 contos e foi edificada pelo hábil constructor André de Luca. Consta de dous andares. No andar térreo funcciona a Cadeia e no superior a Camara e Audiencias.

Dispõe de espaçoso salão ricamente mobiliado, com bonita collecção de retratos a óleo, etc.

Está concluído, ao lado d’este, um novo edifício destinado exclusivamente aos trabalhos da Camara Municipal e por esta mandado construir[2].

A restituição do prédio viria por uma emenda ao Projeto de Lei nº 97, de 1899, acima mencionado, cuja emenda foi proposta pelo deputado Amador Cobra, transformado em Lei sob o nº 686, de 16 de setembro de 1899, cujo Art. 29 autorizava o Governo Estadual a “entregar á Camara Municipal de Mocóca o predio denominado Cadeia Velha, ora abandonado, para instalação do seu respectivo paço”.

À guisa de curiosidade, é de supor que houve um erro de transcrição do discurso do deputado, e que o prédio da cadeia nova foi edificado em 1895, conforme consta na citação acima, extraída do livro de Humberto de Queiroz. Foi construído às expensas do Governo do Estado de São Paulo, importando no valor de 40 contos de réis.  

Casa com paredes de madeira

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Antiga cadeia de Mococa. No piso superior, funcionou a Câmara. Acervo de Antonino Silva.

Foto em preto e branco

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Fotografia da cadeia e fórum, cujo piso superior serviu de Paço Municipal de 1896 até 1903. Acervo de Antonino Silva.

A cadeia velha restituída ao município para que fosse demolida, dando lugar ao Paço Municipal. Seria, afinal, por força de um projeto de lei do vereador, dr. Antonio Muniz Ferreira, em sessão de 16 de outubro de 1899, exatamente um mês após a autorização da restituição do prédio da cadeia velha. O dito projeto autorizava “a construção de um prédio próprio para a Camara Municipal no lugar onde existe o antigo”. No A Mococa, edição de 18 de novembro de 1900, publica-se um artigo acerca da demora para a conclusão da construção do novo prédio da Câmara, onde consta a informação que utilizou-se materiais da cadeia velha, cedidos ao empreiteiro. A guisa de curiosidade, nesta mesma ocasião, o semanário afirma que a reforma custara 10:872$300 aos cofres municipais.

Em 14 de junho de 1903, o semanário A Mococa, consignava a seguinte nota:

NOVO PAÇO MUNICIPAL

Conforme noticiamos em nosso numero anterior, teve logar, no dia 7 do corrente, ao meio dia, a inauguração do novo Paço Municipal.

Á noite, esteve esse bello edificio illuminado exterior e interiormente, a gaz acetyleno, e conservou-se aberto até dez horas, em razão de grande numero de exmas. familias que o foram visitar.

Mais uma vez apresentamos á patriotica Camara Municipal e seu illustre e digno Intendente nosso sincero parabens, por ter levado a effeito mais esse grande melhoramento local.

Caixa de Texto: Fotografia da lateral do antigo Paço Municipal de Mococa, da cadeia e, ao fundo, a Santa Casa de Mococa, constante no Relatório de Inspecção Sanitária, elaborado pelo dr. Augusto Barreto Filho, em 1922.Foto preta e branca de um edifício

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Foto preta e branca de um edifício antigo

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Foto preta e branca de um edifício antigo

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Antigo Paço Municipal, acervo do Museu Histórico de Mococa.

Foto em preto e branco de pessoas na frente de um prédio

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Antigo Paço Municipal de Mococa, presentes autoridades e militares, que posam para a fotografia, de data desconhecida. Acervo do Museu Histórico de Mococa.

Foto preta e branca de pessoas na frente de castelo

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Aspecto do antigo Paço Municipal. Ao fundo, é possível ver a torre da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Fotografia veiculada no jornal, A Mococa.

Estátua de pessoa em frente a igreja

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Acervo do Museu Histórico de Mococa.

 

Nos anos de 1950, o então prefeito, Jacinto Pisani, optou por providenciar a reforma da Câmara e da Prefeitura, procedendo com a demolição do antigo prédio. A obra foi posta à providência do renomado engenheiro, Dr. Guilherme De Felippe, que procedeu com a construção de inúmeros edifícios, igrejas e residências e particulares na cidade.

A inauguração do prédio ocorreu no dia 5 de abril de 1959, aniversário da cidade de Mococa. Pouco antes, em 20 de março do mesmo ano, o então presidente, Dr. Clóvis Gonçalves Dias, assinou a Resolução nº 76, determinando que, a partir da inauguração do prédio, o funcionamento da Câmara Municipal seria realizado em sua nova Casa. O jornal, A Mococa, em edição especial daquele mesmo dia, publicou o seguinte:

O NOVO PRÉDIO DO PAÇO MUNICIPAL, QUE HOJE SE INAUGURA, É UMA OBRA QUE JUSTIFICA UMA ADMINISTRAÇÃO

Será inaugurado hoje o novo edifício público da cidade, marco de uma nova era – Confortável e bem apresentado o novo edifício do Paço – As dependências da Câmara são palacianas.

Como parte dos festejos comemorativos da grata efeméride de hoje, 103º aniversário da elevação da cidade de Mococa à categoria de Município, será inaugurado, com sessão solene da Edilidade local, a ser realizada às 19 horas, o prédio recém-construído pela Prefeitura Municipal e que abrigará todas as dependências da mesma e da Câmara dos Vereadores.

