terça-feira, 25 de abril de 2023

O Cântico

 

Parte I

                                                                                                                     Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Ó torpe destino, que me levou aos trágicos fins das almas, tão justo de fato o és? Pune e condecora; és um juiz que profere sorridente ou amargo uma sentença.

O fogo sem luz dos umbrais medonhos me foram mostrados, por motivos que os Céus não me permitiram conhecer, causam-me arrepios que nem mesmo a pior das calamidades me causaria.

Senti indo embora qualquer luz divina que possuía – se é que de tamanha graça minha alma se fez digna. O ar tóxico me fora apresentado quando despertei após minha inconsciência ante os umbrais malditos. Fiz-me obrigado a transpassar, sob a temida inscrição, os portões escuros. Sem alguém para guiar-me, qual a graça que recebeu o Poeta, locomovi-me sem rumo. Não andei muito pelas sombras e ais quando, por fim, resolvi parar e no chão esperar meu fado desconhecido.

No escuro, ouvi passos e senti alguma alma presente, rumando tão somente aos meus temores. Os ruídos pararam e uma voz me chamou:

- Saias, meu filho. Nada de mal infligir-lhe-irei, pois sou um dos que da alma lírica desfruta, tal como tu. Escrevi sobre terras que homens jamais desbravaram; sobre a ganância do ser discorri. Meu nome é o mesmo do santo Evangelista e meu sobrenome de terras anglas a mim veio.

Saí da rocha onde me escondia e vi o doce rosto idoso com um pequeno castiçal e vela acesa em mãos. Disse-lhe arrebatado:

- Conheço teu rosto e a ti idolatro; és meu mestre, patrono da fantasia. Tua literatura é minha inspiração – E, perturbado, lhe perguntei. – Mas nobre homem, que causa injusta lhe encontrar aqui, nesse poço de desespero e prantos!

- Acalma-te o peito, meu filho, e saiba de antemão que aqui nada há de injusto – disse-me, estendendo a mão. – O motivo de me dirigir a essas covas é um pedido de uma nobre senhora que, em vida, muito lhe amou e, agora, na morte, intercede por ti e por tua família. Sabendo que meu discípulo és, pediu a mim que te levasse a ela. Sabido era que nos campos do destino tu se perdera; sentia tua chama murchar. E essa digníssima senhora em teu socorro veio mais uma vez, enviando a mim dos alvos prados a teu socorro.

- Pois a essa senhora muito sou grato, e sinto que minha madrinha sempre guarda e guardará por mim em seu coração. Mas, mestre, é certo o que me disse? Levar-me-á a ela? E o sol e o vento sentirei novamente? Temo preso aqui ficar antes que a areia de minha ampulheta se esgote.

- Virtuoso rapaz, fique em paz. Irei te levar, como disse, à tua salvadora, que a ti deseja ver mais que tudo, ao lado da Virgem Mãe, que pela humanidade roga. Lá, a rainha das rainhas ajudar-te-á.

Qual faminto que é alimentado, senti-me renovado naquele momento. Aprumei-me e segui meu mestre pelo escuro iluminado por aquela chama diminuta.

Descemos uma trilha silenciosa em uma escuridão sepulcral. Meu guia se fez silencioso e assim preferi ficar. Quando, em certo ponto da estrada, ele parou, virou-se par mim e disse:

- Estamos para adentrar o Inferno. Não te espantes, pois a luz divina toca-te e mal algum o ferirá aqui. Vamos descer ao centro da terra, transpor o local onde purgam os arrependidos para que, enfim, possa eu te entregar à doce senhora.

Assenti com a cabeça em tempo de subir na embarcação que nos atravessou por temível correnteza.

Ao leitor que acompanha este relato, sinto que minha descida não carece de ser narrada em sua totalidade, uma vez que ocorreu sem grandes tribulações, mas hei de contar sobre os quatro encontros que lá tive, nos quais minha atenção foi maior requerida.

Àqueles cujas almas não foram inseridas nesta fé dedico esta primeira passagem, pois muitos dos que encontrei são autores que admiro. Passei horas, ou assim me pareceu – o tempo naquele lugar me confundiu –, conversando com o mestre da filosofia condenado a beber o drinque letal de cicuta. Também com seu discípulo, que desbravou a origem das ideias em sua teoria. O aprendiz deste pude saudar e gentil foi ao receber meu elogio sobre sua Ética. Os dois chineses, que dedicaram à tinta para transmitir os seus ensinamentos sobre o Tao, estavam lá, simpáticos. Àquela inventora de Alexandria, morta por uma turba irracional, pude abraçar. O sábio de Tiana, dos tempos do rei dos reis, estava lá, quieto. O grande filósofo se voltou a mim e me apresentou sua mãe, aquela que em vida fora parteira.

