terça-feira, 10 de outubro de 2023

O INDIVÍDUO COMO TAL

 

Um breve diálogo com o sociólogo George Simmel (1858-1918)


Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

É assunto psicológico que “uma das grandes causas do desamparo interior” (BONAVENTURE, Léon. Prefácio. In: Individuação nos contos de fadas. São Paulo: Paulinas, 1984, p.08) dos indivíduos resultam da sua ignorância com relação a si próprio. Porém, os reflexos desta questão respingam na sociologia, uma vez que a sociedade nada mais é que o local da ação. As pessoas almejam, segundo Georg Simmel, preservar “a autonomia e a particularidade de sua existência” (SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito. In: Sociologia – essencial. São Paulo: Penguin Classics Cia das Letras, 2013, p. 311); elas relutam ao nivelamento e a serem consumidos.

As relações individuais nas cidades pequenas são baseadas na afetividade, em uma constante e subjetiva solidariedade que, quando questionada, é objeto de reações do coletivo. Nas cidades maiores, baseadas na economia monetária, existe a chamada objetividade no tratamento: predomina a redução de valores qualitativos à valores quantitativos (ibid., p. 315). A cidade resume-se ao palco da situação. Para tentar livrar-se, os indivíduos tornam-se reservados e conferem-se o direito à desconfiança.

O que vemos é a “dificuldade de fazer valer a própria personalidade nas dimensões da vida na cidade grande” (ibid., p .325). Em meio à incapacidade de sobrepor-se à cultura objetiva, o indivíduo quer destacar-se, sendo “o único meio de salvar para si, mediante o desvio pela consciência dos outros, alguma autoestima e preencher o lugar na consciência” (ibid., p.326). Tal recurso é o meio empregado para ressaltar a autoestima. Tendo os indivíduos se emancipado mentalmente dos grilhões de uma vida baseada na servidão, e, ao recusarem-se a abrir mão de sua condição de individualidade, recém descoberta, tomam ciência que igualmente “querem se distinguir uns dos outros” (ibid., p.328).

O resultado, hoje, é o que vemos em Mococa, uma cidade às vias de se tornar “cidade grande”: indivíduos que colocam a consciência de si acima dos demais, cometendo, por exemplo, atos de imprudência no trânsito; provocando queimadas em zonas residenciais; promovendo a queima de artifícios pirotécnicos; etc. O argumento óbvio de apologia a tal ideia é o “eu posso”; os outros são ou empecilhos para a realização da vontade ou pessoas menores, cujos desejos são secundários em relação aos seus. Os desejos do ego devem sobrepor-se aos do coletivo, à lei. Contudo, no que tange aos atos que são social e legalmente proibidos, não adianta o mero querer: é como diz o grande Raul Seixas, na canção “Por quem os sinos dobram”: “[...] é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro. Evita o aperto de mão de um possível aliado. Convence as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo”.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

AUGUSTO ERNESTO LAGES (1860-1929)

 


Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


O tenente e professor, Augusto Ernesto Lages, nasceu em meados de 1860, na cidade de Diamantina, Estado de Minas Gerais. Era filho de José Coelho Lages (27.08.1827-14.11.1909) e de dona Maria Paulina de Araújo (?). O sobrenome "Lages" advém de Francisco Rodrigues Lages, pai de sua avó paterna, Beatriz Angélica da Assumpção, a qual foi casada com Clemente Coelho Linhares.

Foram seus irmãos: padre Ernesto Augusto Lages (1858-1945); Ambrosina de Araújo Lages; Carolina Augusta Lages; José Coelho Araújo Lages; Maria Clotildes de Oliveira Lages; Amélia Antônia de Oliveira Lages; Francisco Coelho de Oliveira Lages; e Antonieta Coelho de Araújo Lages.

Seu tio-avô, tenente Francisco de Paula Lages (1800-1851) fora uma figura de grande respeito. Obtivera sua patente militar da Guarda Nacional; atuara em Conceição do Mato Dentro como juiz de paz e delegado de polícia, além de ter sido vereador na primeira legislatura do município. Era, ainda, fazendeiro, proprietário da fazenda Lambari. Logo, era uma figura de importante renome.

Tendo atuado como professor entre 1887 e 1888, na cidade de Carangola, não tardou para que seguisse seu irmão, padre Ernesto, para a Província de São Paulo, quando este era padre da paróquia de Mococa, empossado em 1887. Os irmãos eram republicanos ferrenhos, e não tardou para que houvessem fortes desavenças com as autoridades monarquistas do lugar. Fosse coincidência ou obra do destino, o fato é que os irmãos encontravam-se residindo em Mococa quando o Império brasileiro caiu e o imperador, dom Pedro II, fora deposto.

As Câmaras Municipais, órgãos administrativos de até então, foram dissolvidas e substituídas pelos chamados "Conselhos de Intendência". Era fato que o momento era delicado, e que os ânimos estavam exaltados: as dúvidas dos monarquistas martelavam suas cabeças, enquanto os republicanos comemoravam o golpe que resultou na nova forma de governo. O padre Lages seria, afinal, membro e presidente da primeira Intendência, sendo nomeado em 31 de Janeiro de 1890, e empossado em 05 de fevereiro do mesmo ano, junto dos senhores: dr. João P. De Mello Moraes; Estebio Ribeiro da Silva; Carmo Taliberti; e Humberto de Queiroz. Este último, autor do primeiro grande ensaio historiográfico sobre Mococa, escreveu que o padre Ernesto era "envolvido abertamente no movimento político de então, como republicano intransigente, o que se verá, mais tarde, soffreu injusta guerra e perseguição, foi atrozmente calunniado e, por isso, removido de Mocóca" (QUEIROZ, Humberto de. A Mocóca: de sua fundação até 1900. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XV, ano 1910. São Paulo: Typographia do Diário Official, 1912, p. 162). Era a guerra do poder e da influência.

Segundo Humberto de Queiroz, desde que fora proclamada a República, a política do município era extremadíssima. Padre Lages pediria sua remoção da Intendência em abril de 1890, e seria, inclusive, enviado para outra paróquia, e este fato fora lembrado pelo Jornal "A República", edição de 13 de outubro de 1890, que segue transcrita:

"O digno sacerdote, padre Ernesto Lages, vigário de Mocóca, acaba de ser demittido pelo bispo diocesano por não querer prestar-se a tramoia dos especuladores, que querem que todo transe fazer da religião uma arma política contra a República. O grande crime do distincto padre foi o de ser republicano e o de entender que as cousas de seu ministério pairam muito mais alto do que todas essas frágeis e impotentes ambições, que procuram guindar-se, fazendo do altar degrao para subir até ás posições perdidas. O povo de Mocóca, apreciador das qualidades de verdadeiro ministro da religião, da sensatez e do critério do padre Lages, indignou-se com a notícia de tão escandalosa demissão, que todos sabem ser devida unicamente a fins políticos, e prepara para resistir a ella, oppondo-se a que outro padre tome conta da parochia. Dizem notícias dali que se receiam graves e imminentes conflictos e que a população não entregará a egreja ao novo parocho”.

