quinta-feira, 30 de abril de 2026

DR. DEMOSTHENES DA SILVEIRA LOBO

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

 

Demosthenes da Silveira Lobo era filho de Manoel Lobo de Miranda Henriques (1799-1856) e de Ana Norberta da Silveira (1806-?). Nasceu em meados de 1839 no Engenho das Tabocas, em São Lourenço da Mata, Pernambuco. Foi casado com dona Francisca Teixeira Peixoto (1839-1924), filha de Manoel Teixeira Peixoto e de Anna Teixeira Peixoto, sendo da família do 2º presidente da República, marechal Floriano Peixoto. Era ele, aliás, irmão do propagandista da República e ministro do Interior do governo provisório, Aristides da Silveira Lobo (1838-1896).

Bacharel em Direito, foi nomeado para a direção da Diretoria-geral dos Correios em fevereiro de 1892. Foi juiz substituto em São Sebastião do Paraíso, nomeado em meados de 1902. Em 19 de março de 1904, Dr. Demosthenes foi nomeado juiz municipal da Vila de Guaranésia, cargo que ocupou até meados de 1911, quando permuta o cargo com o Dr. Theodolindo Pereira Lima, indo para Monte Santo. No plano social, foi ele um dos protagonistas na construção da Santa Casa de Misericórdia de Guaranésia, ao lado do cônego Samuel Fragoso, em cerca de 1909.  

Em Jaú, às 6h do dia 2 de julho de 1913, faleceu na residência de seu filho, Aristides Lobo Sobrinho, ex-prefeito de Monte Santo.

Segundo o jornal, O Paiz, edição de 3 de julho de 1913, “De uma família republicana, os seus serviços ao regimen foram os de um convicto jurista, os seus trabalhos que a Revista Jurídica tornou conhecidos, deram-lhe renome, e o governo de Floriano o havia nomeado para o Supremo Tribunal Federal, onde não entrou por ter o governo de Prudente de Moraes acreditado que a sua intransigência politica era, no momento, uma difficuldade insuperável”.

A indicação ao Supremo deu-se em outubro de 1894, ao lado do general Francisco Raymundo, Ewerton Quadros, Américo Braziliense de Almeida Mello, Fernando Luiz Osório e Américo Lobo Leite Pereira. Desta lista, ingressaram na Corte, após a sabatina do Senado Federal, Américo Braziliense e Américo Lobo. Seguiu carreira como juiz até o seu falecimento.

De seu casamento, deixou os seguintes filhos: Aristides Sobrinho, Francisca, Demosthenes Júnior, Thereza de Jesus, Maria Thereza, Manoel, Gabriella e Adelaide.

Abaixo, tem-se o termo de posse do Dr. Demosthenes como juiz municipal da vila de Guaranésia, Comarca de Monte Santo.



quinta-feira, 2 de abril de 2026

SANICO: DOMICIANO CUSTÓDIO DIAS FILHO

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Retrato de Sanico, restaurado com IA.

Filho de Domiciano Custódio Dias (1841-1872) e de Maria Custódia Ramalho (1846-1912), era neto paterno de Joaquim Custódio Dias (1800-1879) e de Luzia Delphina da Silva (1806-?), e neto materno de Custódio José de Souza Moreira (1789-?) e de Ana Alves de Araújo (1823-?).

Nasceu aos 20 de março de 1870, em Santo Antonio do Machado. Seu assento de batismo foi lavrado exatamente três meses depois, pelo padre José Antonio Martins, sendo padrinhos Hermógenes Ribeiro da Silva e Mariana Custódia da Silva.

Seu avô paterno foi proprietário da vasta fazenda da Lage, em São Sebastião da Boa Vista, hoje Mococa. Sanico, como era conhecido, casou-se em primeiras núpcias com Theolinda Costa Pereira, filha de Antonio Costa Pereira (1834-1904), proprietário da fazenda Pessegueiro, e de Francisca Rosa de Jesus (1840-1903). O casal teve dois filhos, Maria Costa Dias e Antonio Costa Dias. Ela faleceu em 20 de janeiro de 1903.

Sanico casou-se em segundas núpcias no dia 12 de maio de 1908, em Cajuru, com Maria Marques, nascida em São José do Rio do Peixe, em 27 de maio de 1885, filha de José Marques Limedi e Maria Ritta. O casamento foi celebrado pelo padre Nicolau Paraggio e foram testemunhas o major Aubertin Nogueira e Francisco Marques Limedi. O casal teve os filhos: Clóvis, Odette, Anadir, Alcina, Walter, Ofélia, João, José Marques Dias e Maria de Lourdes, que está com 107 anos de idade. 

