terça-feira, 22 de julho de 2025

CONVENTO DE SÃO JOSÉ


 90 anos de sua inauguração parcial

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti



Vista aérea do Convento, fotografia de Lauro D'Angelo, acervo da Casa de Cultura "Rogério Cardoso"

Em 28 de junho de 1927, Mococa recebia a sexta visita pastoral de D. Alberto José Gonçalves, bispo da Diocese de Ribeirão Preto. Às 15h, a comitiva era recepcionada na estação pelo monsenhor dr. Félix Brandi, pelo capelão da Santa Casa, padre João Angelli, por autoridades, pela população e pelo frei Bernardino de Lavalle, capuchinho que, desde o ano anterior, prestava trabalho missionário em Mococa.

Frei Bernardino de Lavalle, o idealizador

Nascido João Molling, frei Bernardino era austríaco, nascido no Tirol, em 30 de outubro de 1843, e ingressou na Ordem em 28/10/1862; entre 1889 e 1892, foi Provincial de Trento e foi o responsável pelo envio dos primeiros missionários capuchinhos para a Missão de São Paulo, tendo ele próprio partido para o Brasil em 9 de outubro de 1894, chegando em Piracicaba, SP. Foi uma figura de grande importância na Ordem Capuchinha, sendo Frei Guardião de Taubaté, de 1909 até 1911; Guardião de São Paulo, entre 1911 e 1913; e Conselheiro da Missão em dois períodos, de 1907 a 1911 e de 1916 até 1924. Chegou em Mococa por volta de 1926, encantando a população com a sua missão. Faleceu em São Paulo, à meia-noite do dia 15 para 16 de abril de 1930, em idade avançada. A ideia de que Mococa deveria providenciar a construção de um convento para os capuchinhos partiu de frei Bernardino.

Convento de São José, acervo de Antonino Silva.

Nos anos seguintes, o número de missionários capuchinhos na cidade cresce constantemente, auxiliando os párocos, monsenhor Félix e, a partir de 1930, monsenhor Argilio Malatesta, nos desígnios da Paróquia. Foram os responsáveis, dentre tantas obras sociais, pelo incrementado auxílio ao dispensário de São Francisco, no Asylo de Mendicidade, realizando uma quermesse entre 24 de dezembro de 1933 e 10 de janeiro de 1934, visando arrecadar insumos, o que foi um sucesso.

Em 30 de dezembro de 1933, registrou-se no Livro de Tombo nº III que, tendo obtido autorização da Diocese, do superior-geral regular de Roma e da população mocoquense, os freis capuchinhos escolheram a cidade de Mococa para a fundação do Seminário Seráfico Provincial, obra que foi posta à cargo do construtor técnico dos capuchinhos, frei Egydio de Abetone.

Poucos meses mais tarde, em 27 de maio de 1934, era realizada a benção e o lançamento solene da pedra angular do edifício do Convento de São José, que foi coberta de laje de pedra lavrada e cimento, na parte angular dos alicerces. O terreno compreendia uma área de 3 alqueires, sendo adquirido pela Ordem Seráfica da família do dr. Augusto Freire de Matos Barreto, conforme escritura lavrada no 11º Ofício da Comarca de São Paulo. Às 16h, partiram da Igreja Matriz de São Sebastião, após a missa grandemente concorrida, dois andores: no primeiro, carregava-se a pedra angular; no outro, uma imagem de São José, escultura feita com cedro pelo escultor italiano, Giacomo Scopoli. Entre o repique dos sinos, o estampido dos fogos de artifício e a música das duas bandas presentes, o povo assistiu um marco na história de Mococa. A benção da pedra fundamental foi feita pelo monsenhor Argilio e pelo frei Manoel.

Lançamento da pedra fundamental do Convento, em 27/05/1934, presentes, ao centro, monsenhor dr. Argilio Malatesta e frei Manoel de Seregnaro. Acervo de Antonino Silva.

Dom Alberto José Gonçalves, ao centro; ao seu lado esquerdo, monsenhor dr, João Lauriano, e do lado direito, monsenhor dr. Argilio Malatesta, ladeados pelos frades capuchinhos. Fotografia do jornal Correio Paulistano, remasterizada.


Ao centro, Dom Alberto, ladeado pelos monsenhores João Lauriano e Argilio Malatesta, também identificados: prof. Oscar Villares, Maria Dulce Figueiredo Silva, Isabel de Lima Camargo e frei Egydio.


Assinaram a ata as seguintes pessoas: monsenhor Argilio Malatesta; frei Manoel de Seregnaro; frei Angelo Maria do Bom Conselho; frei Egydio de Abetone; dr. Albertin Nogueira, prefeito municipal; dr. Genésio Candido Pereira, juiz de direito; Vicente Parisi Filho, juiz de paz; Mari Pavan, coletor estadual; dr. Florindo Longo, promotor; Onofre Miranda, coletor federal; Adalberto dos Santos Figueiredo; Francisco Muniz Barreto; João Baptista de Lima Figueiredo; Antonio Lima Figueiredo; Francisco Pereira Lima; dr. Francisco de Lima Camargo; João Bento da Silva; Antonio Peres Fernandes; Oscar Villares; Homero Leite; Maria Isabel de Lima Camargo; Ermelinda Vieira; Isabel do Prado Barreto; Hilda Silva; Maria Garcia de Figueiredo; Maria Vieira do Prado Barreto; Eunice Vieira Barreto; Maria Dulce da Silva; e Clarice Silva.  

Além das bases inaugurais da ideia de se erigir o convento por frei Bernardino, não é possível não fazer menção às abnegadas senhoras, que lançaram-se às campanhas para que uma ideia virasse realidade. Dona Maria Isabel de Lima Camargo, Maria Dulce da Silva, Marina Garcia de Figueiredo e Anna Ranulpha de Abreu, verdadeiras forças para que o Convento fosse do mundo das ideias ao plano tangível.