Conforme ainda nos relata Humberto de Queiroz, uma das cenas mais lastimáveis do momento fora a tentativa de assassinato do senhor Augusto Ernesto Lages. O dedicado professor, irmão do politiqueiro padre, figurava como delegado de polícia em exercício quando, na noite do dia 11 de abril de 1894, sofrera violento atentado contra sua vida. A notícia foi contada no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 17.04.1894, constante em seu acervo, e que segue abaixo:

"Temos algumas informações a respeito dos conflictos havido na Mocóca. O tenente Augusto Ernesto Lages, subdelegado, na noute de 11 do corrente, estando escrevendo dentro da sala de sua casa, recebeu dois tiros de revólver partidos da rua, por dois indivíduos. Uma bala alojou-se em um braço, de que se tornava necessário fazer a amputação, e outra interessou o pulmão; os médicos que o examinaram declararam não ser grave este ferimento. Contava que os mandantes do crime sao chefes monarchistas do logar, coronel Diogo de Figueiredo, ex-barão de Monte Santo, Custódio Pinheiro e outros, que se acham detidos para averiguações. A força que para ahi tinha partido de Campinas já regressou, tendo deixado um contingente que ainda continua em diligência para capturar alguns indivíduos implicados na desordem"

Um erro de informação, contudo, veiculado em alguns jornais da época, informaram que Augusto restara morto: evidente equívoco. Segundo a tradição oral, Augusto saiu com vida e refugiou-se com a família no incipiente povoado vizinho de São João da Fortaleza, hoje Arceburgo. A tradição oral ainda relata que ele escondera-se no porão de uma residência, já demolida, nas imediações de onde hoje encontra-se edificado o Hotel David. O atentado, embora tenha permitido o destino que o professor continuasse vivo, custou-lhe um dos braços que, devido aos ferimentos, careceu de ser amputado.
Augusto Ernesto Lages viveu no povoado junto de sua esposa, dona Messias Garcia Lages, oriunda de distinta família de Mococa, e das duas filhas, Thelezilla Garcia Lages (?-1968) e Julieta Garcia Lages (?-1973), e atuara principalmente como professor da rede de ensino municipal. Sabe-se que no início dos anos de 1910, assumiu uma cadeira de ensino na cidade de Caldas, Minas Gerais, cidade onde sua filha, Thelezilla, casou-se com o sr. Dalmo Ridolfi, em julho de 1916. Retorna para Arceburgo em meados de 1920, onde faleceu no dia 20 de novembro de 1929, sepultado nesta mesma cidade. Sua filha, Julieta, seguiu o ofício do pai, e continuou a lecionar na cidade até meados da década de 1950, quando mudou-se para a cidade de Caldas, após aposentar-se. As desavenças políticas em Mococa fizeram, afinal, que Arceburgo recebesse um grande preceptor...


* Texto publicado no Jornal Cidade News, de Mococa-SP, em duas partes. 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

BREVE HISTÓRICO SOBRE A PROMOTORIA DE JUSTIÇA DA COMARCA DE MONTE SANTO DE MINAS-MG

Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

 

Noções gerais

No período colonial, a ideia de instituir uma promotoria de justiça surgiu em meados de 1609, quando da criação do Tribunal de Relação da Bahia, que era presidido pelo Governador-Geral do Brasil, e compunha-se de dez desembargadores. Antes disso, as funções que nos dias de hoje pertencem ao Ministério Público eram divididas entre vários atores distintos, conforme determinavam as Ordenações Manuelinas, de 1521, sucedidas pelas Ordenações Filipinas, de 1603, os códigos legais e jurídicos que vigoravam no Reino de Portugal e nas suas colônias.

Com o advento do Império do Brasil, foi promulgada a Lei de 29 de novembro de 1832, que foi chamada de “Código de Processo Criminal”, a qual visava dar novo aspecto ao Judiciário Brasileiro. No Art. 5º da referida Lei, consta que, em cada termo ou julgado, haveria um Conselho de Jurados, um Juiz Municipal, um Promotor Público, um Escrivão das execuções, e os Oficiais de Justiça, que os Juízes julgassem necessários. 

É no Art. 37, do referido Código, que consta a especificação das atribuições do promotor público, sendo: Denunciar os crimes publicos, e policiaes, e accusar os delinquentes perante os Jurados, assim como os crimes de reduzir á escravidão pessoas livres, carcere privado, homicidio, ou a tentativa delle, ou ferimentos com as qualificações dos artigos 202, 203, 204 do Codigo Criminal; e roubos, calumnias, e injurias contra o Imperador, e membros da Familia Imperial, contra a Regencia, e cada um de seus membros, contra a Assembléa Geral, e contra cada uma das Camaras;  Solicitar a prisão, e punição dos criminosos, e promover a execução das sentenças, e mandados judiciaes. Dar parte ás autoridades competentes das negligencias, omissões, e prevaricações dos empregados na administração da Justiça”.

O termo Ministério Público foi utilizado pela primeira vez no Art. 18 do Decreto nº 5.618, de 02 de maio de 1874, o qual regulamenta as Relações do Império (Relações era o termo utilizado para designar os tribunais de segunda instância). Promotor é um termo que tem sua origem no latim, e significa algo como “dar movimento, mover para frente” (“pro”, significa “à frente”; e “motus” conjugação do verbo movere, que significa “mover, mudar”).

Os promotores teriam progressivas conquistas nos textos constitucionais e na legislação infraconstitucional vindoura. Talvez, a culminância tenha sido com a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, que elenca o Ministério Público entre as funções essenciais à Justiça, e especifica, no Art. 127, sua função, qual seja, de garantir “a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”. Da mesma forma, a Constituição de 1988 traz os princípios que regem o Ministério Público, as suas formas de organização e as garantias que lhe são asseguradas. O chefe do Ministério Público da União é o Procurador-Geral da República, nomeado pelo Presidente da República, nos termos da própria Constituição. Nos Estados, são os chefes do Ministério Público os Procuradores-Gerais de Justiça.