Aquela reunião ficará em minha mente para sempre, ou até quando me for permitido, e difícil foi ter que dela me despedir.

O mestre me levou para baixo. Não andamos muito quando o segundo fato marcante de minha jornada aconteceu. Às almas arrastadas por forte ventania chegamos, e eu, mesmo assustado com o que via, conversava com meu mestre. Quando perguntou meu guia o meu nome, uma das almas me chamou. Estava assustado com aquele círculo de sofrimento, mas atendi ao chamado da condenada, que veio até mim:

- Ouvi teu nome, e certamente sei que de minha casa tu és. Meu marido ao rei prestou um serviço e sua majestade do Tibre com um título de conde o condecorou. Tornei-me condessa, mas eu, em minhas necessidades, me envolvia com outros homens; por isso aqui estou. Em vida, não tive arrependimento, e agora também não hei de tê-lo. És um belo rapaz, e muito me satisfaz saber que o nome de minha casa exibe descendentes de beleza angélica – e voltou para o seu sofrimento.

Virei-me ao mestre e disse:

- Da beleza e do fogo esta é serva.

E disse-me o mestre:

- Entendes, então, o motivo de estar aqui aquela senhora.

Rumamos para baixo, passando pelos locais de dor e de justiça. Reconheci diversas almas, que pagavam seus pecados com as penas impostas.

Pelo lodaçal, chegamos à cidadela daquele local e, ao ingressarmos, pude ver nas covas que chamas ardentes expeliam um homem que reconheci, embora a transfiguração por causa de sua pena ofuscasse meus olhos:

− Se permite uma arguição, ó pastor dos rebanhos divinos, conheço-te embora eu tenha abraçado a vida em tempos em que, suponho, vossa graça estivesse chafurdando neste poço de sofrimento. Foste o guardião das chaves do imponente santuário de minha terra.

E, atento aos meus dizeres, o espírito me disse:

− A pequena fortaleza na qual preguei muito me era cara, e alegro-me em ter-te aqui, filho, mesmo que de eras após meu egresso.

E eu a ele:

− Ouvi as histórias e posso deduzir, sem presunção, mas condoendo-me por eminente figura estar aqui e não ao lado do Pai, que nesta vala se encontra pelos maus usos da estola. Semente tua lançastes ao mundo.

− Envergonho-me de que o saibas. Mas, se dias passardes aqui, verás que estes buracos incandescentes de homens da minha vocação estão repletos.

− Disto não duvido – e a alma fora puxada para baixo por outra.

Disse meu guia:

− O homem é falho; teorias pouco são frutíferas por haver de ser o homem quem as executa, movido por sua ambição egoísta – e seguimos caminho.

No momento em que estávamos no local dos que utilizavam da violência, desferida contra o próximo, reconheci um condenado que emergira do temível rio de sangue fervente. Aproximei-me da borda e gritei:

- Ó tu que terras teve em minha cidade, assassinado fostes e teu sangue escuro e malévolo marca o local de tua passagem. Conheço as histórias e sei que mereceu esse sofrimento.

Ele me encarou e aos guardas solicitei que permitissem que se aproximasse. O líder, preceptor do ilustre herói grego, permitiu, quando meu mestre lhe mostrou a vela que carregava. A alma disse-me:

- Ávidas são tuas palavras, e vergonhosos meus pensamentos. Fico encabulado de ter nesse antro infernal uma figura de minha terra, que regozija-se com meu sofrimento. Fui cruel por assim exigir minha ocupação. Não fales que aqui me vistes, pois vejo que vivo está e ao mundo há de retornar – e submergiu no rubro rio.

A meu mestre, eu disse:

- Cruel e violento foste este aqui em excesso, pois deleitava-se com a dor do próximo – e seguimos caminho.