O Paço Municipal, de linha sóbrias e de concepção funcional, atenderá aos reclamos e as conveniências de todos os serviços da Prefeitura e da Câmara, tornando-se, assim, um magnifico edifício publico da cidade, marco de uma era administrativa para nós.

Concebido em dois pavimentos, com entradas independentes, e bem funcionais o prédio a ser inaugurado hoje para o Paço Municipal, é sem duvida um melhoramento público de reais benefícios para todos os munícipes, que, doravante com os serviços municipais bem instalados, terão atendimento de suas pretensões junto à administração do Município melhor estudadas e mais prontamente solucionadas.

Tendo em vista que o programa oficial de comemorações do Dia do Município inclui a inauguração do majestoso prédio e o mesmo não está, ainda, definitivamente pronto, resolvemos fazer-lhe uma visita para aquilatarmos das possibilidades de cumprimento do programa oficial. Definitivamente, o prédio será inaugurado, embora uns arremates, de instalações internas da Prefeitura fiquem para conclusão logo mais, não excedendo, todavia, quinze dias depois.

De nossa visita, no entretanto, colhemos a mais agradável impressão de tudo quanto nos foi dado ver, pois, indiscutivelmente, o prédio a ser inaugurado foi ideado e construído com carinho e muito acerto, de acabamento fino, plenamente compatível, com o nosso grau de adiantamento, cultura e progresso. O recinto reservado para a Câmara Municipal é amplo e instalado com fino gosto, constituindo-se magnifica montagem, bem própria para o fim a que se destina. As salas auxiliares, tais como gabinete do Presidente da Câmara, Biblioteca, Sala de Comissões, Sala do Café, Secretaria e outras, são excelentes dependências, de conforto e funcionalidade, também montadas com sobriedade e apurado gosto.

As dependências reservadas para a Prefeitura, como Gabinete do Prefeito, Secretaria da Prefeitura, Secretaria da Prefeitura, sala de espera para o povo, Tesouraria, Lançadoria, Repartição de Águas e Esgotos, Contabilidade, Contabilidade, Gabinete Técnico do Engenheiro, Junta Militar e Comissão de Espore, estão todas elas bem dispostas no conjunto e podem, muito, facilitar, o fácil acesso do público, como atender a todas as conveniências dos serviços.

O novo prédio, construído pela Prefeitura Municipal, por proposta do sr. Jacinto Pisani, Prefeito Municipal e unanimente aprovado pela edilidade, é, todavia, o fruto da dedicação, operosidade e bom gosto de dois administradores públicos, a quem Mococa muito passa a dever: o sr. Prefeito Municipal, Jacinto Pisani e sr. Dr. Clóvis Gonçalves Dias, Presidente da Câmara Municipal, que tudo fizeram para a realidade do mesmo. O sr. Jacinto Pisani, com a presente obra de sua administração e só com ela já merece encômios, não tivesse, ainda, tantas outras a enumerar em seu favor. O sr. Dr. Clovis Gonçalves Dias, Presidente da Câmara, pela sua boa vontade e disposição de trabalho demonstradas durante o andamento da obra, também merece o respeito e a consideração do público, não tivesse, também, em seu favor, este equilíbrio de magistrado, essa cultura jurídica e esse senso de homem público probo e dedicado ao bem coletivo.

Faltaríamos com a justiça se deixamos aqui de reverenciar, também, as figuras dos drs. Oswaldo Martella e Guilherme de Felippe, o primeiro como autor do projeto e o segundo como o executor técnico do mesmo, ambos, porém, zelosos e interessados no melhor aproveitamento do dinheiro público. Dizemos bem, zelosos do dinheiro público, pois, ambos tudo fizeram para que a construção do novo Paço Municipal atendesse da melhor forma possível aos interesses administrativos da instalação das diversas secções e departamentos dos seus serviços, como, também, fosse executada com dispêndio da menor importância, da menos quantia de dinheiro público. E foi o que efetivamente aconteceu, pois, aliado à técnica e aos conhecimentos profissionais que possuem, estava o amor à terra que ambos devotam a ela em alta escala. A inauguração de hoje, pois, deve ser também a de reverência do povo aos seus administradores, pela obra que realizaram, que justifica uma gestão pública e que é o novo marco plantado na história do progresso de nossa terra, este lindo torrão paulista incrustrado nos contrafortes das Gerais.

Uma imagem contendo Diagrama

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Foto preta e branca de jornal com texto preto sobre fundo branco

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.                        Jornal com texto preto sobre fundo branco

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No dia da inauguração, que contou com a presença do deputado, João Bravo Caldeira, leu-se a seguinte ata:

ATA DA SESSÃO ESPECIAL REALIZADA EM 5 DE ABRIL DE 1959, EM COMEMORAÇÃO AO 103 ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA CIDADE E POR MOTIVO DA INAUGURAÇÃO DA NOVA SEDE DA CÂMARA MUNICIPAL.