Da grande fazenda da Lage, Sanico herdou e constituiu a fazenda Santa Theolinda, cujo nome era uma homenagem à sua primeira esposa. A imponente sede foi construída em 1912. Sanico foi um grande produtor rural da região, diversificando entre a cultura cafeeira e pecuária. Foi vereador da Câmara Municipal de São José do Rio Pardo entre 1926 e 1928, presidente do Partido Republicano local e vice-presidente da Câmara. 

Faleceu no Hospital Vera Cruz, em Campinas, no dia 23 de abril de 1956, aos 86 anos. Sua esposa, dona Maria, faleceu alguns anos mais tarde, em 2 de julho de 1991, em Mococa. Seus herdeiros venderam a fazenda Santa Theolinda ao Dr. José de Campos Salles Neto, fazendeiro, genealogista e escritor, que preserva a bela estrutura que é a sede da fazenda.

Na cidade de Mococa, o casal foi proprietário de um belo casarão, em estilo colonial espanhol, sito à esquina das Ruas Coronel Diogo e Alferes Pedrosa. Atualmente, o local pertence à família Naufel e funciona na localidade a imobiliária Paulo Belotti Imóveis e Gestão Patrimonial.  


Sede da fazenda Santa Theolinda, publicada no opúsculo "Fazendas Históricas de Mococa"

Casarão, estilo colonial espanhol, sito à esquina das ruas Cel. Diogo e Alf. Pedrosa. Fotografia de Paulo Mega, 7/1/2021.


domingo, 15 de março de 2026

TRÊS DOCUMENTOS INTERESSANTES PARA A ORIGEM DE SÃO JOSÉ DO RIO PARDO

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Introdução

Lafayette de Toledo, em seu Diccionario Topographico da Comarca de Casa Branca, transcreveu na íntegra um artigo do sr. Moreira Pinto, para o Jornal do Commercio, edição de 23 de janeiro de 1899, que traz curiosas menções sobre a origem de São José do Rio Pardo. Dentre as preciosas informações, constam os nomes dos doadores do patrimônio de São José, sendo: tenente Antonio Marçal Nogueira de Barros, que doou três alqueires de terras; Candido de Miranda Noronha, um alqueire; Candido de Farias Moraes, três alqueires; José Theodoro de Nogueira Noronha, quatro alqueires; e João José de Souza, um alqueire. Em 25 de fevereiro de 1873, ocorreu a posse judicial dos terrenos doados para constituir a fábrica da capela.

Registro paroquial de terras

Segundo o professor Rodolpho José Del Guerra, seria o local de origem de São José do Rio Pardo a fazenda do Pião do Rio Pardo, uma antiga sesmaria, concedida em 6 de junho de 1821, ao capitão Alexandre Luis de Mello. Em data incerta, o capitão e seu filho, o padre Carlos Luis de Mello, venderam a propriedade ao capitão Francisco de Assis Nogueira. Em 17 de janeiro de 1856, uma vez criados os registros paroquiais de terras, por força do Art. 13º da Lei de Terras de 1850, declarou o capitão Francisco de Assis Nogueira o seguinte:

“Francisco de Assis Nogueira possue huma Fazenda de Cultura denominada o Pião do Rio pardo desta Freguezia de Caconde, que houve por compra feita ao Capitão Alexandre Luis de Mello e seu filho o Padre Carlos Luis de Mello, cujas divisas principião por baixo no Rio pardo, devisando com terras da Fazenda de José Machado de Lima, Francisco Rodrigues de Carvalho, Venerando Ribeiro da Silva e confrontando com moradores das Mocócas, e dividindo Agoas vertentes ao Ribeirão das Canoas e depois dividindo com terras do Capitão Joaquim Custodio Dias, Donna Anna Custodia da Silva e seus herdeiros athé entrar no Ribeirão de Guaxuphé e por este abaixo athé a barra no Rio pardo, devisando com a mesma E pello Rio pardo abaixo athé ponthear a barra de hum correguinho que se acha abaixo a da barra do Corrego denominado Limoeiro e pello veio de Agoa do dito correguinho asima thé o alto, devizando com meu Genro Annanias Joaquim Machado, e pello Espigão mestre adiante devizando com terras da Fazenda Monte Alegre e Manoel Alves de Carvalho, athé embicar no Rio pardo onde teve principio esta confrontação; (ilegível) ter de cumprimento duas légoas e huma de largura. Freguezia de Caconde, 17 de janeiro de 1856. (a.) Francisco de Assis Nogueira. O Vigário, (a.) Prudenciano Antonio Nogueira”.

