quinta-feira, 15 de junho de 2023

UNS CACAREJOS XENOFÓBICOS



Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

A cena do crime
 

Ora, que desventura preparou o acaso!  Que fado, que despropósito! Nos recantos de uma cidade, após transpostos os portões brancos de ferro daquela casa assoalhada deserta, passadas a garagem e a claraboia coberta de tela verde, após a cozinha de azulejos portugueses, a porta dupla de madeira branca e a escadaria, sob o olhar distante de todo o Centro da cidade, chega-se ao local do despautério: o galinheiro, cena de um crime que segue relatado. Advirto: o ato criminoso aqui não é entre os humanos, mas entre os sujeitos do galinheiro. Não é crime aos olhos positivados dos homens, mas há, aí, uma ideia. “Ah, mas aves não pensam!” – não sobre letras e números, mas compreendem o que o empirismo e a sobrevivência ensinam. Para elas, é o que basta.

Dizem por aí que, em casa que há um gato, outros chegam, mas não falaremos de gatos. Pergunto-me apenas se o princípio é o mesmo quanto aos galináceos, pois é o que aconteceu.

O vento soprou diferente. Cruzava a copa das árvores violentamente, conduzindo as folhas ao esmo de sua vontade; derrubava as frutas maduras de seus galhos altos, para a infelicidade do granjeiro, que as veria espatifadas no solo de terra escura e coberto de folhas secas de outras épocas; e empurrou, vinda do além-muro, uma galinha de outros campos. Como surgiu, uma incógnita! Veio do ar e pelo ar, ou de causas alheias ao conhecimento do granjeiro. Fato é que aquela galinha de penas pretas chegou ao quintal de chofre.

Entre o seu conhecimento empírico e o seu extinto de sobrevivência, deve ter vislumbrado a terra das oportunidades, afinal, um largo quintal, repleto de insetos, frutas e o que mais quisesse se deleitar. Tinha companhia, aliás: cerca de quinze outros galináceos. Felizmente, para ela, o granjeiro, que ia até a casa duas vezes ao dia, perceberia a sua chegada. Estava podando as árvores, depois de lançar às aves quirela e milho. Encerrada a fome, veio a sede, mas de sangue; as galinhas viram a intrusa, uma forasteira que invadira suas dependências. Um amontoado delas partiu para a ignorância, atacando a pobre galinha com seus bicos e golpes de espora.

O granjeiro ouvira a manifestação toda. Os piados, as folhas secas farfalhando e foi checar, desconfiado. Viu uma nuvem de penas e de poeira e correu, acreditando que fosse um gato ou algum lagarto. Estava enganado, afinal: era uma galinha, que ele não reconheceu como sendo sua. Era de fora. Sabe-se lá como, ele afugentou os galináceos e salvou aquela que fora vilipendiada. Levou-a para o quartinho do fogão de lenha, aonde guardava o milho e suas ferramentas.

Não foi fácil a recuperação, mas o coração do granjeiro apiedou-se pela ave moribunda. Fez um ninho, aplicou medicação e a alimentava naquele quarto escuro. As demais habitantes sondavam aquela que consideravam uma intrusa; vigiavam pela janelinha lateral, sempre fechada, apenas esperando o momento certo...

O que intriga é o fato de, mesmo não estando em meio direto das outras, aquela galinha tenha sido objeto de tamanha hostilidade. Não a viam, não a ouviam, pois, machucada, não cacarejava, mas as demais estavam cada vez mais alvoroçadas, em especial por ser inacessível o cômodo da convalescente.

Os dias passaram, e a estrangeira recuperava-se cada vez mais. Os sinais eram bons: sobreviveria, afinal! O granjeiro, satisfeito, resolveu tentar introduzir uma primeira vez, sob sua vigília, a galinha recuperada. Prostrado na soleira do cômodo, abriu lentamente a porta, e atirou milho no chão para chamar a atenção da galinha. Pois ela, mesmo evidenciando estar reticente, saiu. O pátio estava deserto, até então.

Poucos passos foram suficientes para que a ira fosse despertada e para chamar ao galinheiro Marte, deus da guerra. As outras galinhas surgiram repentinamente! Sagazes, voaram de todos os lados, cercando a pobre e indefesa intrusa. Os golpes foram severos, mas, por sorte, o granjeiro, esquivando-se daquela furiosa investida, resgatou novamente a estrangeira e levou-a para o cômodo, tornando a medicá-la.

O que fazer, afinal? Pensaria em um plano. Cuidaria novamente da enferma, afinal, animais também sentem dor, e não era de sua índole permitir que aquela galinha perecesse à mingua. Colocou-a no ninho improvisado e a alimentou, antes de trancar a porta e ir embora. A tarde chegava ao fim.

A noite se aproximava cada vez mais. O vento estava diferente. A lua observava, distante e discretamente o galinheiro, e não suspeitava o que presenciaria. Os cães ganiam, ao longe, e as luzes da cidade, qual as estrelas no céu, começavam a despertar. Os poleiros, contudo, estavam desertos. Os ninhos, vazios. O pátio, contudo, estava cheio. De frente para a porta do cômodo do fogão de lenha, era tramada uma escaramuça. Lá dentro, dormia serena a galinha machucada, e mal ela imaginava que, afinal, dormiria para sempre...

Quando a manhã raiou, o granjeiro tomou seu café, vestiu-se, leu o jornal e subiu para a casa aonde situava o galinheiro. O dia estava normal. Nada de novo sobre o mundo. Girou a chave no portão, cruzou a garagem e a cozinha, destrancou a porta dos fundos e desceu a escada. Concentrado em não pisar em falso, ele sequer percebeu as penas nos degraus.