PRESIDENTE: Dr. Clovis Gonçalves Dias. SECRETÁRIOS: Edgard Freitas e Dr. José Paione. As dezenove e meia horas, presentes os vereadores Christovam Lima Guedes, Dr. Clovis Gonçalves Dias, Edgard Freitas, Euclydes Motta, Francisco Alaor Iório, Gelso Pedrosi, José André Lima, Dr. José Paione, José Pinheiro Anzaloni, Dr. José Roberto de Figueiredo Ferraz, Paulo Paladini, Walter Antonio Becker e Dr. Wilson de Figueiredo Sousa, ausente por motivo justificado, o vereador Pedro Magri, teve início a sessão especialmente convocada para comemoração do 103 aniversário da fundação da cidade e por motivo da inauguração da nove sede da Câmara Municipal. Tomaram assento à Mesa os Senhores: Jacintho Pisani, Prefeito Municipal; Deputado João Bravo Caldeira, representando, também, o Exmo. Sr. Governador do Estado, o Sr. Presidente da Assembléia Legislativa e a própria Assembléia; Dr. Ernani de Almeida Paiva, Promotor Público da Comarca; Padre Paulo Haroldo Ribeiro, Pároco; Frei Thiago Maria de Cavedini, Guardião do Convento São José e, em lugares reservados, outras autoridades locais, ex-Presidentes da Câmara e ex-Prefeitos Municipais, especialmente convidados. Com o recinto completamente tomado por enorme assistência, o Sr. Presidente, dando início à sessão, pronunciou as seguintes palavras sendo ao final calorosamente aplaudido pela assistência: "Ao Abrir esta sessão, especialmente convocada para celebrar o 103º aniversário de nossa Terra, quando, pela primeira vez nos reunimos nêste novo edificio, queremos, primeiramente, cumprimentar felicitar a população de Mococa pela conquista dos novos melhoramentos que hoje passam a integrar, como bens de uso comum, o patrimônio de nosso povo. Tivemos pela manhã a benção do novo serviço de abastecimento de agua. Obra grandiosa, estudada e planejada pelo Prefeito Dr. Francisco de Lima Camargo; iniciada pelo Prefeito Christovam Lima Guedes, e executada em ritmo acelerado e concluida na gestão do atual Prefeito Sr. Jacintho Pisani. Nêste momento e entregue ao povo a nova sede do Governo Municipal. Os presentes já tiveram oportunidade de conhecer êste Paço, e, creio, estarão plenamente convencidos de que o povo merecia esta obra, já pelo seu alto nivel de civilização, como tambem pela necessidade material de um local adequado para instalação dos serviços públicos municipais. Quem conheceu a construção antiga que existia nêste lugar e quem conheceu a casa ao lado, que servia para as reuniões do legislativo municipal, por certo concordará que esta obra era inadiável e que o dinheiro público foi bem empregado, passando êste edificio a ser um "cartão" para a cidade, atestando seu progresso e as realizações de seu povo. A administração municipal, cujas rédeas estão nas mãos experimentadas de Jacintho Pisani, merece os mais francos elogios e a incondicional solidariedade de todos os municipes. Prefeitos bons houve muitos em nossa terra, −mercê de Deus −, mas o atual administrador de Mococa, com seu dinamismo e operosidade, com seu geito calmo e objetivo de encarar os problemas, com sua modéstia e honestidade de propósitos e com sua eficiência e método de impulsionar os serviços e as obras municipais, é bem o homem talhado para exercer um cargo público. Desde Janeiro de 1956 o nosso Prefeito vem se dedicando, as vezes com sacrificio de seus próprios interêsses em tornar melhor a nossa cidade, e isto já conseguiu em grande parte com os melhoramentos com que tem dotado esta terra, até a data de hoje. Mococa sentiu essa boa vontade e, não somos só nós que assim sentimos, são os forasteiros, são as pessoas que de há muito não vinham aqui, que afirmam o engrandecimento de nossa terra e seu progresso nêstes últimos tempos. Tambem os Senhores Vereadores são responsáveis, em grande parcela, pelo acerto com que tem agido o Poder Executivo. Reconheceram os membros da Câmara as medidas acertadas, os propósitos e projetos de interêsse geral e nunca negaram apoio às medidas que visavam o bem coletivo, dentro da lei e do direito; nunca deixaram de apoiar as proposições honestas e progressistas. Nesta data eu felicito o Sr. Prefeito e os Srs. Vereadores pelo trabalho realizado por Mococa. 103 anos completa hoje a nossa Mococa, a nossa antiga São Sebastião da Boa Vista. 103 anos bem vividos. Opulentos uns, outros de carestia e ainda outros de estagnação, mas todos bem vividos por um povo bom em procura da felicidade. Hoje, nêste 103º aniversário, formulamos os nossos votos para a prosperidade geral, pela harmonia das familias e pelo amor cada vês mais acendrado de todos ao berço em que nascemos ou ao solo a que estamos radicados, rendendo graças ao Altissimo pela proteção sempre dispensada à nossa terra e pelas mercês concedidas, sempre em abundância, à nossa gente. Formulamos votos para a união dos mocoquenses, para o bem de nossa cidade. Não tarda o momento para a escolha de novos dirigentes municipais. Que o Povo de nossa Terra saiba escolher bem, dentre os seus filhos que sejam escolhidos os mais dignos, os mais capazes e honestos. São estas as palavras que, ao abrir a sessão, tenho a dizer aos meus conterrâneos, nêste aniversário e por ocasião da instalação da Câmara Municipal, conforme resolução aprovada, nesta nova sede”. Estando presente o Sr. Clodoaldo dos Santos Figueiredo, suplente da legenda P.S.P., convocado para substituir o vereador Dr. Jose Thiago de Siqueira Junior, que renunciou ao mandato, o Sr. Presidente convidou-o a prestar o compromisso regimental e a tomar assento no plenário, o que foi feito sob aplausos