Conforme andávamos pela margem do rio, os guardas, respondendo às minhas perguntas quando arguidos, informaram que outros de minha cidade e de seus arredores ali estavam: aquele que almejava o título de barão, mas o gentil Imperador lhe negou; aquele que, em frenesi, puxou a trança da jovem moça para ceifar-lhe a vida; o que atirou no próprio pai a mando do irmão, estando, este último, na floresta, mais adiante naquele círculo, como lenha pútrida; o assassino que as orelhas de suas vítimas punha em seu cinto. Ouvi os nomes e relembrava as histórias, contando-as ao meu mestre que, atento, me escutava.

No centro daquele rio fervente, havia o que incitou e comandou o genocídio, o que começou a guerra e matou milhões. Sua cabeça, fora do rio, era alvo constante das flechas dos enfurecidos guardas, que batiam seus cascos furiosos no chão antes de flechá-lo.

Por fim, descendo mais e mais, alcançamos o local mais frio que algum dia já pisei. No lago gélido, vi as almas congeladas e, ao centro, o que incitou uma revolta contra o Senhor e caiu dos Céus. Qual Excalibur, estava cravado na terra. Terrível era sua aparência e mastigava em suas três bocas os três que o Poeta descreveu outrora.

- Mestre – chamei-o –, vamos ao monte?– e ele confirmou.

Senti-me, porém, ao encarar a criatura, sem forças e vi necessidade de sentar, desfalecendo naquele antro congelante.


(Fim da parte I) 

  

                                                                       

domingo, 2 de abril de 2023

A ilusão do cosmos e a aceitação do caos

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 

Ao despertar, abro a janela. Em um ligeiro hiato, vejo os Sete Princípios, a ordem, as cores do dia. Ouço a harmoniosa música das esferas. Recaio, mesmo que inconscientemente, em certa esperança, que a beleza aflorou e que durará eternamente. Creio que a manhã é bela por estar tão perto dos sonhos. Espreguiçar é um ato necessário no ritual, pois torna certo que não mais estamos naqueles puros devaneios oníricos, vivenciados minutos antes. Desperto, enfim, para lidar com o mundo, com a realidade.

Clamamos sempre pela ordem, pela equidade, mas o mundo dos homens não garante isso. A natureza é ordeira. Suas leis, imperiosas, independentes. A natureza é justa, pois traça a ordem. Cada pequeno detalhe, que aos olhos humanos possa parecer irrisório, é milimetricamente certeiro. A chuva não obedece limite algum. Chove aonde acha por certo a natureza chover, independente de fronteiras municipais ou regionais, e aí está o justo. Essas leis fogem dos olhos humanos, pois são puras demais para que possamos compreendê-las.

O desvio das leis naturais causa a desordem. A natureza, porém, age em desconformidade com seu código quando circunstâncias externas a influenciam. O mundo artificial, confeccionado pelas mãos humanas, repele as leis naturais e o resultado é um: desordem. Talvez, a maior ilusão do mundo seja o ser humano achar que existe ordem em seu mundo artificial, de sombras.

Somos encorajados a nos manter não em ordem, mas no status quo, em certo marasmo de atividade. Os meios coercitivos sociais, legais e tradicionais são dilacerantes para que a ação aconteça. Ação, para a filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), é a atividade coletiva, que foge das necessidades fisiológicas e da manufatura, ou seja, a vida fora da caverna, fora da vida particular. Quando abro a janela, vejo a sociedade, porém, estou em casa: sou um expectador da ação. Deixo o meu refúgio privativo para encontrar-me com a vida pública. Em ambas, ordem também é uma ilusão.

Ultimamente, não deixamos nossas residências desacompanhados. Levamos conosco o peso e a tristeza de várias mortes. O agente viral, Covid-19, ceifou muitas vidas, e as autoridades sanitárias de todo o mundo vêm, há dois anos, tentando resolver a situação. Quando deixamos nossos lares, agimos com todo o cuidado que nos é possível, para que possamos não apenas preservar a nossa vida, mas a de nossos vizinhos, amigos e familiares também. Agir em conjunto, em união, é o meio mais indestrutível para enfrentar crises. Afinal, tudo é uno. Como escreveu Helena Blavatsky (1831-1891), “[...] fecha teus sentidos à tremenda e grande heresia da separatividade que te aparta dos demais”1.