Distraído, o homem foi ao cômodo, aonde prepararia o milho e a quirela. Girou a chave. Abriu a porta. Seu olhar adentrava o recinto devagar. No meio da sala, o susto: sangue e penas. Assustado, correu mais à frente o olhar e se deparou com a galinha, afinal. Estava morta, toda bicada, toda ensanguentada. A janela lateral estava aberta. Mas ele sequer a abria! Atordoado, saiu dali rumo ao pátio. Viu algumas galinhas se aproximarem. Em seus bicos, o líquido vermelho.  Afinal, as assassinas, que provavelmente abriram a janelinha para que pudessem ceifar aquela vida. Deviam ter alvoroçado tanto por ali, que afinal abriram a janela.

Triste pelo que aconteceu, o granjeiro recolheu a morta e limpou o chão. Pegou o milho e, deprimido, atirou sem muito entusiasmo pelo pátio. Foi-se embora em seguida, desapontado por não ter podido salvar aquele pobre animal.

*

Bem, a história parece uma fábula, porém, é bem real, e aconteceu com meu padrinho e tio-avô, Renato, na casa dos meus finados bisavós, Pedro Falarini e Maria da Conceição Coelho Falarini, aonde ele mantém um pomar e galinhas. Não pude deixar de pensar, quando ele me narrou essa história, no tema da xenofobia. Afinal, todas elas eram galinhas. Tinham penas, bico, cacarejavam e ciscavam, mas aquela pobre intrusa foi tratada com hostilidade. Por qual motivo, afinal, se são todas da mesma raça? São galinhas, mas as de dentro não permitiram que a estranha permanecesse. Bem, vejo o princípio aplicado à humanidade. Somos todos seres humanos, mas insistimos em tratar com certa repulsa outros humanos: negamos asilo aos refugiados, negamos salvamento às crianças estrangeiras, escravizamos, bombardeamos, tudo para quê? Terras, dinheiro, ideologia? Somos todos irmãos, partes integrantes de um mesmo planeta. E insistimos no erro, insistimos no ódio, na separação e na segregação. E cada vez mais, rumamos para a destruição. Segundo o escritor Isaac Azimov, em seu livro Escolha a Catástrofe, as formas iminentes e imediatas de destruição do planeta são fruto não dos fenômenos naturais, mas sim dos próprios humanos...

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A condição humana de Arendt

 

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Fonte: Google Imagens

A filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), define, dentro das condições humanas, três tipos de atividades. O labor, a primeira delas, se relaciona às atuações fisiológicas, naturais do organismo; o trabalho, a segunda, resulta dos processos de mano-fatura, de produção; e a ação, a terceira, tem seu campo na vida em sociedade, tendo espaço no campo político.

O labor assegura a vida; o trabalho, a praticidade da existência; e a ação, o ideal político. As relações humanas estão presentes nesta última. Ainda, as três se relacionam à concepção de Arendt de natalidade, fundada no pensamento de Santo Agostinho (354-430), outrora o bispo de Hipona: “o homem foi criado para que houvesse um novo começo”, e, como complemente a filósofa, “cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós”, conforme a frase final de Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.

Cada ser humano é um universo de possibilidades e de pensamentos, e espera-se que ajam conforme os ideais humanos em suas empreitadas, buscando, em especial, o melhor à coletividade. A esfera política destina-se à imortalidade, pois desejam os homens e as mulheres serem lembrados por conta de seus atos em sua existência. Porém, surge a indagação se o simples ingresso na vida pública confere essa futura lembrança, ou se os motivos para esse ingresso são altruísticos ou meramente egoístas.

Os incas, povo que habitou a Cordilheira dos Andes até a conquista espanhola, tinham o costume de apagar da história aqueles governantes que não eram dignos. A maior punição, para eles, talvez fosse o esquecimento, e esse talvez fosse o fator que garantia, em teoria, que os governantes fossem bons e justos.

Cícero (106 a.C.-43 a.C.), advogado, senador e filósofo romano, considerava o bom orador aquele que, ao discursar, fazia com que a plateia, quando do término de sua palestra, pensa nela mesma, refletindo sobre os dizeres e aplicando os proveitos a si próprio. Não obstante, o mau orador era aquele que, com seus discursos, fazia com que a plateia pensasse nele, orador.

Pois leve-se esse ideal de Cícero ao âmbito político, onde as pessoas, em atos coletivos, devem trabalhar para o bem-comum. Se um governante é bem e atua em prol do povo, ele fará com que os indivíduos não se preocupem por demasiado com as questões do Estado, que segue bem administrado; contudo, o mau governante faz com que o povo, além de tomar altas doses de ojeriza contra sua pessoa, se preocupe com os vários setores da administração, e não apenas com a sua vida particular (Faço uma breve consideração: com “preocupação”, me refiro à afligir, e não ignorar, pois cada cidadão deve acompanhar o curso do barco que conduz o Estado).

Por questões óbvias, não deve-se ser idealista e apenas considerar o dever-ser. O real é o observável, aquilo que é, e a presença dos maus oradores é evidente. Como solução, o povo deve tomar parte não apenas do processo eleitoral, mas também da fiscalização da atuação do Estado nos anos do mandato, empregando, inclusive, ideias novas e o seu pensamento crítico. Discordo da máxima vox populi, vox Dei. Esse pensamento de manada, massificado, pouco colabora para o meio político. As massas são receptoras de ideias e não produtoras. A alienação é o mal que barra a ação...

terça-feira, 23 de maio de 2023

O desgaste do lobisomem moderno

 



 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


As histórias misteriosas são várias, e rodeiam de pessoas à lugares e objetos, envolvendo todos estes sujeitos em vários mistérios que, durante anos, são corroborados por certos atributos. Criaturas sombrias, objetos amaldiçoados e locais assombrados existem aos montes na imaginação e na cultura popular. Uivos distantes remetem-se aos lobisomens, que, como um atributo de sua fisiologia mítica, têm a função de amedrontar.

O medo pode ser utilizado para fortalecer a manutenção do poder. Diz-se que líderes governam com fulcro no respeito e na admiração do seu povo, mas é equivocado confundir, contudo, a autoridade genuína com a coerção causada pelo medo. A autoridade desaparece sem nem ter surgido quando uma espada é o meio que se utiliza para ordenar; e, neste caso, o braço que a empunha apenas é objeto coadjuvante.