A inauguração do convento foi muito festiva. Ocorreu em 7 de julho de 1935, há 90 anos. Foi, aliás, sua inauguração parcial. Nos dias 3, 4 e 5, foi realizado um tríduo e, no dia 6, chegou à cidade de Mococa o bispo diocesano, Dom Alberto José Gonçalves, e o vigário-geral da diocese, monsenhor dr. João Lauriano. No largo da Igreja Matriz de São Sebastião, grande massa popular reuniu-se. Dr. José Thiago de Siqueira Junior proferiu um eloquente discurso, saudando o bispo diocesano e a Ordem Capuchinha. Dom Alberto também discursou, informando que os capuchinhos sempre foram desejosos de possuir uma casa em Mococa e que, naquele momento, quase concluída a obra, seria o maior convento da Ordem no Estado de São Paulo até então.

No dia seguinte, 7, às 8h, após a missa, uma procissão partiu da Igreja Matriz rumo ao Convento, levando as imagens de São José e de São Francisco. Dom Alberto, acolitado pelos monsenhores Lauriano e Malatesta, pelo padre Ditino Della Parte e pelo superior regular dos capuchinhos, frei Manoel de Seregnaro, procedeu a benção da capela e do Convento, enquanto um coro de clérigos da Ordem, sob a regência de frei Alexandre, entoavam belos hinos e cânticos. Terminada a benção, foi a vez de discursar o dr. Francisco Teive de Almeida Magalhães que, com tamanho brilho, discorreu sobre as valiosas glórias da Ordem Capuchinha através dos tempos. Logo após, frei Modesto de Rezende discursou sobre as vicissitudes da construção, mas teceu grandes elogios à comissão das obras e à nobreza de coração do povo de Mococa. O valor total arrecadado foi de quase 105 contos de réis.

O bispo permaneceu mais alguns dias em Mococa, partindo para Ribeirão Preto na manhã do dia 10 de julho. No dia seguinte, enviou uma missiva à Paróquia, nos seguintes dizeres:

Mons. Argilio,

Mais um avez agradeço as suas gentilezas para commigo. Peço que em meu nome agradeça aos jornaes as homenagens que me prestaram.

É necessário que V. Revma. faça constar no Livro de Tombo a cerimonia da benção do Convento com a descripção dos actos. Lembre também que administrei o Sacramento da Confirmação a 2.109 pessoas, durante os dias de minha permanência ahi.

Fizemos boa viagem.

Do servo em N. S.,

+ Alberto, Bispo Diocesano

Em 1942, as obras da Igreja do Convento começaram. Seria posta a cargo do frei Egydio de Abetone, projeto do frei Alberto de Estravino. Sua inauguração ocorreu no dia 19 de março de 1947, com uma missa celebrada na velha capela pelo padre João Bueno Gonçalves. Logo após, uma procissão levou a imagem de São José até a nova igreja, imagem esta que foi benta e entronada, realizando-se nova missa solene e cantada, sendo amplamente concorrida. Estava, afinal, encerrada as obras do Convento de São José.

Igreja e Convento de São José. Acervo de Antonino Silva.

Os frades capuchinhos teriam grande participação na cidade de Mococa. Auxiliariam os párocos, ministrariam os cursos de catecismo, celebrariam missas nas capelas urbanas e rurais. Seriam os freis muito bem quistos pela cidade.

Em junho de 1966, era instalado o relógio da torre do Convento, cuja comissão executiva das obras era composta pelos senhores Ary Alberto Vidotto, Raul Moffi e Hélio Destro, e contou com a contribuição das seguintes empresas: SAEMA - Empresa de Mecanização Agrícola Ltda; Alexandre Cunali S/A - Industrial, Comercial e Agrícola; Metalúrgica Mococa S/A; Metalgráfica Rogek Ltda; Laticínios Mococa S/A; Irmãos Nicola S/A; Indústrias Votorantim S/A; Indústria de Comércio de Cola Santo Antônio S/A; INCOTEMA - Indústria e Comércio Têxtil Mococa S/A; Banco F. Barretto S/A; e sr. Paulo de Barros Whitaker.  

Segundo listagem feita pelo professor Carlos Paladini, em seu livro Mococa: Igrejas e Capelas,  foram guardiões do Convento, os freis: Salvatore de Cavedine, 1935; Angelo Maria de Taubaté, 1938; Emanuele de Seregnaro, 1938; Plácido Maria de Descalvado, 1939; Mansueto de Jaboticabal, 1942; Marcos de Álvares, 1947; Germano de Taubaté, 1950; Anselmo de Taubaté, 1954; Tiago de Cavedine, 1957; Roberto de Rocinha, 1960; Germano de Taubaté, 1960; Martinho de Rio das Pedras, 1962; Plácido Maria de Descalvado, 1965; e Jorge de Funchal, 1965. A Ordem dos Capuchinhos, segundo Antonino Silva, deixou a cidade em 25 de fevereiro de 1979, o que foi grandemente sentido pela população mocoquense.

Após a saída dos capuchinhos, no Convento funcionou por certo tempo a Faculdade de Biblioteconomia do Instituto de Ensino Superior de Mococa e, posteriormente, um hospital psiquiátrico. Nos anos de 1990, Dom Dadeus Grings convidou os membros da Comunidade Missionária da Providência Santíssima para fazer uso das dependências do Convento de São José.