 

A instalação da comarca

A Comarca de Monte Santo foi criada por meio do Decreto nº 243, de 21 de Novembro de 1890, abaixo transcrito, ipsis litteris:

“O dr. Governador do Estado de Minas Geraes, tendo em vista a proposta da repartição de estatística, datada de 20 do corrente mez, e usando da atribuição conferida pelo §1. art. 2. do decreto n.7, de 20 de novembro de 1889, decreta:

Art. 1. Fica elevada á categoria de villa e constituida em município, a freguezia de S. Francisco do Monte Santo, e desmembrada do de S. Carlos do Jacuhy.

Paragrapho único. O novo município será instalado logo que os seus habitantes offereçam ao Governo os edifícios precisos para paço do conselho municipal, cadêa e escolas de ambos os sexos.

Art. 2. É creada a comarca de Monte Santo, composta do termo de S. Francisco do Monte Santo.

Paragrapho único. Emquanto não for installada a nova comarca, fica o termo de que ella se compõe annexado á de Muzambinho.

Art. 3. Revogam-se as disposições em contrario.

Palácio do Governo, em Ouro Preto, 21 de Novembro de 1890.”

O livro de Registro de Juramentos da Comarca iniciou-se em 05 de maio de 1891, e foram empossados os senhores: tenente Eduardo Mafra, Tabelião do 1º Ofício Judicial e de Notas; Carlos de Paula Ferreira, Tabelião do 2º Ofício Judicial e de Notas e oficial de Registro interino; Antônio José da Cunha, escrivão de órfãos; Sydalino Silvino da Silva, contador, partidor e distribuidor interino; e José Villela de Freitas, partidor. O MM. Juiz era o dr. Severino Eulógio Ribeiro de Rezende. Contudo, a instalação da Comarca seria efetivada apenas em 31 de março de 1892.

Notícia do Jornal oficial do Estado de Minas Gerais, de 10/05/1892, referente a instalação da Comarca.

O cargo de promotor público fora conferido ao dr. Wenceslau Brás Pereira Gomes. Porém, não tardou para que pedisse exoneração do cargo. Em 11 de setembro de 1891, toma posse como promotor interino da Comarca, o dr. Aristides da Silveira Lobo Sobrinho. Em 30 de novembro do mesmo ano, seria empossado o promotor público titular da Comarca, dr. João Baptista Pereira d’Almeida

Promotores da Comarca

Foram promotores da Comarca de Monte Santo, conforme o Livro de Registro de Juramentos:

Wenceslau Braz Pereira Gomes  – 1890

Aristides da Silveira Lobo Sobrinho – 21.09.1891 (interino)

João Baptista Pereira d’Almeida – 30.11.1891

Antônio Ataliba e Silva – 01.03.1893

Raymundo de Paula Xavier – 25.05.1894 (interino)

Aristides da Silveira Lobo Sobrinho – 04.08.1894 (interino)

Custódio de Almeida Lustosa – 29.09.1894

Antônio Ataliba e Silva – 10.01.1895 (interino)

Urias Ferreira Carvalhaes – 29.07.1895 (interino)

Capitão Juvêncio Cornélio Alves – 01.12.1896

João Pinto de Magalhães – 02.09.1897 (interino)

Urias de Mello Botelho – 19.11.1897 (interino)

Urias de Mello Botelho – 19.05.1898

Antônio Hilário Soares da Silva – 16.03.1899

Albano de Moraes – 05.06.1900 (interino)

José Eduardo do Amaral – 30.04.1903

Julio Octaviano Ferreira – 25.07.1903

João Villela de Freitas – 01.05.1904

Valdomiro de Barros Magalhães – 11.03.1906 (interino)

Tancredo Alves – 26.03.1906

João Domingues Pijarro Costa – 29.05.1906 (interino)

Capitão Urias Ferreira Carvalhaes – 10.06.1907

Manoel Neiva Leal – 24.04.1908

João Frade Bala – 18.08.1908 (interino)

Affonso Godilho Costa − 23.12.1908 (interino)

Antônio Rocha – 08.05.1909

Alfredo Pimenta de Pádua – 24.07.1909

João Nantes de Castilho – 02.12.1909 (interino)

Capitão Urias Ferreira Carvalhaes – 18.04.1910 (interino)

Olympio de Faria Barreto – 23.06.1911

Antônio Vilela da Costa – 18.07.1911

José do Patrocínio da Silva Pontes – 21.12.1911 (interino)

Tito Lívio Lage da Silva Pontes – 11.06.1912

Alberto Cavalcanti Barreto de Almeida e Albuquerque – 21.07.1912

Francisco Coelho – 18.03.1913 (interino)

Urias Ferreira Carvalhaes – 01.06.1914

Alberto Cavalcanti Barreto de Almeida e Albuquerque – 29.07.1916

Constantino Mouza – 06.12.1916 (interino)

José do Patrocínio da Silva Pontes – 28.05.1917

Constantino Mouza – 12.01.1918 (interino)

Francisco Coelho – 02.09.1918 (interino)

Constantino Mouza – 05.10.1918 (interino)

Tito Lívio Lage da Silva Pontes – 21.12.1918 (interino)

Telêmaco Autran Dourado – 07.01.1919

Appolinário Fernandes Telles – 05.03.1925

Carlomano Coelho – 26.01.1926

Tristão Tavares de Lima Júnior – 25.07.1927 (interino)

Agenor Ferreira Rabelo – 05.10.1927

Florencio Tavares de Lima – 19.11.1927

Antônio Felicio Cintra Netto – 28.01.1932

Antônio Felicio Cintra Netto – 28.01.1936

José do Patrocínio da Silva Pontes – 31.07.1937

Natalino Triginelli – 07.01.1938

Sebastião Parisi – 20.04.1938 (interino)

José Pereira Quinette – 12.09.1938 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 29.02.1947 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 29.03.1947 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 29.04.1947 (interino)

Washington Magalhães Pontes – 28.05.1947 (interino)

Dino Marccheroni – 15.05.1965

Paulo Pedro Bezamat – 30.04.1975

José Renato Moura Resende – 21.07.1975

Euripedes Cardeal Sobrinho – 18.08.1978

Euripedes Cardeal Sobrinho – 08.03.1979 (substituto)

José Algusto Silva Nunes – 06.07.1979

José Robério Colabardini – 01.02.1983

Sebastiana Lourdes Salles Pereira – 11.03.1983

José Robério Colabardini – 28.05.1983 (substituto)

José Robério Colabardini – 01.08.1984

Claudio de Barros Pinheiro – 18.08.1989 - 2016

 

O último promotor titular da Comarca de Monte Santo de Minas foi o dr. Cláudio de Barros Pinheiro, que ingressou no Ministério Público em 14.02.1986, tendo sido promotor de Jacuí antes de ir para Monte Santo de Minas. Aposentou-se em 28.09.2016 e, desde então, há a vacância do cargo de promotor titular da Comarca.