Atualmente, o gênero “terror”, enquanto literário e cinematográfico, parece ter perdido seu fôlego, e seu resultado – o medo – deixou o cenário para o ceticismo. O ser humano se reafirma no topo de toda a escala da realidade e da mitologia, se sobressaindo ante Matinta, Cérbero e demais entidade, além de disputar o cume da pirâmide com os seus iguais. Para tanto, lutas individuais carecem de reforços, mantendo, obviamente, a hierarquia, para a que apenas um se sente no trono. Não bastasse isso, o poder se reafirma com a temerosidade causada pelos mais fortes.

O medo como objeto para atingir a coerção é empregado continuamente no desentranhar da história. Não vivia o ser humano incentivado a se manter no reto caminho para que não afrontasse os deuses? Para tanto, devia consentir a sevícia dos detentores do arbítrio. O domínio da Igreja Católica nos capítulos da Idade Média na Europa e sua intervenção, fosse direta ou indireta, na política medieval eram corroborados pela temerosidade. Quem gostaria de passar a eternidade em um antro escuro de eterna danação, comandada pelos anjos que caíram do Paraíso por afrontar sua deidade? As camadas populares – e não apenas elas – da escala social feudal eram incentivadas a obedecerem às leis atemporais sob tal alegação de um destino no além-túmulo que não era agradável.

Há uma oração sufista atribuída à Rabiah al-Adawiyah que diz o seguinte: “[Deus] Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no teu inferno; se eu te adorar por desejo do Paraíso, exclua-me do teu Paraíso; mas se eu te busco pelo que tu és, não esconda de mim a tua face”.

A obediência fundada em temerosidade desvirtua a autoridade, que, segundo o historiador alemão Theodor Mommsen, “é mais que um conselho e menos que um comando”. A reação que resulta da coerção por meio do medo é um ódio silencioso, que pode ser exteriorizado cedo ou tarde. A sanguinolência com que certos regimes monárquicos findaram revela a afirmação anterior.

Para o filósofo grego Aristóteles, a forma de governo que é antagônica à monarquia é a tirania; a desvirtuação do governo “de um”, cuja característica inerente a si era o arbitrário gerenciamento da máquina estatal, sem haver limitações éticas ou legais ao poder do tirano. Seu poder era refletido na espada, mas sua afirmação advinha do medo.

O terror é a arma principal de sistemas políticos de viés autoritário e totalitário. As suas benesses eram, dentre outras, conseguir o silêncio da oposição e defender o estado, e sua titularidade era conferida às polícias secretas. As massas, responsáveis por alavancar os líderes totalitários, viviam uma dicotomia: apoiar o movimento que denunciava suas aflições políticas, sociais e econômicas, e conviver com a ideia de não poder interagir com os seus semelhantes. Afinal, seu vizinho poderia denunciá-lo ao Estado se você opinasse sobre um livro lido ou por outra trivialidade qualquer. O individualismo desaparecia, abrindo caminho para uma massa monolítica que não exercia os atos de pensar e de socializar e se deixava tornar receptora de ideias já pensadas por aquele grupúsculo detentor do poder.

Eis que surge uma questão: qual é o limite de uma sociedade coagida pelo medo para que se gere a ordem e se afirme o poder do governante? O adestramento de seres humanos com a temerosidade resulta, em certo ponto, em ataques contra a desejada ordem e, concomitantemente, na perda do poder.

Por fim, passo a escrever de forma informal para poder explicar o motivo de ter dado o título escolhido a este pequeno artigo. Lobisomens fazem parte do folclore global e, resumindo a trama, são homens que se transformam em lobos. Sua origem mitológica é variável de acordo com cada cultura. O significado deste mito é a prevalência de instintos animalescos que se sobrepõem à razão humana, pois o ser humano é um animal e, como tal, não escapa do inato fado da natureza sobre seus ombros. A razão é o filtro que nos diferencia dos demais animais.

As virtudes políticas e sociais, quando se emprega o instinto de sobrevivência por agentes corruptos e autoritários, perdem suas graças e são substituídas por mesquinhezes personalistas, fundadas na satisfação das necessidades efêmeras dos instintos primitivos que não são, por desdém ou ignorância, policiados.

O dinamismo imposto pelas mídias sociais torna as informações imediatas e constantes, desgastando a estrutura política e social daqueles que usam daqueles artifícios para a sobrevivência instintiva. A era da arbitrariedade parece ter se encerrado com as democracias, que visam, dentro de um ordenamento institucional sólido e igualitário, garantir os princípios que foram invocados na Revolução Francesa, visando a igualdade, a liberdade e a fraternidade, excluindo a arbitrariedade e a temerosidade.

Reflita sobre as ideias que lhe chegam e que desconhecem a priori, pois, às vezes, um lobisomem nada mais é que uma forma coercitiva para manter-te em casa e um corpo-seco, um artifício para te afastar de alguma localidade. O verdadeiro poder advém, ao contrário do que muitos dizem, do conhecimento, e não da espada.

 


quinta-feira, 11 de maio de 2023

O Cântico

 

Parte III

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Ó, Glória Celeste! Tão sábia e generosa és! Por qual motivo, ó Pai, questiono-te? Sempre soube, ou assim creio saber, que tu, pai dos pais, és o maior guia ante a escuridão. Sei a resposta, porém, para tal retórica; a arguição é parte inerente de teus filhos, não lhes retira tal prerrogativa, e a isto lhe sou deveras grato!

O vislumbre que tive me encheu o olhar de júbilo. A glória que existe nos Céus é tamanha que mente alguma, seja de convicto devoto, seja de astuto filósofo, é capaz de conceber. Ali, não há sequer rastro de trevas, apenas a mais pura e imaculada luz. A chama vive eterna e acolhedora nos salões eternos de bem-aventurança.