da assistência. A seguir o 1º Secretário procedeu à leitura de mensagens de congratulações pela efeméride, dirigidas aos Srs. Presidente da Câmara e Prefeito Municipal e enviadas pelos Senhores: Deputado Ruy de Mello Junqueira, Presidente da Assembleia Legislativa do Es- tado; Deputado; Domingos Leonardo Ceravolo; Renato Costa Lima, Presidente do Instituto Brasileiro do Café; Jurandir Ferreira, Presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica; Hildebrando da Silva, Secretário Geral do Conselho Nacional de Estatistica e Engenheiro Paschoal Paione. Após o Sr. Presidente a palavra ao orador oficial, vereador Edgard Freitas, 1º Secretário da Câmara, que falando de improviso, requereu, inicialmente, constasse dos anais dos trabalhos do dia, um voto de congratulações com os mocoquenses pela transcorrência do centésimo terceiro aniversário da cidade; e um voto de profunda admiração de aplausos ao Prefeito Municipal senhor Jacintho Pisani, pela brilhante vitoria representada pela inauguração, naquele instante, do novo prédio do Paço Municipal. Reportando-se em seguida, ao assunto do dia, e à finalidade da sessão especial que se realizava, o orador falou da grandiosidade da obra e da imperiósa necessidade que constituia a sua construção, ressaltando a disposição e o destemor do Prefeito por enfrentar um empreendimento tão dificil. Referiu-se à considerável colaboração encontrada de parte do Senhor Dr. Clovis Gonçalves Dias, Presidente da Câmara, sem deixar de focalisar o espirito de compreensão e de cooperação dos senhores Vereadores. Discorrendo sobre o andamento das iniciativas que culminaram com a decisão do Prefeito, de construir o novo Paço Municipal, traçou um paralelo entre o passado e o presente, provando que, se aquela monumental obra ali estava, plenamente realisada, muito devia a cidade, tambem, aos antepassados, que crearam a mentalidade esclarecida da geração de hoje, bem educando e melhor orientando seus filhos. Terminou prestando homenagem aos mocoquenses de ontem, através dos seus representantes, pela participação que tiveram, assim, indiretamente, na consecução de tão valiosa iniciativa transformada em realidade". Em seguida o Sr. Presidente deu a palavra ao vereador Paulo Paladini, que leu o seguinte discurso, bastante aplaudido pelos presentes: “Assistimos hoje solenemente, a transferência do poder legislativo para esta sua nova séde, onde passará doravante neste plenário a abrigar as representações populares de nossa terra, representações essas, legitimo ponto de apoio para soerguimento da democracia brasileira. Deixamos a partir deste instante o velho prédio que serviu para as nossas reuniões legislativas, deixando nossa lembrança e nossa saudade, para aqui trazendo nossa esperança e nossa fé, de que mercê de Deus, possamos continuar a servir a causa pública com toda a plenitude de nossas forças. Neste magestoso edificio do Paço Municipal recém inaugurado, ganha hoje o poder legislativo esta excepcional acomodação, diga-se de passagem, consetanea com sua dignidade e importância dentro do regime politico em que mourejamos. No entretanto a par desse magno acontecimento, registra o calendário, hoje, uma magna e grata efemeride para nós mocoquenses: o centésimo terceiro aniversário de vida de nossa cidade, que em sua jornada já centenária tanto orgulho nos tem proporcionado. No correr desta gratissima data sentimo-nos por forças atávicas reconduzidos ao passado, onde lá herdamos dos heroicos povoadores essa incontida vontade de evoluir. É na evocação desse passado que vamos na nossa andança buscar nas páginas cheia de erudição de Humberto de Queiroz na sua notável monografia sôbre Mococa, o retrato fiel dos primordios da fundação de nossa cidade, onde a fibra, o destemor do bandeirante povoador, que vindo das alterosas, na sua ansia incontida de fazer crescer e progredir este abençoado rincão, fundou Mococa. Onde hoje se ergue a cidade, no ano de 1840, era pleno sertão, sertão no entretanto que se apresentava futuroso e prometedor, foi sendo gradativamente povoado tendo recebido as glorias desse pioneirismo os nomes de: Diogo Garcia da Cruz, José Christovam de Lima, Antonio Jose Gomes, José Gomes de Lima, Francisco José Barbosa, José Caetano de Figueiredo, Joaquim Custodio Dias, Jose Pereira dos Santos e Manoel Vicente da Rocha, que hoje como filho do presente, reverencio comovidamente esses denodados filhos do passado e seus descendentes rendendo o tributo de minha entusiasta homenagem. Cabe aqui resaltar como fator de progresso de nossa terra o braço imigrante, notadamente o do italiano, que juntamente com os filhos da terra formaram a amalgama, que forjada no labor honesto e incessante deu aos mocoquenses o verdadeiro sentido de evolução e amor a esta terra, atributos esses invejáveis que como no artesanato tem passado de pai para filho. Foi nesse ambiente de trabalho que o terreno, com sacrificio ingente foi sendo aplainado para nele se erguer o solido edificio social base da nossa comunidade. Ainda no passado perigrinando pelas páginas brilhantes de nossa história, vamos ver a elevação da Freguesia de São Sebastião da Boa Vista, para a condição de Vila, por força da Lei no 29 de 24 de março de 1871, que era promulgada com a condição de ser construido pelos mocoquenses um edificio para a Cadeia e Casa de Câmara. A colaboração dos mocoquenses fez-se logo sentir e o prédio foi construido, por subscrição popular promovida pelo Major Gabriel Garcia. Marco importante da nossa história ficou sendo o dia 7 de