Atualmente, o Ministério Público atua em Monte Santo de Minas com a zelosa cooperação dos promotores de São Sebastião do Paraíso, contando com a atuação dos doutores Rodrigo Colombini, Promotor de Justiça em exercício das funções sem prejuízo de suas atribuições; Manuella de Oliveira Nunes Maranhão Ayres Ferreira, Promotora de Justiça em cooperação; e Emílio Carlos Walter, Promotor de Justiça em Cooperação. A oficiala do Ministério Público da Comarca é a bacharela Cristina de Fátima Cruz e Silva, que ocupa o cargo desde 28.12.2001, com formidável esmero no exercício das funções inerentes de seu cargo.

 

Dra. Sebastiana Lourdes Salles Pereira - A primeira promotora da Comarca

Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da UFMG, turma de 1969, Dra. Sebastiana Lourdes Salles Pereira foi a primeira mulher a ocupar o cargo de promotora da Comarca de Monte Santo de Minas. Embora tenha passado por um curto período de tempo, seu nome entra para um rol de mulheres que, enfrentando as dificuldades impostas pelas condições adversas de sua época, sobressaiu e ingressou às fileiras da Promotoria de Justiça.

Quando de sua formatura, recebeu o prêmio “Francisco Brant”, por ter obtido a melhor média em Direito Judiciário Penal. Ingressou para o Ministério Público em 21.07.1974, tendo sido empossada promotora de Monte Santo de Minas em 11.03.1983, e aposentou-se em 21.01.1998. Dra. Sebastiana faleceu em 21.07.2017, na cidade de Contagem-MG.

 

Dr. Telêmaco Autran Dourado – um homem devotado à Justiça

Telêmaco Autran Dourado nasceu em 05 de Maio de 1893, no Estado do Rio Grande do Sul. Era filho de Angelo Cardoso Dourado e de Francisca Autran da Mata e Albuquerque. Bacharelou-se em Direito pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, em 1916. Foi casado em primeiras núpcias com dona Alice de Freitas, com quem teve cinco filhos: Telemaco Autran Dourado Filho; Anísio de Freitas Autran Dourado; Vinicius Autran Dourado; Francisca de Freitas Autran Dourado; e Waldomiro de Freitas Autran Dourado, este um grande literato brasileiro. Com o falecimento de sua esposa, casou-se com dona Maria Silvia Ibrahim..

Dr. Telêmaco ocupou inúmeros cargos do Judiciário montesantense: foi delegado de polícia, empossado em 14.09.1917; juiz municipal, empossado em 22.01.1918; promotor público, empossado em 19.01.1919. Em meados de 1925, foi nomeado juiz de Direito da Comarca de Patos de Minas, porém, no ano seguinte, retornou para Monte Santo de Minas para ocupar o cargo de Juiz de Direito, ocupando o cargo de 1926 até meados de 1938, quando foi nomeado Juiz da 3ª Vara da Comarca de Belo Horizonte. Em 1934, publicou o livro “Despachos e decisões”, pela editora Condor

Em 02 de Setembro de 1941, foi nomeado Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, com assento na 1ª Câmara Cível, por ato assinado pelo Dr. Benedito Valadares, governador do Estado. Por meio de Decreto, datado de 10 de Maio de 1957, Dr. Telêmaco foi nomeado ministro togado do Superior Tribunal Militar, tomando posse no dia 13 do mesmo mês. À frente do STM, fora relator do Regimento Interno, entre os anos de 1960 e 1961 e Conselheiro da Ordem do Mérito Jurídico Militar, condecoração esta que a ele foi outorgada por seus pares. Em 02 de Maio de 1963, Dr. Telêmaco aposentou-se, a pedido.

Faleceu aos 80 anos de idade, no dia 16 de Outubro de 1973, no Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério São João Batista.

 


quinta-feira, 15 de junho de 2023

UNS CACAREJOS XENOFÓBICOS



Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti

A cena do crime
 

Ora, que desventura preparou o acaso!  Que fado, que despropósito! Nos recantos de uma cidade, após transpostos os portões brancos de ferro daquela casa assoalhada deserta, passadas a garagem e a claraboia coberta de tela verde, após a cozinha de azulejos portugueses, a porta dupla de madeira branca e a escadaria, sob o olhar distante de todo o Centro da cidade, chega-se ao local do despautério: o galinheiro, cena de um crime que segue relatado. Advirto: o ato criminoso aqui não é entre os humanos, mas entre os sujeitos do galinheiro. Não é crime aos olhos positivados dos homens, mas há, aí, uma ideia. “Ah, mas aves não pensam!” – não sobre letras e números, mas compreendem o que o empirismo e a sobrevivência ensinam. Para elas, é o que basta.

Dizem por aí que, em casa que há um gato, outros chegam, mas não falaremos de gatos. Pergunto-me apenas se o princípio é o mesmo quanto aos galináceos, pois é o que aconteceu.

O vento soprou diferente. Cruzava a copa das árvores violentamente, conduzindo as folhas ao esmo de sua vontade; derrubava as frutas maduras de seus galhos altos, para a infelicidade do granjeiro, que as veria espatifadas no solo de terra escura e coberto de folhas secas de outras épocas; e empurrou, vinda do além-muro, uma galinha de outros campos. Como surgiu, uma incógnita! Veio do ar e pelo ar, ou de causas alheias ao conhecimento do granjeiro. Fato é que aquela galinha de penas pretas chegou ao quintal de chofre.

Entre o seu conhecimento empírico e o seu extinto de sobrevivência, deve ter vislumbrado a terra das oportunidades, afinal, um largo quintal, repleto de insetos, frutas e o que mais quisesse se deleitar. Tinha companhia, aliás: cerca de quinze outros galináceos. Felizmente, para ela, o granjeiro, que ia até a casa duas vezes ao dia, perceberia a sua chegada. Estava podando as árvores, depois de lançar às aves quirela e milho. Encerrada a fome, veio a sede, mas de sangue; as galinhas viram a intrusa, uma forasteira que invadira suas dependências. Um amontoado delas partiu para a ignorância, atacando a pobre galinha com seus bicos e golpes de espora.