Fundada em 27 de outubro de 1984, pelo monsenhor Orlando Aparecido de Souza Pannaci, pela irmã Lucinéa Maria Ficoto e pela irmã Zélia Maria Pereira, a Providência Santíssima “quer trabalhar na implantação e consolidação do Reino de Cristo nas almas e levar à todos os cantos da terra, com a oração, a ação e o testemunho, aquilo em que acredita e que vive”, conforme informações de seu próprio site. Além do trabalho missionário, constituíram o Instituto de Filosofia e Teologia “São Francisco e Santa Clara de Assis”, que possui autorização da Diocese de São João da Boa Vista para ministrar cursos e para conceder títulos acadêmicos em seu nome. Em 18 de janeiro de 2002, Dom David Dias Pimentel, então bispo diocesano, autorizou o curso de Filosofia; no mesmo ano, em 19 de outubro, foi aprovado o curso de Teologia.

As dependências do Convento, erigido pelos capuchinhos, hoje é zelosamente guardada pelos membros da Providência Santíssima, que, da mesma forma, semeiam o trabalho missionário na cidade de Mococa.

Aspecto do Convento e Igreja, acervo do autor. 


quarta-feira, 16 de julho de 2025

CATHARINA CANDIDA DE SENNA, A FUNDADORA ESQUECIDA DE MOCOCA

 

por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti



Assinatura de dona Catharina Candida de Senna no seu testamento. 

Dona Catharina Candida de Senna é lembrada apenas nos rodapés da história de Mococa, pois, quando os historiadores analisaram a sua participação no surgimento do povoado de São Sebastião da Boa Vista, verificaram que, em 1843, sua contribuição estaria encerrada. Desse momento em diante, não é mencionada nos livros. Devido à sua participação considerada limitada, especialmente subsumida à memória de seu marido, seus dados biográficos não foram pesquisados a fundo.

Segundo informações, Catharina Maria de Jesus, seu nome de batismo, teria nascido por volta do ano de 1792, no território da Vila de São João del Rei. Em seu assento de casamento, consta que era natural de Lavras, em Minas Gerais, local onde seus pais, Miguel Joaquim da Cunha Bastos e dona Helena Joaquina da Silva, se casaram em 28 de julho de 1783. A guisa de curiosidade, segundo narra Waldemar de Almeida Barbosa, a capela em devoção à Sant’Ana fora elevada à categoria de Matriz por provisão de 21 de novembro de 1760, de Dom Frei Manoel da Cruz, primeiro bispo de Mariana. Desde 3 de abril de 1754, fora provisionada a sua pia batismal. 

Pela provisão de 18 de setembro de 1751, obtiveram os moradores das Lavras do Funil, freguesia de Carrancas, licença para erigir uma capela em honra da Senhora Santa Ana. E Luís Gomes Salgado, para patrimônio da dita capela, doou umas capoeiras nas vizinhanças da referida capela, conforme sentença de aceitação datada de 21 de abril de 1753. A provisão de pia batismal, teve-a a capela em 3 de abril de 1754. Tem-se a impressão de que o arraial, formado em tôrno da capela, cresceu rapidamente, pois, em 1760, tinha já mais moradores que a própria sede da freguesia, isto é, Carrancas. Nesse ano de 1760, o juiz das diligências do Bispado de Mariana, Pe. Dr. José Soares Aranha Brandão, visitando a matriz de Carrancas e capelas filiais, mostrou a necessidade de nova matriz, pois a que havia em Carrancas pertencia a particular, não tinha adro, nem comodidade para procissões. Ciente do fato, os moradores da Aplicação da capela de Santana das Lavras do Funil dirigiram um apêlo ao sr. Bispo, pedindo a transferência da sede da paróquia de Carrancas para a capela de Santana; alegaram que estavam construindo nôvo corpo da: igreja, ficando a parte antiga como capela-mor. Entre os signatários da petição figuram nomes conhecidos, como Bartolomeu Bueno do Prado, Diogo Bueno da Fonseca etc. O requerimento foi remetido ao vigário de Carrancas, Pe. Manoel Martins, que deu parecer favorável, alegando, entre outras cousas, que Carrancas tinha uns 500 moradores, enquanto a Aplicação de Santana tinha mais de mil. A provisão de Dom Frei Manoel da Cruz, primeiro bispo de Mariana, datada de 21 de novembro de 1760, determinava fôsse a capela de Santana das Lavras do Funil erigida em Matriz da paróquia “que até agora se intitulava das Carrancas” (Barbosa, 1971, p.265).

Pouco depois de seu nascimento, seus pais peticionaram ao governo da Capitania, solicitando concessão de sesmaria no Pé da Serra do Curralinho, termo de São João Del Rei. O despacho foi datado de 22 de setembro de 1794.

Em 1º de junho de 1808, Catharina se casa com o português, Antonio José Gomes, natural da vila de Freira, freguesia de Sanfins, bispado do Porto, filho de Antonio José Gomes de Mattos e de Ana Maria de Jesus. O casamento ocorreu na capela filial de São Miguel do Cajuru, Matriz de Nossa Senhora do Pilar de São João del Rei, conforme o seu assento transcrito, abaixo:

Matriz de Nossa Senhora do Pilar de S. João del Rei, MG e capelas filiadas cap. S. Miguel do Cajuru aos 01-06-1808 Antonio Jose Gomes, n. freg. Sanfins da vila da Feira Bispado do Porto, f.l. Antonio Jose Gomes de Mattos e Ana Maria de Jesus = cc Catarina Maria de Jesus, n. N. Sra do Porto-Lavras, f.l. Miguel Joaquim da Cunha Bastos e Helena Joaquina da Silva, Test.: Alf. João Bastista Barroso e Manoel Joaquim Villas Boas (Sette e Junqueira, 2016, http://www.projetocompartilhar.org/Familia/JoaoAlvesCampos.htm).