Me virei, então, ao meu guia:

- Ó nobre mestre, que pelos caminhos da incerteza me conduziu, há de me deixar agora? Aprecia-me tua companhia. Retornará ao teu lugar enfim, qual filho que retorna ao seu lar?

- Acalma teu coração, te peço. Vejo-te irrequieto há tempos – ele vociferou, sereno, qual professor zeloso que ensina teimoso aluno. – Saiba que hei de guia-lo ainda até o Céu de Júpiter, pois tua salvadora lá reside, onde os grandes governantes e políticos estão, nos corredores da justa-medida e do amor ao agir pelos outros. Agora, anda filho. Cá estamos, no primeiro Céu: a Lua.

As almas que abriram mão de seus votos encontram-se neste Céu. Foram insuficientes na coragem, porém, dotadas de virtudes. O meu sábio guia, me apontava nomes e eu reconhecia rostos de luz, que vira, outrora, nos livros. A gentil alma que me guiava dirigiu-me ao Céu seguinte, Mercúrio, onde estão as almas que, tendo fama ou o desejo de obtê-la, pecaram na justiça. Ouvi, ali, incontáveis nomes, perdidos agora nas lembranças da Vida.

O terceiro Céu, Vênus, recebia os que fizeram bom uso da virtude do amor, e, adiante, vi um casal familiar. Corri até eles, abracei-os com ternura, e eles retribuíram com afeto.

- Ó, irmã de minha avó, que deleite vê-la! Entristece-me saber que partiu, que teu velório foi pouco assistido, mas o Pai permitiu, afinal, que tão unido casal permanecesse unido aqui, nos passos celestes!

- Que emoção ter-te aqui, leve lembranças aos vivos, diga-lhes que em paz repousamos! – e seguiram para com outras almas próximas.

Com o olhar turvo pelas lágrimas, pedi um momento ao meu guia, e ele sorriu:

- Teu coração é justo, bom e sabe o que sente. Chora, filho, pois o choro é a mais pura verdade!

- Pois saiba, ó mestre, que apenas choro na presença de quem nutro a mais terna confiança. Seguimos? – E ele consentiu, levando-me ao próximo Céu.

No Sol, estão os teólogos, os estudiosos, e meu mestre revelou-me interessante conclusão:

- Saiba, meu filho, que eu resido aqui, no limiar do amor e da sabedoria, adiante, minha amada me aguarda, mas antes que, pondo a ansiedade e a dúvida a frente do bom-senso, me questione, informo-te que minha mão não sairá de teus ombros.

Vi inúmeros sábios, pessoas cuja admiração era-me tamanha. O bispo-teólogo que trouxe-nos vários ensinamentos após o seu período no escuro, os leitores da física da natureza, que interpretaram a Ordem e obtiveram o mais elevado grau. Quanta sabedoria e, ainda assim, tão pequena!

O Céu de Marte recebia os que lutaram pela igreja, e avistei uma figura, que, permitindo meu mestre, lhe falei:

- Ó, alma guerreira! Conheço-te, pois de uma das cidades que guardou os portões da ilustre Barca. Tu batalhou contra o pecado e, mais ainda, enfrestastes demônios frente a frente! O inimigo foi por ti sobrepujado, e aquela dama foi liberta por teu empenho divino!

- Aquela terra jaz em meu coração, és-me querida! E vejo que, tendo-te lá residência, ela está bem amparada de heróis!

As palavras gentis me acertaram o peito, mas este começou a disparar, como um tambor que, golpeado incessantemente por um soldado, prevê a guerra. Vi, no sexto Céu, ela: minha madrinha, aquela que enviara meu guia ao meu encontro.

Com os braços abertos, corri até ela, e entre o mais poderoso abraço que pude dar e as lágrimas que jorravam de meu olhar, vi sua face de luz; forte era o seu brilho, alegre o seu sorriso. Ela, enfim, me disse:

- Meu filho, meu amado filho, estava aqui, te esperando, almejando que tua viagem fosse bem ultimada. Vi tua luz no mundo minguar, e não pude, ante toda a inquietação que sabes que possuo, me abster. Providenciei que tivesse tal jornada, para que fugisse, qual o Poeta, dos malefícios do teu meio. Acalma-te, eleva-te o espírito. Estarei sempre intercedendo por ti, pelos teus, pelo meu amado. Agora, venha, quero que siga-me ao Criador. Há de contemplar a vista que poucos mortais viram. Ó, guia de meu filho, te agradeço, e agora dispenso-te de tamanha tarefa. A ti, serei grata, pois unira-me ao meu querido filho!

- Nobre senhora, se mil vezes pudesse, mil vezes o traria até aqui, pois ele é uma alma boa, virtuosa, tal como pouco há no mundo hoje. Meu filho, grato por ter acompanhado-te! E, agora, despeço-me, afinal.

- Meu guia, sábio e terno, te agradeço por tudo! Por tua obra, por teus conselhos, por tua companhia! Sei que teu nome há de ser lembrado por anos a fio! E jamais hei de esquecer tua feitoria!

Minha senhora levou-me adiante, e naquele Céu, vi uma alma que não pude deixar de interpelar:

- Tu, ó alma benemérita, que edificou a minha terra, saibas que teu nome ainda é reverenciado, que ainda é bem quisto e admirado! Nesse tempo de agora, conta com mais de dez mil almas, e, embora careça da justiça dos homens, ainda há de muito prosperar!

A alma, surpresa com minhas palavras, respondeu-me, ajoelhando:

- Jovem vivo, que abençoado seja esse dia! Receber notícia jubilosa é uma dádiva! Fiz o que pude por tal terra, e faria mais se a febre não tivesse acometido-me, mas sei que o plano Dele é maior, e que fiz o necessário.

Ao adentrar o outro Céu, Saturno, vi logo de imediato uma figura conhecida, e lhe dirigi poucas palavras:

- De minha avó, é tia, senhora, e saiba que tua filha está a caminho, pois no Purgatório ela se encontra. Ela há de chegar e breve, aquela que, em vida, fora apegada a matéria, mas a graça de Deus é perdoar, e ela se aproxima – e me beijou a testa, com tamanha ternura que meu peito se inflou.