O granjeiro ouvira a manifestação toda. Os piados, as folhas secas farfalhando e foi checar, desconfiado. Viu uma nuvem de penas e de poeira e correu, acreditando que fosse um gato ou algum lagarto. Estava enganado, afinal: era uma galinha, que ele não reconheceu como sendo sua. Era de fora. Sabe-se lá como, ele afugentou os galináceos e salvou aquela que fora vilipendiada. Levou-a para o quartinho do fogão de lenha, aonde guardava o milho e suas ferramentas.

Não foi fácil a recuperação, mas o coração do granjeiro apiedou-se pela ave moribunda. Fez um ninho, aplicou medicação e a alimentava naquele quarto escuro. As demais habitantes sondavam aquela que consideravam uma intrusa; vigiavam pela janelinha lateral, sempre fechada, apenas esperando o momento certo...

O que intriga é o fato de, mesmo não estando em meio direto das outras, aquela galinha tenha sido objeto de tamanha hostilidade. Não a viam, não a ouviam, pois, machucada, não cacarejava, mas as demais estavam cada vez mais alvoroçadas, em especial por ser inacessível o cômodo da convalescente.

Os dias passaram, e a estrangeira recuperava-se cada vez mais. Os sinais eram bons: sobreviveria, afinal! O granjeiro, satisfeito, resolveu tentar introduzir uma primeira vez, sob sua vigília, a galinha recuperada. Prostrado na soleira do cômodo, abriu lentamente a porta, e atirou milho no chão para chamar a atenção da galinha. Pois ela, mesmo evidenciando estar reticente, saiu. O pátio estava deserto, até então.

Poucos passos foram suficientes para que a ira fosse despertada e para chamar ao galinheiro Marte, deus da guerra. As outras galinhas surgiram repentinamente! Sagazes, voaram de todos os lados, cercando a pobre e indefesa intrusa. Os golpes foram severos, mas, por sorte, o granjeiro, esquivando-se daquela furiosa investida, resgatou novamente a estrangeira e levou-a para o cômodo, tornando a medicá-la.

O que fazer, afinal? Pensaria em um plano. Cuidaria novamente da enferma, afinal, animais também sentem dor, e não era de sua índole permitir que aquela galinha perecesse à mingua. Colocou-a no ninho improvisado e a alimentou, antes de trancar a porta e ir embora. A tarde chegava ao fim.

A noite se aproximava cada vez mais. O vento estava diferente. A lua observava, distante e discretamente o galinheiro, e não suspeitava o que presenciaria. Os cães ganiam, ao longe, e as luzes da cidade, qual as estrelas no céu, começavam a despertar. Os poleiros, contudo, estavam desertos. Os ninhos, vazios. O pátio, contudo, estava cheio. De frente para a porta do cômodo do fogão de lenha, era tramada uma escaramuça. Lá dentro, dormia serena a galinha machucada, e mal ela imaginava que, afinal, dormiria para sempre...

Quando a manhã raiou, o granjeiro tomou seu café, vestiu-se, leu o jornal e subiu para a casa aonde situava o galinheiro. O dia estava normal. Nada de novo sobre o mundo. Girou a chave no portão, cruzou a garagem e a cozinha, destrancou a porta dos fundos e desceu a escada. Concentrado em não pisar em falso, ele sequer percebeu as penas nos degraus.

Distraído, o homem foi ao cômodo, aonde prepararia o milho e a quirela. Girou a chave. Abriu a porta. Seu olhar adentrava o recinto devagar. No meio da sala, o susto: sangue e penas. Assustado, correu mais à frente o olhar e se deparou com a galinha, afinal. Estava morta, toda bicada, toda ensanguentada. A janela lateral estava aberta. Mas ele sequer a abria! Atordoado, saiu dali rumo ao pátio. Viu algumas galinhas se aproximarem. Em seus bicos, o líquido vermelho.  Afinal, as assassinas, que provavelmente abriram a janelinha para que pudessem ceifar aquela vida. Deviam ter alvoroçado tanto por ali, que afinal abriram a janela.

Triste pelo que aconteceu, o granjeiro recolheu a morta e limpou o chão. Pegou o milho e, deprimido, atirou sem muito entusiasmo pelo pátio. Foi-se embora em seguida, desapontado por não ter podido salvar aquele pobre animal.

*

Bem, a história parece uma fábula, porém, é bem real, e aconteceu com meu padrinho e tio-avô, Renato, na casa dos meus finados bisavós, Pedro Falarini e Maria da Conceição Coelho Falarini, aonde ele mantém um pomar e galinhas. Não pude deixar de pensar, quando ele me narrou essa história, no tema da xenofobia. Afinal, todas elas eram galinhas. Tinham penas, bico, cacarejavam e ciscavam, mas aquela pobre intrusa foi tratada com hostilidade. Por qual motivo, afinal, se são todas da mesma raça? São galinhas, mas as de dentro não permitiram que a estranha permanecesse. Bem, vejo o princípio aplicado à humanidade. Somos todos seres humanos, mas insistimos em tratar com certa repulsa outros humanos: negamos asilo aos refugiados, negamos salvamento às crianças estrangeiras, escravizamos, bombardeamos, tudo para quê? Terras, dinheiro, ideologia? Somos todos irmãos, partes integrantes de um mesmo planeta. E insistimos no erro, insistimos no ódio, na separação e na segregação. E cada vez mais, rumamos para a destruição. Segundo o escritor Isaac Azimov, em seu livro Escolha a Catástrofe, as formas iminentes e imediatas de destruição do planeta são fruto não dos fenômenos naturais, mas sim dos próprios humanos...

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A condição humana de Arendt

 

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Fonte: Google Imagens

A filósofa alemã, Hannah Arendt (1906-1975), define, dentro das condições humanas, três tipos de atividades. O labor, a primeira delas, se relaciona às atuações fisiológicas, naturais do organismo; o trabalho, a segunda, resulta dos processos de mano-fatura, de produção; e a ação, a terceira, tem seu campo na vida em sociedade, tendo espaço no campo político.

O labor assegura a vida; o trabalho, a praticidade da existência; e a ação, o ideal político. As relações humanas estão presentes nesta última. Ainda, as três se relacionam à concepção de Arendt de natalidade, fundada no pensamento de Santo Agostinho (354-430), outrora o bispo de Hipona: “o homem foi criado para que houvesse um novo começo”, e, como complemente a filósofa, “cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós”, conforme a frase final de Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.