É provável que seu irmão, Joaquim José da Cunha Bastos, casado em Alfenas, em 1821, tenha sido o primeiro da família a se estabelecer no sul de Minas, inaugurando tais caminhos para que, anos mais tarde, dona Catharina descesse rumo aos sertões do rio Pardo, nos tempos da intensificação de sua povoação, onde estabeleceu com seu marido e seus filhos. Adquiriram uma vasta propriedade, que foi denominada fazenda Ribeirão do Meio. A essa altura, já era Catharina Candida de Senna, nome que deriva de sua devoção à Santa Catarina de Senna.

Mário Leite, autor de Paulistas e mineiros, edificadores de cidade, escreve que, entre as grandes propriedades da Água Limpa, de José Christovão de Lima, estabelecido em meados de 1822, e da Alegria, cujo dono, Diogo Garcia da Cruz, a adquiriu em 1833, existiam vários sitiantes e fazendeiros de propriedades menores, citando:

Entre “Alegria” e “Água Limpa”, constituídos em fulcros da região desbravada, surgiram pequenos núcleos, povoados por parentes e amigos de Diogo Garcia da Cruz e de José Christovam de Lima, contando-se Antonio José Gomes, luso, ligado à família de Diogo Garcia da Cruz, José Caetano de Figueiredo, Francisco José Barbosa, Joaquim Custódio Dias, Manoel Pereira dos Santos e Manoel Vicente da Rocha (Leite, 1961, p. 196).

Humberto de Queiroz, farmacêutico e primeiro historiador de Mococa, em sua famosa biografia, narra que, nos anos de 1840, diversos proprietários de terras encontravam-se estabelecidos em suas fazendas, mencionando:

[...] entre os lavradores mais abastados desse tempo, tempo em que não existia uma só casa onde é hoje a cidade de Mocóca, contavam-se os seguintes: Diogo Garcia da Cruz, na Alegria; José Christovam de Lima, na Água Limpa; Antônio José Gomes, no Ribeirão do Meio; José Gomes da Lima, na Bôa-Vista; Francisco José Barbosa, na Pedra Branca; José Caetano de Figueiredo, na Cachoeira; Joaquim Custodio Dias, na Lage; José Pereira dos Santos (Pae), em Sta. Thereza, todos já falecidos e Manoel Vicente da Rocha, que vive ainda, com perto de 100 anos, na Ressaca (Queiroz, 1913, p. 24).

O grau de ligação entre a família de Antonio José Gomes e de Diogo Garcia da Cruz não foi bem explicitado pelo autor. Talvez, fosse alguma especulação, devido ao sobrenome “Gomes”, que ganhou reverência na região através de José Gomes de Lima, ligado ao capitão Diogo pelo casamento com sua filha, Maria Constança de Figueiredo. Antonio José Gomes aparece como uma das figuras que ajudou na construção da capela de São Sebastião.

Em 1839, o casal, devido à fé de dona Catharina aos santos católicos, São Sebastião e São Francisco das Chagas, realizou a doação de 16 alqueires de terras para que fosse erigida a capela. Ocorre, porém, que quatro anos depois, em 1843, o capitão José Gomes de Lima, segundo Humberto de Queiroz, desgostou de a localidade ser muito próxima de sua fazenda e permutou as terras com o casal.

No dia 4 de julho de 1846, Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade concede provisão para que erigisse uma capela em louvor à São Sebastião, no território da Vila de Casa Branca, atendendo, assim, à representação de Venerando Ribeiro da Silva.

Provisão de ereção da Capela de São Sebastião da Boa Vista na vila de Casa Branca favor de Venerando Ribeiro da Silva digo da Freguezia de Batatais e Cajurú.

D. Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade por mercê de Deus e confirmação da Santa Sé Apostólica, bispo de São Paulo do Conselho de S. Majestade o Imperador Grã Cruz da Ordem de Cristo.

Aos que esta nossa provisão virem saúde e benção em o Senhor. Fazemos saber que atendendo ao que por sua petição nos representou Venerando Ribeiro da Silva, e mais povos da freguezia de Cajurú, havemos por bem pela presente conceder faculdade para que possam fundar e erigir e edificar uma capela em a povoação de São Sebastião contanto que seja em local decente, alto, livre de umidades, desviado o quanto possível de lugares imundos e sórdidos, e de casas particulares, não sendo porém em lugar ermo, e despovoado, e que tenha âmbito em roda para poderem andar procissões, o qual lugar será assinalado pelo muito digno Vigário da Vara e observando o que determina a Constituição do Bispado e depois de acabada não se poderá nela celebrar missa sem licença nossa para a qual precederá informação do lugar da decência e comodidade da dita capela, e competente patrimônio. Esta será registrada no Livro do Tombo da Matriz para a todo o tempo constar. Dada em Câmara Episcopal de São Paulo sob nosso sinal e selo de nossas armas aos 4 de julho de 1846. E eu o padre Maximino José Corrêa da Silva escrivão ajudante da Câmara Episcopal a escrevi. D. Manoel, Bispo Diocesano. Chancelaria, 12$000 (Campanhole, 1979, p. 535).

A participação do casal depois deste episódio verificou-se como limitada e sequer mencionada nos livros. De fato, a ideia inicial de erigir um patrimônio para satisfazer as necessidades religiosas seria de dona Catharina, a qual, segundo entendemos em análise aos Autos de Divisão da Fazenda Ribeirão do Meio, de 1859, que seria a proprietária da referida fazenda, uma vez que seus filhos atestam que receberam a propriedade de herança materna.

Dona Catharina firmou o seu testamento em 10 de novembro de 1851, redigido por José Antonio Rodrigues Miranda. Em suas disposições, solicita que sua família, além das missas habituais, rezasse mais trinta missas por sua alma. À sua neta, Maria Silveria, deixou uma escrava de 6 para 7 anos de idade, mas, caso não fosse possível, legava o importe de quinhentos mil réis. Ela faleceu em 26 de junho de 1853; seu marido faleceria em 11 de outubro de 1856, tendo ditado seu testamento cinco dias antes,  sendo sepultado com o hábito de São Francisco na antiga capela de São Sebastião. Em 1859, quando foi instaurada a divisão da fazenda do Ribeirão do Meio, verificamos que a propriedade possuía 483 alqueires de terras de qualidade variada, avaliada em dez contos de réis.

