terça-feira, 25 de junho de 2024

O embate geracional mocoquense

 Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

(Publicado no jornal Cidade News)


      O desenvolvimento industrial em Mococa teve início ao final dos anos 1880. Passou a crescer e desenvolver ao longo do começo do século XX e consolidou-se, de fato, nos anos de 1940 e 1950. Em época similar, o governo federal iniciava uma abordagem econômica denominada “Política Desenvolvimentista”, que visava acelerar o processo de industrialização do Brasil. Nos anos de 1970 e 1980, foi imperativa a mudança. O desenvolvimento industrial significa mais geração de empregos, mais impostos ao Fisco, uma suposta melhoria na qualidade de vida dos indivíduos. Com instalação de empresas, espera-se um “boom” imobiliário, aumento do custo de vida e a perda de características que então eram a norma – tudo há prós e contras.

Ocorre que o desenvolvimento industrial e comercial de um lugar implica no crescimento do próprio lugar, pois é visto como centro de oportunidades. Mais pessoas chegam, com o sonho da melhora da qualidade de vida. Os moradores sentem um certo abalo nas estruturas sociais e econômicas, pois o Mercado sabe como aumentar os preços quando há demanda para tanto. Porém, partindo um pouco para as questões espirituais, metafísicas, das cidades, o espírito social é modificado com o progresso. Tal situação ocorre primeiro no plano físico, com novos loteamentos, que fazem a cidade expandir; edifícios mais modernos, com design até então não visto no lugar; presença das grandes redes; etc. Somente depois de algum tempo é percebida no plano metafísico.

Mococa é um verdadeiro exemplo do que acima foi mencionado. Situa-se, atualmente, em um embate entre duas gerações. Uma geração mais antiga viu o município incipiente, pouco industrializado, com urbanização concentrada na região central, havendo surtos locais de zoneamento urbano, com característica muito similares aos bairros rurais paulistas, que Antônio Candido descreve tão bem. Conviviam sob o ar típico de uma pequena cidade interiorana e, hoje em dia, veem-na com muito saudosismo. Qualquer rua, casa ou praça desperta um sentimento nostálgico e de saudades do passado. Em contrapartida, convive tal geração com uma outra mais jovem, que já conheceu a cidade sob o desenvolvimento fabril, em constante expansão urbana, já evidente a perda das características do interior, já situada com os computadores, internet e celulares: é tecnológica. O surgimento desta última é algo bem recente na história de Mococa.

Ocorre que o crescimento do lugar implica no aumento de diversos fatores negativos, dentre eles, o aumento da criminalidade. O policiamento de um grande centro demanda um contingente de policiais muito maior do que de um centro urbano menor. Cada vez mais, a vida vai se tornando voraz como o próprio Mercado o é, e os indivíduos vão se tornando resignados, fechados, pois ocorre o que o sociólogo alemão, Georg Simmel, denominava o “direito à desconfiança”.  As pessoas, desconfiadas dos demais, enclausuram a vida em uma espécie de bolha, com locais específicos para tratar de assuntos particulares; com profissionais que já possuem conceito; barram a ida a locais que são popularmente inadequados para andar em certos horários da noite. Com os vizinhos, há um tratamento objetivo. Os muros das residências crescem cada vez mais, ao passo que seus moradores fecham-se nas casas com medo do que há lá fora.

A primeira geração mencionada sente muito com tudo isso, pois sentem falta das conversas, encontros, visitas, ao passo que a geração mais nova já interpreta isso como realidade e, com o tempo, tais práticas vão imperando em detrimento das antigas. Como escreveu o sociólogo francês, Roger Bastide, “se os processos psíquicos de uma geração não se transmitissem à geração seguinte, não prosseguissem nesta outra, cada um de nós seria obrigado a recomeçar a aprendizagem da vida, o que excluiria toda a possibilidade de progresso e desenvolvimento” (Sociologia e psicanálise. São Paulo: Melhoramentos, EDUSP, 1974, p.49). O que acontecia em São Paulo e no Rio de Janeiro por exemplo, não está mais tão distante, no presente.

É a marcha evolutiva da sociedade, que altera sua personalidade e, consequentemente, dos indivíduos que pertencem àquele meio.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Apontamentos para a história judiciária de Mococa e da criação da 88ª Subseção da OAB/SP

 

por Leonardo Borgheti M. F. Belotti

A Comarca

Ao longo do período que compreende o Brasil-Colônia, era uma preocupação da Coroa Portuguesa a administração da Justiça nas capitanias, especialmente nos locais em que veios auríferos foram descobertos ao longo do século XVIII. Os códigos legais, denominadas Ordenações (Afonsinas, de 1446; Manuelinas, de c.1512; e Filipinas, de 1603), regiam todas as atividades administrativas e judiciárias, sendo o monarca português a maior instância de ambas. A bem da verdade, Portugal somente foi adotar um sistema escrito de legislação, em detrimento do direito consuetudinário medieval, somente no reinado de dom João I, entre 1385-1433, conforme nos conta Raymundo Faoro.

Com a tarefa de levar a Justiça à Colônia em mente, de modo a efetivar a fiscalização rigorosa e dirimir eventuais conflitos, comarcas foram criadas. Embora antes do Século XVIII já houvessem comarcas, a de São Paulo, cujo interesse para o presente ensaio é mister, somente foi criada em 1700, cuja sede era a Vila de São Paulo de Piratininga. Com o descobrimento das minas nos sertões dos Cataguases, foi criada a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro em 1709 e, ato contínuo, criadas as ouvidorias. Em 1714, houve a repartição da capitania em quatro comarcas: Comarca de Vila Rica; Comarca do Rio das Velhas; Comarca do Rio das Mortes; e a referida comarca paulista. As duas últimas figurariam inúmeros conflitos por territórios, pois as fronteiras não foram bem definidas quando da sua criação – e a definição dos limites de Minas e São Paulo somente ocorreria no final da década de 1930. Com o desmembramento dos governos mineiro e paulista, em 1720, seria instaurado os conflitos na esfera administrativa e, a partir de 1745, com a criação dos bispados de Mariana e de São Paulo, na esfera eclesiástica.

O Caminho do Goyaz seria traçado e instituído como rota oficial a parte de 1723, a partir da rota que traçou o aventureiro Bartholomeu Bueno da Silva, o Anhanguera e, embora o governo mineiro não tenha se ocupado com a região sul da capitania até meados de 1737, com a posse das minas do Rio Verde e a fundação do arraial de São Cipriano, pelo ouvidor do Rio das Mortes, o governo de São Paulo passaria a incentivar a povoação na região fronteiriça, com emissão de cartas de sesmarias e documentos similares, de modo que os sertões fossem povoados. Ao longo do começo da década de 1740, os conflitos seriam intensificados e suspensos em 1748, quando subsumida a Capitania de São Paulo à do Rio de Janeiro, cujo governador, Gomes Freire de Andrade, também governava a região das minas. O governador das Minas ordenou que o ouvidor do Rio das Mortes, Thomaz Ruby, realizasse a demarcação das fronteiras.

O governo de São Paulo somente seria reinstaurado em 1765, com a nomeação e posse do novo governador, dom Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Matheus. Conta a historiadora Amélia Trevisan, que a “mais antiga povoação do Caminho do Goiás era Mojiguaçu, paróquia desde 1740, da qual em 1752, separou-se a de Mojimirim”, sendo esta escolhida para ser elevada à categoria de vila com o nome de Vila de São José do Mogi Mirim, cujo vasto território englobava o sertão do Rio Pardo e limitava-se, ao norte, com Minas.

Entre 1765 e 1767, diz a historiadora que, nos recenseamentos, já mencionava-se o sítio, ou pouso, da Casa Branca, mas foi somente em 1807, com a chegada do padre Francisco de Godói Coelho à sesmaria que adquirira, que uma capela seria requerida naquelas paragens. O padre requereu junto às autoridades eclesiásticas e, em 25 de outubro de 1814, o Príncipe Regente, futuro rei dom João VI, assinou o alvará, autorizando a instalação de uma freguesia sob a interseção de Nossa Senhora das Dores.

Em época similar ao surgimento do pouco da Casa Branca, nos idos de 1760, em uma localidade próxima, descobria-se ouro. Não tardou para que o arraial do Bom Sucesso, próximo do Registro de São Matheus, fosse povoado. Dava-se início ao que hoje chama-se de município de Caconde, cuja história muito se aproxima de Mococa.

Foi em 02 de dezembro de 1811, por meio de alvará, que a Comarca de São Paulo seria desmembrada, criando-se a Comarca de Itu, cujo território jurisdicional compreendia o município da Vila de São José do Mogi Mirim. Pouco depois, em 1832, com a aprovação do Código de Processo Criminal, seria a Província de São Paulo dividida em seis comarcas, estando a região inclusa à comarca de Jundiaí.

Por força da Lei nº 11, de 17 de julho de 1852, haveria nova alteração. O Art. 1º, § 7º, possuía a seguinte redação: “Comarca de Franca, comprehendendo a Villa Franca do Imperador, Batataes e Casa Branca”. Esta última foi elevada à condição de vila em 1841, sendo seu território desmembrado da Vila de Mogi Mirim.