Não pude deixar de reparar, é claro, que, ao lado desta senhora, havia outra, mais quieta, mas não menos familiar:

- Mãe de minha avó, regozijo-me em vê-la! Alma contemplativa, filósofa do mundo e leitora das almas, como me alegro! Sou o filho da filha de teu mais novo rebento, há de se lembrar!

- E como os anos lhe foram felizes! Que assim o seja sempre! – ajoelhei e beijei-lhe as mãos. Senti um mão acariciar meu cabelo, e virei-me.

Deparei com novo rio de lágrimas, pois aquele que me afagara era-me extremamente querido. Abracei-o e muito lhe contei; o pai de minha mãe, que, qual o Pescador, praticava a profissão com esmero. Adiante, mais conhecidos, todas almas de familiares queridos, que se reuniram para me ver: os pais de meus avós e seus irmãos; parentes que nutri afeto, embora o grau seja levemente distante; meu outro avô, sábio e brilhante.

Mas, antes que eu pudesse, minha senhora apertou-me as mãos e me dirigiu em frente. Ela me guiou ao guardião das chaves, o primeiro Pastor, nomeado pelo Filho:

- Irei perguntar-lhe, qual o fiz ao Poeta, o que é, para ti, a fé. Satisfaça-me a curiosidade, meu filho.

- Ó, Pescador, a fé me é bem quista, pois é o que garante-nos caminhar. Fé é a espera sábia naquilo que apenas o Senhor sabe. O grande Pai traça sábios e justos destinos, e orienta os seus filhos para que sigam-nos, porém, é atributo dos homens o livre-arbítrio, então, concluo que a fé é o esperar seguro naquilo que é mostrado pelo Criador, e ter um bom ouvido para escutar seus ensinamentos; bons olhos para ver o caminho correto; e boa fala para opinar dignamente.

- Estou satisfeito, de fato! Tal virtude está presente em si, mais do que pensa, acredita! E mais: o toque do místico arquiteto está em você, uma sutil chama que garante-lhe uma percepção diversa – e, com o polegar, desenhou o famoso símbolo de redenção em minha testa.

Nas Estrelas Fixas, os mais puros estavam, era o local aonde os beatos e santos residiam, e um deles se aproximou, e me disse:

- Vós sois uma alma da Lei, e dela sou patrono. Exerci a advocacia em vida, e crê em meus dizeres: é teu caminho. Não desvie a rota, que palmilhastes tão bem.

- Santa alma, grato fico por tuas palavras. Esta aqui, ao meu lado, certa vez me disse que o mais importante é que sejamos livres, e, de fato, concordo com tal assertiva. Liberdade é a condição do homem, e a Lei há de concretizá-la. A Justiça é a capacidade de saber garantir a cada ser ou objeto aquilo que lhe compete, de acordo com a natureza de sua existência e com os atos que pratica.

- Satisfeito estou em ver teu conhecimento. Agora, siga.

Caminhamos mais além, pelo Primum Mobile, e me deparei com magnânima visão adiante: a Rosa Mística e os coros angélicos, estes rodopiavam em torno de uma potente luz: anjos, arcanjos, príncipes, potencias, virtudes, dominações, tronos querubins e serafins.

A luz parecia-me dividida em três. O santo que me atendera antes estava ao meu lado, e rezou para que eu pudesse me aproximar. A Mãe de Todos, ouvindo a prece, sorriu e por mim, intercedeu. Pude avançar, sozinho, mas a magnificência da face do grande Pai me era tão pura, tão calorosa e terna, que meu olhar desviou. Não estava preparado para tal vislumbre.

Arrisquei novamente, e vi três orbes de luz: da Pomba, pude ver certos traços; um rosto pensei ter visto, mas a luminescência foi tamanha, que meus olhos novamente desviaram.

Olhei, soberano de mim mesmo, para trás e pensei que estava mesmo no Paraíso, e que, tendo tido uma caminhada ilustre e única, deveria modificar, afinal, meu cerne. Não posso descrever mais o que vi, pois a essência do que é eterno não pode ser compreendido pelos mortais. Amar é a única forma de compreender o que ali reside eternamente: é a única exceção ao meu entendimento de que amar é conhecer. Se foi sonho ou fantasia, não cabe a mim dizer. Apenas saiba que minha ignorância é tamanha, e a tua, singelo leitor, há de sê-la tal e qual...

terça-feira, 2 de maio de 2023

O Cântico

 

Parte II

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


De súbito despertei, ouvindo murmúrios, e percebi logo que estava em uma praia repleta de pessoas. Vi meu guia sorrindo para mim e, ao fundo, um grande monte que se elevava aos infinitos céus, sobre as nuvens, ao lado das estrelas.

Embora mais claro fosse que aquele desfiladeiro de súplicas, a pequena chama da vela possuía sua serventia. Disse eu, me empertigando, ao meu mestre:

− Ó meu ilustre mestre, como saímos daquele antro, daquele poço de pesadelos?

− Tens tantas perguntas, e satisfeito fico em saná-las se puder fazê-lo. Após sua queda, intimidado pelos olhos bestiais do senhor do reino da dor, carreguei-o para dentro das entranhas do mundo, mais fundo até que saímos nesta praia, do outro lado de onde tu entraste.

Ao ouvir tais palavras, me senti fraco por ter travado severa batalha e, subjugado, ter caído, havendo sido carregado, qual fardo pesado de lenha, pelo meu mestre. Ele, perspicaz, percebeu meu desânimo e se prontificou a me creditar:

− Vejo em teu olhar a vergonha, a qual não deverias ter. O ser movido pelo ódio intimida quem quer que seus olhos encare. Lutaste uma batalha, de fato, mas não te constranja a derrota, pois derrota maior fora a dele. Almeja o ser causar dor e vergonha, mas esquecem as almas que o falhanço maior fora o dele, que, movido pela soberba, rebelou-se contra o grande juiz e perdeu, aprisionado nas vísceras da terra. Não te perturbes, pois a luz divina te acompanha. Carreguei um soldado até esta praia, um nobre cavaleiro que trás em si grande honra e valor. Se mil vezes precisasses, as mil o carregaria, pois carga leve é alguém que tem a mente e o coração voltados aos céus.