Esta vasta propriedade foi vendida e desmembrada. Confrontava com a fazenda da Lage, de Joaquim Custódio Dias, e com a Soledade e Bica de Pedra, propriedade de dona Anna Custódia da Silva e dos descendentes de Vigilato José de Souza, bem como de seu irmão, Domiciano José de Souza, cujo nome foi suprimido do registro. O rio Pardo acompanha grande parte das confrontações, diga-se de passagem.

Em 4 de abril de 1865, o coronel Antonio Marçal e os demais entusiastas da criação da capela, assinam um livro de atas, o qual foi localizado em 1965 na fazenda da Tubaca pelo dr. Eduardo Dias Roxo Nobre, transcrito e interpretado pela professora Amélia Frazolin Trevizan, em 1986, trabalho publicado sob o nome Capela de São José do Rio Pardo – Livro de atas das reuniões dos fundadores – 1865/1874.

Petição da freguesia

O desenvolvimento profícuo da capela de São José do Rio Pardo foi tamanho que não tardou para que seus moradores, novamente organizados, peticionassem à Assembleia Provincial de São Paulo, requerendo a elevação da capela à categoria de freguesia. No Arquivo da ALESP, localizamos a petição, abaixo transcrita:

Ilmos. e Exmo. Snrs. Presidente e Membros da Assembleia Provincial,

“Os abaixo assignados moradores da Capella de S. José do Rio Pardo, do Termo de Caconde e comarca do mesmo nome, tendo em attenção o estado florescente d’esta Capella, devido á uberidade de seu solo e a sua lavoura de café, tendo em attenção a sua população, que talvez se eleve a trez mil almas e a sua Igreja Matriz, decentemente decorada e ornamentada, vem pedir a V. Excias. para que se dignem de elevar a referida Capella à cathegoria de Freguezia – desmembrando-a civilmente da Freguezia de Espirito-Santo do Rio do Peixe, da qual ella é filial.

Não há necessidade de tornar saliente a vantagem que resultai aos povos desta Capella da medida pedida a V. Excias., ella por si se demonstra.

V. Excias. procedendo na conformidade do pedido dos abaixo assignados, farão um relevante serviço á esta Capella e um acto de verdadeira justiça”.

Seguem-se várias assinaturas, algumas ilegíveis. O documento não possui data, mas é apontado pelos funcionários da ALESP como sendo de 1876. O êxito veio quatro anos mais tarde quando, por força da Lei nº 80, de 14 de abril de 1880, que elevou a capela à categoria de freguesia, desanexada do município de Caconde para o de Casa Branca, com as seguintes divisas:

“Começando no Rio Verde, no ponto em que faz barra com o Rio Pardo, e por aquelle acima até a barra do Rio Doce, subindo por este ate suas cabeceiras, destas em rumo ao Ribeirão da Fartura, em frente á um espigão que existe acima da morada de José Antonio Ferreira, e abaixo do Ribeirão da Gramma: seguindo por este espigão, aguas vertentes, até enfrentar com a cachoeira-grande, no rio do Peixe, acima da murada de d. Antonia Gomes da Fonseca atravessando essa cachoeira, seguindo pelou aparados da Serra, até o espigão que desta sobe, e vae ter á Cachoeira Grande do Rio Pardo, abaixo da ponte de Custodio Dias, descendo até enfrentar com a barra do Guaxupé, subindo este até as divisas da fazenda de Miguel Nogueira de Noronha com a fazenda da Bica de Pedra, subindo por casas divisas ao alto da fazenda do Pião, cabeceira do corrego da Bocaina, seguindo a direita e abrangendo as vertentes da mesma Bocaina, do Rio Claro, do corrego de Santo Antonio e do Cafundó, fechando no Rio Pardo, no espigão abaixo de sua barra, e descendo o Rio Pardo á barra do Rio Verde, onde tiveram principio”.

A elevação à vila e post scriptum

No arquivo da ALESP, encontramos também a petição que solicita a elevação da freguesia de São José do Rio Pardo à categoria de vila, datada de dezembro de 1884. O estado do documento, contudo, não permite sua razoável transcrição, especialmente a primeira página. Seguirá, abaixo, à guisa de curiosidade. Não foram poucas as assinaturas, diga-se de passagem. Foi um trâmite bem mais rápido que o anterior, para a elevação da freguesia, pois, em 20 de março de 1885, era sancionada a Lei nº 49, que elevou à categoria de vila a freguesia de São José do Rio Pardo.  