Cada ser humano é um universo de possibilidades e de pensamentos, e espera-se que ajam conforme os ideais humanos em suas empreitadas, buscando, em especial, o melhor à coletividade. A esfera política destina-se à imortalidade, pois desejam os homens e as mulheres serem lembrados por conta de seus atos em sua existência. Porém, surge a indagação se o simples ingresso na vida pública confere essa futura lembrança, ou se os motivos para esse ingresso são altruísticos ou meramente egoístas.

Os incas, povo que habitou a Cordilheira dos Andes até a conquista espanhola, tinham o costume de apagar da história aqueles governantes que não eram dignos. A maior punição, para eles, talvez fosse o esquecimento, e esse talvez fosse o fator que garantia, em teoria, que os governantes fossem bons e justos.

Cícero (106 a.C.-43 a.C.), advogado, senador e filósofo romano, considerava o bom orador aquele que, ao discursar, fazia com que a plateia, quando do término de sua palestra, pensa nela mesma, refletindo sobre os dizeres e aplicando os proveitos a si próprio. Não obstante, o mau orador era aquele que, com seus discursos, fazia com que a plateia pensasse nele, orador.

Pois leve-se esse ideal de Cícero ao âmbito político, onde as pessoas, em atos coletivos, devem trabalhar para o bem-comum. Se um governante é bem e atua em prol do povo, ele fará com que os indivíduos não se preocupem por demasiado com as questões do Estado, que segue bem administrado; contudo, o mau governante faz com que o povo, além de tomar altas doses de ojeriza contra sua pessoa, se preocupe com os vários setores da administração, e não apenas com a sua vida particular (Faço uma breve consideração: com “preocupação”, me refiro à afligir, e não ignorar, pois cada cidadão deve acompanhar o curso do barco que conduz o Estado).

Por questões óbvias, não deve-se ser idealista e apenas considerar o dever-ser. O real é o observável, aquilo que é, e a presença dos maus oradores é evidente. Como solução, o povo deve tomar parte não apenas do processo eleitoral, mas também da fiscalização da atuação do Estado nos anos do mandato, empregando, inclusive, ideias novas e o seu pensamento crítico. Discordo da máxima vox populi, vox Dei. Esse pensamento de manada, massificado, pouco colabora para o meio político. As massas são receptoras de ideias e não produtoras. A alienação é o mal que barra a ação...

terça-feira, 23 de maio de 2023

O desgaste do lobisomem moderno

 



 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


As histórias misteriosas são várias, e rodeiam de pessoas à lugares e objetos, envolvendo todos estes sujeitos em vários mistérios que, durante anos, são corroborados por certos atributos. Criaturas sombrias, objetos amaldiçoados e locais assombrados existem aos montes na imaginação e na cultura popular. Uivos distantes remetem-se aos lobisomens, que, como um atributo de sua fisiologia mítica, têm a função de amedrontar.

O medo pode ser utilizado para fortalecer a manutenção do poder. Diz-se que líderes governam com fulcro no respeito e na admiração do seu povo, mas é equivocado confundir, contudo, a autoridade genuína com a coerção causada pelo medo. A autoridade desaparece sem nem ter surgido quando uma espada é o meio que se utiliza para ordenar; e, neste caso, o braço que a empunha apenas é objeto coadjuvante.

Atualmente, o gênero “terror”, enquanto literário e cinematográfico, parece ter perdido seu fôlego, e seu resultado – o medo – deixou o cenário para o ceticismo. O ser humano se reafirma no topo de toda a escala da realidade e da mitologia, se sobressaindo ante Matinta, Cérbero e demais entidade, além de disputar o cume da pirâmide com os seus iguais. Para tanto, lutas individuais carecem de reforços, mantendo, obviamente, a hierarquia, para a que apenas um se sente no trono. Não bastasse isso, o poder se reafirma com a temerosidade causada pelos mais fortes.

O medo como objeto para atingir a coerção é empregado continuamente no desentranhar da história. Não vivia o ser humano incentivado a se manter no reto caminho para que não afrontasse os deuses? Para tanto, devia consentir a sevícia dos detentores do arbítrio. O domínio da Igreja Católica nos capítulos da Idade Média na Europa e sua intervenção, fosse direta ou indireta, na política medieval eram corroborados pela temerosidade. Quem gostaria de passar a eternidade em um antro escuro de eterna danação, comandada pelos anjos que caíram do Paraíso por afrontar sua deidade? As camadas populares – e não apenas elas – da escala social feudal eram incentivadas a obedecerem às leis atemporais sob tal alegação de um destino no além-túmulo que não era agradável.

Há uma oração sufista atribuída à Rabiah al-Adawiyah que diz o seguinte: “[Deus] Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no teu inferno; se eu te adorar por desejo do Paraíso, exclua-me do teu Paraíso; mas se eu te busco pelo que tu és, não esconda de mim a tua face”.

A obediência fundada em temerosidade desvirtua a autoridade, que, segundo o historiador alemão Theodor Mommsen, “é mais que um conselho e menos que um comando”. A reação que resulta da coerção por meio do medo é um ódio silencioso, que pode ser exteriorizado cedo ou tarde. A sanguinolência com que certos regimes monárquicos findaram revela a afirmação anterior.

Para o filósofo grego Aristóteles, a forma de governo que é antagônica à monarquia é a tirania; a desvirtuação do governo “de um”, cuja característica inerente a si era o arbitrário gerenciamento da máquina estatal, sem haver limitações éticas ou legais ao poder do tirano. Seu poder era refletido na espada, mas sua afirmação advinha do medo.

O terror é a arma principal de sistemas políticos de viés autoritário e totalitário. As suas benesses eram, dentre outras, conseguir o silêncio da oposição e defender o estado, e sua titularidade era conferida às polícias secretas. As massas, responsáveis por alavancar os líderes totalitários, viviam uma dicotomia: apoiar o movimento que denunciava suas aflições políticas, sociais e econômicas, e conviver com a ideia de não poder interagir com os seus semelhantes. Afinal, seu vizinho poderia denunciá-lo ao Estado se você opinasse sobre um livro lido ou por outra trivialidade qualquer. O individualismo desaparecia, abrindo caminho para uma massa monolítica que não exercia os atos de pensar e de socializar e se deixava tornar receptora de ideias já pensadas por aquele grupúsculo detentor do poder.

Eis que surge uma questão: qual é o limite de uma sociedade coagida pelo medo para que se gere a ordem e se afirme o poder do governante? O adestramento de seres humanos com a temerosidade resulta, em certo ponto, em ataques contra a desejada ordem e, concomitantemente, na perda do poder.