Senti-me revigorado com tais palavras. Meu guia e mestre falara como se chuva fosse às plantações, brotando esperança e energia.

Disse ele:

− Cruzamos aquele local de justiça, pois é justamente o que ele o é. Os que saíram do reto caminho pagam por seus erros, tendo consciência ou não de seu vilipêndio à norma. Mas agora rumemos ao monte do Purgatório.

Pela praia, andamos por entre as incontáveis almas apreensivas. Tornei-me novamente ao meu guia e perguntei:

− Ó mestre, que fazem estes pobres infelizes?

Ao que ele me respondeu:

− Pergunta a qualquer deles.

Coloquei, gentil, minha mão sobre o ombro de um dos vultos a minha frente e disse:

− Pobre sombra, que outrora caminhaste pela terra, o que aguarda? Que destino todos aqui almejam?

− Ó tu que ainda respiras, aguardamos a permissão vinda das estrelas para que possamos nos purificar de nossos erros. Longínqua é a espera, provação maior, acredito, que a que tem por de trás daqueles portões guardados por guerreiro angelical – e perguntei-lhe seu nome. – Sou o que, em um acesso de ira e orgulho, fez romper a grande barca que a todos recebe. Arrependi-me tardiamente, motivo pelo qual espero eternamente.

− E creio que tu – disse meu mestre ao condenado –, embora blasfêmia contra os textos tenha cometido, em uma esperança progressista, almejavas o bem da barca. Por isso acolhido fostes. Penses nisto: esta praia nada tem de sofrimento em comparação ao que poderias estar passando nos caminhos que eu e este – apontou para mim – cruzamos.

Despedimo-nos da alma, que parecia satisfeita com as palavras sábias de meu guia, e fomos ao encontro do porteiro do monte, munido de espada e sentado, importante, sobre três degraus. O guardião, tal qual ao Poeta, me marcou a testa com a espada, traçando sete letras P. Permitiu-nos, então, a entrada e iniciamos a nossa escalada.

Tal qual o titã que confrontou os deuses e o peso do mundo carregava, os arrogantes em vida subiam com pesos nas costas pela trilha do monte. Vi a alma de uma senhora que, devido à sua proximidade, prefiro que nossa conversa seja mantida apenas nos labirintos de minha mente. Ao terraço seguinte, avistamos a amargura que viviam os invejosos e, em seguida, a redenção enevoada dos iracundos. Atente leitor que, tal como aconteceu ao Poeta, uma das marcas em minha testa me era retirada ao findar a subida de um terraço.

Eis que alcançamos a casa dos preguiçosos, aqueles que perderam grandes empreitadas e bem sabiam disso. Energizados, locomoviam-se eternamente. Vi ali desertores de guerras, tendo-os identificado pelo escárnio de uma alma, que gozava de sua omissão.

Subimos mais, ao local dos avarentos. Tão logo vi os corpos no chão, um deles me chamou:

− Venha, rapaz, pois teu rosto reconheço, mesmo que anos mais amadurecido. Sei que és meu parente; reconheço meus familiares. Estou aqui aguardando o Santo Pai autorizar minha subida aos felizes e bem-aventurados campos.

− Ó minha parente, sei bem como vivias. Do ouro não te libertavas, embora em excesso o tivesse. Mas muito me satisfaz saber que, tão breve, poderá contemplar as mansões celestiais.

− Hoje, ao olhar pelos recantos de minhas lembranças, me enrubesço tamanha minha desonra. Agora, contudo, estou indo me limpando após cair em um lamaçal. Ei de ver, tão logo permitam os Céus, minha mãe amada, e aquela que me disse a idade com que passaria para esta vida. Se as vir, rogo-lhe, parente, que lhes diga que estou chegando. Também dê lembranças minhas aos que estão vivos. Peça perdão por mim!

Fiquei consideravelmente contente com a mudança ao vê-la, pois, mesmo conhecendo sua vida apenas após sua morte, admirava sua pessoa, sua erudição, e me empenharia, disse a mim mesmo, a entregar os recados.

Subimos aos próximos terraços e eis que dos gulosos senti pena. Rumo ao topo, no recanto destinado aos luxuriosos, pagando pelo fogo, vi almas de pessoas que conheci e outras de que ouvi dizeres malfadados e surpresa em mim não existia, pois sabia que, se ali não estivessem, nos antros infernais haveriam de estar. De fato, os que quebram tamanho juramento, ante a família, ante a fé e ao Pai, são vários, e tais atos sequer são sabidos.

Enquanto caminhávamos rumo ao topo do monte, vi, esquivando-se do fogo, alguém que me surpreendeu:

− Ó mestre, vejo uma alma a quem gostaria de dizer poucas palavras, se assim me permitir – e ele sorriu, atendendo o meu desejo.

Minha energia crescera e corri em direção ao espírito. Ao me aproximar, abracei-o.

− Que acontece?! – gritou a alma – Que fazes?! Sequer te conheço, vivo que entre mortos caminha!

− É certo que não me conheces, mas de tua família eu sou. Dos ramos do galho, sou o terceiro, da mais nova rama que brotou. Sei quem és, pois teu rosto vi, apenas uma vez. Sou um dos que teu nome carrega, vindo este das terras ao norte do país de onde imigrastes teu pai.

Estupefato, a alma parou por um instante e sorriu:

− Glória ao Pai! Vejo que minha penit ência se tornou alegre por um curto momento! Que toquem as clarinetas! Fico contente por te conhecer, embora gostaria que isso tivesse acontecido em vida! Mas diga-me: de minha prole, quem ainda reside no mundo?