A divisão da fazenda foi assim disposta: à Venerando Ribeiro da Silva, 304 alqueires e três quartas; à José Gomes d’Avellino, filho, 108 alqueires e 1 quarta; à João Francisco Lemes, 30 alqueires; à Antonio Joaquim Barbosa, 30 alqueires; e à Francisco de Paula Gomes, 10 alqueires.

Dona Catharina foi colocada como uma personagem marginal da história de Mococa, embora sua colaboração tenha sido vultuosa. Foi a principal fomentadora dos desígnios da vindoura cidade. Esta pequena contribuição visa salvar o seu legado e sua memória. É, afinal, a fundadora de São Sebastião da Boa Vista, embora quis o destino que sua doação de terras fosse alvo de permuta, o que levou ela e o marido ao rodapé da história de Mococa.  

Fontes: 
BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário histórico-geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte: 1979. 

CAMPANHOLE, Adriano. Memória da cidade de Caconde. São Paulo: Edição do autor, 1979.

SETTE, Batyra e JUNQUEIRA, Regina. João Alves Campos e Maria Leme da Silva. Projeto Compartilhar (disponível em http://www.projetocompartilhar.org/Familia/JoaoAlvesCampos.htm, acesso em 16 de julho de 2025). 

QUEIROZ, Humberto de. A Mococa: de sua fundação até 1900. Edição organizada e revisada pelo Instituto Bruno Giorgi. Mococa: KKRibeiro.com, 2024

terça-feira, 1 de julho de 2025

NOTAS HISTÓRICAS SOBRE A CAPELA DA APARECIDA


Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Fotografia publicada na Revista Nação Brasileira, em 1926.

A partir da década de 1860, enquanto a capela de São Sebastião era ampliada nos paroquiatos dos padres Lourenço Evangelista Della Moglie e padre Joaquim Feliciano do Amorim Sigar, tornando-se efetivamente uma Igreja Matriz, o bairro além do Ribeirão do Meio era designado República. O nome adveio de José Bento Vieira Sobrinho, farmacêutico que chegou em Mococa em 1862, segundo narra Humberto de Queiroz, em seu livro, A Mococa: de sua fudação até 1900 (1913). Nos dias atuais, a República abrangeria principalmente os bairros do Brás, Descanso e Aparecida. Quando a Companhia Mogyana de Estradas de Ferro inaugurou a estação de Mococa, em 18 de março de 1890, o seu entorno foi referido como Bairro da Estação, “desmembrado” da República.
Era uma época de expansão da cidade. Em 18 de outubro de 1890, em substituição ao padre Ernesto Lages, é provido para a Paróquia de São Sebastião o padre Bento Monteiro do Amaral (1867-1954), vindo de Brotas com um grande espírito reformador em seu cerne. Empreendeu as obras da nova Igreja Matriz, da capela de Santa Cruz, na Mocoquinha, e da capela de Nossa Senhora Aparecida, no bairro da República e Estação. Foi Luiz Ricci, italiano, o doador do terreno.
O Bispado de São Paulo, através de Provisão de 30 de dezembro de 1890, autorizou a construção da capela, cuja benção da pedra fundamental deu-se em 20 de janeiro de 1891, conforme termo lavrado no Livro de Tombo da Paróquia, abaixo transcrito:
"Termo de Bênção da Pedra fundamental da Capella de Nossa Senhora Apparecida.
Aos dias vinte do mez de Janeiro de mil oitocentos e noventa e um, nesta Parochia de São Sebastião da Boa Vista, na cidade Mococa, Estado e Diocese de São Paulo, em virtude da Delegação que esepecialmente me foi conferida pelo Exmo. e Revmo. Snr. Bispo Diocesano, por sua Veneravel Provisão de 30 de Dezembro de mil oitocentos e noventa, que é do theor seguinte: D. Lino Deodato Rodriguez de Carvalho, por mercè de Deus e da Santa Sé Apostolica, Bispo de São Paulo, etc. etc.
Aos que esta Nossa Provisão virem, Saude e Benção em Senhor.
Attendendo ao que por sua petição nos representou o Revmo. Pe. Bento Monteiro do Amaral, Vigario Encomendado da Parochia de São Sebastião da Boa Vista, da cidade Mococa, deste Bispado.
Havemos por bem, pela Presente, conceder Faculdade para que nos terrenos de propriedade do cidadão Luiz Ricci, n'essa mesma Parochia, se possa erigir e fundar uma Capella, sob a invocação da Nossa Senhora Apparecida, filial à Matriz da referida Parochia, com tanto que seja em lugar alto, livre de humidade, desviado quanto possivel de lugares Imundos e casas particulares e que tenha ambito em roda para andarem procissões, sendo o local para tal fundação designado pelo respectivo Parocho, a quem autorizamos para benzer a primeira pedra do edificio, na forma do Ritual Romano; na mesma Capella não se poderão celebrar os officios Divinos sem nova Provisão Nossa, para cuja acquisição precederá a necessaria informação Parochial sobre sua capacidade e decencia".

As obras começaram. A capela teria certo requinte a mais do que a capela de Santa Cruz, mas não seria inaugurada tão cedo. Em 1902, Luiz Ricci organiza uma festa em louvor à Nossa Senhora Aparecida, visando angariar fundos para a conclusão da capela. Em 1903, organiza outra festa, muito bem frequentada. Ocorre, contudo, que o destino não desejou que a Capela fosse tão já inaugurada. Um mês depois da festa, em 15 de novembro de 1903, Luiz sofreu um acidente e faleceu. As obras e movimentações em torno da capela cessaram.
Fotografia publicada no jornal A Mococa, em 1936.