Nos separamos, enquanto um grupo que visa ordem, quando tememos uns aos outros ou nos confrontamos. A divisão ocorre pelo poder, pelo desejo de possui-lo e conservá-lo, ou de temer aqueles que o têm. Poder, se bem analisarmos, é uma ilusão também. Depende de títulos, de influência, de doutrinação, de carisma: não é algo por si só, pois, quando sozinho, não se tem nada. E mesmo deter os atributos utilizados para consegui-lo não é garantia alguma de sucesso. Enquanto um instituto, o poder por si só é uma ilusão.

O medo talvez seja a emoção mais comum. Ao contrário do amor, o medo surge do desconhecimento. Considero que ninguém ama aquilo que desconhece, da mesma forma que ninguém teme aquilo que verdadeiramente conhece. O que são os mitos senão uma maneira de conhecer, mesmo que de forma lendária e improvável? As epopeias são a vã tentativa de acalentar o coração amedrontado dos seres humanos. A sorte da humanidade foi que existiram pessoas que, mesmo com medo, descobriram coragem para enfrentar a dura realidade e sobressair, buscando respostas concretas.

Assim estão agindo, hoje em dia, os médicos, os profissionais da saúde, os cientistas e pesquisadores: agem com medo, mas possuem em si o espírito heroico, e permitem que a coragem prevaleça para que respostas apareçam e a pandemia seja, enfim, superada. Conseguem superar, inclusive, as mentiras disseminadas pelas mídias sociais e seu dinamismo: quebram os mitos com excelência, que traçam inverdades quanto ao vírus! Hoje, temos vacinas contra a Covid-19, sabemos um pouco mais sobre ela do que no ano passado, e logo, saberemos mais.

O mundo enfrentou considerável desordem em 2020, que perdurou até 2021, e continuará, com toda certeza, em 2022, o qual, se assim permitir o destino, será próspero e abençoado! Porém, nos situamos em uma “ordem” nova, com novas formas de convívio social. A adaptação faz parte da vida, pois, quando o externo muda, o interno acompanha. Quando a natureza age, os seres que nela habitam acompanham. Tomaremos cada vez mais cuidados daqui para frente, mas, se a história é cíclica, bem, talvez, futuramente, ainda a humanidade estará desprevenida para a chegada de alguma outra crise. O mais importante, creio, é abrir a janela e perceber que, de fato, o mundo é belo, mesmo com as trevas que nele habitam.

1 BLAVATSKY, Helena. A voz do silêncio. Pensamento: São Paulo, 2010.


Obs.: Texto escrito no final de 2021


*

Texto dedicado, em especial, ao meu avô, Venicio Marques (1950-2021), um exemplo de simplicidade e sabedoria; aos meus tios-avós, Ercilia Borgheti da Costa (1935-2021) e José Laurindo Máximo da Costa (1935-2021); e a minha prima, Sonia Lucia Borgheti (1967-2021). Enfrentaram grandes lutas, e, ao menos na história familiar, serão lembrados com carinho e admiração.

 

 

domingo, 26 de março de 2023

INTRODUÇÃO A UMA SOCIOLOGIA ARCEBURGUENSE

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti 


A região onde situa-se o atual município de Arceburgo talvez tenha sido primeiramente povoada pelos escravos fugidos, que se coligavam em quilombos, visando tanto fugir do cárcere desumano quanto sobreviver, no sentido de adaptar sua vida às novas condições impostas. É sabido que houveram vários quilombos na região, podendo mencionar o quilombo do Zundum, situado nas proximidades do município de Jacuí, e o quilombo do Cala-boca, localizado entre os atuais municípios de Guaranésia e Guaxupé (MARTINS, 2018). Além de ser relatado grupos menores e esparsos em outros pontos.

Como era inadmissível a Coroa Portuguesa que existissem “estados dentro do Estado”, que confrontavam as leis e as ordens reais, e se rebelavam contra o sistema econômico escravocrata, expedições eram encomendadas e visavam erradicar tais locais. A Câmara da vila de São João del Rei, sede da Comarca do Rio das Mortes, e o governador da capitania, organizaram uma expedição para erradicar os quilombos, comandada por Bartolomeu Bueno do Prado. Ao final da década de 1750 e no início da década de 1760, os quilombos da região seriam dizimados. Bueno do Prado recebeu cartas de sesmarias em troca dos seus serviços. Conta-se que levara consigo três mil e novecentos pares de orelhas (GOMES, 2021, p. 383). Tendo os olhos da Coroa “descido” até a região, logo seria descoberto ouro no que viria a se tornar, alguns séculos depois, a atual cidade de Jacuí, e chegariam vários mineiros para colaborar com a povoação.