janeiro de 1873, onde pela primeira vez na Vila reunia-se no novo prédio a Câmara dos Vereadores, que ai foi empossada pelo Presidente da Câmara de Casa Branca. Durante 28 anos esse prédio acolheu em seu plenario as nossa representações populares, foi essa a primeira casa de governo Municipal que possuiu Mococa. No ano de 1900, o velho edificio da lugar, ao então moderno Paço Municipal, que viu a Administração Pública por mais de cinquenta anos, pois mesmo ainda está na lembrança de todos nós, foi demolido em fins de 1957.Era a voz altissonante do progresso que impunha essa sentença ao já velho próprio Municipal, exigindo do governo da cidade um prédio condizente com sua marcha evolutiva. E então aqui aquilo que no limiar de 1956 não passava de planos e projétos, torna-se neste cinco de abril esta imponente realidade, fato esse que por si só consagra a atual Aininistração Pública. Esse magestoso edificio do Paço Municipal na sua unidade abriga dois poderes distintos: o poder executivo e o poder legislativo, mas ambos funcionando em perfeita harmonia tendo como corolario direto o progresso de nossa cidade. O andar superior acomoda condignamente a Câmara de Vereadores, a parte terrea do edificio destinada a Administração Municipal propriamente dita proporciona ao Publico, extrema comodidade, ao funcionalismo excelente ambiente de trabalho, a praça fronteriça é o predio um rico motivo de ornamento, a cidade sua nova sala de visita. E mister que se diga que a realidade de tal empreendimento se deve a operosidade do Sr. Prefeito Municipal, Jacintho Pisani, aliada a irrestrita colaboração que lhe deu o Digno Presidente desta Edilidade, Sr. Dr. Clovis Gonçalves Dias, que com um carinho de profissional, permita-me V.S. esta expressão, acompanhou o andamento da obra, e cujo gosto está a evidenciar neste plenário. Louve-se tambem o Departamento de Obras da Prefeitura, que na pessoa de seu Engenheiro Dr. Guilherme de Felipe, foi o responsável técnico pela execução do projeto. Lembramos ainda que a majestade deste prédio em estilo néo-classico e projeto do engenheiro mocoquense Dr. Oswaldo Martella, que assim na sua terra natal faz prova de seus Presidente méritos como arquiteto. Peço neste momento Sr. que constando dos anais desta Casa, ao ensejo da transcorrência do centésimo terceiro aniversário de nossa cidade, o auspicioso evento da inauguração do novo Paço Municipal, como um marco histórico na administração pública, simbolizando a gratidão de seu governo ao seu povo, que tão bem soube compreende-lo, dando-lhe irrestrita colaboração quando esta lhe foi pedida. Poderá agora dizer o nobre povo de Mococa, a quem de fato pertence esta obra, dizer ufano e orgulhoso. Esta é a casa do nosso digno governo. Finalizo dizendo: esta e uma obra digna do nosso povo. Esta Sr. Presidente é a palavra da bancada do Partido Social Progressista nesta Casa, que tendo em sua bandeira de luta inscrito o vocabulo progressista não poderia deixar de dar seu aplauso a esta administração progressista, qual com muita honra tomamos parte". A seguir o vereador José Pinheiro Anzaloni também usou da palavra, pronunciando o seguinte: "Exmo. Snr. Presidente da Câmara Municipal de Mococa, Exmo. Sr. Prefeito Municipal, Exmo. Sr. Deputado Dr. João Bravo Caldeira, representante do Exmo. Sr. Presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo e o Exmo. Sr. Presidente da Câmara Federal, Exmo. Sr. Promotor Público, Autoridades Eclesiásticas; Autoridades presentes, que no passado exerceram cargos na administração Municipal; meus senhores; minhas senhoras; nobres e prezados colegas. Não pretendo, ocupando tribuna, discursar, tecer comentários ou discorrer sobre o transcurso do 103 aniversário de fundação da cidade, porque, já o fizeram, com raro brilhantismo, os oradores que me precederam, Sinto-me porém, no dever de, ao ocupar esta tribuna, no dia de hoje, ressaltar os feitos de dois homens públicos, desinteressados, trabalhadores e desprendidos, que muito fizeram em beneficio de nossa cidade. São êles, o Exmo. Sr. Prefeito Municipal, que, com seu trabalho fecundo e honesto, dotou Mococa de inúmeros melhoramentos. Bastaria, esta obra, que ora se inaugura, para justificar o mandato de um Prefeito, porem sabemos que muitas outras existem para atestar seu dinamismo e capacidade. E o Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal, que, imprimindo nesta, uma orientação acertada, precisa e imparcial, conseguiu, numa perfeita harmonia, a cooperação e compreensão entre o legislativo e o executivo, tão necessárias ao bom andamento dos trabalhos no Municipio, contribuindo assim grandemente, na realização das obras executadas. Requeiro, pois, para que fique constando na ata dos trabalhos hoje, um voto de congratulações e parabens ao Exmo. Snr. Jacinto Pisani, dignissimo Prefeito Municipal, e ao Exmo. Sr. Dr. Clovis Gonçalves Dias, dignissimo Presidente da Câmara. E, se Deus assim o permitir, possa Mococa, ter no futuro um Prefeito e uma Câmara, embuidos da compreensão do trabalho, paz harmonia e desprendimento. Só assim poderemos progredir, só assim Mococa poderá continuar sua fase de progresso, tão necessaria ao bem estar de todos. Tenho dito." O orador recebeu calorosos aplausos dos presentes. A seguir foi dada a palavra ao Deputado João Bravo Caldeira, que pronunciou o seguinte discurso, recebendo, ao final, calorosos aplausos: " Na última sessão da Assembléia Legislativa, onde nos desvanecemos de representar este pedaço de chão paulista, tivemos ensejo de encaminhar à sua