A Lei nº 918, de 20 de abril de 1966, reorganizou as comarcas e, conforme o Art. 1º, § 17, criava-se a Comarca de Mogi Mirim, cujo território compreendia “Casa Branca, São simão, Caconde, São João da Bôa-Vista e Mogy-mirim”.

A essa altura, já existia uma incipiente povoação dentro do território de Casa Branca, que alcançou os foros de freguesia em 1856 com o nome de São Sebastião da Bôa-Vista, ou, como o vulgo iria vaticinar-lhe, Mocóca. O desenvolvimento da freguesia iria acarretar, em 1871, por força da Lei nº 29, de 24 de março, a elevação à condição de Vila. A primeira Câmara tomaria posse apenas em 1873.

Foi a Lei nº 10, de 24 de março de 1874, que determinou que os “termos de Caconde e S. Sebastião da Boa-Vista ficarão constituindo uma Comarca, cuja cabeça será S. Sebastião da Boa-Vista”. Seria conhecida por Comarca de Caconde, embora sua sede fosse na “Mocóca”. Segundo o professor Carlos Paladini, o primeiro juiz municipal seria nomeado no mesmo ano, sendo o dr. Matheus Marques de Moura Leite. Segundo Adriano Campanhole, a instalação da Comarca de Caconde ocorreu em 14 de dezembro de 1874. Na ocasião, o juiz de Direito da Comarca de Casa Branca, em tom de cumprimento, remeteu carta à Câmara de Caconde, informando que foi informado da instalação no referido dia 14, e soando como uma despedia, informou que “com esse ato teve cessado a minha jurisdição sobre este termo[...]”. o primeiro juiz de Direito foi o dr. José Pinheiro de Ulhôa Cintra, nomeado em 17 de novembro de 1877 e empossado em 12 de dezembro do mesmo ano.

Somente em 1892, por força da Lei nº 80, que o termo de Mococa passaria a constituir uma Comarca própria, separada de Caconde. O Art. 1º, §1º da referida Lei determinou a extinção dos “termos judiciários, passando cada um dos que existem actualmente a constituir comarca”. Tal informação é ratificada por Paladini e Campanhole. O primeiro juiz nomeado para a Comarca de Mococa foi o dr. José Manoel Pereira Cabral. Assim, surgia a independência judiciária de Mococa.

Da advocacia mocoquense

Segundo o professor Paladini, o primeiro advogado de Mococa foi o dr. José Américo de Siqueira, cujo filho, nascido em Mococa em 23 de janeiro de 1877, seria um conceituado jurista: dr. Galdino Siqueira. Dr. José foi membro da primeira Câmara de Mococa, de 1873, sendo advogado de um dos fundadores de Mococa, Venerando Ribeiro da Silva, quando da assinatura de seu testamento em 1874.

O governo imperial, em 07 de agosto de 1843, emitiu aviso aprovando os estatutos do novo Instituto dos Advogados Brasileiros, que tinha como finalidade a criação da Ordem dos Advogados. Tal órgão somente seria criado anos mais tarde, após a Revolução de 1930, por força do Decreto nº 19.408, de 18/11/1930, assinado por Getúlio Vargas. A redação do Art. 17 era a seguinte: “Fica criada a Ordem dos Advogados Brasileiros, órgão de disciplina e seleção da classe dos advogados, que se regerá pêlos estatutos que forem votados pelo Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros, com a colaboração dos Institutos dos Estados, e aprovados pelo Governo”.

Pouco depois, em 26 de março de 1933, seria fundada a Subseção de São José do Rio Pardo, vinculando os advogados de Mococa e de Casa Branca à ela. Somente nos anos de 1981 seria criada a 88ª Subseção da OAB/SP em Mococa, após grande atuação dos advogados da comarca. A autorização foi emitida em 07 de julho daquele ano, ocorrendo a instalação apenas em 14 de novembro de 1981. O cerimonial ocorreu no Salão do Júri do Fórum de Mococa, às 11h. Tomou posse a primeira diretoria, assim formada: dr. José Thiago de Siqueira Júnior, presidente; dr. Clovis Gonçalves Dias, vice-presidente; dr. Maurício Marchesi Netto, secretário; e dr. Kamikiti Higashi, tesoureiro. Dentre as autoridades presentes, destaca-se a presença da dra. Esther de Figueiredo Ferraz, conceituada jurista, advogada e professora, que seria ministra de Estado da Educação do governo João Figueiredo.

Ao longo de quarenta anos de atuação, a OAB de Mococa teve os seguintes presidentes: dr. José Thiago de Siqueira Júnior, de 14/11/1981 à 01/02/1983, de 01/02/1983 à 01/02/1985, e de 01/02/1985 à 25/12/1986; dr. Clovis Gonçalves Dias, de 29/12/1986 à 01/02/1987; dr. Sergio Tadeu Machado Rezende de Carvalho, de 01/02/1987 à 02/02/1989, e de 01/02/1989 à 05/02/1991; dr. Francisco José Taliberti, de 05/02/1991 à 28/01/1993; dr. Paulo Sergio de Almeida Godoy, de 29/01/1993 à 03/02/1995; dr. Francisco Eduardo Vicinasa, de 03/02/1995 à 02/02/1998; dr. Valdir Viviani, de 02/02/1998 à 16/02/2001, e de 16/02/2001 à 31/12/2003; dr. Renato Macedo Zeferino, de 01/01/2004 à 31/12/2006, e de 01/1/2007 à 31/12/2009; dr. Marcelo de Rezende Moreira, de 01/01/2010 à 31/12/2012; dr. Sergio Marques de Souza, de 01/01/2013 à 31/01/2015; dr. Fabio Ferreira dos Santos, de 01/01/2016 à 31/12/2018; dr. Victor Coelho Dias, de 01/01/2019 à 31/01/2021.

A atual diretoria, com mandato iniciado em 01/01/2022, assim encontra-se constituída: dr. Victor Coelho Dias, presidente; dr. Marcelo de Resende Moreira, Vice-Presidente; dra. Rita de Cássia da Silva; Tesoureira; dr. Lucas Antônio Massaro, Secretário; e dra. Renata Firmino Arantes, Secretária Adjunta.

Conta a OAB de Mococa com 346 inscritos, até a presente data. Possui prédio próprio para a realização de suas atividades, muito bem equipado com mobiliário, aparelhos tecnológicos e obras literárias para melhor atender à população e à classe dos advogados mocoquenses. Situa-se de frente para o Fórum, à Avenida dr. Gabriel do Ó, nº 1.124, e conta com uma equipe dedicada e empenhada nos afazeres da advocacia.

O dr. Victor Coelho Dias, em reunião com o dr. Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti, requereu uma pesquisa, de modo que seja escrito um histórico sobre a 88ª Subseção da OAB/SP, inventariando os documentos a ela inerentes. De modo a obter o máximo de informações disponíveis, ficam todos os nobres colegas desde já convidados para compartilhar documentos, fotos e suas memórias para com a pesquisa, que hoje inicia-se.

 

quinta-feira, 23 de maio de 2024

BREVES NOTAS SOBRE A J. NICOLA & IRMÃOS

 

Por Leonardo Borgheti M. F. Belotti

Os primórdios da indústria mocoquense remontam o ano de 1888, quando a família Nicola, advinda da Áustria, inicia um empreendimento de construção de rodas d’água, ampliando posteriormente para o maquinário agrícola. O crescente desenvolvimento de Mococa, à época, e a vasta quantidade de fazendas cafeeiras no município e na região imediata, elevaram a “J. Nicola & Irmão” de uma indústria familiar para o renome no setor industrial.

Não tardaria para que os três irmãos, Matheus (13.08.1872-10.07.1938), João (19.06.1870-20.05.1945) e Pedro (24.06.1874-03.05.1954) fossem tidos pelo maior apresso junto à comunidade mocoquense. Homens visionários, pioneiros do desenvolvimento fabril, abriram as portas da oportunidade, levando o nome de Mococa paralelo ao de seus produtos. Eram preocupados com o bem-comum, e, em 1922, João Nicola foi eleito vereador para a Câmara de 1923-1926, ocupando o cargo de vice-prefeito, segundo o professor Carlos Alberto Paladini no livro Assim nasceu Mococa.


Os irmãos Nicola

A prosperidade os acompanhava. Atuavam nos setores da mecânica, a fundição, serraria, carpintaria, construção de turbinas hidráulicas e instalações hidroelétricas de luz e força. Também eram representantes da General Motors Brasil. Construíram uma grande oficina no bairro da Aparecida, e empregaram vários operários.


O complexo industrial da Irmãos Nicola

Em 1945, com o falecimento de João Nicola, o contrato social da empresa seria modificado. Ele era o único dos três irmãos que teve filhos, os quais herdariam a sua quota-parte na sociedade, no valor de Cr$ 200.000,00. Eram eles: Geraldo, Nair, Celida, Gerte Maria e Cleonice. No mesmo ato da sucessão foi feita a alteração de sociedade comercial em nome coletivo para sociedade anônima. A escritura pública foi lavrada pelo 1º Tabelião interino da Comarca de Mococa, Arnaldo Brisighello, em 24 de dezembro de 1945. A primeira diretoria eleita foi a seguinte: Pedro Nicola, presidente; Geraldo Nicola, gerente; Luiz Souza Lima, tesoureiro; Carmo Pricoli, Jacinto Pisani e João Anibal Pourrat, Conselho Fiscal. Estava formada a “Irmãos Nicola S.A. – Mecânica para Indústria e Lavoura”.