Os artigos publicados no jornal A Província de São Paulo (hoje, O Estado de S. Paulo), Algumas palavras sobre a cidade de Mococa, de autoria do dr. Felippe Salvador Santo Pagano, e no volume XII da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Diccionario Topographico da Comarca de Casa Branca, por Lafayette de Toledo, indicam que caçadores vindos de São João del Rei vagueavam por esta região, e, tendo gostado do que encontraram, passaram a morar nesta plagas, em especial, no que viria a se tornar a vizinha cidade de Mococa. O mesmo foi mencionado pelo professor Carlos Alberto Paladini, que, além disso, menciona a existência de vários “posseiros anônimos”, cujos nomes se perderam com o passar dos anos, que construíam e moravam em precárias residências (PALADINI, 1995, p. 15). O sistema de sesmarias teve seu termo final em 1822, sendo substituído pelo sistema de posse, uma vez que foi criado um “vácuo legal”.

Em 1850, foi assinada pelo imperador, dom Pedro II, a Lei nº 601, de 18 de setembro, conhecida como “Lei de Terras”, que buscou delimitar as propriedades rurais, conferindo os respectivos títulos aquisitivos aos posseiros, reafirmando, assim, a propriedade das antigas sesmarias aos seus donatários e a legitimidade da propriedade daqueles que construíram nas terras devolutas. Contudo, as medidas da lei pesavam no bolso dos pequenos proprietários, mas não para os grandes fazendeiros. Sendo custoso providenciar o que dispunha a legislação, os pequenos proprietários perdiam as terras que ocuparam anteriormente (WESTIN, 2020). O motivo de criação da lei foi puramente de cunho econômico: pouco tempo após a sua promulgação, foi assinada a Lei Eusébio de Queiroz, que proibia o comércio de escravos, sendo de conhecimento geral que uma ora ou outra a escravidão seria abolida, e, se houvessem muitos pequenos sitiantes cuidando de suas próprias lavouras, faltaria mão de obra nos latifúndios.

A sociedade brasileira no século XIX ainda não era de todo urbana, mas majoritariamente rural, e os pequenos povoados tinham função de receber meramente os órgãos da administração e de abrigar a igreja ou a capela. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, “a construção de cidades foi o mais decisivo instrumento de dominação”, sendo considerados “órgãos locais de poder” (HOLANDA, 2014, p.113). É certo que a força principal nos pequenos povoados e nas vilas eram os grandes proprietários de terras que, além de atuarem como chefes políticos, ainda eram benfeitores e exerciam funções de relevância. Os fazendeiros eram, em grande maioria, membros da Guarda Nacional, instituição do Estado para a defesa interna, e ostentavam patentes militares, como tenentes, majores e coronéis, sendo o termo “coronelismo” derivado deste último. Antes da Lei Áurea, que decretou o fim da escravidão, todos eram proprietários de escravos.

O coronelismo foi um sistema que perdurou no Brasil ao longo de vários anos, e, mesmo hoje, fala-se muito de um “neocoronelismo”, diferentes em alguns elementos, mas idênticos em essência. Segundo Victor Nunes Leal, o coronelismo é, antes, uma “forma peculiar de manifestação do poder privado” (LEAL, 2012, p. 44), sendo, segundo o autor, o aspecto mais importante de sua constituição o sistema de reciprocidade, onde o coronel, chefe político do lugarejo, apoia o governador, e este lhe garante benesses, além de ser o mediador entre o município e o governo federal (ibid. p.63). É válido ressaltar que, quando rompido o sistema monárquico, o poder central foi dissipado entre os governos estaduais, voltando ao seu caráter centralizado com a ditadura Vargas.

Há toda uma mitologia acerca da criação das cidades. Como foi apontado anteriormente, funcionavam como locus do poder, mas os motivos de sua fundação são obscuros e repletos de mitos fantásticos de nobreza despropositada e bom-samaritanismo. Segundo a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz, era comum a doação de terras para a igreja ou para a formação das vilas. Com isso, os fazendeiros “não procuravam [...] uma compensação monetária propriamente dita, porque em geral [...] o preço de venda não era alto; o que pretendiam era, por meio da criação da vila, da qual seriam fundadores e benfeitores e cuja administração e habitantes girariam à sua volta, obter facilidades de mão-de-obra, assim como a valorização de sua própria fazenda, que, com o progresso da vila, em breve estaria às portas de centro populoso e dobraria de preço” (QUEIROZ, 1969, p.112).