O que veio depois é o que podemos observar nos tempos vindouros: a antecipação da proclamação da República, Euclides da Cunha e a ponte sob o rio, a sagração da Meca do Euclidianismo, uma historiografia forte, a Casa Euclidiana e o Conselho homônimo, desenvolvimento econômico e cultural. Eis São José do Rio Pardo.




quinta-feira, 12 de março de 2026

CORRIGENDAS SOBRE AS ANTIGAS FAZENDAS DE MOCOCA

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


A inteligência artificial cogitou nos deslumbrar com uma interpretação de como seria a antiga sede, hoje não mais existente, com base no desenho do Visconde de Taunay.

Segundo nossas pesquisas, um dos antigos moradores da região de Mococa seria José da Silva Santos, que recebeu carta de sesmaria em seu favor, contendo “uma légua de terras de testada e três de fundo, no termo da Villa de Mogy Mirim, no sertão encostado à beira do Rio Pardo, principiando a medição da légua de testada na barra que faz no dito rio Pardo o córrego do Barreiro, chamado de Jacutinga”, emitida em 16 de fevereiro de 1815, embora criasse gado na região há algum tempo. Depois, vieram a família do alferes João de Souza Nogueira, em 1820 na sesmaria da Zabelonia, e José Christóvão de Lima, na fazenda da Água Limpa.

Na década de 1830, é possível observar um povoamento mais dinâmico e constante, embora houvessem diversos sitiantes e posseiros espalhados pelo território. A história oficial de Mococa carece de certas corrigendas, que as pesquisas sérias e fulcradas em fontes primárias hão de desbravar. Humberto de Queiroz destaca os seguintes fazendeiros: Diogo Garcia da Cruz, na Alegria; José Christovam de Lima, na Água Limpa; Antônio José Gomes, no Ribeirão do Meio; José Gomes da Lima, na Bôa-Vista; Francisco José Barbosa, na Pedra Branca; José Caetano de Figueiredo, na Cachoeira; Joaquim Custodio Dias, na Lage; José Pereira dos Santos (Pae), em Sta. Thereza, todos já falecidos e Manoel Vicente da Rocha, que vive ainda, com perto de 100 anos, na Ressaca.

A região da Ressaca é a mesma da antiga Jacutinga. Tratava-se de um grande condomínio rural, por assim dizer, pois vários eram os proprietários de pequenas ou grandes porções de terras. No auto de confrontação e avaliação da fazenda da Ressaca, de 1851, consta a informação de que teria 3.195 alqueires de terras, e um bom número de condôminos. O mesmo aconteceria na fazenda São João, que ocuparia grandes porções das terras orientais de Mococa, e diversos eram os proprietários, do rio Pardo até chegar nas terras da Lage, aproximadamente.

Uma figura esquecida foi Cirino Pinto da Fonseca, o proprietário da fazenda da Jacutinga e do Remanço, ambas na região da Ressaca, entre a fazenda da Prata e o rio Pardo. Ele já possuía suas terras em 1837, sendo um dos primeiros povoadores. José Crescêncio de Souza, outro proprietário da região, faleceu em 1851 e possuía terras na Ressaca. Ao lado desta, havia a fazenda do Tamanduá, propriedade pro indiviso onde estavam estabelecidos Antonio Malaquias da Silva, Custódio José de Magalhães, Vicente Lourenço da Silva e tantos outros. A fazenda do Saltador, também na mesma região, era propriedade de Ignácio Fernandes Garcia, Miguel Joaquim Pereira, Domingos José Guedes, Manoel Antonio da Rocha e vários outros.

A fazenda da Boa Vista, do capitão José Gomes de Lima, objeto de certa controvérsia geográfica, situava-se não na região de Igaraí, mas sim nas terras da antiga fazenda da Alegria. Eram tão vastas que iam verticalmente do rio Pardo até o ribeirão das Areias, alcançando a divisa com Cajuru pela serra da Borda da Mata. Ele, em declaração de 1856, refere sua propriedade como Zabellona. Não possuía terras além destas. Existiam sítios e chácaras que levavam o nome “Boa Vista”, especialmente para os lados de Igaraí e Caconde, mas que não devem ser confundidas com as terras de José Gomes de Lima.

Bem ao norte, junto ao referido ribeirão das Areias, existia a fazenda das Areias, também um núcleo de povoamento – provavelmente, que daria origem à São Benedito das Areias. Em 1856, situavam-se nesta local Manoel Vicente de Oliveira, Francisco Gonçalves de Castro, Francisco de Moraes Preto e outros. Em local próximo, mas ainda por definir sua exata localização, existiu a fazenda do Rio das Pedras, onde vários proprietários possuíam terras condominiais.