− Das mulheres, duas se foram. Aquela cujo nome é o mesmo que da avó do Filho, e a tua mais velha. E são três as que ainda caminham, vivazes.

Ele pareceu satisfeito, porém, entristecido:

− Não sei se comemoro que a maioria esteja aqui, ou se me alegro de que contigo elas estejam. E diga-me ainda, meu rapaz, se minha amada no campo do silêncio repousou?

− Afirmo-te que sim. Está aqui, e logo termine tua purificação, a verás! Pois creio que nos recantos do Céu ela esteja, uma vez que sua face não vi no fosso de tormento por onde caminhei.

− Quero que assim se concretize! Estarei logo com minha família! E aos vivos, minhas calorosas lembranças, pois amo-os todos.

E me despedi, pronto para chegar ao cume do morro com meu guia. Quando, enfim, atingimos o local, meu mestre assoprou a vela, e, curioso, perguntei:

− Carregaste essa chama tão cuidadosamente, mestre. E agora a apaga; qual o motivo?

− És perspicaz, nobre rapaz. Essa chama iluminou nosso caminho; mesmo pequena, teve grande valia, e um pouco do fogo celestial conosco estava iluminando as trilhas e seus olhos. A visão que agora tem não mais carece desta vela.

Ainda preocupado, perguntei:

− Sei mestre que seu lar se encontra sobre nossas cabeças, mas a dúvida, mesmo assim, me atormenta; me abandonará, tal qual poeta fez ao outro neste ponto?

− Minha missão é entregar-te àquela senhora, e, assim, poderei voltar ao meu conforto nas mansões do Paraíso. Vamos! Subiremos aos céus! Abraçaremos o manto celeste!

− E às estrelas, rumaremos!

E assim, com júbilo, saciei minha sede no rio que ali havia antes de embarcar na última parte de minha jornada, alcançando, enfim, o reino dos céus e aquela que nesta empreitada colocou-me. E como lhe agradeço por isso!

 

Fim da parte II 

terça-feira, 25 de abril de 2023

O Cântico

 

Parte I

                                                                                                                     Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Ó torpe destino, que me levou aos trágicos fins das almas, tão justo de fato o és? Pune e condecora; és um juiz que profere sorridente ou amargo uma sentença.

O fogo sem luz dos umbrais medonhos me foram mostrados, por motivos que os Céus não me permitiram conhecer, causam-me arrepios que nem mesmo a pior das calamidades me causaria.

Senti indo embora qualquer luz divina que possuía – se é que de tamanha graça minha alma se fez digna. O ar tóxico me fora apresentado quando despertei após minha inconsciência ante os umbrais malditos. Fiz-me obrigado a transpassar, sob a temida inscrição, os portões escuros. Sem alguém para guiar-me, qual a graça que recebeu o Poeta, locomovi-me sem rumo. Não andei muito pelas sombras e ais quando, por fim, resolvi parar e no chão esperar meu fado desconhecido.

No escuro, ouvi passos e senti alguma alma presente, rumando tão somente aos meus temores. Os ruídos pararam e uma voz me chamou:

- Saias, meu filho. Nada de mal infligir-lhe-irei, pois sou um dos que da alma lírica desfruta, tal como tu. Escrevi sobre terras que homens jamais desbravaram; sobre a ganância do ser discorri. Meu nome é o mesmo do santo Evangelista e meu sobrenome de terras anglas a mim veio.

Saí da rocha onde me escondia e vi o doce rosto idoso com um pequeno castiçal e vela acesa em mãos. Disse-lhe arrebatado:

- Conheço teu rosto e a ti idolatro; és meu mestre, patrono da fantasia. Tua literatura é minha inspiração – E, perturbado, lhe perguntei. – Mas nobre homem, que causa injusta lhe encontrar aqui, nesse poço de desespero e prantos!

- Acalma-te o peito, meu filho, e saiba de antemão que aqui nada há de injusto – disse-me, estendendo a mão. – O motivo de me dirigir a essas covas é um pedido de uma nobre senhora que, em vida, muito lhe amou e, agora, na morte, intercede por ti e por tua família. Sabendo que meu discípulo és, pediu a mim que te levasse a ela. Sabido era que nos campos do destino tu se perdera; sentia tua chama murchar. E essa digníssima senhora em teu socorro veio mais uma vez, enviando a mim dos alvos prados a teu socorro.

- Pois a essa senhora muito sou grato, e sinto que minha madrinha sempre guarda e guardará por mim em seu coração. Mas, mestre, é certo o que me disse? Levar-me-á a ela? E o sol e o vento sentirei novamente? Temo preso aqui ficar antes que a areia de minha ampulheta se esgote.

- Virtuoso rapaz, fique em paz. Irei te levar, como disse, à tua salvadora, que a ti deseja ver mais que tudo, ao lado da Virgem Mãe, que pela humanidade roga. Lá, a rainha das rainhas ajudar-te-á.

Qual faminto que é alimentado, senti-me renovado naquele momento. Aprumei-me e segui meu mestre pelo escuro iluminado por aquela chama diminuta.

Descemos uma trilha silenciosa em uma escuridão sepulcral. Meu guia se fez silencioso e assim preferi ficar. Quando, em certo ponto da estrada, ele parou, virou-se par mim e disse:

- Estamos para adentrar o Inferno. Não te espantes, pois a luz divina toca-te e mal algum o ferirá aqui. Vamos descer ao centro da terra, transpor o local onde purgam os arrependidos para que, enfim, possa eu te entregar à doce senhora.

Assenti com a cabeça em tempo de subir na embarcação que nos atravessou por temível correnteza.

Ao leitor que acompanha este relato, sinto que minha descida não carece de ser narrada em sua totalidade, uma vez que ocorreu sem grandes tribulações, mas hei de contar sobre os quatro encontros que lá tive, nos quais minha atenção foi maior requerida.