Por fim, passo a escrever de forma informal para poder explicar o motivo de ter dado o título escolhido a este pequeno artigo. Lobisomens fazem parte do folclore global e, resumindo a trama, são homens que se transformam em lobos. Sua origem mitológica é variável de acordo com cada cultura. O significado deste mito é a prevalência de instintos animalescos que se sobrepõem à razão humana, pois o ser humano é um animal e, como tal, não escapa do inato fado da natureza sobre seus ombros. A razão é o filtro que nos diferencia dos demais animais.

As virtudes políticas e sociais, quando se emprega o instinto de sobrevivência por agentes corruptos e autoritários, perdem suas graças e são substituídas por mesquinhezes personalistas, fundadas na satisfação das necessidades efêmeras dos instintos primitivos que não são, por desdém ou ignorância, policiados.

O dinamismo imposto pelas mídias sociais torna as informações imediatas e constantes, desgastando a estrutura política e social daqueles que usam daqueles artifícios para a sobrevivência instintiva. A era da arbitrariedade parece ter se encerrado com as democracias, que visam, dentro de um ordenamento institucional sólido e igualitário, garantir os princípios que foram invocados na Revolução Francesa, visando a igualdade, a liberdade e a fraternidade, excluindo a arbitrariedade e a temerosidade.

Reflita sobre as ideias que lhe chegam e que desconhecem a priori, pois, às vezes, um lobisomem nada mais é que uma forma coercitiva para manter-te em casa e um corpo-seco, um artifício para te afastar de alguma localidade. O verdadeiro poder advém, ao contrário do que muitos dizem, do conhecimento, e não da espada.

 


quinta-feira, 11 de maio de 2023

O Cântico

 

Parte III

 Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti


Ó, Glória Celeste! Tão sábia e generosa és! Por qual motivo, ó Pai, questiono-te? Sempre soube, ou assim creio saber, que tu, pai dos pais, és o maior guia ante a escuridão. Sei a resposta, porém, para tal retórica; a arguição é parte inerente de teus filhos, não lhes retira tal prerrogativa, e a isto lhe sou deveras grato!

O vislumbre que tive me encheu o olhar de júbilo. A glória que existe nos Céus é tamanha que mente alguma, seja de convicto devoto, seja de astuto filósofo, é capaz de conceber. Ali, não há sequer rastro de trevas, apenas a mais pura e imaculada luz. A chama vive eterna e acolhedora nos salões eternos de bem-aventurança.

Me virei, então, ao meu guia:

- Ó nobre mestre, que pelos caminhos da incerteza me conduziu, há de me deixar agora? Aprecia-me tua companhia. Retornará ao teu lugar enfim, qual filho que retorna ao seu lar?

- Acalma teu coração, te peço. Vejo-te irrequieto há tempos – ele vociferou, sereno, qual professor zeloso que ensina teimoso aluno. – Saiba que hei de guia-lo ainda até o Céu de Júpiter, pois tua salvadora lá reside, onde os grandes governantes e políticos estão, nos corredores da justa-medida e do amor ao agir pelos outros. Agora, anda filho. Cá estamos, no primeiro Céu: a Lua.

As almas que abriram mão de seus votos encontram-se neste Céu. Foram insuficientes na coragem, porém, dotadas de virtudes. O meu sábio guia, me apontava nomes e eu reconhecia rostos de luz, que vira, outrora, nos livros. A gentil alma que me guiava dirigiu-me ao Céu seguinte, Mercúrio, onde estão as almas que, tendo fama ou o desejo de obtê-la, pecaram na justiça. Ouvi, ali, incontáveis nomes, perdidos agora nas lembranças da Vida.

O terceiro Céu, Vênus, recebia os que fizeram bom uso da virtude do amor, e, adiante, vi um casal familiar. Corri até eles, abracei-os com ternura, e eles retribuíram com afeto.

- Ó, irmã de minha avó, que deleite vê-la! Entristece-me saber que partiu, que teu velório foi pouco assistido, mas o Pai permitiu, afinal, que tão unido casal permanecesse unido aqui, nos passos celestes!

- Que emoção ter-te aqui, leve lembranças aos vivos, diga-lhes que em paz repousamos! – e seguiram para com outras almas próximas.

Com o olhar turvo pelas lágrimas, pedi um momento ao meu guia, e ele sorriu:

- Teu coração é justo, bom e sabe o que sente. Chora, filho, pois o choro é a mais pura verdade!

- Pois saiba, ó mestre, que apenas choro na presença de quem nutro a mais terna confiança. Seguimos? – E ele consentiu, levando-me ao próximo Céu.

No Sol, estão os teólogos, os estudiosos, e meu mestre revelou-me interessante conclusão:

- Saiba, meu filho, que eu resido aqui, no limiar do amor e da sabedoria, adiante, minha amada me aguarda, mas antes que, pondo a ansiedade e a dúvida a frente do bom-senso, me questione, informo-te que minha mão não sairá de teus ombros.

Vi inúmeros sábios, pessoas cuja admiração era-me tamanha. O bispo-teólogo que trouxe-nos vários ensinamentos após o seu período no escuro, os leitores da física da natureza, que interpretaram a Ordem e obtiveram o mais elevado grau. Quanta sabedoria e, ainda assim, tão pequena!

O Céu de Marte recebia os que lutaram pela igreja, e avistei uma figura, que, permitindo meu mestre, lhe falei:

- Ó, alma guerreira! Conheço-te, pois de uma das cidades que guardou os portões da ilustre Barca. Tu batalhou contra o pecado e, mais ainda, enfrestastes demônios frente a frente! O inimigo foi por ti sobrepujado, e aquela dama foi liberta por teu empenho divino!

- Aquela terra jaz em meu coração, és-me querida! E vejo que, tendo-te lá residência, ela está bem amparada de heróis!

As palavras gentis me acertaram o peito, mas este começou a disparar, como um tambor que, golpeado incessantemente por um soldado, prevê a guerra. Vi, no sexto Céu, ela: minha madrinha, aquela que enviara meu guia ao meu encontro.

Com os braços abertos, corri até ela, e entre o mais poderoso abraço que pude dar e as lágrimas que jorravam de meu olhar, vi sua face de luz; forte era o seu brilho, alegre o seu sorriso. Ela, enfim, me disse:

- Meu filho, meu amado filho, estava aqui, te esperando, almejando que tua viagem fosse bem ultimada. Vi tua luz no mundo minguar, e não pude, ante toda a inquietação que sabes que possuo, me abster. Providenciei que tivesse tal jornada, para que fugisse, qual o Poeta, dos malefícios do teu meio. Acalma-te, eleva-te o espírito. Estarei sempre intercedendo por ti, pelos teus, pelo meu amado. Agora, venha, quero que siga-me ao Criador. Há de contemplar a vista que poucos mortais viram. Ó, guia de meu filho, te agradeço, e agora dispenso-te de tamanha tarefa. A ti, serei grata, pois unira-me ao meu querido filho!