Paralelo ao desenvolvimento da Irmãos Nicola, a “Pasqual Pisani S.A.” ganhava espaço no cenário empresarial, atuando desde 1937 com o benefício de algodão, exercendo tipicamente uma atividade familiar. Conta a tradição oral da família que a sociedade comprara as ações dos herdeiros de João Nicola. Já em 1947, Pasqual Pisani, representando a sociedade, assumia o cargo de superintendente da Irmãos Nicola. Pedro Nicola permaneceria presidente até sua morte, em 1954. O genro e o filho de Pasqual, Mario Destro e Alberto Pisani, foram eleitos tesoureiro e secretário, respectivamente.

O desenvolvimento era crescente. Não parecia haver freios para o crescimento da Irmãos Nicola. Em 1951, seu capital social era elevado de Cr$ 4.000.000,00 para Cr$ 5.000.000,00. Em 1954, com a morte de Pedro Nicola, suas ações foram adquiridas pela Pasqual Pisani S.A. Em 1956, a diretoria era a seguinte: Jacinto Pisani, presidente; Pasqual Pisani, superintendente; Alberto Pisani, tesoureiro; e Emilio Pisani, secretário. Conta-se que Pasqual Pisani, à frente das duas sociedades, passou a construir residências nas imediações das instalações industriais para seus funcionários e familiares. Ele viria a falecer em 03 de outubro de 1964, em Mococa.

Já em julho de 1974, a Rome Industries Inc., de Cedartown, Georgia, EUA, firma uma parceria com a Irmãos Nicola S.A., que passa a designar-se “Nicola Rome – Máquinas e equipamentos S.A.”, que continuou crescendo. A diretoria seria formada da seguinte maneira: Jacinto Pisani, presidente; Félix Latuszynski, diretor comercial; Odair Bueno, diretor financeiro; Luiz Alberto Pisani, diretor administrativo; e João Carlos Pisani, diretor industrial. Seu capital social foi elevado de Cr$ 9.790 milhões para Cr$ 17.221 milhões. No final da década de 1970, fizeram lançamento de diversas inovações para auxiliar na agricultura. O sonho, contudo, teve seu fim em 1999, quando foi decretada a sua falência, por motivos que ora nos fogem.

No ano seguinte, 2000, os antigos operários da Nicola Rome uniram-se e formaram a Cooperativa de Produtos Metalúrgicos de Mococa, a COPROMEM, permanecendo no imóvel até 2014, quando foi designado leilão do estabelecimento pela Justiça do Trabalho. À COPROMEM, foi doado pela Prefeitura de Mococa um terreno na Rodovia SP 340, Km 269.

O complexo da Nicola Rome foi vendido, afinal, para o grupo Maziero, em 2017, que estabeleceram o “Centro Empresarial Nicola Rome”, local que abriga inúmeras empresas, dos mais variados setores. Nos barracões, operam várias atividades industriais; no antigo prédio da administração, situam-se salas comerciais para profissionais liberais; logo abaixo, em outro prédio, onde funcionava a oficina, encontra-se instalado o Instituto Nacional da Seguridade Social, o INSS; no grande terreno, acima, foram erguidas duas torres residenciais, denominado Condimínio Azaleias, totalizando cerca de 208 apartamentos. A área total de terreno é de cerca de 22.000m2.


Fotos em exposição na Casa de Cultura Rogério Cardoso, em 2014

É pacificado pelos pensadores que os atos do presente devem-se aos empreendimentos do passado; é graças às forças unidas dos visionários irmãos Nicola e à sabedoria empresarial da família Pisani, que a indústria mocoquense floresceu e brilhou para a História.

Fontes:

Jornal O Correio Paulistano, de 1930-1960.

Jornal do Comércio (RJ), década de 1970.

PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. São Paulo: Alfa-Omega, 1995.

______________. Os italianos em Mococa. Mococa: editoração do autor, 2008.

Foto: Planta do complexo, acervo de Antonino Silva, disponível no grupo do Facebook “Mococa das Palmeiras Imperiais”

 

O QUE BRADOU, FICOU

 

Por L. B. M. Falarini Belotti

O capitão-mor Custódio José Dias nasceu, segundo consta, no território da Vila de São João del Rei em 1763, filho do português Custódio José Dias (1731-1779) e de Ana Lopes da Silva (1749-1773). Casou-se com Mariana de Almeida e Silva (c.1770-1826). Estabeleceu-se no sul de Minas, nas imediações da Vila de Campanha da Princesa, sendo avido criador de gado. Ao capitão-mor é atribuída a nomenclatura de um incipiente povoado às margens do Ribeirão do Meio, situado ao norte do território da Vila de São José do Mogi Mirim, que hoje conhecemos por Mococa.

Segundo o historiador Humberto de Queiroz, em sua conceituada monografia histórica, “veio do Machado, caçar em São Sebastião da Boa Vista, em companhia de seus genros Vigilato, Domiciano e Joaquim, o Capitão Mór Custódio José Dias. Ao passar pela nascente povoação a aristocrática cavalgata, exclamou o Capitão-Mór: “Olhem para ahi essas mocóquinhas”. Dos que acompanhavam ao Capitão-Mór, entre outros, José Pereira e Diogo Garcia, alguém perguntou a significação do vocabulário ‘mocóquinha’. Explicou-lhes o graduado caçador que, em Ibituruna, onde havia ele residido, existia um bairro de nome Mocócas ou Mocóquinhas, palavras que significavam certo número de casas pequenas. Encontraram originalidade na denominação e foram, desde logo, aplicando-a ao novo arraial, ao qual chamavam – o arraial das Mocócas”.

O local de onde supostamente proferiu tal afirmação é onde situa-se, atualmente, a Igreja Matriz da Santa Cruz, onde havia, à época, um cruzeiro. Teria vaticinado a denominação do lugar em 1844, segundo Humberto de Queiroz e os historiadores que se seguiram. Ocorre, porém, que em tal data o capitão-mor já se encontrava morto. Faleceu em 07 de setembro de 1843, em Alfenas, Minas Gerais, e é pouco provável que bradou algo do túmulo.

Embora, portanto, possa parecer uma história mítica, Humberto de Queiroz é preciso em suas informações complementares. As pessoas que o historiador atesta acompanharem, de fato, são seus genros: Vigilato José de Souza, casado Ana Custódia; Domiciano José de Souza, casado com Mariana de Almeida e Silva; e Joaquim Custódio Dias, casado com Luzia Delfina. Ainda, os outros dois companheiros, Diogo Garcia e José Pereira, já habitavam o lugar. Aquele adquiriu, em 1833, a fazenda Alegria; este, era proprietário da fazenda Laranjal, tendo vendido uma parte a José Gomes de Lima, em 1835.

Não obstante o apresentado, o povoado já possuía um pequeno núcleo populacional às margens do Ribeirão do Meio. De certo, casebres simples, feitos com os materiais que dispunham os primeiros moradores, sem requinte. A burguesia e os fazendeiros vêm morar no povoado quando este começa a ganhar proeminência, trazendo os ornamentos, espelhados nos edifícios europeus. Ainda, a cidade mencionada por Queiroz, Ibituruna, como sendo lugar que o capitão-mor habitou, é uma pequena cidade que, à época, situava-se no vasto território da Vila de São João del Rei. Segundo consta, foi a primeira povoação mineira, fundada por Fernão Dias Paes Leme, em 1674.

Diversas informações corroboram que a história narrada por Humberto de Queiroz é fidedigna, com exceção da data. Provavelmente, tal acontecimento se deu antes de 1843. O capitão-mor contava, na data de sua morte, com oitenta anos e, longe de questionar seu vigor físico, os caminhos entre as várias localidades eram, quando existentes, de terra, deveras precários, e as viagens eram feitas a cavalo, tornando desgastante o percurso. É certo que Custódio José Dias se aventurara na região. Foi quem fez o censo da Vila de São Carlos do Jacuhy de 1820, o que, pode-se presumir, levou-o a conhecer a região.

Não há mitologia, embora pareça – meramente trata-se de um equívoco de datas, que em nada prejudica a grandeza do vaticínio do capitão-mor. O seu brado ainda é ouvido cada vez que um indivíduo profere o nome da cidade – “Mococa” – ou de um de seus bairros – “Mocoquinha” –, que cresceu ao redor da Santa Cruz.    