Mesa diretora, para ser oferecida à consideração de nossos ilustrados pares, uma proposta no sentido de que se inscrevesse na ata dos trabalhos dêsse dia um voto congratulações com o município de Mococa por motivo da passagem do centésimo terceiro aniversário de sua elevação à categoria de freguezia, operada graças ao disposto na lei estadual n.15, que lhe abriu definitivamente o caminho de sua independência politica, obtida menos de duas décadas após. Diziamos, então, no aludido documento, que em se tratando de "uma comunidade que inscrevendo seu nome de forma bem destacada nas estatísticas econômicas, financeiras e sociais bandeirantes", justo seria que lhe fosse prestada tal homenagem, a qual serviria sem dúvida "como um estímulo aos mocoquenses, tão ciosos de sua capacidade de trabalho e de organização, para que continuem a prestar sua eficiente colaboração ao progresso comum paulista." A proposta, como não poderia deixar de acontecer em face de sua justificativa, foi acolhida unanimemente pelo Poder Legislativo de São Paulo. Parece nos muito acertado e oportuno evocar agora essas palavras que escrevemos, ao participarmos desta agradável e significativa inauguração de mais importante edificio público da comuna e onde funcionarão, muito bem instalados, seus dois poderes: o Executivo e o Legislativo. Os edifícios públicos, assinalemos, valem como verdadeiros retratos de uma época. Este não se afastara de tal destino. Em sua belesa e em sua solidez apontará aos coevos e as gerações porvindouras um período de fecundas, intensas e proveitosas atividades na história administrativa e política da velha freguezia de São Sebastião da Boa Vista, que o Governo de São Paulo, pela lei n. 15, de 5 de abril de 1856, elevaria a freguesia e que viria, pouco tempo mais tarde − graças aos esforços de sua denodada gente − transformar-se em municipio independente. Devem indubitavelmente os mocoquenses esta explendida iniciativa à operosidade e a visão dêsse ilustre administrador que o eleitorado da nossa Mococa em acertada hora elevou a chefia do executivo municipal. Jacintho Pisani − apoiado numa Edilidade compreensiva e sensível aos problemas da comunidade − olhos postos no bem comum, vai realmente realizando verdadeiros milagres. Ao registrar o nome do honrado Prefeito em nosso discurso, não podemos deixar de relembrar a sua luta durante todo o primeiro ano de sua gestão em face de uma quase total falta de recursos, Encontrado o equilibrio financeiro ao cabo de um ano de ingentes esforços, poude ele planejar é realizar medidas capazes de proporcionarem o bem estar da coletividade que lhe confiara a direção dos negocios publicos. Esta casa, este belo prédio − deve Mococa orgulhar-se disso − foi totalmente erguido com recursos exclusivamente oriundos do tesouro municipal. Nem um ceitil do Estado ou da União foi aqui invertido. Só o dinheiro entregue ao erário local pelos municipes foi utilizado para construir o edifício-sede dos poderes municipais. Regosijamo-nos muito com a realização desta solenidade. Não somos aqui nascidos, todos sabem, mas estamos definitivamente ligados à terra mocoquense, pois aqui nasceram alguns de nossos filhos, que se orgulham e se envaidecem sempre de sua terra natal. Acompanharemos portanto com olhos carinhosos e atentos a trajetória luminosa de Mococa em direção ao seu grande destino, Sempre lutaremos com ardor para que se atendam suas necessidades e se ouçam suas reivindicações. Ao faze-lo estaremos coadjuvando êste explendido companheiro que nos enche de tanto orgulho e de tanta vaidade, que é o ilustre deputado Ranieri Mazzili. Mocoquense honorário − posição de que muito se desvanece − o bom companheiro Mazzili ocupa, com justiça, um proeminente posto na Republica. Com mãos habeis e experientes preside os destinos de das Casas do Congresso. Apesar do lugar de destaque que tem no Governo Brasileiro, êle é o mesmo Ranieri Mazzili de sempre, prestativo e preocupado com o progresso de sua região e de cada um de seus municípios. Compromissos inadiáveis obrigaram-no a ficar entre nós apenas até o meio da tarde. Deixou-nos, todavia, incumbidos de consignar que continuaria acompanhando, em pensamento, o desenrolar das festividades assinalatórias da grata efeméride da gente de Mococa. Além dêsse mandato, recebemos outro, do preclaro Presidente da Assembléia Legislativa do Estado, o nobre deputado Ruy de Melo Junqueira, que, não podendo comparecer pessoalmente a Mococa e compartilhar do regosijo de seu povo, pediu-nos que transmitisse às dignas autoridades locais os seus cumprimentos. Saudando o sr. Prefeito, saudando o sr. Presidente da Camara Municipal, queremos formular os nossos mais ardentes votos de que aos quase 40 mil habitantes dêste municipio se abra, a partir de amanhã, uma nova jornada anual onde eles encontrem felicidade e paz em seu trabalho e em suas horas de lazer". Não havendo mais oradores, o Sr. Presidente submeteu a votação os requerimentos propostos pelos vereadores: Edgard Freitas, Paulo Paladini e José Pinheiro Anzaloni, um de cada vez, sendo todos aprovados. Em seguida o Sr. Presidente, depois de agradecer o comparecimento das autoridades e do povo às solenidades, deu por encerrada a sessão, da qual eu, Edgard Freitas, 1º Secretário, lavrei esta ata que, depois de lida e aprovada, será assinada pela Mesa. Eu, Adhemar Spina, Diretor da Secretaria da Câmara, a datilografei e assino afinal. Corrigida: (a.) Edgard Freitas, Secretário. (a.) Adhemar Spina. APROVADA – Sessão de 17 de Abril de 1959[3].