No livro de registros paroquiais de terras da Vila de Casa Branca, lavrado em 1856 pelo pároco, frei Clemente de Gênova, consta que Venerando Ribeiro da Silva adquiriu a fazenda do Ribeirão da Prata em 1839, em compra feita à João Lourenço Cardozo. José Pereira dos Santos, por sua vez, em 24/01/1838, adquiriu as fazendas da Cachoeira do Ribeirão do Meio, então propriedade de Francisco Vicente da Costa, e da Barra do Jatobá, de Venerando Ribeiro, posteriormente unidas e denominadas fazenda Santa Thereza. Os vendedores, aliás, são nomes de antigos moradores da região.

Na fazenda das Canoas, na divisa com Minas Gerais, existiu a figura de Lourenço Cabelludo, apontado como um dos primeiros moradores da região. Seus herdeiros venderam suas terras ao padre João Rodrigues Martins, em meados de 1830. Há menção, aliás, que, em 1825, José Custódio Dias possuía a fazenda do Ribeirão das Canoas, mas provavelmente incorporava-se ao grande núcleo rural da Água Limpa e Lage, e não à Canoas, onde surgiria a estação e o povoado no final do século XIX. Estas duas fazendas, aliás, pertenciam à freguesia de Caconde, enquanto as demais à paróquia de Casa Branca. A fazenda das Canoas confrontava com as terras da fazenda da Pedra Branca, de propriedade da família Barbosa, também antigos proprietários da região.

Válido ressaltar, aliás, a influência das fazendas Soledade e Bica de Pedra, propriedades de Domiciano José de Souza e Vigilato José de Souza, irmãos e sócios até 1852, quando Vigilato falece e, no ano seguinte, é dividida por auto de confrontação e avaliação. Seria o núcleo que deu origem à fazenda Itaiquara e à cidade de Tapiratiba. Tanto o núcleo da Água Limpa e Lage, quanto o da Alegria foram desmembrados e deram origem à várias fazendas.

Não pode-se esquecer de figuras como Catharina Candida de Senna e Antonio José Gomes, proprietários da fazenda do Ribeirão do Meio, que foram os primeiros doadores de terras para o patrimônio de São Sebastião. Thereza Maria de Jesus, sua filha, ficou com parte das terras que confrontavam com tal patrimônio. José Gomes d’Avellino, outro filho, herdou boa parte das terras da fazenda, bem como parte nas fazendas Velha e São João.

O povoamento de Mococa não foi algo uníssimo, regrado e limitado a poucas pessoas. Incontáveis eram os proprietários de terras, fossem elas grandes latifúndios ou pequenas glebas. De forma suscinta, este trabalho visa esclarecer alguns equívocos e dar outra perspectiva sobre a vida rural no povoamento de Mococa. aos poucos, desbravamos o passado de nossa terra, para dar clareza ao ofuscamento da história.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA SESMARIA DA JACUTINGA

 

O princípio povoador de Mococa

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

 

Ao começar a analisar o processo de divisão das fazendas Saltador, Ressaca e Tamanduá, instaurado no Juízo Municipal de Casa Branca, em 1851, me deparei com a menção do córrego da Jacutinga, renomeado córrego da Ressaca, o que despertou a atenção para tal localidade. No Repertório de Sesmarias, organizado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, em 1994, foi possível localizar o seguinte registro:

“José da Silva Santos, da freguesia de Franca. Uma légua de terras de testada e três de fundo, no termo da Villa de Mogy Mirim, no sertão encostado à beira do Rio Pardo, principiando a medição da légua de testada na barra que faz no dito rio Pardo o córrego do Barreiro, chamado de Jacutinga, a rumo direito do Agulhão, acompanhando o rio Pardo acima até onde se completam”.

Este pequeno trecho abre margem para interpretação, uma vez que não possui data. Menciona a “freguesia de Franca”, criada em 1805, e a “Villa de Mogy Mirim”, ausentando, contudo, qualquer menção à freguesia de Casa Branca de 1814, o que nos faz precisar a data de emissão da carta de sesmaria entre os anos de 1805 e 1814.

Adriano Campanhole, célebre historiador de Caconde, organiza a listagem do “Tombamento Geral da Província”, de 1817, onde consta a informação de que Antonio Ferreira Siqueira seria morador na Jacutinga e no Rio Pardo, ambos adquiridos por posse, contando este com 750 braças de testada e 1.500 braças de fundos, e aquela 1.500 braças de testada e a mesma medida de fundos. Difícil presumir o que aconteceu com José da Silva Santos, este pré-histórico morador da região de Mococa.