Fontes:

DIAS, Lia Ribeiro. Das margens do Sapucaí às barrancas do Canoas. São Paulo: Momento Editorial, 2012;

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca – de sua fundação até 1900. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XV. São Paulo: Typographia do Diário Oficial, 1912

quarta-feira, 24 de abril de 2024

OS 69 ANOS DA IGREJA SANTA CRUZ

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

Foi o olhar visionário do padre Bento Monteiro do Amaral (1867-1954) que impulsionou uma reforma nos meios eclesiásticos de Mococa no final do século XIX e início do século XX. Veio para a paróquia de São Sebastião em 1890 e não tardou para perceber que a cidade crescia, o que, consequentemente, aumentava a quantidade de fiéis a serem assistidos. Assim, além de trabalhar para a construção da Nova Igreja Matriz, empreendeu a construção de duas capelas, uma situada no bairro da Estação, em devoção à Nossa Senhora Aparecida, e a outra, na Mocoquinha, devotada à Santa Cruz. Em 1891, o bispo de São Paulo, dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826-1894), emitiu provisão em 05 de setembro, autorizando a construção da capela que, segundo o professor C. A. Paladini, seria construída em 1895. O local da construção seria, segundo a tradição oral, o ponto onde, em 1844, o capitão-mor Custódio José Dias vaticinou a nomeação do lugar, ao exclamar para seus companheiros de viagem: “Olhem para ahi essas mocoquinhas”.

Capella da Santa Cruz, foto publicada no semanário A Mococa, em 1936
Todas as Os párocos que sucederam padre Bento, da melhor maneira que dispunham, passaram a celebrar missas e manter a capela em boas condições. Em 1951, foi destinado para a paróquia o padre Paulo Haroldo Ribeiro e não tardou para que se lançasse aos cuidados da comunidade. Colaborador de A Mococa e envolvido em diversas atividades sociais, padre Paulo percebeu, como o padre Bento, que a cidade se desenvolvia e o bairro da Mocoquinha e imediações cresciam continuamente. Em 1954, resolveu realizar a restauração da capela. Em 24 de abril daquele ano, teve início a festa da Santa Cruz, cuja receita seria integralmente revertida à reconstrução da capela. As obras tiveram início em 1º de maio de 1954. O desenho e o projeto foram minunciosamente trabalhados pelo projetista Miguel de Luna (1929-2022) e pelo engenheiro Guilherme di Felipe, que, com todo esmero, superaram as adversidades que o terreno lhes impunha e traçaram as linhas da nova igreja, com estilo colonial, inspirada em um Convento da cidade de Itanhaém. Não pode-se esquecer que inúmeros pedreiros e voluntários, cujos nomes a história suprimiu, não mediram esforços para erigir a nova igreja. Em outubro, a capela já não mais existia, dando lugar aos novos alicerces da igreja.
A inauguração se deu em 21 de abril de 1955, no primeiro dia da festa da Santa Cruz. Às 17h, uma grande procissão, carregando a imagem de Nossa Senhora de Fátima, deixou a Igreja Matriz rumo à Igreja Santa Cruz. Monsenhor João Lauriano, representante da diocese de Ribeirão Preto, realizou a benção da igreja, proferindo eloquente discurso aos seus conterrâneos. Realizou-se, em seguida, a habitual missa vespertina, encerrada com o início da festa, que duraria até 1º de maio de 1955.

Programa das festividades da inauguração da nova Igreja da Santa Cruz, publicado n'A Mococa, edição de 17 de abril de 1955.

Os anos passaram. O crescimento da Mocoquinha exigia ali um pároco constantemente presente para atender a população. Foi em 14 de setembro de 2003 que dom David Dias Pimentel, bispo da diocese de São João da Boa Vista, instalou ali a Paróquia da Santa Cruz, empossando o primeiro pároco, padre Gerson Borges da Fonseca. A nova paróquia era responsável não apenas pela Igreja da Santa Cruz, mas também pela Capela do Imaculado Coração de Maria e pela Igreja de Nossa Senhora da Luz, em Canoas. Padre Gerson edificou também as capelas de Santo Expedito e a de São Pelegrino.


Desde 14 de setembro de 2020, a paróquia encontra-se sob a responsável direção do padre Antônio Carlos Ferreira de Souza, chamado carinhosamente pelos seus paroquianos de padre Toninho. Com integral devoção ao seu ofício, padre Antônio colabora com todo o zelo, cada dia mais, para com a prosperidade da paróquia e com a propagação da palavra de Deus, sempre contando com o apoio e aprovação da comunidade.
Em um trabalho conjunto, eu e padre Toninho estamos realizando um levantamento histórico sobre a paróquia Santa Cruz, que deve ser publicado ainda esse ano. Qualquer pessoa que possua fotos ou documentos sobre a história da Igreja e deseja compartilhar seu material para a publicação, pode entrar em contato com nós dois.

Aspecto atual da Igreja Matriz da Santa Cruz

Vivas à Igreja Santa Cruz!

Fontes:
Acervo jornal A Mococa, anos de 1936 e 1950-1955;

PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. 2ª ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 2008;

__________. Mococa: Igrejas e capela. Araras: Grass, 2013;

QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca – de sua fundação até 1900. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XV. São Paulo: Typographia do Diário Official, 1912, p. 123-198.

segunda-feira, 18 de março de 2024

Prefácio: A epopeia mocoquense

 

Por Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti[1]

I.                Os caminhos que percorreram

A forma adequada para poder desbravar a mentalidade estrutural de um povo seria por meio dos registros históricos, quando ausentes aqueles que foram as testemunhas vivas dos fatos do passado. Traduzir a formação da sociedade e a constituição da psicologia de um determinado grupo são missões que se baseiam não apenas na verossimilhança da História, mas também na composição do período histórico correspondente, como um todo. Assim, qualquer personagem da História deve ter suas ações interpretadas “considerando a psicologia da sociedade que o criou”[2]. E que sociedade imperava no começo do século XIX!

Não obstante, para revelar tal mentalidade, é mister traduzir breves notas sobre a origem do povo que a detém e, sob a ótica científica, conhecê-lo, revelando, assim, a formação de suas idiossincrasias. O corpo incipiente de um lugarejo justifica a sua existência, na visão de Dante Alighieri, pela necessidade de uma “vivência tranquila das pessoas e das coisas por meio de auxílio mútuo”[3]. O cenário de formação de Mococa inicia a sua construção durante o período conhecido por Ciclo do Ouro. Os arraiais e as minas eram o palco da ação. Não é, contudo, do interesse do presente ensaio discorrer sobre a fundação do tipo de solidariedade em vigência na época em questão. Basta dizer que os metais preciosos evocavam naquela gente a ambição de enriquecimento e, no que tange à união humana, urge o agrupamento aos interesses primários: antigamente, a sobrevivência.

O agrupamento faz originar a institucionalização das convenções sociais, adaptadas àquele meio. Segundo o sociólogo Emile Durkheim, considera-se que a sociedade é detentora de “uma personalidade qualitativamente diferente das personalidades individuais que a compõem”[4]. A moral, os costumes, logo, todo o agrupamento idiossincrático se configura como algo independente do indivíduo, mas que exerce sobre ele uma forte pressão, de modo a acatar o que é considerado aceito pelo grupo. Já afirmou, inclusive, Karl Marx que “não é a consciência dos homens que determina seu ser; é seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência”[5].

Para que seja possível, afinal, interpretar a atual configuração de Mococa, é preciso volver os olhos para o seu passado, de modo a localizar as raízes da aparelhagem moral, política, social, etc., de seu povo. Em outras palavras: “de onde veio e onde está”. Foram os paulistas que começaram a desbravar os sertões dos Cataguases, na busca de riquezas. Os olhos bandeirantes voltaram-se para o interior do que viria a se tornar, anos depois, o Estado de Minas Gerais. Em seu relicário, não iam apenas a sua religiosidade e sua coragem, mas também todo um aparato mitológico, que os conduzia sempre em frente. Desejavam Sabarabuçu, a mítica serra reluzente, repleta de montanhas feitas de ouro e prata. Encontraram, de fato, os metais preciosos, mas não tal cordilheira. A Coroa Portuguesa, já atenta, preocupava-se com a fiscalização e com a exploração da área, e considera os meios para levar a aplicação da Justiça àquele local – nos sertões ermos, já não tanto desconhecidos.

Após conflitos, essencialmente para assegurar a quem pertencia a preferência de explorar o ouro, vez que os paulistas, enquanto descobridores, viam-se detentores indispensáveis de tal direito, foi instituída, em 1709, a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. Paralela à instalação do poder civil, foi providenciada a administração da justiça. Em 1711, três arraiais foram elevados à categoria de vila, sendo nomeados Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, Vila Rica e Vila Real do Sabará. Em dezembro de 1713, uma nova vila surgiu: São João del Rei.

Em 1714, foram instaladas as primeiras comarcas mineiras: Comarca do Rio das Mortes, com sede em São João del Rei; Comarca de Vila Rica, com cede na vila homônima; e Comarca do Rio das Velhas, com sede da Vila Real do Sabará. Ao sul, fora instalada a Comarca de São Paulo. Os responsáveis pelas comarcas, os ouvidores, assumiam “as funções de corregedor, ouvidor-geral [...] e também de provedor”[6].

A exploração se deu àquela região central, à sombra das minas, e, consequentemente, a povoação concentrara-se ali. Em 1720, eram separadas as Capitanias de São Paulo e de Minas, devido a outro levante, chamado popularmente como Revolta de Felipe dos Santos, ou a Sedição de Vila Rica. Fez-se necessária uma presença mais constante das autoridades, de modo a dirimir conflitos, aplicar as ordens régias e fiscalizar a mineração. O locus da dominação era a região central. As estradas eram vigiadas. Havia forte tentativa de impedir o contrabando do ouro e demais preciosidades.