Somente em 1919, no paroquiato do monsenhor doutor Felix Brandi (1858-1939), teve-se a iniciativa de retomar as obras. Uma grande festa foi organizada, tendo como festeiros, segundo narra o professor Paladini, no livro Assim Nasceu Mococa (1995), Zacarias Fernandes Pinheiro e sua esposa, Lina Leopoldina Pinheiro. Foi bem frequentada, diga-se de passagem, e os valores arrecadados colaboraram para que, em 7 de maio de 1921, fosse realizada a inauguração, com a presença do bispo da Diocese de Ribeirão Preto, Dom Alberto José Gonçalves, o qual procedeu a benção da capela.
Fotografia publicada no jornal A Mococa, em 1956.

Alguns anos mais tarde, da mesma forma que as capelas de Nossa Senhora da Luz de Igaraí, São Benedito, de Nossa Senhora Aparecida de Estação de Canoas e Santa Cruz, a capela da Aparecida foi entregue aos cuidados dos frades capuchinhos do Convento São José.
Fotografia disponível no site da Prefeitura de Mococa, antes da pintura atual.

Em 28 de dezembro de 1935, uma comissão foi nomeada pela Diocese de Ribeirão Preto, visando proceder com a reforma da capela, sendo constituída da seguinte forma: Alexandre Cunali, presidente; Pedro Nicola, tesoureiro; Pedro Cunali, secretário; e o Ver. Frei Egydio Albertone foi nomeado construtor técnico. As obras começaram em 1936 e foram concluídas um ano mais tarde.
Com os anos, algumas intervenções foram feitas na capela, como a pintura externa e a remoção da balaustrada que ladeava a escadaria da entrada.
Aspecto atual da Capela, Google Maps.

Atualmente, faz parte da Paróquia de Santo Antônio, tendo como pároco titular, padre João Marcos Moreira.

RÁPIDA BIOGRAFIA DE LUIZ RICCI

Pouco se sabe sobre o italiano Luiz Ricci. Chegou no Brasil em meados dos anos de 1880, sendo naturalizado brasileiro em novembro de 1887. No ano seguinte, em maio de 1888, foi nomeado 1º suplente de delegado de polícia, em Mococa, função que desempenhou até meados de dezembro de 1891. Foi vereador, nos tempos do Conselho de Intendência, em 1891.
Em 10 de setembro de 1892, foi nomeado para o 122º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, de Mococa, patente de alferes. Pedreiro, foi o doador do terreno e principal protagonista da construção da capela de Nossa Senhora Aparecida.
Em 15 de novembro de 1903, um mês depois de organizar a festa da Aparecida, foi vitimado por uma violenta pancada no peritônio e nas vísceras, enquanto realizava as molduras no frontispício da capela, falecendo após horas de agonia. Nesta ocasião, já não possuía três dedos da mão direita, decepados por uma serra circular, em sua oficina. Deixou mulher e não se tem ciência se tinha descendêcia. A cidade de Mococa ficou enlutada e as obras da capela, estagnadas.

Notícia veiculada pelo jornal, O Estado de S. Paulo, em 10/09/1892, com a nomeação dos novos membros do 122º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional, em Mococa, sendo Luiz Ricci nomeado alferes.


ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES PARA O HISTÓRICO DA CAPELA
Por Sander Rogerio Ribeiro Pereira

Acredito, embora até o momento sem documentação que possa comprovar, que o risco arquitetônico desta capela seja de autoria do arquiteto italiano Paulo Victorio Lanzoni (1858 - 1941). Uma nota a ser assinalada sobre a história da "villa" ou bairro da Aparecida é que em dezembro de 1908, o coronel Olympio Carvalhaes (? - 1927), sugeriu o aproveitamento do bosque que se erguia no bairro da Aparecida para uma festividade social. E sua lembrança foi tão feliz que em menos de dois meses o bosque estava muito bem preparado e a festa se realizou com muita pompa e entusiasmo, contando com a presença da Filarmônica Mocoquense.

A imagem de Nossa Senhora Aparecida
Fotografia da imagem, acervo de Sander Rogerio.

A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (fac-símile), presente no altar-mor da capela, exibe cabelos curtos, similar à imagem original do Santuário Nacional de Aparecida, SP, cujos cabelos eram igualmente curtos, não ultrapassando os ombros. Os cabelos longos na imagem original foram introduzidos em 1978, durante a restauração – seria mais apropriado dizer "reconstrução" – da imagem, após ter sido danificada em múltiplos fragmentos por um indivíduo com transtornos psicológicos. A intenção era que os cabelos maiores auxiliassem na fixação da cabeça ao corpo. Este restauro, liderado por Maria Helena Chartuni, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), resultou em uma reformulação significativa da imagem, especialmente da cabeça, a área mais afetada. A comparação de fotos pré e pós-restauro evidencia as mudanças nos traços faciais, incluindo a alteração dos cabelos e a modificação da forma, que era mais arredondada e com traços mais delicados. A imagem da capela foi restaurada em 2015, a pedido do padre Fábio Donizetti Golfetti , então pároco da paróquia de Santo Antônio e Santa Clara e manteve suas características originais


terça-feira, 17 de junho de 2025

DATAS DO PASSADO - INAUGURAÇÃO DO PAÇO MUNICIPAL DE MOCOCA

         Há 122 anos, em 7 de junho de 1903, foi inaugurado o novo prédio do Paço Municipal de Mococa, sede dos Poderes Executivo e Legislativo. A obra, que teve início em meados do ano de 1900, foi inaugurada com grande presença popular. Antes, existia um outro edifício, construído às expensas de Gabriel Garcia de Figueiredo em 1872, como condição para que a freguesia de São Sebastião da Boa Vista fosse elevada à categoria de vila, podendo, por conseguinte, instalar a Câmara.