A Prefeitura Municipal dividiria o espaço com a Câmara até a administração do prefeito, Dr. Francisco José Vieira Guerra – de 1989 até 1992 –, quando o gabinete é transferido para o antigo prédio do Fórum, ao lado da Câmara. O Paço Municipal, pelo advento da Lei nº 1.953, de 4 de junho de 1990, de autoria do vereador, Dr. João Batista Rotta, foi nomeado “Christovam Lima Guedes”. Por certo tempo, o Museu de Artes Quirino da Silva foi instalado na parte que era reservada à Prefeitura, sedo criado pela Lei nº 974, de 16 de junho de 1972, sancionada pelo prefeito, Francisco Coelho de Moraes, denominado “Quirino da Silva”, pela Lei nº 1.090, de 3 de dezembro de 1981, sancionada pelo prefeito, Luiz Gonzaga Amato. Atualmente, a Câmara Municipal faz uso de todo o espaço.

Casa em construção

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Aspecto atual da Câmara Municipal de Mococa, fotografia de André Lima, publicada nas redes sociais.



[1] Queiroz, 1913, p. 65.

[2] Queiroz, 1913, p. 120.

[3] Optei por manter a ortografia original, mesmo que divirja dos padrões ortográficos atuais. Em nada prejudica a leitura [Nota do autor].

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Cuidando do patrimônio histórico

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Uma questão que tem surgido em debates nas redes sociais, ora de forma direta, ora indireta, é a questão da preservação do patrimônio histórico e cultural de Mococa. Não seria errado admitir que, dos bens tombados, apenas verifica-se o tombamento de casarões no sítio histórico de Mococa, na região central. O patrimônio, contudo, é bem mais amplo. Os debates se intensificaram após a demolição de duas residências. O cuidado com o patrimônio histórico é a própria preservação da memória coletiva.

Não se trata, como muitos equivocadamente atestam, de impedir o progresso e a modernização. Trata-se, por outro lado, de proteger a identidade da cidade e de seus moradores, o que colabora para o fomento ao Turismo e à Cultura. Em tempos atuais, onde a regra auri sacra fames é imperiosa, esquecemos de que certas construções, objetos e monumentos não são bens individuais, mas parte da própria cultura de um povo. Existe certo desinteresse do Poder Público; ocasionalmente, vemos grandes interessados. Em Arceburgo, por exemplo, quando chefiava a pasta do Patrimônio, o atual superintendente das Bibliotecas, Museus e Economia da Criatividade, Bruno Tripolini Balista, fez uma grande análise e instaurou processos de inventário e tombamento sobre casarões, objetos, construções e, até mesmo, túmulos no cemitério, visando efetivar as obrigações, seja do Poder Público ou de particulares, de zelar pelos bens arceburguenses, patrimônio coletivo.

Vemos, em Mococa, a desinformação imperar, especialmente sobre o patrimônio histórico. As ações que visam a salvaguarda da memória mocoquense devem ser orquestradas de modo que a modernidade se alie ao passado, ao invés de tentar suprimi-lo. A demolição de casarões, sendo estes substituídos por cubos ou paralelepípedos cinzentos, é o apagar das luzes da identidade do povo. O principal inimigo do patrimônio histórico é a desinformação, seguida pela ingerência do Poder Público e pelo desinteresse. Ações de conscientização devem ser promovidas pelo Poder Público, não apenas nas escolas, mas também àqueles que adquirem casas históricas ou os próprios moradores, favoráveis à demolição do passado.