O motor que levou as autoridades até o sul da capitania possui dupla explicação. A primeira, trata-se da questão das fronteiras entre as duas capitanias. A região das minas possuía ouro em abundância. Em 1737, o ouvidor da comarca do Rio das Mortes, Cipriano José da Rocha, parte em viagem para o sul, reforçando a possa da região. Consolidou-a, afinal, com a criação do arraial de São Cipriano que, anos mais tarde, seria designada Vila de Campanha da Princesa. Era fato conhecido que os faiscadores exploravam clandestinamente as minas do Rio Verde e remetiam as preciosidades à Vila de Guaratinguetá. O governador das Minas, dom Martinho Proença, interpretando tal ação contínua como tamanho disparate, determina a posse das imediações do Rio Verde e de suas minas. Assim, justifica-se a ação do referido ouvidor, preocupado em agradar as autoridades.

O sul das Minas e o norte de São Paulo eram territórios que, naquele momento da história, não possuíam interesses imediatos por parte da Coroa. Seria, portanto, um ermo, região de conflitos pela delimitação das fronteiras.

Foi em meados de 1750 que Francisco Martins Lustosa, nomeado guarda-mor da região do Rio Sapocahy pelo governador da Capitania de São Paulo, dom Luiz de Mascarenhas, debandou da Campanha, ante a sua derrota pelas autoridades mineiras, após a tentativa da Capitania de São Paulo de tomar controle das minas do Rio Verde. Lustosa havia tomado a Freguesia de Campanha do Rio Verde, mantendo-a sob o jugo paulista, repelindo as forças mineiras. Contudo, não logrou êxito e careceu de fugir. Talvez, tenha perdido forças, afinal, em 1748, a Capitania de São Paulo foi subsumida à do Rio de Janeiro, cujo governador, Antônio Gomes Freire de Andrade, também governava a Capitania de Minas. A supressão acarretou na volta de dom Luiz para Portugal e a emissão de várias ordens de prisão para Lustosa. Após breve estada em Ouro Fino, parte com a família para Curitiba.

Pompeu Rossi, no artigo O Guarda-mór Lustosa, fundador de Ouro Fino, menciona que uma testemunha afirma que Lustosa é o fundador de alguns arraiais no sul da capitania de Minas:

A única referencia feita a Francisco Martins Lustosa, como descobridor das minas do Ouro Fino, é a do depoimento de Francisco Xavier Bezerra, no Auto Summario de Mogy-Mirim, mandado fazer, em 1789, por Bernardo José de Lorena. Quarenta e nove annos, portanto, depois da fundação de Ouro Fino.

Entre outras coisas, diz essa testemunha: ... “que os arraiaes de Jacuhy, Ouro Fino e Sant’Anna do Sapocahy” foram descobertos por “Francisco Martins Lustosa”[7].

Em 07 de outubro de 1755, nos sertões do rio Grande, foi lavrado auto de posse do sertão do rio São João, redigido por José do Rego e Almeida, escrivão de órfãos, confirmando a posse da Câmara da Vila de Jundiahy sob o território que percorreu Pedro Franco Quaresma, sob a ordem de descobrir ouro.  Assim

vinha tomar posse de todo o Certão onde anda Pedro Franco Quaresma em deligencia de descobrir ouro a saber: - do Rio de São João que faz barra no dito Rio grande, e por elle acima até onde finalizar o dito Pedro Franco com a sua deligencia, e tão bem de todo o Certão além do dito Rio S. João até o Rio de Sapocahy da Campanhas de Itajubá, e por elle acima até onde se reparte o districto elas mesmas Campanhas[8].

Apenas em 1764, quando o novo governador da Capitania de Minas, Luiz Diogo Lobo da Silva, acompanhado do futuro inconfidente, Claudio Manoel da Costa, realizam o chamado “Giro de Luiz Diogo”, tomando posse civil e eclesiástica dos arraiais fronteiriços e das terras adjacentes. Segundo consta, a posse de Jacuhy se deu de forma violenta. A região era, enfim, colocada nos mapas, mas, não obstante a vinda oficial, as localidades já eram bem conhecidas e povoadas. 

As referências à Caconde remontam vários documentos, editados a partir do final dos anos de 1760. O descoberto de Nossa Senhora da Conceição do Rio Pardo já contava com forças militares em 1766, conforme ordem de 28 de janeiro de 1766, emitida por dom Luiz Antônio de Souza[9]. O nome do lugar variou por demasiado. Segundo os Documentos Interessantes vol. XI,

Da chronica da actual cidade de Caconde consta que a origem era na freguezia de Bom Successo creada em 1775 que foi abandonada no começo deste século em consequência de um conflicto sendo transferida a Bom Jesus no logar hoje denominado “Silvas” a tres kilometros da actual cidade para onde a freguezia foi transferida em 1824[10].

A povoação tinha início com as tentativas de localizar minas e quilombos. Adriano Campanhole, célebre historiador paulista, relata que “o Coronel Manoel Rodrigues da Costa [...], em terrenos pertencentes à Freguezia de Caconde, por mais de uma vez encontrou grupos de índios Caiapós que faziam colheita de pinhão[11]”. O isolamento favorecia o seu desenvolvimento, longe dos locais que sediavam o poder civil. Essencialmente, devido à várias cartas e ordens régias, proibiu-se a abertura de caminhos novos e de picadas entre São Paulo e Minas, uma medida para evitar o contrabando do ouro.

Não obstante a corriqueira menção aos povos autóctones, haviam vários quilombos na região. O conhecimento de sua existência incomodava a Coroa, afinal, era intolerável existir um “Estado” dentro de outro, que não seguia suas leis e que obstruíam, consequentemente, o comércio com a fuga da mão de obra escrava. “O Brasil é o inferno dos negros”[12], teria dito Antonil. A escravidão do povo africano foi uma nódoa considerável na história brasileira, mas cuja essência ainda está presente na mentalidade coletiva. Exerciam trabalhos desumanos, sob condições precárias, sob o jugo dos tirânicos senhores de engenho e de seus sádicos capatazes. Rebelar contra o sistema era de difícil êxito. Podia ocorrer à mão armada, o que era raro; com o suicídio que, segundo Harriet Martineau, era prática “muito comum” entre os africanos “que preferem isso à escravidão”[13]; ou com a fuga, mais usual. Com essa última, se agrupavam em quilombos e tentavam adaptar à nova vida. A região limítrofe entre os atuais estados de São Paulo e Minas Gerais eram repletas de quilombos ao longo do século XVIII, integrando à chamada confederação do Campo Grande.

A Câmara da Vila de São João del Rei, auxiliada pelo Ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, encomendou uma expedição para rechaçar os quilombos. Seu líder era Bartolomeu Bueno do Prado, protagonista dos ataques que, em troca dos 3.900 pares de orelhas entregues ao governador, recebeu cartas de sesmarias e a chefia-mor das minas de Jacuhy. Entre 1759 e 1760, vários quilombos foram destruídos, situados, conforme relata o historiador Tarcísio José Martins, situados nos atuais municípios de Jacuí, São Sebastião do Paraíso, Guaxupé, Guaranésia, Cabo Verde, Divinolândia, etc[14].

De modo a efetivar a posse e o controle mais rigoroso e imediato na região dos Rios Verde, Sapocahy, São João, Grande, etc., foi determinada a divisão do termo do conselho de São João del Rei, vez que era elevada à categoria de Vila a freguesia de Santo Antônio do Vale da Piedade da Campanha do Rio Verde, tendo seu nome alterado para Campanha da Princesa, vila diretamente apadrinhada pela princesa Carlota Joaquina, esposa do herdeiro do trono português, futuro rei dom João VI. A povoação passava a ser mais densa, afinal. Era 1798, e um novo século despontava.

 

II.             Vêm os mineiros, surge o povoado

A situação social do Brasil Colônia era bem delimitada. Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias, vigoravam “mecanismos sociais de acomodação”[15], um verdadeiro abismo “entre uma minoria privilegiada e o resto da população”, consolidando-se uma estrutura social que “polarizaria as forças políticas, mantendo unidos os interesses das classes dominantes”[16]. A sociedade que se desenvolvia ao longo do final do século XVIII e início do XIX convivia com fatores geográficos que contribuíam para a “dispersão e fragmentação do poder e a consequente falta de nexo moral que caracteriza o tipo de sociedade existente”[17].

A bem da verdade, a região que hoje compreende o município de Mococa distava-se dos centros mais populosos, mas, ao longo do final do século XVIII, os ermos campos passavam a ser habitados. A posterior formação do povoado favoreceria que uma elite local comandasse, soberana, os desígnios do lugarejo. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, “a construção de cidades foi o mais decisivo instrumento de dominação”, pois figuravam como “órgãos locais de poder[18]”.

Compreender este período histórico é remontar a origem não apenas de uma cidade, mas de suas características que constituem, hoje, seus costumes e a moral; ao arraigarem-se na mentalidade social, cristalizam-se, formam uma rede de regras que, embora não sejam positivadas ou escritas, constituem um arcabouço pré-legal. Conforme o sociólogo Roger Bastide,

se os processos psíquicos de uma geração não se transmitissem à geração seguinte, não prosseguissem nesta outra, cada um de nós seria obrigado a recomeçar a aprendizagem da vida, o que excluiria toda a possibilidade de progresso e desenvolvimento[19].