Em 14 de junho daquele ano, o semanário A Mococa, consignava a seguinte nota:

NOVO PAÇO MUNICIPAL

Conforme noticiamos em nosso numero anterior, teve logar, no dia 7 do corrente, ao meio dia, a inauguração do novo Paço Municipal.

Á noite, esteve esse bello edificio illuminado exterior e interiormente, a gaz acetyleno, e conservou-se aberto até dez horas, em razão de grande numero de exmas. familias que o foram visitar.

Mais uma vez apresentamos á patriotica Camara Municipal e seu illustre e digno Intendente nosso sincero parabens, por ter levado a effeito mais esse grande melhoramento local.

Em 1901, as obras alcançaram o importe de 10:872$300 e, posterior a este período, não foi possível localizar números atualizados. No período das obras, foram intendentes municipais, João Ferraz de Siqueira e João Gomes Barreto.

O prédio foi demolido nos anos 1950, sendo substituído pela construção atual, inaugurada em 5 de abril de 1959, no governo de Jacinto Pisani.

Na fotografia, vista do antigo Paço Municipal, do acervo da Casa de Cultura "Rogério Cardoso".



quarta-feira, 11 de junho de 2025

UM DOS DOCUMENTOS MAIS IMPORTANTES DA HISTÓRIA DE MOCOCA

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Folha de rosto do projeto de lei.

Em meados de fevereiro do ano de 1856, os moradores do povoado de São Sebastião da Boa Vista, Vila de Casa Branca, firmaram petição endereçada à Câmara desta Vila, requisitando a representação da dita Câmara junto à Assembleia Legislativa, para que a povoação fosse elevada à categoria de Freguesia, o que foi formalizado por meio de ofício de 12 de fevereiro daquele mesmo ano. Foram signatários: Vicente Ferreira de Sillos Pereira, Diogo Garcia de Figueiredo, José Antonio Rodrigues Mendes, Gedeão Rodrigues de Oliveira, Francisco José Rodrigues e Antonio José Teixeira Junior, todos vereadores da Câmara de Casa Branca.

Na edição de 29 de fevereiro de 1856 do Correio Paulistano, há uma menção ao recebimento do ofício, nos seguintes termos: “Reunião da Assembleia Provincial de 27 de fevereiro de 1856, 9ª sessão ordinária, leu-se o seguinte: “Officio da câmara municipal de Casa Branca, enviando uma representação de 126 cidadãos da capella de S. Sebastião da Boa Vista, pedindo ser elevada á freguezia, e julgando de justiça esta pretensão: - Á comissão de estatística”.

Em 5 de abril de 1856 foi sancionada a Lei nº 15, pelo vice-presidente da Província de São Paulo, bel. Antonio Roberto d’Almeida, elevando à freguesia a povoação de São Sebastião da Boa Vista, nos seguintes termos: “Artigo unico. - Fica creada uma freguezia com a denominação de S. Sebastião da Boa Vista, no lugar que tem este nome no municipio da Casa Branca, cujas divisas são as seguintes : com a parochia da dita villa o Rio Pardo, e com as de Caconde, Cajurú e S. Simão, as actuaes destas parochias : revogadas as disposições em contrario. Mando portanto a todas as Auctoridades a quem o conhecimento, e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como n'ella se contém. O Secretario desta provincia a faça imprimir, publicar e correr. Dada no Palacio do Governo de S. Paulo aos cinco dias do mez de Abril de mil oito centos e cincoenta e seis”.

Abaixo, segue a transcrição da petição dos moradores do povoado, a qual consta dados interessantes de São Sebastião, como a quantidade de casas e moradores do povoado e o número de moradores do território que esperava-se englobar a freguesia:

“Illmo Snres Presidente e Vereadores da Cama de Casa Brca.

Os abaixo assignados moradores na povoação de Sm Sebastião da Boavista do Municipio desta Villa certos de que VVSSas são os mais zelosos sustentáculos das conveniências de seus municipes, vem cheios de esperança pedir lhes uma representação á Assembléa Provincial que se reúne a 15 do corrente mez, para que ella não menos zelosa dos interesses da Provincia e de cada um dos Povos e fracções que a compõem, se digne de decretar uma lei, creando freguezia nesta povoação de S. Sebastião da Boavista. VVSSas não ignorarão, que é uma condição essencial para o investimento de uma povoação e do commercio a ser lugar elevado á cathegoria de freguezia porque então muitos se animão a edificar e o novo movimento do povo desenvolveu o commercio e outras condições da vida social. Menos podem ignorar VVSSas que o pasto espiritual, a cura das almas é outra condição, que reanima os Catholicos e ajuda o desenvolvimento de tudo quanto é mister á vida. Este lugar porem é tão cheio de esperanças que sem essas condições tem sempre progredido em augmento de população, riqueza e commercio: qual pois não será seu desenvolvimento logo que seja creada a freguezia pedida?

Para que VVSSas possão representar convincentemente e com as informações que a illustre Assembléa pode porventura exigir para crear a freguezia, os supplicantes informão que a povoação contem cento e vinte e cinco casas, morando dentro destas quase seiscentas almas, que a divisa desta nova freguezia deve ser, com a de São Simão, a começar na Barra do Cubatão pelo Rio Pardo acima ate a barra do Bebedor, e desta com a dessa Villa pelo mesmo Rio Pardo até a barra da Fartura, e desta com a de Caconde ainda pelo Rio Pardo até a barra do primeiro Ribeiro até a barra do primeiro Ribeiro que ha por cima do Rio Claro, e por elle acima do alto da Serra, e desta abrangendo as cabeceiras da Lages e Agua Limpa até a divisa da fazenda de José Custodio com José Christovão, e seguindo o rumo mais próximo ao Ribeirão Canoas e por este abaixo divisando com a de Jacuhy até a barra do Ribeirão Areas, e subindo este ate as divisas de Cajurú com essa Villa, as quaes serão as nossas até a barra do Cubatão. Esta área que descrevem estas divisas contem com franca diferença três mil almas e a divisa é mais natural e conveniente.