O dr. Estevão Leão Bourroul, em um de seus três artigos veiculados no Monitor Paulista, em dezembro de 1895, preocupa-se em descrever, ainda que sintético, o povoamento da região do sertão do Capim Mimoso, que deu origem à Franca. Fica, portanto, indicado que dr. Bourroul desconfiava acerca da povoação de Mococa ter começado com gente de Franca. Se é fato concreto, não somos hábeis para afirmar.

É certo, contudo, que existia uma fazenda denominada Jacutinga, às margens do rio Pardo, região que viria a pertencer à Casa Branca em 1841. A documentação ora acossada demonstra isto, porém, há mais a ser analisado.

No volume XXIV da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, à página 70, encontramos a menção de que a freguesia de Caconde era vasta, de modo a alcançar cidades como Jacutinga, MG, contudo, trata-se de um equívoco. Demonstra, aliás, que a comissão que tratou de determinar os limites entre São Paulo e Minas Gerais localizou os documentos que remontam à sesmaria da Jacutinga, e não à cidade homônima. A região mencionada, portanto, é a que ora analisamos, carecendo, assim, de uma corrigenda.

Nos Registros Paroquiais de Terras da vila de Casa Branca, encontramos que, em 1856, Cirino Pinto da Fonseca seria proprietário de terras no bairro da Jacutinga, por compra feita à Felix Pedroso de Moraes, em 7 de setembro de 1839. Venerando Ribeiro da Silva também possuía partes da Jacutinga, que adquiriu em 1854, dos herdeiros de Francisco Quintino de Paula Barboza. Nessa ocasião, aliás, a expressão Ressaca, para designar toda a região, era amplamente utilizada.

Pode-se supor que a Ressaca ganhou sua nomenclatura por conta da sesmaria da Ressaca do Alambari, de propriedade de Lourenço Martins Leme, situada nas imediações da vindoura vila de Casa Branca, cujos limites iam se encontra no rio Pardo, conforme consta do Repertório de Sesmarias de 1994.

Foi possível rastrear a Jacutinga até o ano de 1899, ocasião em que foi publicado um edital, no dia 25 de novembro daquele ano, à mando do Dr. Manoel Antonio de Ornellas, meritíssimo juiz da Comarca, onde dispunha sobre o leilão de parte da Jacutinga, de modo a saldar o débito de Joaquim Ignacio de Mello com Felice Maria Calvitti. Na ocasião, dentre os confrontantes da área, menciona o edital Francisco Soares Camargo, proprietário da fazenda da Prata.

Acredito que a Jacutinga tenha sido subsumida às grandes fazendas da região, como a Prata, Ribeirão de São João ou Ponte do Ignacinho, e talvez até mesmo à fazenda Nova.

É certo, contudo, que a Jacutinga é anterior à tomada da Zabelonia, em meados de 1820 e à chegada de José Christóvão de Lima na Água Limpa, em 1822. Em 1851, quando da divisão judicial da Ressaca, é possível observar uma enorme quantidade de pequenos proprietários, muitos deles antigos moradores. Trata-se, portanto, da região povoada mais antiga de Mococa, segundo nossas pesquisas.

Aos poucos, vamos desbravando o passado de nossa Mococa.


Aspecto do mapa publicado no livro de Humberto de Queiroz, em 1900. É possível observar a barra do córrego da Ressaca e o rio Pardo, logo abaixo. Trata-se da região, ora analisada.



“LOURENÇO, CABELLUDO DE APELLIDO”, FIGURA DO PASSADO DE MOCOCA

 

O primeiro artigo a tratar, mesmo que brevemente, sobre a história de Mococa consta na edição de 10 de fevereiro de 1880, nº 1.489, do jornal A Província de S. Paulo, onde um médico que clinicou em Mococa, dr. Felippe Salvador Santo Pagano, pontuou considerações sobre Mococa. Tratou brevemente sobre sua história, sociologia, geografia e, com um enfoque maior, sobre a situação sanitária. Escreveu ele:

“É da tradicção: Que no tempo em que Mococa era ainda um sertão, vieram, da villa de S. João d'El-Rei (Minas-Geraes), alguns caçadores até estas paragens, no anno de 1825, mais ou menos, e sympathisando-se com a localidade fizeram algumas choças, perto do Ribeirão do meio; que as famílias Cabelluda, Figueiredo e Christovam, foram os primeiros habitantes do logar; que apoz ellas vieram reunindo-se outras pouco a pouco; que os primeiros habitantes chamavam-no Mococa (especie de gyria, que significava reunião de pequenas casas, oriunda, dizem, de uma palavra africana) em vista da sua perspectiva [...]”.