Assim, apresento sugestões de tombamento à Prefeitura Municipal de Mococa e ao Conselho do Patrimônio Histórico de Mococa:

Capela de Nossa Senhora Aparecida de Canoas, inaugurada em 17/11/1935; Igreja Matriz de Santa Cruz, inaugurada em 21/04/1955; Capela de Nossa Senhora Aparecida, do bairro de Aparecida, 07/05/1921; Capela de Nossa Senhora Aparecida da fazenda da Cascata, inaugurada em 26/06/1902; Sala Bruno Giorgi, na Casa de Cultura Rogério Cardoso; Estátua “Fundadores de Mococa”, de Bruno Giorgi, situada à Praça Epitácio Pessoa, inaugurada em 10/10/1987; Estátua “Mulher de Mococa”, de Bruno Giorgi, situada à Praça Marechal Deodoro, inaugurada em 1983; Acervo do jornal A Mococa, que encontra-se na hemeroteca do Museu Histórico de Mococa “Carlos Alberto Paladini”; Coreto da Praça Marechal Deodoro; Galeria de fotos e documentos do Museu Histórico de Mococa “Carlos Alberto Paladini”; Livros de ata da Câmara Municipal de Mococa; Fachada da Prefeitura Municipal de Mococa, da Câmara Municipal e da Casa de Cultura “Rogério Cardoso”; Folias de reis, já reconhecidas como manifestações da cultura nacional; Convento de São José, inaugurado em 07/07/1935, e sua igreja, inaugurada em 19/03/1947; Ponte sobre o rio Canoas, inaugurada em junho de 1926; Antiga Casa Paroquial, inaugurada em meados de 1942; Imagem de São João Batista, da Igreja Matriz de São Sebastião, cuja doação foi realizada por cel. Candido de Souza Dias na década de 1890, segundo a tradição; Coleção de livros do Dr. Francisco Teive de Almeida Magalhães, que encontra-se na Biblioteca Municipal de Mococa; acervo do engenheiro dr. José Carlos de Figueiredo Ferraz no Museu Histórico de Mococa; e Cemitério Municipal de Mococa.

Por fim, ecoarei a ideia de Antonino Silva, nosso historiador e memorialista: sobre casas históricas, deve-se impor ao proprietário fotografar a residência em sua integralidade e o acervo fotográfico entregue ao Museu para arquivo. Sobre livros, fotos e documentos, deve ser criado um banco de dados com a digitalização imediata deste patrimônio, antes que o tempo os deteriore.

domingo, 19 de outubro de 2025

ALGUNS ASPECTOS HISTÓRICOS DA CAPELA DO CEMITÉRIO

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti



A capela de Santa Clotilde, situada no coração do Cemitério Municipal de Mococa, busca homenagear não apenas sua padroeira, Clotilde da Borgonha (474-545), esposa de Clóvis I, logo, rainha dos francos, mas também busca honrar uma figura da sociedade mocoquense. Trata-se de dona Clotilde Barretto Prado.


Nascida em 14 de outubro de 1871, na então Província do Sergipe, era filha de Antônio Freire de Mattos Barretto e de dona Antônia Eugênia de Mattos Barretto. Sua família era dotada de muito prestígio na sociedade e na política de Mococa, especialmente seus irmãos, podendo-se citar dr. Augusto, presidente da Câmara de Mococa em 1891 e pelo período de 1900-1902, e dr. Antônio, que presidiu a Câmara de Casa Branca, entre 1902 e 1906. Foi casada com Etelvino de Menezes Prado, com quem teve os seguintes filhos: Lucia, Paulo, Carlos, Zilda, Sylvia e Carlos. Dona Clotilde era uma figura de grande prestígio na cidade. Faleceu em 14 de setembro de 1917, às 8h10, o que foi muito lamentado pela comunidade.  


Seu marido, Etelvino, foi político em Mococa, onde chegou em meados de 1894. Era natural do Sergipe, nasceu em 22 de setembro de 1871, filho de Ernesto José de Menezes e de dona Maria Prado. Teve grande participação na política da cidade, tendo sido eleito vereador para os mandatos de 1912-1914 e 1917-1920. Casou-se em segundas núpcias com Leonor Fortes, em 8 de maio de 1922, no Rio de Janeiro, com quem teve dois filhos, Branca e Fabio. Faleceu na cidade de São Paulo, em 23 de junho de 1929, vitimado com um tiro no coração.  


Há 105 anos, no dia de finados, 2 de novembro de 1920, era inaugurada a capela do cemitério, idealizada por Etelvino para consolidar a memória de sua falecida esposa, uma católica devota. A autorização para a sua construção partiu da Câmara Municipal de Mococa, em sessão realizada em 6 de abril de 1919. O seu construtor foi Gherardo Bozzani, o qual conferiu-lhe aspectos puramente da arquitetura gótica. A benção do templo, seguida por uma missa pela alma de dona Clotilde, foi conduzida pelo monsenhor doutor Felix Brandi. Na capela, estão sepultados dona Clotilde e o monsenhor Demosthenes Paraná Brasil Pontes, falecido em 11 de janeiro de 1993.


Recentemente, a capela passou por uma reforma, conduzida pela Paróquia de São Sebastião, cuja inauguração ocorrerá no dia 25 de outubro do corrente.


A fotografia abaixo foi publicada há algum tempo por Antonino Silva, e restaurada com IA.


JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

  Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Instituto Bruno Giorgi   Imagem gerada com ...