Releva dizer que na mesma área estão comprehendidas muitas fazendas ricas. Outra razão de grande influencia para que os Supplicantes alcancem de VVSSas a representação da illustre Assembléa a creação da freguezia, é longa distancia de seis legoas que há entre esta povoação e a dessa Villa com o maleitoso Rio Pardo de permeia, além de distancias maiores para os Povos, que vivem fora da povoação, pelo que os recursos espirituais e civis são muito difíceis sempre demorados e a maior parte das vezes perdidos. Ora, há em nossa povoação uma Igreja que conquanto não esteja acabada, está bem adiantada e continua-se em acabal-a, tendo as necessárias e decentes alfaias para os sacreficios solemnes em que haja exposição.

Portanto os suplicantes.

PP a VVSS que dignem de levar esta representação com as informações necessárias á illuestre Assembléa Provincial de quem esperão.

R. J.

O Pe João da Fonseca e Mello, Capellão

Lourenço Francisco dos Santos

João Bueno da Silva

Francisco de Paula Rodriguez

Venancio Dias de Moura

Antonio Xavier de Barros

Manoel Ananias Barboza

Francisco de Paula Barboza

Thomaz Moreira de Aquino

Leopoldino Antonio de Oliveira

Franciso de Paula Gomez

Francisco Ferreira Pedroza

João Mendes de Oliveira

Bonifácio de Souza Penna

João Bento de Araújo

Jozé Marcelino dos Santos

Firmino Cardozo de Toledo

Manoel Antonio Xavier

Izaias Primo dos Santos

Jozé Luiz Ribeiro

Vicente Bernardes

Jozé Pereira Machado

Custodio José Alves

Antonio Malaquias da Silva

João Francisco Lemes

Salvador Lemes Luiz

Ciprianno de Souza Mesquita

Antonio Ferreira de Brito

André Bernardes de Souza

Vicente Ferreira de Oliveira

Generozo de Souza Montero

José Joaquim da Silva

Jeremias Jose Barboza

Cegundo Paz de Camargo

João Naraze Gonçalvez

Antonio Barboza de Oliveira

Joaquim Gabriel

Manoel Gonçalves dos Santos

Francisco Gonçalves dos Santos

Valentim Leal Alemão

Francisco Gonçalvez de Rodriguez

Antonio Fernandes de Castro

José Firmino Dias

Francisco José de Arruda

Gregorio Leal Alemão

Manoel Pereira Roza

Joaquim Roza da Silva

Francisco Felis da Silva

Manoel David de Siqueira

Emerenciano Cardozo de Toledo

Joaquim Rodrigues Lagares

Boaventura J. de Mactos

Joaquim Ferreira de Brito

Manoel Jacinto de Oliveira

José Jacinto de Oliveira

João José do Santo

Francisco das Chagas Santos

Francisco de Paula Santo

Manoel Francisco Terra

Joaquim Flavio Terra

Ignacio Miliano Terra

João Gonçalves de Souza

José Gonçalves de Souza

Joaquim Gonçalves de Souza

Gabriel Gonçalves de Souza

Joaquim Antonio de Matos

Manoel Antonio de Matos

José Manoel Gabriel

José Ignacio

José de Campos

Severianno de Campos

João José Coelho

José Nogueira Vilela

Joaquim Pedro

Joaquim Pedro Gomes

Vicente de Paula

Antonio Marques

José Lino do Espirito Santo

Joaquim Nunes de Paula

José Siprianno de Souza

Miguel Telles Martins

Manoel Joaquim de Souza

João Francisco de Paula

João Bueno

José Antonio de Matos

José Joaquim de Figueiredo

Custodio Dias

Flauzino

José Pereira Lima

Manoel Garcia de Figueiredo

Clement Ribeiro

Miguel Ribeiro

João Machado

Miguel Machado

José Caetano de Figueiredo

José Gomes Lima

Venerando Ribeiro da Silva

Domingos Ferreira Pedroza

Manoel Caetano de Figueiredo

Francisco Mizael Pereira

Antonio José Dias

Francisco Rodrigues de Carvalho

Gabriel Garcia de Figueiredo

Manoel Teodesio Teixeira

José Mendes Carneiro

Sabino Mendes Carneiro

Venancio da Cunha Ferreira

Miguel Dias de Moura

Antonio Fernandes Pedroza

José Fernandes Pinheiro

Antonio Dias dos Reis

José Machado Sá

Francisco José Rodriguez

José Gomes de Figueiredo

Antonio Moreira

Henrique Tavares da Cunha

José Antonio de Oliveira

João Bernardes

Leonel Joaquim Pocidonio

Antonio Lemes de Sá

Joaquim Silverio

José Honorio de Araujo

Luiz Terra

Pedro Dias Galvão

Diogo Garcia de Figueiredo

 

(O documento foi localizado por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti, fruto de suas pesquisas historiográficas sobre a História de Mococa e de nossa região, que o transcreveu com a contribuição inestimável do historiador, Sander Rogerio Ribeiro Pereira. Sem sombra de dúvidas, é um dos documentos mais importantes para a história da formação de Mococa, uma vez que, sem tal iniciativa, a freguesia não existiria naquele momento).


JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

  Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Instituto Bruno Giorgi   Imagem gerada com ...