- Nobre senhora, se mil vezes pudesse, mil vezes o traria até aqui, pois ele é uma alma boa, virtuosa, tal como pouco há no mundo hoje. Meu filho, grato por ter acompanhado-te! E, agora, despeço-me, afinal.

- Meu guia, sábio e terno, te agradeço por tudo! Por tua obra, por teus conselhos, por tua companhia! Sei que teu nome há de ser lembrado por anos a fio! E jamais hei de esquecer tua feitoria!

Minha senhora levou-me adiante, e naquele Céu, vi uma alma que não pude deixar de interpelar:

- Tu, ó alma benemérita, que edificou a minha terra, saibas que teu nome ainda é reverenciado, que ainda é bem quisto e admirado! Nesse tempo de agora, conta com mais de dez mil almas, e, embora careça da justiça dos homens, ainda há de muito prosperar!

A alma, surpresa com minhas palavras, respondeu-me, ajoelhando:

- Jovem vivo, que abençoado seja esse dia! Receber notícia jubilosa é uma dádiva! Fiz o que pude por tal terra, e faria mais se a febre não tivesse acometido-me, mas sei que o plano Dele é maior, e que fiz o necessário.

Ao adentrar o outro Céu, Saturno, vi logo de imediato uma figura conhecida, e lhe dirigi poucas palavras:

- De minha avó, é tia, senhora, e saiba que tua filha está a caminho, pois no Purgatório ela se encontra. Ela há de chegar e breve, aquela que, em vida, fora apegada a matéria, mas a graça de Deus é perdoar, e ela se aproxima – e me beijou a testa, com tamanha ternura que meu peito se inflou.

Não pude deixar de reparar, é claro, que, ao lado desta senhora, havia outra, mais quieta, mas não menos familiar:

- Mãe de minha avó, regozijo-me em vê-la! Alma contemplativa, filósofa do mundo e leitora das almas, como me alegro! Sou o filho da filha de teu mais novo rebento, há de se lembrar!

- E como os anos lhe foram felizes! Que assim o seja sempre! – ajoelhei e beijei-lhe as mãos. Senti um mão acariciar meu cabelo, e virei-me.

Deparei com novo rio de lágrimas, pois aquele que me afagara era-me extremamente querido. Abracei-o e muito lhe contei; o pai de minha mãe, que, qual o Pescador, praticava a profissão com esmero. Adiante, mais conhecidos, todas almas de familiares queridos, que se reuniram para me ver: os pais de meus avós e seus irmãos; parentes que nutri afeto, embora o grau seja levemente distante; meu outro avô, sábio e brilhante.

Mas, antes que eu pudesse, minha senhora apertou-me as mãos e me dirigiu em frente. Ela me guiou ao guardião das chaves, o primeiro Pastor, nomeado pelo Filho:

- Irei perguntar-lhe, qual o fiz ao Poeta, o que é, para ti, a fé. Satisfaça-me a curiosidade, meu filho.

- Ó, Pescador, a fé me é bem quista, pois é o que garante-nos caminhar. Fé é a espera sábia naquilo que apenas o Senhor sabe. O grande Pai traça sábios e justos destinos, e orienta os seus filhos para que sigam-nos, porém, é atributo dos homens o livre-arbítrio, então, concluo que a fé é o esperar seguro naquilo que é mostrado pelo Criador, e ter um bom ouvido para escutar seus ensinamentos; bons olhos para ver o caminho correto; e boa fala para opinar dignamente.

- Estou satisfeito, de fato! Tal virtude está presente em si, mais do que pensa, acredita! E mais: o toque do místico arquiteto está em você, uma sutil chama que garante-lhe uma percepção diversa – e, com o polegar, desenhou o famoso símbolo de redenção em minha testa.

Nas Estrelas Fixas, os mais puros estavam, era o local aonde os beatos e santos residiam, e um deles se aproximou, e me disse:

- Vós sois uma alma da Lei, e dela sou patrono. Exerci a advocacia em vida, e crê em meus dizeres: é teu caminho. Não desvie a rota, que palmilhastes tão bem.

- Santa alma, grato fico por tuas palavras. Esta aqui, ao meu lado, certa vez me disse que o mais importante é que sejamos livres, e, de fato, concordo com tal assertiva. Liberdade é a condição do homem, e a Lei há de concretizá-la. A Justiça é a capacidade de saber garantir a cada ser ou objeto aquilo que lhe compete, de acordo com a natureza de sua existência e com os atos que pratica.

- Satisfeito estou em ver teu conhecimento. Agora, siga.

Caminhamos mais além, pelo Primum Mobile, e me deparei com magnânima visão adiante: a Rosa Mística e os coros angélicos, estes rodopiavam em torno de uma potente luz: anjos, arcanjos, príncipes, potencias, virtudes, dominações, tronos querubins e serafins.

A luz parecia-me dividida em três. O santo que me atendera antes estava ao meu lado, e rezou para que eu pudesse me aproximar. A Mãe de Todos, ouvindo a prece, sorriu e por mim, intercedeu. Pude avançar, sozinho, mas a magnificência da face do grande Pai me era tão pura, tão calorosa e terna, que meu olhar desviou. Não estava preparado para tal vislumbre.

Arrisquei novamente, e vi três orbes de luz: da Pomba, pude ver certos traços; um rosto pensei ter visto, mas a luminescência foi tamanha, que meus olhos novamente desviaram.

Olhei, soberano de mim mesmo, para trás e pensei que estava mesmo no Paraíso, e que, tendo tido uma caminhada ilustre e única, deveria modificar, afinal, meu cerne. Não posso descrever mais o que vi, pois a essência do que é eterno não pode ser compreendido pelos mortais. Amar é a única forma de compreender o que ali reside eternamente: é a única exceção ao meu entendimento de que amar é conhecer. Se foi sonho ou fantasia, não cabe a mim dizer. Apenas saiba que minha ignorância é tamanha, e a tua, singelo leitor, há de sê-la tal e qual...

JOSÉ CHRISTÓVÃO DE LIMA E SUA HISTÓRIA

  Leonardo Borgheti Marques Falarini Belotti Instituto Histórico e Cultural de Arceburgo Instituto Bruno Giorgi   Imagem gerada com ...