Àqueles cujas almas não foram inseridas nesta fé dedico esta primeira passagem, pois muitos dos que encontrei são autores que admiro. Passei horas, ou assim me pareceu – o tempo naquele lugar me confundiu –, conversando com o mestre da filosofia condenado a beber o drinque letal de cicuta. Também com seu discípulo, que desbravou a origem das ideias em sua teoria. O aprendiz deste pude saudar e gentil foi ao receber meu elogio sobre sua Ética. Os dois chineses, que dedicaram à tinta para transmitir os seus ensinamentos sobre o Tao, estavam lá, simpáticos. Àquela inventora de Alexandria, morta por uma turba irracional, pude abraçar. O sábio de Tiana, dos tempos do rei dos reis, estava lá, quieto. O grande filósofo se voltou a mim e me apresentou sua mãe, aquela que em vida fora parteira.

Aquela reunião ficará em minha mente para sempre, ou até quando me for permitido, e difícil foi ter que dela me despedir.

O mestre me levou para baixo. Não andamos muito quando o segundo fato marcante de minha jornada aconteceu. Às almas arrastadas por forte ventania chegamos, e eu, mesmo assustado com o que via, conversava com meu mestre. Quando perguntou meu guia o meu nome, uma das almas me chamou. Estava assustado com aquele círculo de sofrimento, mas atendi ao chamado da condenada, que veio até mim:

- Ouvi teu nome, e certamente sei que de minha casa tu és. Meu marido ao rei prestou um serviço e sua majestade do Tibre com um título de conde o condecorou. Tornei-me condessa, mas eu, em minhas necessidades, me envolvia com outros homens; por isso aqui estou. Em vida, não tive arrependimento, e agora também não hei de tê-lo. És um belo rapaz, e muito me satisfaz saber que o nome de minha casa exibe descendentes de beleza angélica – e voltou para o seu sofrimento.

Virei-me ao mestre e disse:

- Da beleza e do fogo esta é serva.

E disse-me o mestre:

- Entendes, então, o motivo de estar aqui aquela senhora.

Rumamos para baixo, passando pelos locais de dor e de justiça. Reconheci diversas almas, que pagavam seus pecados com as penas impostas.

Pelo lodaçal, chegamos à cidadela daquele local e, ao ingressarmos, pude ver nas covas que chamas ardentes expeliam um homem que reconheci, embora a transfiguração por causa de sua pena ofuscasse meus olhos:

− Se permite uma arguição, ó pastor dos rebanhos divinos, conheço-te embora eu tenha abraçado a vida em tempos em que, suponho, vossa graça estivesse chafurdando neste poço de sofrimento. Foste o guardião das chaves do imponente santuário de minha terra.

E, atento aos meus dizeres, o espírito me disse:

− A pequena fortaleza na qual preguei muito me era cara, e alegro-me em ter-te aqui, filho, mesmo que de eras após meu egresso.

E eu a ele:

− Ouvi as histórias e posso deduzir, sem presunção, mas condoendo-me por eminente figura estar aqui e não ao lado do Pai, que nesta vala se encontra pelos maus usos da estola. Semente tua lançastes ao mundo.

− Envergonho-me de que o saibas. Mas, se dias passardes aqui, verás que estes buracos incandescentes de homens da minha vocação estão repletos.

− Disto não duvido – e a alma fora puxada para baixo por outra.

Disse meu guia:

− O homem é falho; teorias pouco são frutíferas por haver de ser o homem quem as executa, movido por sua ambição egoísta – e seguimos caminho.

No momento em que estávamos no local dos que utilizavam da violência, desferida contra o próximo, reconheci um condenado que emergira do temível rio de sangue fervente. Aproximei-me da borda e gritei:

- Ó tu que terras teve em minha cidade, assassinado fostes e teu sangue escuro e malévolo marca o local de tua passagem. Conheço as histórias e sei que mereceu esse sofrimento.

Ele me encarou e aos guardas solicitei que permitissem que se aproximasse. O líder, preceptor do ilustre herói grego, permitiu, quando meu mestre lhe mostrou a vela que carregava. A alma disse-me:

- Ávidas são tuas palavras, e vergonhosos meus pensamentos. Fico encabulado de ter nesse antro infernal uma figura de minha terra, que regozija-se com meu sofrimento. Fui cruel por assim exigir minha ocupação. Não fales que aqui me vistes, pois vejo que vivo está e ao mundo há de retornar – e submergiu no rubro rio.

A meu mestre, eu disse:

- Cruel e violento foste este aqui em excesso, pois deleitava-se com a dor do próximo – e seguimos caminho.

Conforme andávamos pela margem do rio, os guardas, respondendo às minhas perguntas quando arguidos, informaram que outros de minha cidade e de seus arredores ali estavam: aquele que almejava o título de barão, mas o gentil Imperador lhe negou; aquele que, em frenesi, puxou a trança da jovem moça para ceifar-lhe a vida; o que atirou no próprio pai a mando do irmão, estando, este último, na floresta, mais adiante naquele círculo, como lenha pútrida; o assassino que as orelhas de suas vítimas punha em seu cinto. Ouvi os nomes e relembrava as histórias, contando-as ao meu mestre que, atento, me escutava.

No centro daquele rio fervente, havia o que incitou e comandou o genocídio, o que começou a guerra e matou milhões. Sua cabeça, fora do rio, era alvo constante das flechas dos enfurecidos guardas, que batiam seus cascos furiosos no chão antes de flechá-lo.

Por fim, descendo mais e mais, alcançamos o local mais frio que algum dia já pisei. No lago gélido, vi as almas congeladas e, ao centro, o que incitou uma revolta contra o Senhor e caiu dos Céus. Qual Excalibur, estava cravado na terra. Terrível era sua aparência e mastigava em suas três bocas os três que o Poeta descreveu outrora.

- Mestre – chamei-o –, vamos ao monte?– e ele confirmou.

Senti-me, porém, ao encarar a criatura, sem forças e vi necessidade de sentar, desfalecendo naquele antro congelante.


(Fim da parte I) 

  

                                                                       

JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

  Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Instituto Bruno Giorgi   Imagem gerada com ...