sábado, 25 de julho de 2026

REVOLUÇÃO DE 32 EM MOCOCA

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo

Instituto Bruno Giorgi


Uma vez rompida a política dos governadores, o pacto que perdurava desde o governo do presidente Campos Sales, com a eleição de Julio Prestes à Presidência da República, a população mocoquense remeteu ao Correio Paulistano uma moção de congratulações, em 15 de abril de 1930, exaltando o eleito e transmitindo o seu integral apoio ao novo presidente. Não seria equívoco dizer, portanto, que Mococa estava em guerra desde antes de estourar a Revolução de 32, um par de anos mais tarde.


Em 14 de julho, 450 homens chegam à São José do Rio Pardo. Seguindo os trilhos da Mogiana, sentido estação Julio Tavares, tomaram Guaxupé sem um tiro sequer. O primeiro combate acontece na estação Manoel Joaquim. Pouco depois, um acordo permitira que as forças paulistas seguissem para Rio Pardo e a ordem do comando veio em 21 de julho. Chegaram em São José na madrugada do dia seguinte. 


A cidade de Mococa lançou-se à campanha constitucionalista, é fato. Os serviços de inteligência da União tomaram conhecimento que as oficinas da J. Nicola e irmãos fabricavam carros blindados e armamentos para as forças paulistas. Houve campanha de arrecadação de metais. O Radium forneceu seus troféus à causa. A recém-inaugurada Escola Profissional Mista participava com a confecção de fardas, vestimentas, ataduras, lenços, mantas, reparo de veículos. Tornou-se objetivo das forças federalistas cortar o fornecimento de energia elétrica, que vinha da Usina da Pedra Branca, inaugurada em 1905. Canoas, portanto, seria, cedo ou tarde, atacada pela União. 


A queda de Canoas foi a queda de Mococa, asseverou o dr. Marcos Coelho Netto. A usina foi tomada e o fornecimento de energia somente foi retomado poucos dias depois, religado pela rede elétrica, vinda de Rio Pardo. 6 dias e 7 noites de tiros, explosões e sangue derramado. A população debandou. Prefeito, juiz, delegado. A cidade viu-se sem autoridades presentes. O senhor Edgard Freitas narra em seu livro que, por volta das 18h30 do dia 31 de agosto, dois grupos formaram-se na esquina da Prefeitura. No primeiro, estava o tesoureiro municipal, Homero da Costa Leite e, no outro, Vespasiano Castanheira e o dr. Gastão de Paula Leitão. Um automóvel, em marcha lenta, aproximou-se. Nele, um sargento e três soldados mineiros, desejosos de saber onde era a prefeitura. Dr. Gastão apontou o prédio; Vespasiano, o tesoureiro, o qual foi conduzido pelos soldados até sua residência para buscar as chaves do Paço Municipal. Assumiram a prefeitura. 


O capitão José Toni foi nomeado prefeito e delegado militar de Mococa no dia seguinte, 1º de setembro, data em que, segundo Herbet Levy, seria determinada a retirada das forças paulistas de Mococa, Itaiquara,m Caconde e Vargem Grande para Casa Branca. As forças mineiras aquartelaram-se no Grupo Escolar “Barão de Monte Santo”. Um silêncio sombrio pairava sobre a cidade de Mococa, pois o recado fora dado: haverão invasões, violência e depredação. As casas, muito bem fechadas; algumas, cujos moradores deixavam as janelas entreabertas, seriam favoráveis à União. As forças da União ocuparam não apenas o Grupo Escolar, mas também o Cine Theatro Central e o prédio da Maçonaria. O Panelão, residência da família Ferraz, foi depredado. Nas usinas da J. Nicola, apreenderam o que foi possível. 02 soldados da 3ª Companhia foram os acusados de serem saqueadores, expulsos e presos. Narra o dr. Coelho Netto que “das residências assaltadas uma era de um médico mineiro e entusiasta da política federal...”. A guerra não perdoa aliados. 


A residência do Monsenhor dr. Félix Brandi, reitor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, foi revirada e depredada – bens de valor levados, louças e porcelanas reduzidas à cacos, colchões estraçalhados. Quando da tomada de Mococa pelos mineiros, existia um plano, onde tropas de Pirassununga, passando por Cajuru, invadiriam Arceburgo, “considerada de nenhum valor militar e por isso quase sem guarnição” e rumariam para Mococa de surpresa, e outras frentes de batalha ocorreriam, tomando a Usina da Pedra Branca. O comandante das tropas de Pirassununga, contudo, informa enfermidade. Não foi possível seguir com o plano, para o descontentamento do comandante Romão Gomes. 


Curiosamente, em 11 de setembro, uma ordem categórica de recuo, vinda pelo rádio do comendo de Poços de Caldas, chegou ao comando de Mococa. Precisavam abandonar a cidade, pois careciam as forças federais de auxílio em outro local. O povo assistiu a debandada com desconfiança. Algumas vaias foram ouvidas. O capitão Drummond descobriu, de véspera, que havia um complô para explodir a Maçonaria, e suas paredes e a poeira seriam os seus túmulos. Cerca de 100 granadas encontraram no porão da Loja. Dentre os envolvidos, estava o padre Argilio Malatesta e o sacristão. Estavam presos o próprio sr. Edgard e Nelson de Barros, vilipendiados no cárcere pelas tropas mineiras, acusados de serem sabotadores. Havia, era fato, um grupo de jovens, aliados ao EIM 361, que tentavam atrasar o passo da União, semeando, inclusive, pregos nas ruas. A retomada paulista de Mococa deu-se no dia seguinte a misteriosa debandada mineira. Cerca de 50 soldados, sob o comando do sargento Ferreira, ficaram em Mococa. 


Conta o sr. Edgard que, “dias depois, o povo enervado, ferido no seu amor próprio, para vingar a delação a que se haviam, prestado os senhores Vespasiano Castanheira e Souza Lima, reúne-se em massa compacta e reduz a escombros a sorveteria de um e a confeitaria do outro”. Segundo a pesquisa de Eliana Galvani, foram 208 combatentes por Mococa, 34 por Igaraí, e 72 mulheres colaboraram com o conflito. Três deles, Roque Pezzo, Domingos Giglio e Benedito Gonçalves Ribeiro, caíram em combate. 


Um revoltado é um insatisfeito; um rebelde, aquele que se rebela contra a autoridade. Mas e o revolucionário? Conta Hannah Arendt que é um aspirante do novo início, da confluência da libertação e da liberdade, parafraseando Celso Lafer, cujos ideais surgem na praça, e não nos palácios. É movimento popular, ademais. Em termos práticos, a Revolução de 32, em Mococa, contou com o apoio popular. Se eram bem informados sobre o objeto revolucionário ou não, difícil saber, afinal, no Brasil, há antes a imposição do que a compreensão. É certo que, em conflitos armados, quem mais perde é o povo, a grande base da pirâmide social. A elite possui recursos para fugir; políticos e autoridades, as manhas da diplomacia e das negociatas. Ao povo, o caos e a destruição, como foi o caso de Canoas, depredada em sua integralidade. 


Como escreveu o capitão Romão Gomes, no prefácio do livro "A Colunna Romão Gomes", de Herbert V. Levy, em 1933, "um povo assim pode errar, mas precisa ser respeitado". 


Fotografias do livro "A columna Romão Gomes", de Herbert V. Levy, de 1933.

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