Curioso que o dr. Felippe aduziu que os pioneiros de Mococa seriam oriundos das famílias Figueiredo, Christovam e Cabelluda. As duas primeiras, por óbvio, são por demasiada conhecidas – cujos patriarcas eram o capitão Diogo Garcia da Cruz, proprietário da fazenda Alegria, e José Christóvão de Lima, da fazenda da Água Limpa. A família Cabelluda, contudo, desconhecia-se a origem.

No Registro Paroquial de Terras da Vila de Casa Branca, de 1856, o padre João Rodrigues Martins declarou que era senhor de uma sorte de terras na fazenda das Canoas, na divisa com Minas Gerais, terras estas adquiridas por escritura pública, lavrada em cerca de 1830, então pertencentes aos herdeiros de “Lourenço, Cabelludo de apellido”. Trata-se, segundo a declaração, de uma alcunha, mas que ganhou forças tamanhas que perdeu-se o sobrenome real de Lourenço. Confinavam as terras, ademais, como ribeirão das Canoas, com terras de José Christóvão de Lima e com propriedades do capitão José Gomes de Lima. A declaração foi recebida pelo frei Clemente de Gênova, que lavrou o respectivo assento no livro de Registros à 20 de abril de 1856.

Aos poucos, vamos desvendando os mistérios do passado de Mococa!

Pesquisa realizada por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti.



domingo, 18 de janeiro de 2026

Cronologia da Paróquia de São Sebastião, da cidade de Mococa – SP

 

Século XVIII até começo do século XX

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

1798, 10 de dezembro – o padre Francisco Bueno Azevedo, da freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Cabeceiras do Rio Pardo (Caconde), passa pela paragem do Ribeirão das Canoas, possivelmente no atual Município de Mococa.

1820 – O tenente Urias Emidio Nogueira de Barros toma posse da sesmaria da Zabellona (também referida como Zabelonia ou Isabelina), a mando de seu pai, o alferes João de Souza Nogueira.

1822 – José Christóvam de Lima se estabelece na fazenda da Água Limpa. Em época próxima, encontra-se José Custódio Dias, na fazenda das Canoas; Domiciano José de Souza e Vigilato José de Souza, nas fazendas da Soledade (hoje, Tapiratiba) e Bica de Pedra (hoje, Itaiquara), em sociedade;

1833, 27 de março – Dom Thomaz de Molina vende, por escritura pública, parte da sesmaria da Zabellona ao capitão Diogo Garcia da Cruz, patrimônio que passa a designar “fazenda Alegria”.

1833, 27 de agosto – O capitão José Gomes de Lima compra parte da Zabellona de Dom Thomaz de Molina. As terras seriam referidas como “Boa Vista” e, posteriormente, segundo se supõe, constituiria o patrimônio da chamada “Fazenda Velha”.

1837 – Chegada do padre Manoel Joaquim das Dores, como capelão da ermida da fazenda Alegria.

1839 – O casal, Antonio José Gomes e Catharina Candida de Senna, doam aos santos católicos, São Sebastião e São Francisco das Chagas 16 alqueires de terras.

1839 – Venerando Ribeiro da Silva compra a fazenda do Ribeirão da Prata.

1841 – Chegada do padre Manoel Machado da Assumpção à ermida da Alegria. A partir de 1846, começa a celebrar missas na capela de São Sebastião.

1843 – O capitão José Gomes de Lima, insatisfeito com o local da doação, realiza a permuta das terras com o casal.

1846, 4 de julho – O Bispado de São Paulo emite provisão para construção da capela em devoção à São Sebastião, em favor de Venerando Ribeiro da Silva.

1846, 25 de dezembro – O padre Manoel Machado da Assumpção celebra a missa de Natal e de inauguração da Capela de São Sebastião da Boa Vista.

1847, 4 de dezembro – peticionamento do fabriqueiro, Felicissimo Antonio Pereira, ao Juízo Municipal da Vila de Casa Branca, onde requer o reconhecimento e posse do patrimônio da capela de São Sebastião. No mesmo dia, foi proferida sentença de reconhecimento e lavrado o competente auto de posse da Capela.   

1848 – Chegada do padre Manoel Euzébio de Araújo.

1850, 20 de fevereiro – Conforme consta nos relatórios da Cúria Metropolitana do Arcebispado de São Paulo, seria a data de oficialização do patrimônio de São Sebastião, firmado por escritura pública.

1850 – O padre Manoel Euzébio de Araujo entroniza no altar da capela a imagem de seu orago, São Sebastião.

1852 – Chegada do padre Manoel Marques.