São, afinal, os meios que tornam possíveis a vida coletiva. Habitualmente, chama-se “senso comum”. Para Hannah Arendt, o senso comum nada mais é que “uma espécie de sexto sentido necessário para manter juntos[20]” os outros cinco sentidos. Portanto, remedia-se a subjetividade, pois garante que um determinado objeto apareça como o mesmo aos demais indivíduos. É, afinal, o que “convence os homens de que eles pertencem à mesma espécie”[21]. É o elemento que faz existir a sensação de realidade. Para um povo que não é hábil para perceber além daquilo que é concreto, tangível, a realidade que concebe é meramente palpável, não garantindo espaço para que a mão do espírito atue por meio das artes e da filosofia, por exemplo. Prevalecem os atributos materiais em detrimento dos metafísicos.

A origem de Mococa na literatura histórica remete-se às personalidades mineiras que chegaram à região. Talvez, a primeira menção a tal informação tenha sido feita em um artigo do dr. Felipe Salvador Santo Pagano, publicado no jornal A Província de São Paulo, em 10 de fevereiro de 1880, edição de terça-feira. Em poucas linhas, aborda a origem do povoado, embora o enfoque fosse a questão sanitária:

É da tradição: - Que no tempo em que Mococa era ainda um sertão, vieram da villa de S. João d’El Rei (Minas Gerais), alguns caçadores até estas paragens, no ano de 1825, mais ou menos, e sympathisando-se com a localidade fizeram algumas choças, perto do Ribeirão do Meio; que a família Cabelluda, Figueiredo e Christovam, foram os primeiros habitantes do logar; que apoz ellas vieram reunindo-se outros pouco a pouco; que os primeiros habitantes chamavam-na Mococa (espécie de gyria, que significa reunião de pequenas casas, oriunda, dizem, de uma palavra africana) em vista de sua perspectiva[22].

Pouco tempo depois, Lafayette de Toledo, sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, publica, na Revista nº XII da instituição, o Diccionário Topographico da Comarca de Casa Branca, escrito em meados de 1899. Sobre Mococa, lega algumas linhas:

Mocóca – Cidade, edificada em território outrora pertencente ao município de Casa Branca. Foi fundado em 1846, por fazendeiros vindos de Minas. Por lei de 5 de abril de 1856, elevou-se a povoação à categoria de freguesia, com o nome de São Sebastião da Boa Vista; pela de 24 de março de 1871 à de villa e pela de 8 de abril de 1875 à de cidade, com a denominação de Mocóca. O patrimônio foi-lhe doado em 1847 [...][23].

Ainda, existe perdido o artigo do dr. Estevão Leão Bourrol, um dos pioneiros da formação do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que apresentava a história de Mococa, publicado no extinto jornal mocoquense, O Monitor Paulista. O texto resta desaparecido com o tempo e, provavelmente, jaz nas gavetas dos arquivos privados. É provável que em coleções particulares, tal jornal encontra-se perdido, sob o jugo de seus proprietários, reticentes em divulgar seu conteúdo. São os três trabalhos que se tem notícia, que foram escritor no século XIX sobre a origem de Mococa.

Ambos os autores citados são unanimes ao afirmar que foi a presença mineira na região que deu origem ao povoamento. Vieram, viram, gostaram, ficaram, prosperaram. É evidente a imprecisão da chegada dos povoadores. Pode-se recorrer ao trabalho de Délio Freire dos Santos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo que, na Revista nº LXXXVI da instituição, publicou o artigo A presença espanhola na província de São Paulo. Narra a trajetória dos ilustres espanhóis, incluindo a vida de um fidalgo andaluz, dom Tomaz de Molina (?-1845), cuja vinda ao Brasil após a proclamação da Independência argentina, em 1816, favoreceu seus interesses em adquirir imóveis em solo brasileiro, incluindo sesmarias e fazendas.

Foi o feliz proprietário da sesmaria denominada Zabelônia, vasta propriedade que englobava o território atual do município de Mococa e imediações. A aquisição, provavelmente, se deu em período anterior à Proclamação da Independência do Brasil, em 1822, pois, em 17 de julho, poucos meses antes do fausto acontecimento, foi editada a Resolução nº 76, pelas mãos de José Bonifácio de Andrada e Silva, que suspendia a concessão de novas sesmarias. Acredita-se, portanto, que dom Tomaz adquiriu a propriedade entre os anos de 1816 e 1822. A forma que administrava a sua propriedade é fato engolido pelo esquecimento. Já em 1833, vendeu sua mais famosa fazenda, a Alegria, com cerca de 15.000 alqueires, para o capitão Diogo Garcia da Cruz[24]. O fidalgo espanhol morre de tifo em uma expedição ao Mato Grosso, em 1845, sendo enterrado pelos escravos e indígenas que o acompanhavam às margens do rio Pardo.

Faz-se digno de menção que, em julho de 1865, esteve presente na fazenda Alegria o Visconde de Taunay que, em expedição ao Mato Grosso, partindo do Rio de Janeiro, visava aumentar as forçar brasileiras na Guerra do Paraguai. O resultado foi a publicação de um livro, A marcha da força, que relata alguns aspectos da fazenda Alegria, então propriedade de Diogo Garcia da Cruz. Inclusive, menciona que a fundação da Fazenda se dá em 1821.

As terras, a partir de 1822, passaram a ser adquiridas pelo sistema de posse, vez que não haviam proprietários e a fiscalização era precária. Somente em 1850, com a Lei de Terras, que seria resolvida a questão patrimonial – aliás, resolvida para os abastados fazendeiros, que possuíam condições econômicas para regularizar a escrituração de suas terras. Os mais pobres iriam se tornar funcionários dos fazendeiros. Foi uma estratégia para assegurar mão de obra, pois já surgia no imaginário elitista que a escravidão chegaria ao fim. Durou mais trinta e oito anos. A iminente carência de mão de obra levaria o fomento à imigração dos europeus, especialmente dos italianos, que traziam em suas bagagens a esperança de uma vida melhor. Trabalhariam para o crescimento de Mococa, mas não pode-se esquecer que a vida da grande maioria dos imigrantes repousava sob a exploração do seu trabalho, que beirava o que se entende por escravidão.

A história oficial de Mococa começa aqui. Em 1836, foi realizada a primeira missa na região, na fazenda Alegria. O povo exercia uma forma diversa da religião católica, alheia a institucionalização. A religiosidade popular era vista “como crendice, superstição e devocionismo”[25], segundo o professor Arnaldo Lemos Filho. A religião, antes de institucionalizada no lugarejo, era praticada com as condições existentes, que mormente, divergiam do que era determinado pela Igreja. Tal período, pré-instalação da Igreja formal, é pouco abordado, vez que, muito comum, faltam documentos que atestem sobre. O que é anterior era considerado superstição, crendice.

O que sucedeu tal fato, ao longo do século XIX, foi ricamente narrado pelo farmacêutico mineiro, Humberto de Queiroz (1866-1930), que se estabeleceu em Mococa ao longo de quinze anos, entre 1887 e 1902. Foi a sua preocupação para com a preservação da história da cidade que o levou a redigir a primeira monografia histórica de Mococa, submetendo-a ao II Congresso Brasileiro de Geografia, em 1910, publicando-a na Revista nº XV do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e como livro a parte em 1913, doando os lucros para a Santa Casa de Mococa. Minucioso, comedido e zeloso, Humberto de Queiroz inspirou todos os trabalhos subsequentes sobre a história de Mococa.

Humberto de Queiroz evidencia sua preocupação com a perda do passado na passagem dos anos e, mais do que isso, com indevidas confusões e equivocadas interpretações acerca da historiografia quando sepultadas as testemunhas oculares dos fatos idos. Não será adentrado, aqui, análise da obra de Queiroz, pois não é do interesse científico conduzir o olhar do leitor, fazendo-o interpretar o livro sob a ótica de um terceiro. Que o leitor possa apreciá-lo sem guias ou apontamentos. Leia, reflita, tire suas próprias conclusões sobre o passado e interprete o presente à sua luz.

 

III.          Conclusões de uma análise sociológica

Atualmente, Mococa encontra-se no embate de duas gerações, que, embora convivam de forma relativamente estável, possuem percepção distinta acerca do estágio que a cidade se encontra. Uma geração mais antiga, que viu o município incipiente, pouco industrializado, com urbanização concentrada na região central, havendo surtos locais de zoneamento urbano, com característica muito similares aos bairros rurais paulistas. Conviviam sob o ar típico de uma pequena cidade interiorana. Em contrapartida, convivem com uma geração mais jovem, que já conheceu a cidade sob o desenvolvimento fabril, em constante expansão urbana, já evidente a perda das características do interior, caminhando a passos largos para se tornar uma “cidade grande”, o que acontece primeiro no meio estrutural, físico e, posteriormente, com o desenvolvimento desse, na seara espiritual, das essências.  