Talvez, o grande nêmesis do coronelismo seja ele próprio, pois as cidades, embora construídas nas propriedades de grandes fazendeiros, ficavam sujeitas às rusgas das forças opositoras, dos vários proprietários de latifúndios, afinal, todos queriam o poder e o que ele acarretasse. Havia uma política patrimonialista muito evidente, onde a esfera particular se sobrepunha a esfera pública, alimentando-se desta em um complexo parasitário que prejudicava o desenvolvimento da vila, mas colaborava para a prosperidade do grande fazendeiro.

O que resta do coronelismo hoje talvez seja o que foi projetado na mentalidade social. O sociólogo Émile Durkheim aponta que a sociedade possui uma personalidade própria, distinta das personalidades individuais que a compõem (DURKHEIM, 2015, p.53). Uma sociedade que se desenvolveu na sombra de um grande proprietário, que controlava a política; tinha influência com o governo e com outras forças políticas; era economicamente mais poderoso; tinha jagunços e usava de meios supralegais quando tudo isso falhava para obter o que queria, busca ficar, politicamente, à parte de tudo isso, apenas concordando com aquilo que é decidido. Longe da discussão, o povo tem seus direitos inibidos e são coagidos, ainda, a não procurar a justiça, pois “você não irá ganhar dele”. Não pode ser atribuído apenas ao coronelismo, contudo, a formação da mentalidade social, pois vários foram os fatores que contribuíram para que a sociedade chegasse onde e como chegou nos dias de hoje.

O sistema escravocrata é uma mácula que não foi redimida. A exploração e a opressão acabaram sendo mantidas em essência, mas com diferentes envolvidos e situações. Tendo sido permitida por tantos anos e, quando chegou ao fim, não foi devidamente elaborada uma estrutura de conscientização e de integração, não houve dissipação das suas raízes. A população é coibida a estar afastada da vida política pelo próprio entendimento da sociedade de que não é para todos, ora marginalizando alguns, ora alavancando outros. O patrimonialismo ainda não cessou, pois se tornou banal e normal o uso da “coisa pública” em benefício próprio.

Uma raiz é difícil de ser devidamente arrancada, pois suas diversas ramificações se atam ao solo com imensurável destreza e força, mas, segundo o sociólogo Georg Simmel, “nossa tarefa não é acusar ou perdoar, mas somente compreender” (SIMMEL, 2013, p.329).

Referências bibliográficas

Acervo do jornal “O Estado de S. Paulo”, de 10 de fevereiro de 1880;

DURKHEIM, Émile. Sociologia e filosofia. São Paulo: Edipro, 2015;  

GOMES, Laurentino. Escravidão, volume II. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2021;

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 27ª ed. São Paulo, Cia das Letras, 2014;

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. 7ª ed. São Paulo: Cia das Letras, 2012;

MARTINS, Tarcísio José. O quilombo do Campo Grande. 3ª ed. São Paulo: MG Quilombo, 2018;

PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. São Paulo: Alfa-Omega, 1995;

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros de São Paulo, 1969;

SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: Essencial sociologia, org. André Botelho. São Paulo: Penguin Classics Cia das Letras, 2013;

Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Volume XII, 1907;

WESTIN, Ricardo. Há 170 anos, Lei de Terras oficializou opção do Brasil pelos latifúndios. Disponível em https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/ha-170-anos-lei-de-terras-desprezou-camponeses-e-oficializou-apoio-do-brasil-aos-latifundios#:~:text=No%20Segundo%20Reinado%2C%20o%20Brasil,e%20n%C3%A3o%20em%20pequenas%20propriedades.

 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Mazelas do legado imaterial

 

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


A busca pela imortalidade sempre esteve na mente daqueles que a tem como uma necessidade. Ponce de León, explorador espanhol, conforme dita a lenda, procurou a fonte da juventude. Nicolau Flamel, alquimista francês, trabalhou para produzir a pedra filosofal, a qual, segundo conta-se, é dotada de magníficos poderes, dentre os quais, a imortalidade, conferida ao seu detentor.

Evidentemente, a imortalidade física, biológica, não foi alcançada – até onde se sabe – e o ser humano buscou outras formas de perpetuar a sua história, empenhando-se para deixar um legado para as futuras gerações, quando de sua morte.