1853 – Chegada do padre João da Fonseca e Mello. Foi o responsável pela criação do primeiro cemitério da capela, em data indefinida.

1856, 12 de fevereiro – A Câmara da Vila de Casa Branca envia à Assembleia Provincial de São Paulo uma petição assinada por 126 moradores da Capela de São Sebastião da Boa Vista, onde requerem a elevação da povoação à categoria de Freguesia.

1856, 5 de abril – É sancionada a Lei nº 15, que cria a Freguesia de São Sebastião da Boa Vista, na Vila de Casa Branca.

1857 – Chegada do frei Angelo de Caramanico.

1858, 9 de agosto – Visita do Bispo, Dom Antonio Joaquim de Mello, à freguesia. É a primeira visita da Diocese.

1860 – O padre Lourenço Evangelista Della Mogllie chega até a freguesia. Segundo Queiroz, “Foi em seu tempo que se fez o corpo da igreja, sobressaindo nesse melhoramento valiosos auxílios prestados pelos Figueiredos, que foram, todavia, por sua vez auxiliados por outros mocoquenses, zelosos do brilho e decência do culto católico. Fez-se ainda em seu tempo, por subscrição, uma casa para residência dos vigários, onde é hoje o elegante chalé do sr. José Pedro de Figueiredo, casa que muito mais tarde foi dada a seu substituto” (atual Casa dos Cachorros).

1863 – Com o afastamento do padre Lourenço, a povoação fica um ano sem a assistência de um pároco.

1864 – Chegada do padre Joaquim Feliciano do Amorin Sigar, o padre velho. Em seu paroquiato foi construída a Capela-Mor, os altares laterais da Igreja e as obras de talha.

1881, 15 de março – O padre José Thomaz de Ancassuerd é nomeado parco, e o padre Joaquim se torna coadjutor.

1883, 16 de abril – Nomeação do padre Francisco Salimena.

1886, 7 de maio – Nomeação do padre Adelino Jorge Montenegro.

1887, 15 de julho – Nomeação do padre Ernesto Augusto Lages.

1890, 13 de setembro – Nomeação do padre Bento Monteiro do Amaral.

1890, 30 de dezembro – Provisão emitida pelo Bispado de São Paulo, em favor do padre Bento Monteiro do Amaral, para a construção de uma capela em devoção à Nossa Senhora Aparecida, no bairro da Estação.

1891, 20 de janeiro – Lavrado o termo de benção da pedra fundamental da capela de Nossa Senhora Aparecida.

1891, 31 de maio – Realização de reunião para organização da comissão da construção da Igreja Matriz Nova, constituída da seguinte forma: Cônego Bento Monteiro do Amaral, Barão de Monte Santo, José Joaquim de Figueiredo, Diogo Garcia de Figueiredo, Gabriel Fernandes Pinheiro, Luiz J. de Souza Penna, Carmo Taliberti e Francisco Demasi, sendo contratado o empreiteiro Felice Calvitti.

1891, 5 de setembro – Provisão emitida pelo Bispado de São Paulo, em favor do padre Bento Monteiro do Amaral, para a construção de uma capela em devoção à Santa Cruz, no bairro da Mocoquinha ou Ypiranga.

1891, 11 de outubro – Lavrado o termo de benção da pedra fundamental da capela da Santa Cruz.

1892, 13 de novembro – Lavrado o termo de benção da pedra fundamental das obras da Igreja Matriz Nova.

1896, 12 de maio – O bispo de São Paulo, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, às 17h30, realiza a benção da Igreja Matriz Nova, inaugurando-a oficialmente.

1900, 8 de setembro – Realizada a benção da capela de Nossa Senhora da Luz das Canoas (hoje, o distrito de Igaraí).

1901, 15 de junho- Conforme os arquivos da Cúria da Arquidiocese de São Paulo, o bairro das Canoas passa a pertencer à Mococa, desmembrado de Canoas.

1902, 18 de junho – É emitida pela Diocese de São Paulo, em favor de Firmino de Oliveira Lima, provisão para a capela da fazenda da Cascata.

1904, 18 de junho – Nomeação do padre Carlos Pereira Bicudo para a paróquia.

1907 – Nomeação do padre João Macário Monteiro para a paróquia. É um dos idealizadores da Santa Casa de Mococa.

1909, 2 de maio – Nomeação do monsenhor doutor Félix Brandi para a paróquia.

1921, 4 de maio – Benção e inauguração da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no local onde situava-se a Igreja Matriz Velha, demolida em 1912.

1921, 7 de maio – Benção e inauguração da Capela de Nossa Senhora Aparecida, no bairro da Estação.

JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

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