Os costumes, quando superam a individualidade e constituem os comandos que estão cristalizados na mentalidade social, acaba tornando sua execução algo autômato com relação ao indivíduo. É impositivo moralmente e, por fim, torna-se uma regra, positivada ou não. Por muito, dispensa ser escrito, pois constitui comandos coercitivos, que permitem o convívio social. É um bom exemplo – e muito evidente – de um comando originado na vizinha cidade de São José do Rio Pardo, cuja ponte de ferro sob o rio homônimo, projetada pelo escritor e engenheiro, Euclides da Cunha, inaugurada em 18.05.1901, que somente comporta o tráfego de veículos em um sentido. À época de sua construção, não era preocupação o tráfego de automóveis, mas, com o passar dos anos, foi tornando-se elemento na vida cotidiana. Hoje, existe um acordo tácito entre todos os moradores, onde há respeito na travessia da ponte entre os condutores da margem esquerda e os da margem direita: esses esperam enquanto aqueles atravessam, os quais sabem o momento de aguardar para que os de lá atravessem. Tornou-se constitutivo na idiossincrasia rio-pardense.

Segundo o sociólogo, Georg Simmel, as relações sociais nas cidades pequenas são baseadas na afetividade, em uma constante e subjetiva solidariedade que, quando questionada, é objeto de reações do coletivo. Nas cidades de maior porte, baseadas na economia monetária, existe a chamada objetividade no tratamento: predomina a redução de valores qualitativos à valores quantitativos[26]. A cidade resume-se ao palco da situação. Para tentar livrar-se, os indivíduos tornam-se reservados e conferem-se o direito à desconfiança. A marcha da mudança é uma constante.

Como dito anteriormente, o desenvolvimento inicial de Mococa surge com característica bem similares às dos bairros rurais e, a bem da verdade, foi sua realidade inicial, pois situava-se o povoamento em propriedades rurais privadas, que posteriormente seriam doadas para a constituição do futuro município. Antônio Candido, na obra Os parceiros do Rio Bonito, escreve que o

bairro se caracteriza por um segundo elemento, o sentimento de localidade existente nos seus moradores, e cuja formação depende não apenas da posição geográfica, mas também de intercâmbio entre as famílias e as pessoas, vestindo por assim dizer o esqueleto topográfico.[27]

O bairro, segundo o autor, é uma “naçãozinha”, “a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer, formando uma certa unidade diferente das outras”[28]. Surge a necessidade de cooperação devido à proximidade física e, ademais, pela dificuldade da sobrevivência individual quando distante dos grandes centros urbanos. O surgimento de um lugarejo, ao longo dos séculos passados, significava a imediata autoridade de um grande proprietário, o qual, geralmente, doa uma pequena parte da propriedade para compor a fábrica da Igreja ou mesmo, o povoado em si.

A metodologia de surgimento de uma cidade, segundo Antônio Candido, seguia um modelo quase geral: “No início, moradores segregados. Em seguida, ereção de capela, em patrimônio doado, que atraia loja e depois algumas casas. Daí, passava a freguesia, já com o núcleo de população esboçado. O povoado subia a vila, chegando afinal a cidade”[29]. Com Mococa, não foi diferente. A doação do patrimônio é vista como atitude altruísta, em prol do bem comum, mas, segundo a socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz,

não procuravam [...] uma compensação monetária propriamente dita, porque em geral [...] o preço de venda não era alto; o que pretendiam era, por meio da criação da vila, da qual seriam fundadores e benfeitores e cuja administração e habitantes girariam à sua volta, obter facilidades de mão-de-obra, assim como a valorização de sua própria fazenda, que, com o progresso da vila, em breve estaria às portas de centro populoso e dobraria de preço[30].

Já foi mencionado, alhures, que, segundo Sérgio Buarque de Holanda, o locus do poder situava-se no lugarejo. Especialmente, se levar em conta a distância dos grandes centros e da fiscalização governamental. Até o final do século XIX, as cidades eram vistas apenas como locais para abrigar os órgãos administrativos. Uma pequena burguesia surgia no local, que tornava-se parte importante do desenvolvimento, uma vez que seus lucros cresciam junto ao crescimento do povoado. A vida citadina ocorria mormente aos domingos, à missa, e nas festas religiosas. No mais, “a vida ativa e próspera se concentrava no interior das propriedades rurais”[31]. Tal situação comportava a ideia de que o poder emanava dos coronéis, senhores das fazendas. Eram os empregadores, donos das residências e das terras e, para o povoado, seriam beneméritos, auxiliando o seu desenvolvimento. No imaginário popular, seria comum, portanto, que um líder que comandasse a política e a sociedade ao seu bel-prazer, logo, autoritário, fosse legitimado a agir assim. Atualmente, é possível perceber que governantes com viés autoritário são aclamados, pois remontam a concepção do velho fazendeiro, bondoso, impiedoso, acima das regras democráticas.

O surgimento de casarões nas zonas centrais do povoado, propriedades dos chamados “barões do café”, senhores detentores de dinheiro e poder, que determinavam o destino da cidade diretamente sob seu domínio, revela que, ao longo do final do século XIX, a vida passava a ser urbana. Tal fato se deve pela emulação da elite brasileira com relação à elite europeia, a qual voltava-se às cidades, constituindo novo gênero de vida. Afinal, a presença da industrialização europeia fez surgir um novo elemento no jogo de classes: o burguês, que, etimologicamente, refere-se ao elemento citadino. Os fazendeiros brasileiros desejariam “demonstrar que não são ‘atrasados’ nem pouco ‘civilizados’”[32].

Assim, na 2ª metade do século XIX afirma-se no Brasil um tipo de cidade que não é mais simplesmente um centro político-administrativo, como tinha sido até então; suas funções se ampliam, comércio e serviços ganham vulto e a distância social cresce entre ela e o meio rural[33].

A população mais pobre permanece nas fazendas ou dirige-se às cidades para tentar a sorte, vez que o comércio passava a ganhar mais espaço. Em centros de pequena monta, é evidente que não haveria espaço para mais de um especialista em uma área. A industrialização mocoquense provavelmente começa, no final do século XIX, com a atuação do italiano Alexandre Cunali, que atuaria no setor de curtume, inaugurando o Curtume Santa Emília alguns anos depois, e dos irmãos Nicola, Pedro Mateus e João, imigrantes italianos que se tornariam fundadores da empresa Irmãos Nicola. As grandes industrias mocoquenses atuais devem-se ao trabalho incansável de seus moradores visionários, que iniciaram suas atividades no final do século XIX e início do século XX. Seu surgimento remonta o período de declínio do Ciclo do Café, o motor que impulsionava o sistema coronelista. Outrora, vigorava uma indústria paternalista, de comportamento pessoal nas relações com os funcionários, fornecedores e clientes. Hoje, a impessoalidade estabeleceu-se.

A partir da década de 1950, várias industrias começam a instalar em Mococa, o que se segue nas décadas seguintes. O poder público visava gerar condições boas para recepcionar o desenvolvimento industrial no município. Segundo o professor Carlos Alberto Paladini, “a partir de 1970, o poder público começou a realizar um trabalho, no sentido de desenvolver o parque industrial do Município, em franca evolução”[34]. Em 1978, foi criado o Distrito Industrial.

O crescimento da indústria citadina acarreta, por conseguinte, a necessidade de expansão urbana. O povo deixa as fazendas, inicia-se o êxodo rural. Diversos fatores influenciaram tal acontecimento. Ao longo dos anos de 1950 e 1960, era política do Governo Federal a expansão industrial no Brasil. Não obstante, a legislação que protegia o proletário também crescia, embora sua aplicabilidade não fosse eficaz. O fenômeno industrial se deve, em partes, pelo crescimento dos direitos dos trabalhadores rurais.

A Lei nº 5.889, de 08.06.1973, estatuiu normas para o trabalho rural. A expansão em direitos trabalhistas leva, necessariamente, ao repensar a forma de conduzir suas atividades por parte dos empregadores, porém, o período que o país vivia, sob o jugo de um governo ditatorial militar, favorecia para que a inobservância aos direitos fosse tolerada e que movimentos como greves e piquetes fossem duramente reprimidos. A Constituição Federal de 1988 surge para mudar tal situação. O resultado é a expulsão dos trabalhadores rurais para a cidade, o fechamento das colônias e a necessidade imperativa de ampliação dos bairros urbanos. O trabalhador era caro por ter tantas garantas legais impostas ao fazendeiro.

Mococa, tendo vivido tal situação, permitiu a segregação entre as classes sociais nos bairros. A estrutura citadina é bem delimitada: as zonas centrais servem mormente para o comércio, para abrigar os órgãos da Administração Pública, bancos, a residência da pequena burguesia, a primeira igreja e outros templos, monumentos históricos, escolas. Nas zonas mais privilegiadas geograficamente, surgem os bairros elitistas, projetados e onde residem a alta burguesia local. Nos subúrbios, o pessoal mais carente, comércios menores, vendas, bares, lojas mais simples. Nesse, porém, ainda residem alguns atributos da solidariedade advinda dos bairros rurais e das fazendas, pois seus moradores são herdeiros diretos dos que deixaram a vida rural, quando não os próprios. Nos bairros elitistas, perdura o direito à desconfiança, que narra Simmel, pois, além de tudo, o mercado é duro e voraz, e subentende-se que a vida também o seja. Ainda, há os bairros da classe média, que servem de elemento de transição entre os agrupamentos das referidas duas classes sociais: elite e pobres. É a representação visual da luta de classes.