A filósofa e teórica política, Hannah Arendt, em seus livros A Condição Humana e Entre o Passado e o Futuro, coloca a busca pela vida imortal ligada ao ingresso à vida política e, assim, se sobrepondo à ação por ser uma questão individualista, sendo aquela uma condição coletiva – política –, conforme a autora.

O legado dos seres humanos pode ser observado sob duas formas: a primeira, o legado físico, material, advém da imortalização visual, tangível, como na construção de obras monumentais e imponentes, as quais levarão para o futuro o nome daqueles que deram a anuência para a sua realização em uma placa de cobre ou bronze. No geral, estas construções dão caráter visível ao legado.

A segunda forma, embora ocorra com tamanha frequência, é, de certa forma, ignorada. Trata-se do legado imaterial, intangível. Uma forma de percebê-lo é o resultado de ações passadas que até os dias de hoje permanecem no seio político-social, sejam consideradas boas ou ruins.

Imagine, pois, uma sociedade que foi construída empregando a escravidão. A mesma, quando de sua criminalização, permanece na mentalidade social por meio da ideia de primazia de um povo em detrimento de outro. Com os anos, os hábitos vão sendo transformados, mas a ideia inicial da escravidão – o racismo e/ou a xenofobia – permanece em um percentual da sociedade. O resultado são os ataques ao povo que anos antes fora escravizado. Este é um exemplo de legado imaterial negativo, que ainda está vivo pelo globo terrestre, deixado pelos antigos impérios.

O agir (nos já referidos termos de Arendt), quando guiado pelo individualismo, resulta no patrimonialismo: a satisfação dos desejos particulares pela Administração Pública, confundindo, assim, as duas esferas (público e privado). A prática patrimonialista está mais do que difundida na sociedade brasileira. O meio público aparenta ser um meio legítimo a ser utilizado em benefício daqueles que detém o poder. Evitando generalizações, algumas pessoas aventuram-se na política com esta finalidade, tornando a ação um meio e os ideias do patrimonialismo, um fim.

O que a sociedade vê hoje − os absurdos da corrupção − é o resultado de anos e anos do emprego da ideia do uso da política como meio, tornando-se arraigada e, de certa forma, perdoada, pois são vários os que desejam usufruir dela.

A corrupção do sistema gera crises profundas, que podem ser levadas adiante pelas gerações, ainda mais se a corrupção for mascarada por véus, como a ideologia e a alienação. Cria-se a ideia de que aquele determinado comportamento é o correto para uma determinada finalidade, sendo que o fim do patrimonialismo é o “eu” e não o “nós”. E, assim, tem-se o aval da sociedade para que ocorra determinado evento.

Legar monumentos para o futuro não é algo ruim, mas deve ser feito com parcimônia. As várias obras inacabadas e as novas iniciadas todos os dias, que demorarão anos para serem concluídas, evidenciam a prática da imortalidade na política: é mais fácil iniciar uma outra obra do que concluir uma antiga, visando o reconhecimento futuro quando do lançamento da pedra fundamental.

Da mesma forma, legar ideias e ideais não é algo ruim, quando, novamente, feito com parcimônia. A política é meio e fim em si: gerir o bem-comum, visando o melhor para todos. Quando há corrupção no sistema, a sociedade é infectada por um parasita de difícil destruição, pois ele se fixa nas falhas do pensamento e da moral individual.

A compra de votos é um exemplo que colabora para a destruição sistêmica da sociedade, pois aqueles que se valem destes subterfúgios para assumir a cadeira executiva, no geral, tendem a ser governantes amorais, pífios, incongruentes. E a prática faz as pessoas apoiarem o candidato não pelas suas ideias, mas sim pela cesta básica ou pelas contas pagas. E isso é encorajado, pois os governos tendem a deixar as pessoas nos quadros da miserabilidade – será parte do esquema deixar este legado negativo?

Legados imateriais são vários, perceptíveis, mas quando se emprega o senso crítico para analisar o meio político e social. J. R. R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, considerava a mortalidade dos homens algo positivo, pois eles não veriam a passagem do tempo destruir o mundo. Não obstante, a destruição causada pelo tempo, sem levar em conta os desgastes inerentes a ação natural, é colaborada pelo ser humano e seu hábito ignóbil de tentar destruir a alma humana.

 


JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

  Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Instituto Bruno Giorgi   Imagem gerada com ...