A prova viva de que existe uma elite atuante em Mococa, numericamente menor e que exerce “autoridade sobre as camadas inferiores[35]” é que estes bairros ainda existem. A delimitação entre um e outro tenta ser disfarçada com a presença de prédios públicos, que atendam às necessidades diretas daquela população. Tal elite tenta impor a memória de seus antepassados como condão para sua reputação. Exercem o poder sob a ótica genealógica. Gostam da pesquisa histórica, desde que remonte a glória de sua família, e não por amor à História. Os ecos dos nomes do passado são bradados com mais ferocidade e prepotência. É inegável que cada pessoa que existiu na cidade consiste em elemento necessário para erigir a glória: o arquiteto, sem a cooperação do engenheiro, dos pedreiros, dos serventes e dos fornecedores não passam de idealistas.

No Brasil como um todo, a vida econômica estava pautada em uma dupla noção: “a de fazer fortuna rapidamente e a de demonstrar por gastos suntuários a riqueza acumulada”[36]. A sociedade brasileira, segundo Maria Isaura Pereira de Queiroz, foi “dominada pelo dinheiro”[37]. O crescimento industrial alavancou o ensino técnico, voltado ao mercado de trabalho, à manufatura, enfim, ao trabalho, que a filósofa, Hannah Arendt considera uma das condições humanas: “é a atividade que corresponde ao artificialismo da existência humana. [...] produz um mundo ‘artificial’ de coisas”[38]. Diz Paladini que “o surgimento das escolas profissionais proporcionava a seus alunos um currículo com predominância de disciplinas técnicas, pois visavam fundamentalmente o preparo de profissionais para atender ao mercado de trabalho”[39].

Assim, os gostos do grande proletariado voltam-se às praticidades em detrimento das humanidades, das artes. É bem verdade que poucos dão o devido valor às pinturas, aos livros, ao teatro. A sociedade encontra-se em um estágio de contemplação material, visando o concreto e economicamente vantajoso ou politicamente interessante. Não obstante, o uso em demasia da informação digital imediata estagnou a humanidade em atroz letargia à pesquisa, à busca daquilo que é genuinamente belo, verdadeiro e que incentiva o pensamento crítico sobre a realidade. As mídias digitais apresentam a alienação e o indivíduo a convida para entrar e residir em sua mente.

Tal estado, em questões sociólogas, é deveras interessante para estudo, porém, preocupante à nível humano. O véu da ideologia cega, induz, inibe a capacidade de perceber a realidade, de reagir às opressões. A imposição da ideologia é corroborada por aqueles que desejam que a população permaneça servil, estática. Criam os meios necessários, geralmente pelo uso da união entre as forças política e econômica, para semear a distopia, mantendo, assim, seus tronos e exploração. Já foi deveras difundido que o sistema coronelista, que vigorou no Brasil no final do século XIX e início do século XX, não encerrou, mas foi adaptado para as novas condições legais e sociais em vigor. Segundo Victor Nunes Leal, o coronelismo era o

sistema de reciprocidade: de um lado os chefes municipais e os “coronéis”, que conduzem magotes de eleitores como quem toca tropa de burros; de outro lado, a situação política dominante no Estado, que dispõe do erário, dos empregos, dos favores e da força policial, que possui, em suma, o cofre das graças e o poder das desgraças[40].

Em uma democracia, cujo princípio básico é que o poder emana do povo, sem distinções, o meio coronelista careceu de adaptar-se para a nova realidade. Os bons fazendeiros, padrinhos, foram substituídos pelo generoso empregador, que, quando da época de eleições, direciona os seus funcionários para apoiar aquele que melhor irá representar os seus interesses particulares, que, muitas vezes, não corresponde aos interesses da grande maioria da população. As eleições tornaram-se uma briga vazia para a população, incentivada pelos poderosos, os quais realmente sabem o que querem e como desejam que a Administração Pública seja conduzida após a posse do mandatário.

Mococa é uma cidade que foi edificada sob o patronato das oligarquias – os velhos nomes da política. Edificou sua vida rural, ao longo do século XIX, sob as costas do trabalho escravo. Tal mentalidade ainda jaz no imaginário coletivo: a sobreposição de um grupo sob outro, pautado em preconceitos, em discriminação.

Segundo Hannah Arendt, o modelo político das polis gregas idealizava que ser livre “significava ao mesmo tempo não estar sujeito às necessidades da vida nem ao comando de outro e também não comandar”[41]. O homem é compelido à vida social, à política, cujo significado originário se perdeu no meio da confusão patrimonialista e corrupta que foi imposta não apenas ao Brasil. Alguns possuem noções mais definidas de seus direitos, porém, contra as forças mais poderosas, quem se atreve a lutar?

Nas palavras de Humberto de Queiroz, feci quod potui, faciant meliora potentes.

 



[1] O autor é advogado; pós-graduado em Gestão Pública; licenciando em Sociologia; membro e pesquisador do Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo; colunista do jornal Cidade News; pesquisador independente da sociologia, da história e da política. 

[2] CUNHA, Euclides da. Os sertões. Jandira-SP: Principis, 2020, p.89.

[3] ALIGHIERI, Dante. Monarquia. São Paulo: Lafonte, 2012, p. 49.

[4] DURKHEIM, Emile. Filosofia e sociologia. São Paulo: Edipro, 2015, p. 53

[5] MARX, Karl. Prefácio a Contribuição à Crítica da economia política. In: Essencial sociologia. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013, p. 35.

[6] FONSECA, Claudia Dasmasceno. Arraiais e vilas del rei. Belo Horizonte: UFMG, 2011, p. 141.

[7] ROSSI, Pompeu. O Guarda-mór Lustosa, fundador de Ouro Fino. In: Revista do Arquivo Público Mineiro, vol. XXII. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1928, p. 174

[8] SÃO PAULO, Arquivo do Estado. Documentos interessantes para a história e os costumes de São Paulo, vol. XI. São Paulo: Typ. Espindola, Siqueira & Comp., 1986, p. 63-64.

[9] Ibid. p.96-7

[10] Ibid. p.315

[11] CAMPANHOLE, Adriano. Caconde: síntese da história de sua fundação e desenvolvimento. São Paulo: 1947. (Disponível em https://www.yumpu.com/pt/document/read/13743295/livro-caconde-adriano-campanhole-basilica-santuario-nossa-#google_vignette).

[12] PRIORI, Mary del. História da gente brasileira, volume I: Colônia. São Paulo: LeYa Brasil, 2016, p.37

[13] MARTINEAU, Harriet. Como observar: morais e costumes. Governador Valadares: Fernanda Henrique Cupertino Alcântara, 2021, p.115.

[14] MARTINS, Tarcísio José. Quilombo do Campo Grande: a História de Minas que se devolve ao povo. 3ª ed. São Paulo: Tejota, MG Quilombo, 2018, p. 710-733

[15] DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da metrópole e outros estudos. 2ª ed. São Paulo: Alameda, 2005, p.23

[16] Ibid.

[17] Ibid., p. 08.

[18] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 27ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.113.

[19] BASTIDE, Roger. Sociologia e psicanálise. São Paulo: Melhoramentos, EDUSP, 1974, p.49.

[20] ARENDT, Hannah. A vida do espírito. 11ª ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2022, p. 80

[21] Ibid., p.81.

[22] PAGANO, Felippe Salvador Santo. Algumas palavras sobre a cidade de Mococa. In: A Província de São Paulo. São Paulo: Edição de 19 de fevereiro de 1880, terça-feira, p.01.

[23] TOLEDO, Lafayette de. Diccionário Topographico da Comarca de Casa Branca. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Vol. XII. São Paulo: Typographia do Diário Oficial, 1908, p. 166-7.

[24] SANTOS, Délio Freire dos. A presença espanhola na província de São Paulo. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Volume LXXXVI. São Paulo: 1991, p. 92.

[25] LEMOS FILHO, Arnaldo. Os catolicismos brasileiros. 3ª ed. Campinas: Alínea, 2020, p. 19.

[26] SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: Essencial sociologia. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013, p.315.

[27] CANDIDO, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito. 2ª ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971, p. 64-65.

[28] Ibid.

[29] CANDIDO, op. cit, p. 75.

[30] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976, p.140

[31] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Cultura, sociedade rural, sociedade urbana no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1978, p. 214.

[32] Ibid,, p.58

[33] Ibid., p.59

[34] PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. São Paulo: Alfa-Ômega, 1995, p. 84

[35] QUEIROZ .op. cit., p. 94.

[36] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Cultura, sociedade rural, sociedade urbana no Brasil. São Paulo: EDUSP, 1978, p. 76.

[37] Ibid.

[38] ARENDT, Hannah. A condição humana. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 15.

[39] PALADINI, Carlos Alberto. Assim nasceu Mococa. São Paulo: Alfa-Ômega, 1995, p. 221.

[40] LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. 7ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 63.

[41] ARENDT, Hannah. A condição humana. 10ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 41.

JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

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